sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Dica nº 4 - Faça bem feito.

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"A qualquer hora, em qualquer lugar, para qualquer missão"
- Lema do COT -

Se você já entendeu que é prioritário cuidar de seu bem-estar físico e mental e que você precisa levar sempre muito a sério a sua segurança, acho que agora podemos pensar em fazer um  bom trabalho profissional.

Qualquer um sabe que não tá fácil ser polícia nesse sistema deteriorado em que vivemos no Brasil. Portanto, se você quiser "desculpas" pra não trabalhar eu poderia te apresentar várias, amigo. Só tem um porém, não vale reclamar depois da falta de oportunidades, tá?

Na sua formatura, você jurou que cumpriria suas funções com probidade e denodo, isso se aplica àquelas situações em que ninguém está olhando, certo? Mas alguém pode estar te observando, viu, para o bem ou para o mal. É meio chato ficar usando exemplos pessoais num texto como esse, mas prometi que as "dicas" seriam baseadas em fatos reais... Então desculpem se soa pedante demais, mas já disse anteriormente que estou muito satisfeita em estar trabalhando nesta Unidade em que estou lotada atualmente, mas não foi me escondendo das operações que eu consegui um convite pra vir pra cá, foi porque me viram trabalhando duro e chefiando a operação mais importante da minha vida, até então. E pra ser escolhida como chefe naquela "missão mais importante da minha vida", foi preciso mostrar serviço em muitas outras missões para as quais ninguém queria ir. Assim, se você não é desses que apenas aguardam atrás da moita a chegada da aposentadoria, preste atenção nas dicas da Tia Novinha.

Primeiro: seja voluntário.

Quando entra na polícia, a grande maioria das pessoas não sabe ainda qual é o seu lugar. Outra parte, acha que sabe, mas mudará de opinião à medida em que vai conhecendo diferentes atividades policiais. Portanto, experimente missões em todas as oportunidades possíveis, principalmente naquelas operações para as quais ninguém quer ir. Não desperdice essas chances de descobrir onde você se enquadra melhor. Onde suas habilidades pessoais são mais úteis, mais valorizadas. Além disso, é trabalhando que você vai aprender a lidar com o risco, a ter controle emocional e a manter o foco para resolver problemas. Também é na prática que você vai aprender a ajustar bem e a calibrar o peso do equipamento e da responsabilidade que consegue levar em cada tipo de operação. Vai aprender que é preciso livrar-se do que é desnecessário. Então, aproveite! Claro que vai ser dureza, mas é no calor do nervosismo e da tensão que você vai ser forjado. A espada só é aperfeiçoada após sofrer muitas marretadas. E dói muito!

Segundo: disciplina na veia. 

Ser disciplinado exige insistência, porque não é de um dia para o outro que uma prática se torna um hábito. Faça o procedimento da forma correta, mesmo que todos estejam fazendo errado, sabemos que no trabalho policial, pessoas podem perder a vida se você descumprir uma simples regra de segurança, inclusive no trânsito, então se esforce para trabalhar sempre "no padrão". Insista nas repetições, até fazer com que os procedimentos corretos entrem na "massa do sangue", na memória muscular, e sejam cumpridos de forma quase automática!  Seja organizado com as suas anotações. Memorize informações importantes! Encontre seus equipamentos até de olhos fechados! Procure respeitar a doutrina! Admito que sou meio obcecada por doutrina, porque doutrina é um conjunto de princípios que já foram testados, comprovados, utilizados por vários grupos policiais em diferentes partes do globo terrestre, amigos. É sabedoria adquirida na experiência e nos erros dos outros! Então respeite a doutrina adotada na sua Unidade.  

Terceiro: obedeça a hierarquia. 

Poucas pessoas hoje em dia querem liderar na atividade policial, porque é difícil. Cada colega tem sua opinião e muitas vezes as pessoas criticam sem dó as coordenadas dadas pelo chefe seja ele agente, escrivão, delegado ou administrativo. Das vezes em que chefiei operações, senti como o ser humano é egoísta e como é solitário liderar. Muitas vezes não dá tempo de ficar justificando para cada colega, porque vamos fazer assim ou assado. E muitas vezes vão questionar mesmo depois de todas as explicações já terem sido dadas. Então, procure colaborar com a chefia. É muito desagradável ver um colega questionando sem motivo, só pra testar o chefe, pra irritá-lo, colocá-lo em situação difícil perante os colegas. Claro que dar sugestões, questionar é saudável, lúcido e lícito, mas tem que ter bom senso. Demonstre profissionalismo, lealdade.  Faça o seu melhor! Dê sinais de que você quer muito que a operação dê resultados positivos e que você está comprometido em não deixar que nada de errado aconteça!

Quarto: pense no seu parceiro.

Por mais cansado que você esteja, pense em quem ainda não está liberado para ir pra casa descansar. Se possível, ajude o colega a terminar o serviço dele, também, pra fecharem juntos a missão. Ele também tem família em casa esperando o seu retorno. Vá com ele entregar os equipamentos e viaturas acautelados. Ajude o escrivão na contagem e organização do material apreendido. Quando todo mundo já estiver louco pra terminar, pergunte ao chefe se ele precisa de mais alguma coisa. Seja o primeiro a chegar e o último a sair. Saia do WhatsApp e vá render o colega que ainda não foi almoçar. Ofereça-se para dirigir um pouco em longos deslocamentos. Vai buscar café? Pergunte ao grupo se alguém precisa que você traga alguma coisa.

E reflitam, pois, pra você, hoje, aqui, tudo isso pode não ser nada demais, mas pra quem está há horas em pé, com fome, cansado, com sono... é esse tipo de atitude que marca pra sempre nossa memória afetiva.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. Amiga, se não tá fácil para os novinhos (homens) que chegam ávidos por um lugar ao sol, pra você, que é mulher, vai ser duas, três vezes mais difícil a depender dos acessórios (filho pequeno, beleza física, marido ciumento etc.). É muito comum as pessoas partirem do princípio de que você não vai dar conta! Então, prepare-se pra ter de provar isso uma, duas, três vezes até que eles se convençam, e se mudar de equipe vai começar tudo do zero novamente! Além disso, saiba que se um colega do sexo masculino errar, vão dizer que "tudo bem", que "isso acontece", mas se você errar, as más línguas vão dizer que é porque você é mulher, e que mulher não nasceu pra esse tipo de atividade. Desse jeito, amiga! E mesmo se você fez tudo certinho e se deu bem, vão achar algum defeito ou algum motivo pra desmerecer sua vitória. Já disseram que eu "consegui" uma boa viagem, porque tava tendo um caso com o chefe. Já disseram que eu só recebia convite pra fazer curso fora por causa das minhas pernas... "Mas, Novinha, por que isso é assim?" Eu. Não. Sei. Outra coisa: desculpem entrar nesse assunto polêmico mas, se você quer mesmo ser levada a sério no mundo policial não se apoie em muletas de gênero. "Que isso, Novinha?" São aquelas artimanhas, do tipo chantagem emocional, para garantir um tratamento especial (tipo aliviar a sua carga, sua escala, etc.) na distribuição do serviço porque você é mulher. Olha aqui pra mim: esse tipo de estratégia é o campeão número 1 em arrecadar a antipatia da equipe e se isso acontecer, amiga. Já era! Espere a próxima lotação, porque eles não perdoam, mesmo.

