terça-feira, 13 de setembro de 2016

O legado.


Após uma eternidade, os papéis finalmente tramitaram e eu já estou aqui no meu novo local de serviço. Eles estavam falando sério quando disseram que queriam me trazer pra cá. E eu vim! 

Todos que chegam precisam fazer esse curso e eu entrei de cabeça, sonhando com cada instrução aqui da grade horária. Estou adorando tudo! Anotando tudo! Vivendo tudo com muita intensidade! Só não gosto do professor de tiro que por vezes aponta a arma para os alunos, quebrando regra básica de segurança, o que me deixa extremamente incomodada. Espero que não seja o mesmo instrutor nas aulas de tiro real.

Todos aqueles testes que fiz anteriormente eram meramente preliminares e o que vai valer mesmo são os novos testes que faremos durante o curso. Tudo de novo mais teste de tiro, teste teórico e outros que ainda não sei bem como serão e eu não posso fazer feio. 

Bom, o que posso dizer para início de conversa, é que eles são extremamente organizados. E nossas sinapses disparam no sentido de concluir que tem dedo de militar aí, não é mesmo? Mais um desafio: ser organizada.

A divisão do trabalho aqui é completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto antes. Sim, porque as funções são muito diferentes. Aqui não tem delegado (não disse nada e a mente humana já fica pensando maldades). 

Existe um roteiro que você deve seguir assim que se apresenta na casa. Você é recebido no Gabinete, depois se apresenta no setor de pessoal, entrega documentos, 22 fotos, vários exames médicos, tem que tomar vacinas, daí você recebe uma cartilha, com várias informações úteis e sobre o passo a passo de quem está chegando. Recebe seu crachá, equipamentos de treinamento, apostilas impressas que não pode copiar e um monte... um montão de procedimentos padrão operacionais... que não sei se funcionam, mas acho isso fascinante!

Você policial que como eu chegou completamente perdido na sua lotação e a cada dia descobre algo novo que deveriam ter te falado no dia em que se apresentou, sinta-se consternado, porque aqui tudo isso está devidamente escrito e organizado racionalmente! Além disso, existem livros sobre a doutrina da casa, existem cadernetas impressas com check-lists de assuntos gerais e existem manuais sobre procedimentos operacionais. Amigos, tem mais material escrito aqui do que eu já li em toda a minha vida na polícia a respeito do tema. 

Então... era disso que eu tava falando!

Sabe aquela sensação do nerd que vivia sofrendo bullying na universidade e no fim é selecionado pra trabalhar tipo na Apple? Igual!

Vou explicar melhor, quase todos os setores onde já trabalhei antes eram movidos pelo empirismo. Cada um executa do jeito que sua experiência determina. Logo, se você não tem experiência, não tem nada! Sim, porque pra eles, ser organizado, escrever procedimentos, conhecer e seguir a doutrina era sinônimo de engessamento, uma coisa obsoleta, inflexível. De onde eu vim, instruções normativas só são normalmente escritas quando algum grande erro de colega o justificasse. O que não significa que o ensinamento seria passado para as gerações futuras. Resultado: aquela insegurança de novinho que vocês já viram nos textos passados, né, e um enorme desperdício de tempo pra quem chega e precisa reinventar a roda em cada operação. 

Portanto, quase tive um acesso de alegria quando solenemente recebi esse material todo escrito. Pra mim, é como se fosse um legado de quem passou por aqui antes e contribuiu. Muito obrigada, antigões, eu vou saber honrar as gerações passadas e sinalizar para as que vierem depois de mim.


domingo, 26 de junho de 2016

Expectativas.




Não sei se pelo fato desse recrutamento ter corrido a boca miúda, ou se não era interessante para tantos colegas melhores que eu na polícia, mas parece que está dando certo! Até recebi ligações de alguns colegas da época do curso de formação na Academia querendo me cumprimentar. 

Por falar em carreira, preparei meu currículo para entregar oficialmente e fui deixar lá no escritório deles. Claro que eu poderia ter mandado por e-mail ou pelo correio. Poderia ter deixado no protocolo, mas não. Eu quis subir e conhecer logo meu futuro chefe, que é um homem extremamente charmoso e que me cumprimentou com um beijinho no rosto, o que eu não esperava. Vamos chamá-lo de Charles Dance.

Me pareceu um homem inteligente do tipo que se diverte lendo Robert Musil, Boris Vian, Kafka... e manipulador! Sim, manipulador. Mas só depois de ter saído daquela sala foi que entendi a mensagem que ele quis transmitir e fiquei pensando nisso a semana inteira! Ou ele tem preocupações políticas que não estavam no meu planejamento ou ele tem tendências terroristas. Agora percebo que pra me dizer isso houve uma espécie de encenação e que ele estava controlando tudo ao nosso redor, a tonalidade dos elogios, a temperatura do ar condicionado, o sorriso fácil, etc. 

Mas sabe que foi ótimo eu não ter percebido nada durante aquela visita? Ficou parecendo que eu nem dei bola pra pilha que ele lançou sobre a minha vaidade. Sim, porque eu estava muito feliz, muito à vontade, muito autoconfiante, muito selecionada ou seja, completamente burra para entender a mensagem dele naquele momento. Afinal era eu a policial que se destacou nos testes... haha! "Sim, sou eu mesma, muito prazer" (adoro um reconhecimento!). E aquela roupa que escolhi pra uma visita informal estava combinando perfeitamente com o design do meu histórico. 

O problema é que agora estou com medo de não corresponder a tantas expectativas. Sabe quando você sente que não é bem aquilo que está lá no seu currículo? Não que eu tenha escrito alguma mentira ou exagerado em algo. Mas meu currículo, que é muito melhor do que eu, agora me acusa de pedantismo! Porque se no meu currículo eu contasse, não aquilo que já fiz, mas, por exemplo... o que senti, o resultado da seleção poderia ter sido outro! Medo de ter criado expectativas elevadas demais para o meu padrão. E é isso: nem comecei e já estou sentindo muita pressão. 

domingo, 15 de maio de 2016

Audácia.


Pra falar a verdade, não sei bem onde termina a audácia e começa a insanidade mental, portanto, relevem.

Eis que me telefonaram perguntando se eu estaria livre na terça-feira às 16 horas para fazer os benditos testes físicos preliminares. Na terça-feira?! Cara, quem marca um teste físico no meio do horário de expediente?! Não, infelizmente não vai dar! Esqueceu que o fisioterapeuta me avisou pra pegar leve com as tensões dos tendões do meu pé direito?

- "Claro!" Respondi, imediatamente. "Pra mim, terça-feira tá perfeito!" E isso foi suficiente pra eu me sentir uma tonta de tão contente.

Então fiz o reconhecimento dos locais das provas. Estudei o terreno. Repassei as estratégias. Reatei aquele relacionamento sério com meu tênis velho (agora fico emotiva quando falo de tênis velhos). Assisti novamente "Até o Limite da Honra". Não me julguem, algumas pessoas fumam maconha, outras roem as unhas, há quem faça infiltração ou vai dopado mesmo... eu assisto filmes motivacionais. E é tanta inspiração, adrenalina e dedicação na tela que me sinto bem capaz de mandar o aedes para o aegypti ou provar que a hipótese dos números primos de Riemann é verdadeira.

Dor no calcanhar?  Que dor??? Não, senti nada! Só um carinho enorme quando meu bem marcou o tempo no último treino no domingo pra mim e a sensação de satisfação em ver a cara de contentamento do meu avaliador após cada teste.

Uma mulher que se supera no dia do teste é aquele tipo singular que não necessariamente quer ser uma atleta e ganhar medalha, mas ama perder o fôlego no beijo da vitória suada.

Aliviada agora e bem confiante. Mas, por ora, apenas comemorações conscientes de que este foi apenas um de uma bateria multidisciplinar de testes objetivos e subjetivos a que vamos nos submeter. "Sorria, Novinha, você está sendo anotada".

sábado, 16 de abril de 2016

Vírgula.

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Queria escrever esse post usando muitos pontos de exclamação, só que ainda não, vírgula.

Decidi, super de boa, reunir todos os dias e horários livres que tinha para treinar para aquele teste físico importante de que lhes falei. Férias, horas acumuladas, feriados e parti pra treinar sério, com acompanhamento personalizado, sabe? Porque isso significa escrever meu nome no hall de mulheres que fizeram proezas nesta polícia. Só que parece que fui com muita sede ao pote e machuquei o tornozelo. Está enorme de inchado. Um minuto de silêncio, por favor.