Pra fechar, deixo com vocês o exemplo da Coronel Cynthiane da PMDF, primeira mulher a comandar uma tropa de elite, nada mais, nada menos que o Batalhão de Choque do Distrito Federal. Ela raspou o cabelo e ficou cinco meses na mata com um grupo de alunos do curso de operações especiais do BOPE. Casada com um policial civil, tinha um filho de 3 anos que se assustou quando a viu chegar em casa careca. Cynthiane garante que não houve qualquer regalia ou diferencial durante o curso em relação aos demais colegas. Leia o que ela tem a dizer:

"Quando me formei como PM, os tempos eram outros. As mulheres trabalhavam em grupos separados dos homens. Depois que fiz curso de pós-graduação, assumi a responsabilidade por áreas de ensino da polícia. Resolvi conhecer um dos vários cursos realizados no Bope e o primeiro que fiz foi para me especializar na segurança de autoridades. Eu estava em ótima forma física e o comandante do Bope me convidou para ficar. Não tinha ideia do que me esperava. Acho que foi muito mais difícil para eles, homens, entenderem que eu estava passando por todas as etapas e conseguindo ir adiante, do que para mim. (...) Ainda há preconceito. Ouço comentários de que não acreditam que eu concluí o curso, que não sou capaz. Mas os homens me respeitam, nunca tive caso de insubordinação. Ainda quero mais. Todo mundo sabe que meu sonho é comandar o BOPE (...) A minha chegada ao comando mostra que uma mulher pode qualquer coisa, basta querer, ter preparo psicológico e persistência".

Aí... é disso que eu tô falando!

sábado, 13 de janeiro de 2018

Dica nº 3 - Cultive uma mentalidade de sobrevivência.

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Policial precisa voltar vivo pra casa.

Já falamos sobre a necessidade de estar bem fisicamente e a importância de buscar o conhecimento. Agora chegou a vez de falar sobre a arte da guerra. Entenda que se realmente você leva sua profissão a sério, algumas coisas vão mudar naturalmente: suas prioridades, suas amizades, a forma como você gasta seu tempo livre. Você vai passar a ter um estilo de vida mais... tático. Para aprender a viver bem com essa nova identidade, é imprescindível que você cultive uma mentalidade de sobrevivência. 

Em primeiro lugar, treine

Não recomendo a ninguém o sentimento de que falhou ao enfrentar uma situação de risco. A perda dos valores envolvidos (vida, dignidade, integridade física, etc.) jamais será comparável ao que você deve investir em treinamento.  Aproveite bem cada oportunidade de treinamento que a Instituição te oferece e tente extrair o máximo de cada curso, de cada disparo no estande de tiro, faça anotações sobre o seu desempenho, veja o que você precisa fazer pra melhorar. Registre o seu desempenho! Mas não se limite a isso. Treine tiro sozinho em local seguro, tente aplicar o que aprendeu no treinamento. Se não tiver munição, treine sem munição. Como? Treine sacar e enquadrar o alvo o mais rápido possível. Treine fazer isso sentado, deitado, em baixa luminosidade, dentro do carro parado, dentro do carro em movimento (em local seguro, fazfavô!). Treine fazer isso cansado, após uma corrida, protegendo-se atrás de um abrigo. Treine trocar rapidamente o carregador da arma. Treine atirar com uma mão só. Trocar o carregador com uma mão só. Enfim, treine em condições bem próximas à realidade de um confronto armado onde tiro vai e tiro pode vir também. No confronto real você precisa sacar rápido e enquadrar o alvo da forma mais rápida possível. Segundos  e milímetros podem valer a sua vida. Então, treine!

Treine defesa pessoal policial, mas treine com objetivos concretos. Treine técnicas para neutralizar seu oponente. Treine o que fazer quando estiver com uma arma apontada para a sua cabeça. Treine como cair e não se machucar, treine como se levantar rápido da queda. Treine como se livrar de um estrangulamento, de um ataque com faca, de uma paulada, de um murro na cara, um chute no abdome. Treine táticas para se livrar de um estupro com um homem de 100 quilos em cima de você. Treine como atacar os pontos fracos do inimigo. Na hora "H" você vai reagir como treinou, se não treinou... vai fazer o que, né?

Treine como sobreviver em meio a adversidades. Treine flutuação em meio líquido usando calça jeans, boot e equipamentos. Treine a técnica correta para saltar um muro ou para saltar a uma altura de 10 metros n'água. Treine como descer ou subir de rapel. Treina vários tipos de nós e quando usar cada um deles. Treine como sair de um porta-malas de carro. Treine táticas para sobreviver a um incêndio. Treine como sobreviver no meio do mato, aí na sua região (na selva, na caatinga, na ilha, na montanha, no mar). Treine vários tipos de nós. Treine a arte de detectar mentiras.

Segundo, esteja sempre pronto pra responder a uma agressão. 

Para isso, crie o hábito de deixar sua arma sempre pronta para um saque rápido. Salve e deixe números de telefones de emergência ao alcance rápido. Deixe kits de primeiros socorros sempre à mão. Utilize equipamentos de proteção adequados. Invista em equipamentos úteis como um canivete suíço, um bastão retrátil, uma boa lanterna tática, armas backup, torniquete, óculos de sol de qualidade e aprenda a cuidar deles e a utilizá-los da forma correta. Esteja preparado! Não tem preço quando o colega tá tentando resolver um problema com uma tesourinha escolar, e alguém diz. "Novinha, vem cá, traz seu canivete suíço aí, por favor".

Terceiro, aprenda a detectar de onde vem o perigo. 

Para poder  sacar mais rápido e reagir, você precisa estar atento ao que acontece ao seu redor.  Não precisa ficar "full time a ponto de bala", mas precisa aprender a julgar vulnerabilidades e portar-se de acordo. Precisa detectar ameaças naquele cenário. O que tá errado, ou não tá combinando com o ambiente e então se antecipar. Não pode esperar a agressão ser anunciada para então poder agir. Precisa aprender a sentir se está sendo seguido. Aprender a estacionar o carro numa posição e local mais seguros e avaliar o cenário quando for embarcar de novo. Quando tiver que parar num semáforo, observe quem se aproxima e mantenha-se sempre em condição de reagir, porque ninguém surge na sua frente "do nada". Ou seja, em algum momento você se distraiu e "comeu mosca". Ficou falando ao celular na hora errada, ficou teclando no WhatsApp na hora errada, bebeu (bebida alcoólica) na hora ou da forma errada, etc.

Resumindo. Dediquem-se arduamente a atividades de sobrevivência, porque agora você é policial. A quem muito é dado, muito será cobrado! Então aja e viva com responsabilidade, de forma coerente com a carreira que você abraçou! Um policial é caro demais pra morrer em situações tão bestas.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. No início vai ser uma grande confusão na sua cabeça, porque o curso de formação é todinho feito para homens. No tatame, você vai treinar "defesa do genital" como se fosse homem... A grande maioria dos equipamentos são feitos para homens. Vai na loja e tenta achar um boot 36, por exemplo. Procure um terno feminino que esconda apropriadamente a sua arma... Olha... pouquíssimos cursos terão professoras mulheres e dispostas a te dar aquele toque sobre "como continuar sendo mulher após entrar para a polícia". Então, o jeito é experimentar tudo e ver como fica em você. Hoje, eu amo o Fuzil Colt, parece que foi feito pra mim, porque é uma arma leve e eu consigo bancar o tempo que for preciso. Já adotei a munição que me deixa mais confiante. Já achei ótimos terninhos, sapatos sociais e coldres especiais, com os quais consigo manter a elegância sem quebrar nenhum protocolo de segurança. E descobri o Shemag que revolucionou a moda operacional. É um lenço tático que alguns usam pra proteger o rosto, eu uso pra proteger o pescoço do sol. Amoooo! Mas pra chegar até aqui confesso que comprei tanto coldre, calças e outros acessórios que dá pra encher uma mala. Não é fácil se adaptar. Outra coisa bacana que aprendi, depois de muita humilhação nos tatames da vida, é que treinar joelhadas e cotoveladas em pontos estratégicos é o que há, amiga, porque funcionam muito bem, mesmo se você não tiver tanta força. Entendeu? Porque na pior das hipóteses você ganha tempo pra sacar sua arma ou para simplesmente sair correndo. 