E agora vamos exercitar a paciência e começar tudo de novo, torcendo obviamente pra que  não nos chamem para os exames enquanto durar o tratamento. Dói demais ver o sol lá fora me chamando pra vida, mas vai ter que esperar. Me entrego nas mãos dos fisioterapeutas, agora. Poderia me mudar pra clínica de fisioterapia porque tenho horários de manhã e de tarde. Todos os dias.

O médico disse que foi só uma coisinha muscular essa dor aguda e que vai dar tudo certo. A professora da natação disse que vai dar tempo, sim. Isso deveria amenizar a ansiedade, mas sou tomada pela dúvida sobre se eles perceberam algo de desespero na minha condição e não ousaram me contrariar nesse momento crítico. E ainda tem gente que acusa os médicos e professores de serem frios... Mentirosos, no máximo.

Chego em casa e quero ficar sozinha com umas questões: "Será que não vai ser dessa vez?"; "Deveria ter pegado leve, né, novinha!!!"; "Seriam estes dois quilinhos que provocaram todas essas reticências?"; "Ou será que foi o peso na consciência de estar abandonando a galera daqui?". São minhas dúvidas, inchando mais que o tornozelo.

Acabou não, tá? Vírgula. Aquele tênis novo, além de me custar o olho da cara levou também a unha do dedão! Não tá doendo, não, mas me disseram que vai cair... Como vou correr sem unha? Nunca mais vou usar uma rasteirinha? 

Vamos todos dar as mãos neste momento, respirar fundo e aguardar passar a tempestade. É o que temos pra hoje.

AAAAHHHHHHHHHHHHHHHGGGGGHHHHHHHHTTTTTTTT!!!!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Dias de treinamento.






Imagine que você está viajando em missão e o telefone toca. Após breves instantes de hesitação, você decide atender mesmo sem conhecer o número e... voilá! Era o cara que havia feito aquele convite pra você trabalhar com eles. Você vibra de felicidade porque tem muito interesse nisso sim. Entende que aquela ligação poderá te deixar a apenas alguns passos do auge da sua carreira policial. Você confirma que seu interesse é para atuar na ponta da lança. Porque às vezes eles também têm interesse em policiais que dominem áreas de computação, análise de inteligência, etc. Você quer apenas continuar fazendo o que gosta num nível acima.

Ele confirmou que o interesse deles é que você realmente atue na área operacional, mas que é preciso antes se submeter a alguns testes, entrevista e tal. Ele pediu um currículo atualizado com seus dados e você sabe que eles farão alguns levantamentos de inteligência sobre você. Ser testada é uma coisa que te dá barato. 

Após desligar o telefone você questiona por alguns instantes se dessa vez vai dar certo mesmo, mas tinha alguma coisa no jeito como ele falava ao telefone que te diz que agora é pra valer. Ele te quer mesmo sendo você apenas uma reles marrentinha sem muita verve de autoridade, mas que ele viu desenrolando com desenvoltura as paradas em inglês junto aos Noruegueses aflitos. 

Tinha uma coisa meio paternal na voz dele. Mas também pode ser seu subconsciente querendo afastar aquela impressão de que ele estava apenas te paquerando enquanto te olhava trabalhar naquele dia. Um gato daqueles te dando bola, hein!? Mas essa teoria já foi patenteada pelo delegado seu chefe, pra quem está claro que um convite desses não seria, digamos assim, exatamente por conta da sua competência profissional. Nessa hora você quer mandar um beijinho no ombro pra ele, mas coldrea, afinal sua liberação depende de sua boa vontade e sigilo, senão mandam um DeMO no seu lugar (delegado metido a operacional).

Imagina...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Que fase é essa, minha gente?



Às vezes sinto que a minha carreira policial está muito acelerada. Essa história de eu chefiar operações... Sou nova demais, amigos, muito inexperiente pra esse tipo de coisa. Aí, hoje, fiz as contas e descobri que tenho sete convites recém recebidos: três são pra trabalhar fora da polícia, os outros quatro são pra trabalhar em áreas mais ou menos interessantes aqui dentro mesmo. E eu procurando as câmeras pra ver se não era nenhuma pegadinha.

Estranho, pois são coisas que só vejo acontecer com policiais que estão no final de carreira. Roger Murtaugh saiu da Polícia por conta de um convite. Jack Bauer e o Guerreiro idem e vários outros colegas que trabalhavam com o Jack.  Tentando avaliar direito como isso tudo foi simplesmente acontecendo... Incapaz de entender. De qualquer forma sinto-me feliz por ver meu nome na mesma frase que qualquer um desses outros policiais acima citados.

Espera, na verdade eu não deveria considerar aquele primeiro convite simpático que cruzou meu caminho. Aquele pra trabalhar no exterior, porque né. Ninguém falou mais nada sobre o assunto. Embora eu tenha ficado super empolgada, sinto que não vai dar em nada mesmo.

Também não deveria levar em conta aquele convite pra voltar pra delegacia onde tudo começou. É porque um chefe novo (muito amigo do Guerreiro) assumiu uma área que sempre me interessou. Mas diante de tantas propostas aquilo já não me interessa mais. Tenho a impressão que voltar pra lá seria regredir na carreira. Mas foi um convite.

Tá, teve também um desses convites que não chegou a ser um convite, porque o pessoal só disse que seria muito interessante se eu trabalhasse com eles, sabe? Não chegaram e disseram exatamente "Vem trabalhar com a gente, Novinha". Mas eu sei que se eu quisesse mesmo trabalhar lá seria legal. Seria muito, muito interessante.

Veja bem, é que também tem esse um outro convite aqui que não vale a pena considerar, porque zero intenções de trabalhar na área burocrática. Agora não! Mesmoooo. Mas vai que amanhã eu pense diferente... Deixa aqui.

E teve também um outro convite que não sei se deveria realmente levar a sério. Sabe por que? Porque o chefão só me chamou porque eu fui fazer uma discreta sondagem com ele sobre um outro convite recebido. "Se eu soubesse que você estava querendo sair do seu setor eu teria chamado você pra trabalhar aqui comigo". Humm. Qual foi o objetivo dele ao dizer isso, amigos?

Mas, chega. Não vou ficar desconsiderando todos os sete convitinhos que recebi, porque independente de qualquer coisa, eu só queria compartilhar que a sensação foi muito boa e isso, por si só já vale a postagem. 

Agora, tem um convite aqui, minha gente, que eu toparia até pra ganhar menos. Sem demagogia! Vamos supor que eu reserve os últimos cinco anos de minha carreira policial pra juntar um dinheiro para minha aposentadoria, porque agora, não vou me preocupar com isso, não. Só consigo pensar que eu quero mesmo é continuar curtindo a vida policial à enésima potência. E lá eu sei que a diversão é garantida.

Se eu passar nos testes, claro.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Minotauro, Teseu e Ariadne



Querido blog, 


Ele é agente, veio de outra cidade pra cumprir missão aqui no meu setor. Não é muito antigo de casa, não, é antigo de idade, mesmo. Os cabelos grisalhos dele e a voz impostada impõem moral por onde passa. E ele passou por várias outras instituições irmãs antes de vir pra cá. Adora contar histórias de quando trabalhava noutra polícia. O problema é que são histórias estúpidas de gente arrogante, preconceituosa, machista, sexista e amarga. Aquelas coisas que os minotauros acham importante deixar claro para as mulheres. Mas ele jura ter algo a dizer pra humanidade. Ele precisa de atenção. Então tá, estou prestando atenção e mantendo a linha editorial educada do blog.

Minotauro foi tenente da Nasa, mas aqui não é a Nasa. Nem a Nasa é a Nasa que ele pinta. E eu sei que não tem tenente na Nasa, mas eu não queria ferir suscetibilidades. Bom, ele pôs na cabeça que a gente tem que padronizar tudo. Poxa, por que que a Nasa tem essa mania de padronizar?! Volta pra Nasa, Minotauro! Tem, sei lá eu, umas 40 instituições americanas pra fazer só o que a minha polícia faz por aqui. São tantas atribuições que algumas não têm nada a ver com trabalho de polícia em si. Aí o tenente chega da Nasa cheinho de preconceitos e acha que tem que padronizar tanto o policial que opera na Tundra Siberiana do Paralelo 30 quanto o que progride nos pântanos equatorianos?

Um dia acho que ele se deu conta de que estava meio ultrapassado. Viu um novinho operando um fuzil que ele não conhecia e parece que não soube lidar bem com isso. Porque se o Tenente veio do mundo da Lua, o novinho serviu no Iraque. Aprendeu a matar com o Rambo, o Shuazeneger. o Teseu. Ele era o Sniper Americano e o Minotauro não sabia sequer acoplar uma luneta no fuzil. 

Posso falar, querido blog?