Pra fechar, inspirem-se na mensagem dessa nordestina sertaneja que tornou-se medalhista de bronze no Pentatlo em Londres. O que é Pentatlo?

"Diz a lenda que, durante uma guerra na Europa, um soldado recebeu uma missão: entregar uma mensagem cruzando os campos de batalha. O soldado pegou um cavalo que não conhecia e saiu. Para atravessar as linhas de frente teve que combater usando o revólver e a espada. Mas, no meio do caminho, um problema sério tornou a missão ainda mais difícil. O cavalo se feriu e o soldado teve que completar o percurso a pé, atravessando lagos e rios. Surgiu assim o pentatlo moderno. Cavalgar, correr, nadar, atirar, e enfrentar adversários com a espada. No sertão nordestino, surgiu uma brasileira capaz de fazer tudo isso Yane Marques!"

"Correr, nadar, atirar, usar cavalo e espada
Para uma autêntica sertaneja isso tudo não é nada.
Pois sertaneja é assim: faz de tudo e nada erra
E ainda não abre mão de exaltar a sua terra.
Em afogados da Ingazeira, onde o sol mais forte brilha
Brilha o brilho de Yane, sua mais brilhante filha".

(Trechos copiados do site Do Pernambuco)

Aí, é disso que eu tô falando!

sábado, 6 de janeiro de 2018

Dica número 2 - Mens sana in corpore sano.

Policial precisa investir em conhecimento.


Após discutirmos sobre a importância de um "corpore sano", precisamos investir também numa "mens sana" e fechar esse combo. Afinal, não queremos que os coleguinhas pensem que você é apenas um corpinho bonito, não é mesmo?

Sério que você achou que não precisaria mais estudar na vida, após aprovado no concurso? Sabia que algumas polícias exigem que seus policiais façam cursos inclusive para promoção na carreira? É... Quase uma tortura aquele de "suprimento de fundos", verdade, mas não é disso que estou falando.

Quando você realmente entrar para a polícia (lembrando que "tornar-se policial" é uma coisa, tornar-se um servidor público, é outra bem diferente), você vai sofrer um bombardeio de novas ideias e concepções. Para que esse processo de mudanças seja saudável, titia recomenda que você faça ótimos cursos, leia bons livros, investigue "por que isso é assim?", questione as idéias dos professores (depois do CFP, pode!). Estude. Eventualmente, você vai precisar defender seus pontos de vista perante outros colegas policiais, colaboradores, servidores de outros órgãos, cidadãos, autoridades. Esteja preparado. Pare de fazer as coisas no automático, andando no fluxo da multidão e pense. Conheça a legislação afeta ao seu trabalho. Considere suas vulnerabilidades. Confronte suas práticas. Clique nas abas ocultas. E se você discorda, sei lá eu de quê, tá tudo certo, mas discorda por que? Você realmente sabe onde estão fundamentados os teus parâmetros de certo e errado? Espero que não seja nas listas de dicas dos blogs da Internet! Você precisa avaliar constantemente as premissas que te levaram a adotar estes padrões e, então, tirar suas próprias conclusões, porque, se não fizer isso, você vai virar um mero papagaio repetidor das frases idiotas que se ouve por aí.

É bem provável que você passe no mínimo uns cinco anos na sua primeira lotação, concorda? Você pode passar todos esses anos jogando World of Warcraft nas horas vagas, pra que o tempo passe logo, ou talvez possa construir algo mais inteligente e sólido pra levar contigo dessa experiência. Conheça a região onde você trabalha e explore o que essa vivência tem a te oferecer. E então, trace clara e objetivamente seus percursos de curto, médio e longo prazos, porque existe vida após o estágio probatório! Já pensou que talvez este seja o momento mais que oportuno para aprender um novo idioma, uma nova cultura! Tente ver as coisas de um modo diferente.

Já pensou que em cinco anos, você pode fazer outra graduação, um mestrado, um doutorado.  Sabia que tem novinho fazendo pós-graduação na Academia? Sabia que tem novinho publicando pesquisas científicas baseadas em dados do trabalho policial? Sabia que enquanto você reclama da distância, do descaso, da diferença, tem gente fazendo excelentes cursos policiais (e novos amigos!) que só são oferecidos aí na sua região? Sabia que grupos de operações especiais estrangeiros vêm fazer cursos no Brasil para dominar artes e técnicas que o PM da sua região aprendeu na infância?

Reflitam, porque na pior das hipóteses você vai se tornar uma pessoa muito mais interessante.

Para as meninas, é claro que tenho um bizu especial. Não é por acaso, amiga, que o curso de formação é de quase um semestre em regime semi-aberto, longe do seu habitat natural. "Mais alguém aí foi crucificada pela sociedade por se ausentar do ninho tanto tempo?" Então... sugiro que você avalie bem as oportunidades de crescimento que a polícia pode te oferecer, e selecione aquelas que realmente merecem sua atenção e o preço que está disposta a pagar por isso. Daí, converse com seu namorado ou marido (na verdade deveríamos ter feito isso antes mesmo de começar a estudar para o concurso, não é mesmo?). E decidam juntos como vai ser isso de viajar a serviço, trabalhar até tarde ou em regime de plantão, fazer cursos fora, continuar estudando, enfim... organize essa parte antes, ajuste esses ponteiros com antecedência, pra evitar muito estresse, crises e confusões desnecessárias quando as oportunidades profissionais baterem na sua porta. E vão bater! Caso você tenha filho pequeno, amiga, é imprescindível que vocês montem um "staff" de confiança pra dar apoio quando você precisar. Super invista nisso, pois mãezinhas policiais precisam ter Plano Alfa, Plano Bravo, Plano Charlie... sempre! Levem em consideração tudo isso antes de montar sua estratégia de escolha de lotação e divirta-se! Não estou dizendo de jeito nenhum que você precisa abrir mão disso ou daquilo, meu ponto é apenas sugerir que você decida conscientemente e conviva bem com suas decisões. Porque, sério, ser mulher na polícia é buscar constantemente um tal de equilíbrio entre a culpa por ter saído e o arrependimento por ter ficado.

Pra fechar, leia e deixe-se inspirar por este trechinho do relato de vida da PhD brasileira, negra, filha de uma empregada doméstica e de um profissional de curtume, a qual, após vários episódios de superação, conquistou um convite para fazer o seu pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos EUA, e mesmo com todo o preconceito ja´conquistou 56 prêmios na carreira.

"...minha mãe me levava com ela para o trabalho. Ela aproveitou que tinham jornais na casa da patroa e me ensinou a ler para eu ficar mais quieta. Tinha quatro anos e ficava o dia todo lendo. (...) um dia, a diretora da escola Sesi foi visitar a dona da casa e perguntou se eu estava vendo as fotos do jornal. Respondi que estava lendo. Ela se surpreendeu, me pediu para ler um pedaço e eu li perfeitamente. Coincidentemente, era começo de fevereiro e ela sugeriu, que eu fosse uns dias na escola. Se eu conseguisse acompanhar, a vaga seria minha. Deu certo e com 14 anos eu já terminava o ensino médio. (...) As armas mais poderosas que temos para vencer na vida são a educação e o estudo". 

Aplaudo de pé a sua história de vida, Doutora Joana D'Arc. Olha bem o nome da guerreira!!! E parabéns, também, para a incrível sabedoria iluminada da sua mãezinha que soube aproveitar os jornais da casa da patroa para te ensinar a ler. Uma belíssima e inspiradora parceria entre mãe e filha.

Aí... é disso que eu tô falando!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Dica número 1 - Aos barrigudinhos.

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Policial precisa estar bem fisicamente

Como vocês já devem saber, de norte a sul, de leste ao velho oeste, as boas oportunidades na polícia normalmente vão para os "antigões" (princípio da paleontocracia) ou para os "amigos da corte" (instituto do amicus curiae). Apenas excepcionalmente, é que uma chance boa dessas bate à porta de um "novinho", não é verdade? É aí que você precisa estar preparado.