Policial de verdade, pra mim, é o cara que desenrola a parada e cumpre a missão, simples assim. Se ele assovia, canta, dança, se foi tenente da Nasa ou aluno do Rambo, não me interessa. De pensar que eu achava que esses eram os caras, pois já chegaram prontos na Polícia. Ledo engano. Porque na hora do "vamovê", do "pegapracapá", na hora da "onçabebeágua"... os dois agentes de polícia mega brevetados deixaram muito a desejar... Pois é.

Na mitologia grega, Teseu, super corajoso mas burrão, estaria perdido se não fosse a ideia do fio de Ariadne (mãe do GPS) pra ele conseguir se orientar a fim de sair do labirinto, após matar o terrível Minotauro fortão que só lanchava adolescentes. Entendeu?

O novinho do Iraque deu, como posso explicar? Uma crise nervosa, um medo de não sei quê... e o resultado foi uma lambança. Porque não há nada mais exaustivo do que administrar expectativas alheias, né. Vai entender. Foi dispensado automaticamente de seguir na missão e voltou pra casa apesar de toda a sua brutal expertise de guerra. 

O antigão também foi muito aquém do esperado. Disse que era porque ele estava sem os óculos. Perdeu o prumo, passou vergonha demais, coitado. Disse que seria a última vez que ele participaria desse tipo de missão. Duvido. Ano que vem ele tá aqui de novo. Que venha, pois quem não vai estar aqui ano que vem sou eu, amigos, alçarei vôos mais altos. Agora, sou eu que vou trabalhar fora do ninho! 


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Seis anos blogando.





Hoje vou comemorar os seis anos do "Mulher na Polícia" junto com os futuros novinhos da Polícia Federal!

Obrigada pelo convite!!! 

sábado, 31 de outubro de 2015

Lucidez.


Tem missão que, sinceramente, não vale o que se gastou da sola do seu sapato. É preciso esmagá-la ainda na fase de planejamento, antes que ela roube você de você mesmo. Com o tempo a gente aprende a direcionar melhor nossa intensidade, porque a vontade de agir transborda como jazz e furtivamente te faz escravo dos caprichos de gente manipuladora. Assim, entendemos que essa, afinal, era a nossa grande missão: dizer não ao vazio, que é pra onde vai nossa energia e os gastos públicos com esse tipo de ação. Dormi com o estigma de incompetente, mas acordei com aquela leveza da sensação do dever cumprido. É preciso aprender a sentir o baque da realidade policial no Brasil. Espero que não seja muito tarde. Às vezes demoramos um pouco mais para constatar isso. Talvez você sofra um pouco quando perceber essa clareza. Mas não desista, isso se chama lucidez. Ela brilha na escuridão.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O curso dos israelenses.

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Silenciosamente repreendo a mim mesma, porque meus desafios têm sido cada vez mais audaciosos e sempre tenho medo de descobrir tipo tarde demais que dei um passo maior que minhas pernas.

Os israelenses há muito tempo empregam mulheres nas áreas operacionais do combate, mas senti uma pontada no estômago quando percebi que era só eu de mulher no curso. Parecia operação sigilosa porque ninguém ficou sabendo. O delegado meu chefe conseguiu a vaga dele e me colocou no pacote. Havia só três alunos oriundos da minha polícia, o restante era de outras instituições. 

Foi muito interessante ver como os israelenses fazem o trabalho que eu faço aqui na polícia. São simples e ousados. Nesse curso foram bastante exploradas as ações do operador individualmente. Digo isso debruçada nos parâmetros dos que preferem enfatizar a integração sincronizada de equipes com 10, 15 componentes, sistema em que fui criada, porque os israelenses sabem se virar com apenas um ou dois colegas. Olha, se brincar eles fazem o que têm de fazer até sozinhos, sério mesmo. Acho que isso se deve talvez ao histórico deles em operar na clandestinidade e tal. Meus professores da Academia teriam um ataque se vissem isso, mas estou naquele momento da minha vida profissional em que procuro não depender muito da boa vontade da Administração em prover os meios que preciso pra trabalhar. Prefiro a qualidade à quantidade, professor.

Era um só professor durante todo o curso, cujo semblante era dominado por um ar de confiabilidade. Seu estilo era bem diferente do jeito mais formal dos professores franceses. Muito sério, mas simples e acessível. Sem a ajuda de tradutores, ele deu aula em português sofrido, mas num tom moderado e aprazível. A dedicação e atenção que dispensou a cada aluno da turma suplantou a falta de vocabulário dele.

Pelo fato de eu agora estar trabalhando mais na área de planejamento de operações, caprichei na hora de escrever o trabalho de conclusão do curso. Estudei sim, todos os dias, mas tive muita sorte, porque já tinha operado no cenário que ele escolheu para o prova final. Banaliza-se o conceito de irritar os coleguinhas, quando o único aluno a tirar a nota máxima do curso é uma mulher, né? Então vamos parar por aqui.

(Tem uma equipe nossa trabalhando na missão deles aqui no Brasil. Eles nos disseram que em breve precisariam muito de uma mulher na equipe e nessa hora senti meu coração batendo dentro dos meus ouvidos. Eu seria muito louca ao ponto de topar trabalhar com eles, sim).

sábado, 22 de agosto de 2015

Petulância.



Com tantas cidades no mapa, eu vim parar nesta. E com tantas operações rolando, eu vim trabalhar justo nesta. E com tantos colegas mais indicados que eu para escalarem, vim a ser chefe da melhor missão da minha vida.

Para pessoas normais, só havia uma vantagem em ser chefe: eu não precisava ficar na fila pra ser entrevistada pelo pessoal da coordenação. E a fila era grande, porque a missão era grande. Eles queriam saber quem tinha melhores condições de trabalhar onde, mas já me conheciam. Era a terceira vez que eu cumpria missão nessa cidade. Olha, sei pouca coisa sobre sistemas de informação de pessoal, mas evidentemente o nosso não serve pra nada. Sucesso.

Mas pra mim, ser chefe era a chance de fazer diferente, corrigindo os erros que plotei em todas as outras missões que trabalhei. Eu acho que é esse tipo de petulância que oxigena a polícia. Pelo menos tem algum novato tentando fazer melhor, concorda?

Nem todos concordam.

O primeiro momento tenso foi durante os reconhecimentos quando um dos antigões da minha equipe, o qual me olhava furtivamente, insinuou que eu tava exagerando. Ouvi, mas com todo respeito, continuei na mesma toada. Nesse tipo de operação eu tenho mais experiência que você, antigão, pensei.

Me deram 10 colegas pra trabalhar. Não conhecia nenhum deles. Distribuí as funções pelas habilidades que percebi em cada um. Respondi todas as perguntas deles no briefing, com fotos e informações precisas de tempo, distâncias, horários, nomes, motivos, etc. O antigão que não queria dar o braço a torcer, disse pra eu não me preocupar que tudo dá certo no final. Não sei se ele tá sendo otimista ou quer me provocar. Nem sempre dá tudo certo no final. E, hellooooo, meu papel é justamente não deixar nada dar errado.

O segundo momento de tensão como sempre acontece, foi "a aproximação" e isso era comigo. O cliente entrou comigo no elevador. Ele é bem agradável e elegante. Fez um elogio que mexeu profundamente com minha concepção do papel da mulher na polícia. Mas esse não é o tipo de elogio que a gente conta para os coordenadores da operação. Não vai constar nos meus assentamentos funcionais. Deixa quieto.

O terceiro momento crítico  se deu porque uma colega da equipe apontou um problema que eu não tava muito querendo ver. Tínhamos um elo fraco na equipe. É por isso que é difícil ser chefe. Quero muito o tutorial pra lidar com colega deslumbrado com o glamour desse tipo de operação. Pedi a ela apenas pra monitorar isso pra mim. Ela entendeu e colou no problema, neutralizando-o até o final. Acabei de conhecê-la e ela já se tornou minha melhor amiga na polícia.

O restante da operação fluiu muito bem. Com muito jogo de cintura, todos os nossos parceiros de outros órgãos e instituições corresponderam à altura, exceto um, que me deu um sonoro e áspero "não", quando eu pedi uma mãozinha, deixando claro que nossas linhas de raciocínio e prioridades são absolutamente incompatíveis. Mas tudo bem, porque o antigão estava certo, eu tava mesmo exagerando. Com isso, aprendi que, uns se expõem demais e desnecessariamente. Outros não querem se expor de jeito nenhum. Ok, porque eu não sei ainda onde começa um e termina o outro.

Foi, com toda certeza, a missão mais arriscada dessa minha vidinha policial. Um verdadeiro campo minado. Apesar de ter tido tanto pra dar errado, deu tudo certo e terminamos a missão com muita pompa, triunfo e Champagne na cobertura de um dos hotéis mais luxuosos da cidade.