A primeira dica que me vem à cabeça quando penso no Novinho Policial é essa: considere o seu potencial físico. Seu corpo é o seu principal objeto de trabalho. Você acha bom sair para uma operação com munição fraca? Com dúvidas sobre a manutenção do seu armamento ou sobre o perfeito funcionamento de uma viatura? Então, cabeça.

Muitos bons policiais perdem grandes oportunidades por estarem fora de forma, mesmo quem acabou de sair da Academia! Desculpas e dificuldades são muitas: seja porque ainda não encontraram um bom local pra treinar na nova lotação; seja porque o trabalho é muito exigente e não sobra tempo ou estão muito cansados pra treinar; ou simplesmente, porque estão desanimados, deprimidos, decepcionados. Então... é neste momento, quando você menos espera, que aquele colega te liga dizendo que surgiu um curso, mas que é preciso "flutuar sei lá quanto tempo em meio aquático", ou que teria que "correr mais de 2.000 metros em 12 minutos". É aí que se não estiver preparado, você vai declinar do convite com alguma desculpa qualquer, não é mesmo? Muita gente quer vir para o meu setor, mas poucos querem treinar... é pra esses poucos que eu passo bizu.

Acho muito importante frisar que a atividade física também melhora tua saúde mental e psicológica. Previne, por exemplo, a depressão, sabia não??? Quem já passou no concurso conhece o preço pago em "perseguir um sonho" por meio das longas horas em estudos e treinos, certo? Não é difícil encontrar relatos de concurseiros que perderam namoros e amizades, baladas e botecos, casamentos e funerais porque aquela prova insana estava chegando. O custo do estilo "Vida Social 0 X 10 Edital", deixa suas marcas. Quando passa no concurso, finalmente você vai para a Academia de Polícia, que alegria! E aí vai passar mais alguns meses isolado do mundo sendo gerado no útero daquela... daquela Madrasta-Megera-Malvada (pronto, falei!), ouvindo-a dizer, tácita ou explicitamente, que você "Nunca será". E quando, então, você prova para ela que você é capaz, sim... eles te mandam pra longe de casa, do namoradinho, do conforto de morar no seu apartamento, da casa da mamãe, da convivência cotidiana com os seus amigos, dos colegas no trabalho anterior, dos melhores parceiros da Academia... Mimimimimi! Engole esse choro, meu bem... porque agora você vai começar uma nova vida lá onde o vento faz a curva, onde o clima é estranho, os costumes são diferentes, o ambiente social e os desafios são completamente novos pra você.

Nesta altura me vem a pergunta: "Será que ainda tem alguém lendo este post motivacional?".

Tenho um histórico respeitável de depressão na minha família. Queria compartilhar isso. Obrigada. Mas, até o momento, graças a Deus, essa desgraça nunca me pegou. Pra mim, a atividade física é, além de uma amiga do peito, um forte antidepressivo preventivo. Se este problema estiver rondado o seu caminho, saiba que depois de Jesus Cristo, nosso Senhor, é aquele seu tênis de corrida que vai se apresentar como um dos seus amigos mais chegados. Esse é o cara que nunca vai largar do seu pé! Que sempre vai ter tempo pra você. E o seu quimono. Este será seu melhor parceiro de lutas! Jamais vai te deixar na mão quando você estiver sem fôlego no combate. É ele que vai estar ali te dando forças, te abraçando, enquanto você se recompõe perante o adversário.

E haja coração, queridos novinhos, pois ter um ataque cardíaco ao fazer uma abordagem ou durante uma perseguição policial é literalmente o fim da picada... Nunca se sabe quando você vai ter que pular o "muro do desespero", ou sustentar seu peso agarrando-se ao esqui de pouso de um helicóptero, ou ainda subir numa embarcação estando dentro d'água com equipamento, botas e tudo o mais. Espero sinceramente que você consiga, porque, caso contrário, na melhor das hipóteses, você vai virar a piada do ano na delegacia. Se cair nas redes sociais, então, misericórdia!

Para as meninas, é claro que tenho um bizu especial. Noto que vários colegas meus gostam de ressaltar o fato de sempre me verem treinando uma coisinha aqui, outra ali. Eles acham que isso demonstra seriedade ou coisa do gênero. Outros comentam admirados o fato de terem me visto correndo outro dia láááááá na ponte. Acham que isso demonstra comprometimento. Saiba que em matéria de treinamento físico, mulher já chama a atenção logo e muito facilmente... para o bem ou para o mal, amiga. Cansei de ver cofrinho masculino, elástico de cueca, etc... e ninguém fala nada. Agora vai você para qualquer treinamento com roupa inadequada pra ver... Por outro lado, você também será notada pelo simples fato de chegar mais cedo pra alongar ou aquecer direitinho, entendeu? Se entrar um pouco além do horário, treinando repetições, é certo que vão comentar. "Por que, hein?" Não sei, gente, tenho tantas questões quanto vocês. Mas in-fe-liz-men-te dizem que é raro ver esse tipo de comportamento no segmento feminino... bem... E pra quem não é do meio, aviso que fazer corpo mole pode até funcionar para outros fins, se é que me entendes, mas se você quer ser reconhecida como uma boa profissional da área policial, não mete essa, ever

Pra fechar, deixo com vocês as palavras de uma atleta olímpica militar da gloriosa Marinha Brasileira, medalha de bronze no Pan-Americano de Toronto em 2015 que quando questionada sobre a polêmica da continência no pódio, nos Jogos Olímpicos Pan-Americanos simplesmente respondeu:

"...Se não fosse a Marinha, eu não estaria onde estou hoje. Portanto, sem dúvidas e com toda honra, eu prestaria continência para o Hino Brasileiro no pódio.” Fernanda Decnop

Eu acho que o inverso também é plenamente verdadeiro, né Fernanda, minhas respeitosas continências a você, porque se não fosse VOCÊ, a Marinha e o Brasil não estariam brilhando daquela forma no pódio, não é mesmo?

Aí... é disso que eu tô falando.


sábado, 9 de dezembro de 2017

Vou dar dez!

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Considerando que em minha primeira lotação sofri bullying de colegas mais antigos e pastei muito tempo vagando no submundo policial atééé encontrar um antigão decente que pudesse me ajudar a encontrar o caminho das pedras na polícia;

Considerando que já passei por vários setores com chefes, colegas, missões and... diferentes tipos de "cascas de banana" aqui na Polícia, contabilizando um planeta de aventuras e desventuras com as quais você também pode aprender;

Considerando que nesta nova lotação após um "período teste" de bons serviços prestados, meu chefe me convidou pra assumir uma "função diferenciada", que eu nem sabia que era diferenciada, mas enfim;

Considerando que esse é o mês de aniversário do Blog Mulher na Polícia e que estou devendo aquele post de comemoração do ano passado que passou batido, né?!

Considerando que estou feliz para caramba e que ninguém sabe o dia de amanhã... logo, é prudente aproveitar este bom momento...

Vou fazer dez posts para dar dez dicas, sendo todas elas...

 ~&~ BASEADAS EM FATOS REAIS ~&~ 

...sobre como sobreviver e quem sabe até achar o caminho das pedras na sua primeira lotação. Combinado!?

domingo, 29 de outubro de 2017

Antes.

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Sabe que o problema não é a operação em si? O pior é o antes. São os dias que a antecedem. São as suas perguntas sem resposta. É a noite mal dormida. É a expectativa. É o alvo embaçado. É a infinidade de coisas que podem acontecer num local que você não reconheceu. É o ensaio mental sobre o que não foi "brifado".  É o medo. É a dúvida. É não saber em quem se deve confiar ou não. É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Cada um usa as armas que tem.



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Ela contou que estava andando num lugar ermo à noite e percebeu que alguém a estava seguindo. Andou mais rápido e o cara também acelerou. Virou numa rua para despistá-lo, virou na outra e ele fez o mesmo! Daí ela teve uma ideia. Foi diminuindo o ritmo e olhando pra trás até o sujeito chegar mais perto. Então ela parou de repente e se virou, encarando-o. Ele parou e começou a olhar pra ela de forma lasciva e libidinosa. Então ela simplesmente levantou a saia, sem tirar os olhos dele. Imediatamente ele baixou as calças. 

"Mas e aí??? O que foi que aconteceu, gente?"

Ela saiu correndo ué, porque é muito mais fácil correr com a saia levantada do que com as calças arriadas. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Repercussões.



Uma colega, também novata, teve um probleminha em sua primeira viagem a serviço aqui neste novo setor. Acho que ela entendeu erroneamente que a situação estava dominada e baixou a guarda. Ninguém se feriu, mas o fato repercutiu muito rápido.

Ela vai ficar um tempo "na geladeira" por conta desse incidente até se acalmarem os ânimos. Foi bem estranho terem-na tirado da escala sem avisar ou explicar que estavam fazendo isso para o seu próprio bem. Ela ficou mal. Foi bem desagradável essa história, mas não estou tomando as dores da colega não, reconheço que foram generosos em não tê-la feito voltar para seu local de trabalho original, porque fomos avisadas que isso poderia acontecer quando chegamos.

O fato do incidente ter acontecido com uma novata fez com que todo o universo voltasse os olhos para o segmento feminino do setor. A pressão aumenta consideravelmente, porque as mentes feudais questionam se essa função deveria ser mesmo realizada por mulheres.

Aprendi que somos mais cobradas que os homens. Os erros deles são tantas vezes considerados incidentes bobos de percurso, uma coisa normal da vida, quase um charme da profissão. Não é assim quando uma policial erra. Os comentários são maldosos, paradoxais e querem questionar a essência da nossa competência para o trabalho policial, seja a colega recém-chegada, antigona ou candidata.

E como se não bastasse, tudo isso alimentou a fogueira das vaidades das colegas mais antigas, que agora questionam a qualidade desse último recrutamento, discussão essa que, claro, lhes traz um certo star quality. É impressionante.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Ambiente hostil.


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Boa noite pra você que tomou duas patadas e um gelo de oito longas horas num único dia de trabalho e bem-vindos ao maravilhoso submundo obscuro dos outsiders da polícia.

- "Mas Novinha, você mandou essa pessoa ridícula para o inferno ou apenas para o raio que a parta?" - pergunta o leitor dos meus pensamentos, desejoso de uma resposta à altura do esculacho que levei.

Calma amigos, porque antes de falarmos das relações brancaleônicas de poder no nosso já desbotado serviço público, informo que essa foi minha primeira operação com esta policial que chamaremos de Cercei Lannister. Na verdade ela não está na mesma missão que eu e a maioria das outras meninas. Minto. Ela está, mas o departamento dela é outro, a função dela é totalmente administrativa e nem arma ela usa.

Agora quero deixar claro que, por eu ser, na maioria das vezes, muito discreta, não estou exposta normalmente a esse tipo de agressão, mas dependo do trabalho dela... Eu pre-ci-so perguntar!

Olhando pelo lado bom da situação, agora saímos da zona da mera especulação para a certeza de que é oficial: estamos num ambiente hostil e iremos atuar nessa medida (é assim que se faz, Hannah Baker).

Não, amigos. Isso não é uma construção do meu hipotálamo, não, tá? O clima aqui não está legal e tem alguma coisa pegando, sim. Havia uma outra colega na cena, até então muito séria e fria como uma rocha, Paulina (nome fictício), que comentou na volta comigo: - "Nossa, não entendi porque ela te tratou daquele jeito". E numa grande oportunidade de ganhar minha primeira aliada na rebarba desse acontecimento... eu fiquei absolutamente calada.

  • primeiro porque se Paulina não entendeu, muito menos eu! 
  • segundo, porque Cercei tem uma considerável influência política junto às chefias do último escalão.
  • terceiro porque Cercei não deixa de ser uma referência forte para as outras policiais que, né, precisam de uma prótese na liderança feminina, devido à saída de Beatrix Kiddo.
  • quarto porque Cercei é do mesmo curso de formação de boa parte das meninas deste setor, o que, em tese, gera entre elas aquela afinidade espontânea. 
Assim, não vou dizer que fiz um voto de humildade franciscana, mas se o silêncio é o santuário da prudência, como apregoa o jesuíta espanhol Baltasar Gracián, é pra lá que eu vou! Ora, se Paulina quer entender Cercei, por que não perguntou a ela?

Aqui pra nós, eu até entendo que seja normal, embora anti-estético, que um policial novato seja tratado com uma certa frieza nos primeiros meses de trabalho pelos mais antigos até ganhar a confiança deles sobre a nossa capacidade, mas aprofundando um pouco mais a leitura, a pergunta que me vem é: em quê, afinal, consiste realmente essa desconfiança dark opressiva dela?

(Como é que eu vou saber, mundo cão?!?)

De qualquer forma, eu não cheguei aqui capinando sentada, né? Ninguém tem ideia da ralação e da honra que é pra mim estar aqui. Esta figura vai aprender a me respeitar naturalmente, porque o trabalho dela também depende do meu.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Pra eu me lembrar de ser humilde.

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Estou conseguindo colher umas dicas legais de sobrevivência com os mais antigos aqui. É que eu ainda tenho essa coragem de acreditar que algumas pessoas sabem que sou nova no pedaço e têm uma certa boa vontade pra "me preparar" para o que pode vir a acontecer. Difícil é separar as fofocas e as histórias de terror daquilo que pode realmente ser útil.

Vejam o caso de Beatrix Kiddo, vamos chamá-la assim. Kiddo era uma policial que trabalhava neste setor antes de mim, legitimamente loira, alta, magra e linda. Por sua competência, ela era o arquétipo de mulher policial de sucesso em que todas nós mulheres policiais, nos espelhamos; uma lenda; uma verdadeira policial do Brasil que dá certo. Segundo a Constituição, Kiddo é o ícone absoluto para aquelas que querem atingir o sucesso e o respeito profissional de forma fina, elegante e sincera. 

Lembro-me de que, quando eu estava ainda dando meus primeiros passos na polícia, precisei do apoio dela em uma missão que vim cumprir aqui e ela agiu com a educação e nobreza de uma rainha. Impecavelmente profissional, porque ela era encantadora assim com todo mundo, mesmo. Nessa época ela já era chefe aqui e eu sequer imaginava ser possível para mim, um dia, trabalhar neste lugar. Não obstante, esta mulher já me mostrava que eu poderia chegar bem mais além do que eu achava ser possível. 

Adoraria aprender diretamente com ela, no dia a dia, mas como ela não está mais aqui, me contento com os spin-offs de testemunhas. Todos concordam que ela tinha o timing perfeito, o tom de voz preciso, a capacidade de intervir cirurgicamente e que ela sabia calcular de cabeça o delta espaço sobre o delta tempo da chegada ou retirada  na hora certa. Ela é talentosa em lidar com bom senso e oportunidade. Não me constranjo em dizer que ela sabe ser na prática o que eu só sei na teoria. Me debato com isso de saber chegar e saber sair o tempo todo. É uma habilidade, ainda pouco dominada por policiais, infelizmente, uma ciência que não se aprende na Academia.

- Certo. E por que então que ela "caiu"?

Boa pergunta. Fontes de confiança me disseram que ela foi dispensada dessa missão porque era "preparada demais, sabida demais, segura demais", dando a entender que foi sua própria vaidade que puxou o tapete dela.

- Sério mesmo? - Pergunto desconfiada. - Daí que eu nem sei por onde começar, amados. O que é isso, afinal, o "Dia Internacional do Mistério"? 