Tenho uma forte sensação de que Deus manda anjos de "Operações Especiais" para protegerem os meus pés de pisarem nos lugares errados. Só pode! Valeu, meu Pai!

Ps.: nessa missão, recebi um convite muito interessante para trabalhar fora do país e da polícia. Pensando muito sobre isso. Bora ver se rola?

domingo, 12 de julho de 2015

Os professores.


Sonhei que eu dava aulas na Academia e no sonho eu era mais nova de casa ainda do que sou agora. Esse detalhe não foi ocultado pra provar pra vida que quem determina o nível do ridículo nesse blog, soy yo.

Olha, se aluno já pensa que é muita coisa, imagina os professores. Nas solenidades da Academia, os professores ficam destacados em áreas especiais. Os alunos sempre chegam mais cedo e os observam se aproximando aos poucos, se cumprimentando e tomando seu lugar no dispositivo.

Nos cursos de formação profissional, o professor é sempre chamado de senhor e quando entra em sala de aula, toda a turma fica em pé ao comando do xerife. Antes da primeira aula, o professor é apresentado à turma com a leitura do seu currículo. E essa é uma das partes que eu acho mais interessante, a história da vida do cara, seus cursos, locais de lotação, menções honrosas.

Adorava também quando o professor contava uma história sua pra ilustrar alguma aplicação do ensino proposto. Até quem tá cochilando acorda e chovem perguntas! Até hoje, o que melhor consigo lembrar dos professores que me deram aula, são pelos "causos" que contaram. Tinha uma professora que eu não lembro mais o nome, nem a matéria, mas lembro bem dela contando sobre uma operação divertidíssima em que trabalhou fazendo exatamente o que eu faço hoje.

Mas já percebi que, infelizmente, rola muita vaidade, como em todo meio acadêmico. E onde rola vaidade, rola muita coisa que a tia do jardim de infância já dizia ser muito feia. Virou professor? De brinde, vira alvo do recalque dos coleguinhas. Principalmente mulher! Coisa muito triste isso.

Nas aulas de conteúdo mais teórico, que envolve muita legislação e conhecimentos que você tem fácil acesso, digamos assim, é mais tranquilo. Já nas matérias mais operacionais o clima é bem mais tenso. Nessas aulas a gente sempre ouve que "um detalhe esquecido pode ser catastrófico para toda uma operação", que isso ou aquilo "pode custar a vida de alguém". Exagero ou não, nessas matérias sempre vai rolar muita discussão se a técnica proposta se aplica ou não na prática; se não seria mais fácil fazer de outra forma; se a doutrina americana, francesa ou boliviana seria melhor que a nossa e por aí vai.

Imagino que para o professor também não seja fácil, pois mesmo em turmas de curso de formação profissional tem alunos com bagagem adquirida em outras instituições, polícias e forças militares. E sempre tem um iluminado pra questionar: "mas, professor, e se... aqui eu fosse atacado por um... jacaré voador"? Enfim.

E o que dizer dos cursos especializados? Aí é que a vaidade rola mesmo, porque às vezes aparecem umas figuras que se acham e cuja missão da vida é não aceitar orientação de seres "inferiores".  Isso, sim, é o que eu chamo de circo. Palmas para os palhaços.

Li por aí que no Japão os professores são os únicos profissionais que não se curvam ao imperador, porque para os japoneses, numa terra que não há professores, não pode haver imperadores. Aqui é o contrário. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Archaea.

Arqueas são capazes de viver em ambientes extremos, como vulcões

A archaea (palavra de origem grega, que significa antigo, velho) é a designação de um dos domínios dos seres vivos. São microrganismos unicelulares também conhecidos como arqueobactérias. Algumas espécies de archaeas foram encontradas vivendo em condições ambientais onde normalmente outros grupos de seres vivos não conseguem sobreviver como fontes de água quente, lagos ou mares muito salinos, pântanos e ambientes ricos em gás sulfídrico e com altas temperaturas. 


Se este texto se referisse a bactérias policiais antigonas, explicaria muito da vida policial

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Avenger.


Pra ficar mais simples, entenda apenas que saí da "sala do papel" para trabalhar na "sala da justiça", ok?  

Daí que imaginava eu ser a sala de justiça simplesmente o cérebro da minha área operacional, onde um colegiado de super-heróis-super-amigos decidiam o destino da humanidade numa sala cheia de telas e informações. Tenho tendências ao pensamento juvenil e ninguém se surpreende mais com isso, né? 

Mas sabe quando você, policial que realmente opera, chega na situação e pergunta: "Mas quem mandou essa viatura pra cá?" ou "Quem foi o gênio que determinou que entrássemos por aqui e não por ali?", então... seus problemas acabaram. Agora, eu sou o gênio dessa lamparina. Sou eu que vou mе vingar planejar e dar nome para as próximas operações.

- Ué, Novinha, não seria um grupo colegiado de super-heróis-super-amigos das galáxias???

Seria, mas descobri que o "grupo colegiado" somos apenas eu (mezzo novinha) e um delegado (pausa dramática pra chorar) que é com-ple-ta-meeen-te leigo no assunto, gente. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

"40 tons de punição"


Peguei meu pedreiro, em flagrante, me roubando. 

Foi assim: vendi meu apartamento, comprei um lote, escolhi uma planta com um engenheiro legal e contratei o pedreiro. Poié... esse cara, o pedreiro que me indicaram, com mil e uma recomendações, havia atrasado assombrosamente o andamento da minha obra, porque precisava construir, ao mesmo tempo, a casa dele com meu material de construção. Eu disse: "construindo, ao mesmo tempo, a casa dele". Eu disse: "comeu material de construção". Primeiro dei falta de um saco de cimento. Mas porque sou policial, meu bem disse que desconfio de todo mundo. Desconfio mesmo! É a ética da vida, sem sentimentalismos ou utopias, amore. Bem disse o jesuíta Baltasar Gracián: "a confiança é a mãe do descuido". 

Depoieu simplesmente vo pedreiro carregando o meu material pra casa dele

Aí você, baseando-se naquelas milhares de histórias de policiais que ouviu por aí, imagina logo que eu dei voz de prisão em flagrante para o safado, né?

Estudos recentes dão conta de que policiais adoram contar vitórias, principalmente professor de academia de polícia, mas poucos contam as derrotas. A menina super esperta da polícia de Marte que perdeu o cargo por ter grampeado o celular do namorado, jamais se do tipo que fica na boate dando  carteirada de heroína com essa história pra novinho dormir. O antigão policial de Pluo que "puxou arma" pra vendedora da banca de muamba, uma chinesa que lhe vendera mercadoria danificada, levou, sei lá, uns 40 dias de suspensão, mesmo tendo recorrido ao judiciário. Esse extra-terrestre policial não vai escrever um livro sobre os "40 tons de punição" que ele levou. Ocorre que depois da estratégia mal sucedida da "PEC da Impunidade" os delegados humilhados precisam mostrar serviço para o Ministério Público. Se espirrar, saúde, Senhor Corregedor!  

o pergunteo que eu fiz coo pedreiro ladrão.

"Mas você fez o que com o pedreiro ladrão, Novinha espera?"

Nadinha, obrigada. Apenas dei-lhe um sermão do tipo "sabão", entreguei a obra pra Deus e para o meu bem (em amboos sentidos, mesmo). o... nem demitir o pedreiro eu pude, porque mesmo se ele voltasse a me roubar, ainda compensava financeiramente porque  meu prejuízo seria menor. Haja vista que um distinto cavalheiro  que chamo de meu bem já tinha dado um adiantamento robusto para o vagabundo que me recomendaram tão bem. Va-ga-bun-do, sim! 

Achando que fui conivente com um roubo contra minha pessoa. Procede?

Estou contando tudo isso porque mundo precisa saber que pela primeira vez na minha vida... sério mesmo, senti uma forte empatia para coos assassinos frioe calculistas que entraram para a história da humanidade. (Furto famélico porque não é o seu material, meritíssimo!) Eu realmente quis matar esse filho de chocadeira, desgraçado, porque eu passo dias e dias fazendo orçamentos, para o bonitão colocar meu material comprado com meu dinheirinho suado e honesto na casa dele ainda receber poisso? Muita raiva, tanta que não consigo sequer pisar naquela obra mais. Porém, como tudo na vida tem suas consequências, levarei para a terapia essas minhas recém adquiridas fantasias de SNIPER! Sabe aquele cara que atira de longe, com tranquilidade e precisão? Fantasias, né, porque nessa histórieu não sou sniper, sou refém do desgraçado do pedreiro ladrão. 

A propósito,hipoteticamente falando, se alguéestivessentind
refém coessa roubalheira da Petrobrás, não pode chamar THE SNIPERS, pode?