Assim, como policial mirim que sou, venho informar que não tenho como processar essa teoria esquizofrênica, ok? Porque não estou admitindo ninguém colocar "preparo", "sabedoria", "segurança" e "vaidade" na mesma frase. Se é uma pessoa vaidosa, logo, não tem preparo! Não tem sabedoria! E não tem segurança nenhuma!

terça-feira, 2 de maio de 2017

A primeira lotação a gente nunca esquece.

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Então você ainda é aspirante a um cargo nas fileiras policiais e já está providenciando inquietações com a sua primeira lotação? Normal. Aí vão algumas noções preliminares pra você sobreviver às primeiras desilusões do lado de cá.

Antes de mais nada, acho charmoso quem se sente completamente à vontade com a escolha do cargo. Existem atividades típicas de escrivão, papi, perito etc. que estarão na pauta por toda a sua carreira. Logo, tenho muita pena de quem não tem a menor vontade de tocar inquéritos policiais e escolhe trabalhar como delegado ou escrivão, ou de quem é louco com armas e faz prova pra agente administrativo. Mas uma coisa é certa: cada cargo tem seu ônus e seu bônus, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Uma escolha consciente do cargo já vai eliminar boa dose de frustração desde o início. 

O cargo onde a gama de atividades possíveis é maior, sem sombra de dúvida ou empáfia, é o de agente de polícia. Na prática, agentes podem ser lotados em qualquer setor da polícia, do plantão à corregedoria; Do setor de pessoal ao IML; Podem assumir tanto funções mais intelectuais, como aquelas mais operacionais e até administrativas. Têm chance de ter de lidar com o público externo; de trabalhar em grupo ou de cumprir expediente fechado numa salinha. Penso que o maior contingente na minha polícia é formado por ocupantes deste cargo. Assim, pelo menos teoricamente, é este profissional que tem mais liberdade ou flexibilidade de locomoção sem comprometer o efetivo local. Até pra conseguir uma permuta é mais fácil... agora, se só tem um papiloscopista na sua delegacia, normalmente o chefe só vai liberá-lo quando chegar outro pra ocupar o lugar dele. Note, porém, que uns 85% (ou mais, não sei) dos heróis mortos em combate foram policiais ocupantes do cargo de agente.

Claro que qualquer pessoa minimamente sensata entende que pra tudo isso existem cínicas exceções. Então vamos falar das exceções! Por exemplo, o critério técnico às vezes ajuda. Qualquer policial com habilitação para pilotar aeronave, terá boas chances de um dia ser recrutado pra trabalhar na atividade de operações aéreas, não é mesmo? Não tem nada de vil nisso, porque é um policial em 1.000 (10.000, sei lá eu) que já chega na polícia com essa habilidade. E a polícia precisa de pilotos de aeronave! Então, mesmo que ironicamente esse cara tenha sido primeiramente lotado na caixa prego do velho oeste ele tem chances de ser movimentado para este setor específico. Mas presta atenção! Eu disse "chance"... Não estou dizendo que se o cara tem brevê de piloto, certeza que ele vai pilotar aeronave policial... Sei, por exemplo, de inúmeros casos de colegas muito competentes que perderam oportunidades interessantes, simplesmente porque fizeram uma declaração pública infeliz sobre uma licitação mal feita, sobre seus planos de carreira ou sobre o cabelo do Diretor da Polícia. Diagnóstico: "queimado!". Outros não falaram nem fizeram nada, mas deram com a cara na porta por uma simples mudança da política interna do setor. Diagnóstico: "azarado!".

Desmistificando melhor o tema, dos agentes novinhos que chegaram na primeira lotação junto comigo, parece que o primeiro critério para determinação de lotação dentro da delegacia foi a capacidade técnica. Quem declarou habilidades administrativas (licitação, contratos, jornalismo, RH, TI, etc), assumiu funções ligadas a tais áreas. Os demais foram pulverizados nos setores mais carentes de pessoal.

Pelo que observei, as lotações internas mais traumáticas foram a de um colega muito bacana que tinha experiência em tribunal, olhinhos azuis, todo mauricinho que foi designado a cuidar do transporte. Alguém aí faz concurso pra polícia sonhando em cuidar das viaturas? Ficou visivelmente desapontado, mas foi. Ficou nesse setor por uns dois másculos anos e depois conseguiu um lugar pra chamar de seu. Teve também uma colega especializada, que foi para o RH super voluntariamente, feliz e realizada, mas ao assumir a função, bateu de frente com uma agente administrativa, antiga chefe do setor e quase se pegaram. Dava pra ouvir o choro nervoso dela na sala do chefe. Mas todos sobrevivemos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Adaptações.

Mulher-Usando-Coturno

Pela primeira vez na vida, notei que minhas pernas estão, de fato, muito bem definidas, embora eu nem tenha feito muita força pra isso. Apesar dos risinhos dos colegas quando acuso essa minha condição estranha, não era pra menos... porque foi esse o jeito que encontrei de me enturmar com os meninos nesse novo local de trabalho - fazer atividade física com eles - judô, jiu jitsu, corridinha e malhação. A propósito, não quero causar nenhum mal-estar nos demais setores da polícia, mas aqui a gente tem essa graça de, com muita classe e elegância, malhar no horário de expediente. Sim, é parte da programação, inclusive.  

Quero apenas que morram de inveja, pois a grande maioria dos colegas que chegou junto comigo ficou lotada numa seção que facilita o aprendizado e o treinamento. Então além de cuidar do preparo físico, estou estudando a papelada, revendo aqueles pontos mais delicados, tirando dúvidas que surgem no dia a dia e tenho conseguido acompanhar os treinamentos muito bem. Eu precisava dizer isso porque "isso" é condição básica pra quem quer durar pelo menos uns dois anos neste setor aqui.

(O trabalho é tenso às vezes, mas a cada turno de serviço tenho a oportunidade de conversar com um colega mais interessante que o anterior. Nossa! É cada história de vida! Dava pra escrever vários e excelentes livros sobre policiais infiltrados, policiais atletas, policiais especialistas, policiais que cumpriram missão no exterior! É muita riqueza institucional por metro quadrado!)

Sinto-me realmente privilegiada por fazer parte deste grupo, mas não sei quanto tempo vou aguentar, não... A diretoria é muito, mas muito, muito exigente e a carga horária às vezes chega a ser exaustiva! Nessa brincadeira, como você já deve imaginar, vida social é quase zero. Além disso, já sacrifiquei meu cursinho de Francês e só malho no serviço, agora, porque todo o tempo livre que tenho ultimamente é pra ir pra casa cuidar dos meus homens, mas tenho conseguido levar bem.

Minha maior dificuldade por enquanto é que não estou conseguindo me enturmar com as meninas do trabalho... Estou tirando zero nessa prova. Nossas escalas de serviço, treinamento e viagens não coincidem de jeito nenhum e eu simplesmente não consigo ter acesso a elas. Quando passo por uma ou outra no corredor, estão sempre correndo, ninguém tem um minuto pra um café... Sei que tudo leva um tempo pra acontecer, mas tenho muita dificuldade de provar que sou legal pra quem não tá interessada, logo, não provarei. 

Sinto falta de uma coisa chamada amizade que ajuda muito, não é mesmo?

sábado, 7 de janeiro de 2017

Meninas que dormem no banheiro.

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Uma das coisas que mais me deixavam curiosa neste novo local de trabalho, era ver como as meninas daqui atuavam. Eu queria muito saber como elas resolvem coisas que até hoje não resolvi. Não tinha nenhuma instrutora no curso, o que é uma pena, porque elas sempre dão uns bizus para o público feminino. Sim, já tinha visto algumas dessas meninas operando, mas foi sempre de longe, no máximo um olá, ou minutos rápidos daquela conversa formal de quem se respeita e se analisa mutuamente.

Na verdade só fui apresentada ao segmento feminino, informal e acidentalmente no banheiro das meninas. Foi meio traumático, pra falar a verdade. Neste "posto", nós não temos o que se pode chamar de alojamento para repouso. Nos banheiros temos aqueles armários individuais e alguns sofás. Entrei nesse toilete feminino, acendi a luz e bingo... Tinha umas quatro meninas descansando lá, na hora do almoço. Dormindo, né? 

Lembrei-me da aula de bombas e explosivos quando o professor dizia "não acendam a luz quando entrarem num ambiente com suspeita de bombas". Hihihi... Tudo bem, não foi nada, mas sabe? E essa foi minha breve introdução. 

Lembro-me que uma delas, que nem é tãããão antiga assim, estava com uma cara meio grogue de tanto sono. A outra me olhou como quem diz "quem é esta que perturba?". Era eu me explicando, "Desculpa gente, não, era nada não. volto depois"  e blé. Fugi.

Mas isso aconteceu tão logo cheguei aqui. Como eu havia dito, o blog tá atrasado e inclusive, nosso aniversário passou sem postagem especial no ano passado. Pretendo me redimir.

Mas voltando ao assunto, ainda estou procurando por alguma marca de estilo que a experiência delas tenha trazido para nossa atividade. Quero muito aprender algo delas que eu leve comigo depois que eu sair daqui. E que seja exclusivo, porque isso aqui é uma experiência única! Sei lá se estou ficando exigente demais. Simplesmente me recuso a aceitar que a doutrina seja tão masculina assim.

Até o presente momento a única coisa que eu sei, é que as meninas aqui dormem no banheiro e dormem mesmo. Agora, por mais que eu me mate o dia inteiro e esteja exausta na cama por volta de 20 horas quase todos os dias. Eu não vou dormir assim no banheiro, gente. Ou seja, algo me diz que trarei um certo desconforto iluminista ao ambiente. Fiat lux! 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Excelente!

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O curso-de-boas-vindas foi realizado num quartel próximo daqui, e algumas aulas foram em locais especiais (academia dos bombeiros, autódromo, universidade, clube e, claro, estande de tiro). De todos os que já fiz, esse leva o Oscar de "Melhor Conteúdo", "Melhor Grade-Horária" e "Melhor Organização" na categoria.

Tivemos aulas de matérias diferentes que eu não imaginava encontrar nesse tipo de curso. Gostei demais da aula de Direito, de Bombas e Explosivos, de Eventos, de Negociação e muitas outras. Tudo muito estimulante, o que faz a minha percepção trabalhar acesa o tempo todo pensando: "como foi mesmo que eu vim parar aqui?"

Só pelo curso já valeu a pena ter vindo pra cá. Eles são muito bons em valorizar habilidades que a gente não sabia que tinha. Tive chance de alargar meus limites pessoais, vencendo barreiras impostas pelo corpo e pela mente. E as surpresas não acabam aqui, eles têm respostas para algumas antigas perguntas minhas e falam sobre coisas que eu nem sequer sabia ser possível verbalizar, o que me traz o sério pressentimento de que tudo isso que está acontecendo é um grande divisor de águas na minha carreira. Impressionante pensar que tem gente que não tem nem o pingo do "i" que o pessoal daqui tem, e acha que pode criticar.

Eu, por exemplo, não consegui entender o que chamo de algumas anomalias aqui. Daria o prêmio Razzie Awards de "Pior Aula" para "Abordagem". Porque tende piedade! Eu sei que abordagem é uma matéria sempre muito polêmica, mas aquilo foi um verdadeiro fiasco! Aqueles caras aprenderam a fazer aquele tipo de abordagem aonde, produção? Na Disney?!

Enfim, o curso acabou e eu fiz o meu melhor, graças a Deus. Minha classificação final foi a de Zero-Dois com gosto de Zero-Uno, já que o Zero-Uno era um aluno convidado que não iria trabalhar lá com a gente. Gosto de acreditar que isso é uma prova de que ganhou quem apostou em mim como uma boa aquisição para o time ou o treinamento deles estaria equivocado, certo? Eu sei que treino é treino e jogo é jogo, mas se o treinamento deles estiver correto, aqui eu sou titular.

Ps. 1 - O blog tá um pouco atrasado e eu ainda tenho muita coisa nova pra contar.
Ps. 2 - Eu entro na nossa sala e dou de cara com uma colega lendo o meu blog. Cara de paisagem total.
Ps. 3 - Mais um leitor desse blog tomando posse na Polícia. Parabéns "Futuro Investigador"!!! Vai lá gente, dá os parabéns pra galera lá do blog dele!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O legado.


Após uma eternidade, os papéis finalmente tramitaram e eu já estou aqui no meu novo local de serviço. Eles estavam falando sério quando disseram que queriam me trazer pra cá. E eu vim! 

Todos que chegam precisam fazer esse curso e eu entrei de cabeça, sonhando com cada instrução aqui da grade horária. Estou adorando tudo! Anotando tudo! Vivendo tudo com muita intensidade! Só não gosto do professor de tiro que por vezes aponta a arma para os alunos, quebrando regra básica de segurança, o que me deixa extremamente incomodada. Espero que não seja o mesmo instrutor nas aulas de tiro real.

Todos aqueles testes que fiz anteriormente eram meramente preliminares e o que vai valer mesmo são os novos testes que faremos durante o curso. Tudo de novo mais teste de tiro, teste teórico e outros que ainda não sei bem como serão e eu não posso fazer feio. 

Bom, o que posso dizer para início de conversa, é que eles são extremamente organizados. E nossas sinapses disparam no sentido de concluir que tem dedo de militar aí, não é mesmo? Mais um desafio: ser organizada.

A divisão do trabalho aqui é completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto antes. Sim, porque as funções são muito diferentes. Aqui não tem delegado (não disse nada e a mente humana já fica pensando maldades). 

Existe um roteiro que você deve seguir assim que se apresenta na casa. Você é recebido no Gabinete, depois se apresenta no setor de pessoal, entrega documentos, 22 fotos, vários exames médicos, tem que tomar vacinas, daí você recebe uma cartilha, com várias informações úteis e sobre o passo a passo de quem está chegando. Recebe seu crachá, equipamentos de treinamento, apostilas impressas que não pode copiar e um monte... um montão de procedimentos padrão operacionais... que não sei se funcionam, mas acho isso fascinante!

Você policial que como eu chegou completamente perdido na sua lotação e a cada dia descobre algo novo que deveriam ter te falado no dia em que se apresentou, sinta-se consternado, porque aqui tudo isso está devidamente escrito e organizado racionalmente! Além disso, existem livros sobre a doutrina da casa, existem cadernetas impressas com check-lists de assuntos gerais e existem manuais sobre procedimentos operacionais. Amigos, tem mais material escrito aqui do que eu já li em toda a minha vida na polícia a respeito do tema. 

Então... era disso que eu tava falando!

Sabe aquela sensação do nerd que vivia sofrendo bullying na universidade e no fim é selecionado pra trabalhar tipo na Apple? Igual!

Vou explicar melhor, quase todos os setores onde já trabalhei antes eram movidos pelo empirismo. Cada um executa do jeito que sua experiência determina. Logo, se você não tem experiência, não tem nada! Sim, porque pra eles, ser organizado, escrever procedimentos, conhecer e seguir a doutrina era sinônimo de engessamento, uma coisa obsoleta, inflexível. De onde eu vim, instruções normativas só são normalmente escritas quando algum grande erro de colega o justificasse. O que não significa que o ensinamento seria passado para as gerações futuras. Resultado: aquela insegurança de novinho que vocês já viram nos textos passados, né, e um enorme desperdício de tempo pra quem chega e precisa reinventar a roda em cada operação. 

Portanto, quase tive um acesso de alegria quando solenemente recebi esse material todo escrito. Pra mim, é como se fosse um legado de quem passou por aqui antes e contribuiu. Muito obrigada, antigões, eu vou saber honrar as gerações passadas e sinalizar para as que vierem depois de mim.


domingo, 26 de junho de 2016

Expectativas.




Não sei se pelo fato desse recrutamento ter corrido a boca miúda, ou se não era interessante para tantos colegas melhores que eu na polícia, mas parece que está dando certo! Até recebi ligações de alguns colegas da época do curso de formação na Academia querendo me cumprimentar. 

Por falar em carreira, preparei meu currículo para entregar oficialmente e fui deixar lá no escritório deles. Claro que eu poderia ter mandado por e-mail ou pelo correio. Poderia ter deixado no protocolo, mas não. Eu quis subir e conhecer logo meu futuro chefe, que é um homem extremamente charmoso e que me cumprimentou com um beijinho no rosto, o que eu não esperava. Vamos chamá-lo de Charles Dance.

Me pareceu um homem inteligente do tipo que se diverte lendo Robert Musil, Boris Vian, Kafka... e manipulador! Sim, manipulador. Mas só depois de ter saído daquela sala foi que entendi a mensagem que ele quis transmitir e fiquei pensando nisso a semana inteira! Ou ele tem preocupações políticas que não estavam no meu planejamento ou ele tem tendências terroristas. Agora percebo que pra me dizer isso houve uma espécie de encenação e que ele estava controlando tudo ao nosso redor, a tonalidade dos elogios, a temperatura do ar condicionado, o sorriso fácil, etc. 

Mas sabe que foi ótimo eu não ter percebido nada durante aquela visita? Ficou parecendo que eu nem dei bola pra pilha que ele lançou sobre a minha vaidade. Sim, porque eu estava muito feliz, muito à vontade, muito autoconfiante, muito selecionada ou seja, completamente burra para entender a mensagem dele naquele momento. Afinal era eu a policial que se destacou nos testes... haha! "Sim, sou eu mesma, muito prazer" (adoro um reconhecimento!). E aquela roupa que escolhi pra uma visita informal estava combinando perfeitamente com o design do meu histórico. 

O problema é que agora estou com medo de não corresponder a tantas expectativas. Sabe quando você sente que não é bem aquilo que está lá no seu currículo? Não que eu tenha escrito alguma mentira ou exagerado em algo. Mas meu currículo, que é muito melhor do que eu, agora me acusa de pedantismo! Porque se no meu currículo eu contasse, não aquilo que já fiz, mas, por exemplo... o que senti, o resultado da seleção poderia ter sido outro! Medo de ter criado expectativas elevadas demais para o meu padrão. E é isso: nem comecei e já estou sentindo muita pressão. 

domingo, 15 de maio de 2016

Audácia.


Pra falar a verdade, não sei bem onde termina a audácia e começa a insanidade mental, portanto, relevem.

Eis que me telefonaram perguntando se eu estaria livre na terça-feira às 16 horas para fazer os benditos testes físicos preliminares. Na terça-feira?! Cara, quem marca um teste físico no meio do horário de expediente?! Não, infelizmente não vai dar! Esqueceu que o fisioterapeuta me avisou pra pegar leve com as tensões dos tendões do meu pé direito?

- "Claro!" Respondi, imediatamente. "Pra mim, terça-feira tá perfeito!" E isso foi suficiente pra eu me sentir uma tonta de tão contente.

Então fiz o reconhecimento dos locais das provas. Estudei o terreno. Repassei as estratégias. Reatei aquele relacionamento sério com meu tênis velho (agora fico emotiva quando falo de tênis velhos). Assisti novamente "Até o Limite da Honra". Não me julguem, algumas pessoas fumam maconha, outras roem as unhas, há quem faça infiltração ou vai dopado mesmo... eu assisto filmes motivacionais. E é tanta inspiração, adrenalina e dedicação na tela que me sinto bem capaz de mandar o aedes para o aegypti ou provar que a hipótese dos números primos de Riemann é verdadeira.

Dor no calcanhar?  Que dor??? Não, senti nada! Só um carinho enorme quando meu bem marcou o tempo no último treino no domingo pra mim e a sensação de satisfação em ver a cara de contentamento do meu avaliador após cada teste.

Uma mulher que se supera no dia do teste é aquele tipo singular que não necessariamente quer ser uma atleta e ganhar medalha, mas ama perder o fôlego no beijo da vitória suada.

Aliviada agora e bem confiante. Mas, por ora, apenas comemorações conscientes de que este foi apenas um de uma bateria multidisciplinar de testes objetivos e subjetivos a que vamos nos submeter. "Sorria, Novinha, você está sendo anotada".

sábado, 16 de abril de 2016

Vírgula.

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Queria escrever esse post usando muitos pontos de exclamação, só que ainda não, vírgula.

Decidi, super de boa, reunir todos os dias e horários livres que tinha para treinar para aquele teste físico importante de que lhes falei. Férias, horas acumuladas, feriados e parti pra treinar sério, com acompanhamento personalizado, sabe? Porque isso significa escrever meu nome no hall de mulheres que fizeram proezas nesta polícia. Só que parece que fui com muita sede ao pote e machuquei o tornozelo. Está enorme de inchado. Um minuto de silêncio, por favor.

E agora vamos exercitar a paciência e começar tudo de novo, torcendo obviamente pra que  não nos chamem para os exames enquanto durar o tratamento. Dói demais ver o sol lá fora me chamando pra vida, mas vai ter que esperar. Me entrego nas mãos dos fisioterapeutas, agora. Poderia me mudar pra clínica de fisioterapia porque tenho horários de manhã e de tarde. Todos os dias.

O médico disse que foi só uma coisinha muscular essa dor aguda e que vai dar tudo certo. A professora da natação disse que vai dar tempo, sim. Isso deveria amenizar a ansiedade, mas sou tomada pela dúvida sobre se eles perceberam algo de desespero na minha condição e não ousaram me contrariar nesse momento crítico. E ainda tem gente que acusa os médicos e professores de serem frios... Mentirosos, no máximo.

Chego em casa e quero ficar sozinha com umas questões: "Será que não vai ser dessa vez?"; "Deveria ter pegado leve, né, novinha!!!"; "Seriam estes dois quilinhos que provocaram todas essas reticências?"; "Ou será que foi o peso na consciência de estar abandonando a galera daqui?". São minhas dúvidas, inchando mais que o tornozelo.

Acabou não, tá? Vírgula. Aquele tênis novo, além de me custar o olho da cara levou também a unha do dedão! Não tá doendo, não, mas me disseram que vai cair... Como vou correr sem unha? Nunca mais vou usar uma rasteirinha? 

Vamos todos dar as mãos neste momento, respirar fundo e aguardar passar a tempestade. É o que temos pra hoje.

AAAAHHHHHHHHHHHHHHHGGGGGHHHHHHHHTTTTTTTT!!!!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Dias de treinamento.






Imagine que você está viajando em missão e o telefone toca. Após breves instantes de hesitação, você decide atender mesmo sem conhecer o número e... voilá! Era o cara que havia feito aquele convite pra você trabalhar com eles. Você vibra de felicidade porque tem muito interesse nisso sim. Entende que aquela ligação poderá te deixar a apenas alguns passos do auge da sua carreira policial. Você confirma que seu interesse é para atuar na ponta da lança. Porque às vezes eles também têm interesse em policiais que dominem áreas de computação, análise de inteligência, etc. Você quer apenas continuar fazendo o que gosta num nível acima.

Ele confirmou que o interesse deles é que você realmente atue na área operacional, mas que é preciso antes se submeter a alguns testes, entrevista e tal. Ele pediu um currículo atualizado com seus dados e você sabe que eles farão alguns levantamentos de inteligência sobre você. Ser testada é uma coisa que te dá barato. 

Após desligar o telefone você questiona por alguns instantes se dessa vez vai dar certo mesmo, mas tinha alguma coisa no jeito como ele falava ao telefone que te diz que agora é pra valer. Ele te quer mesmo sendo você apenas uma reles marrentinha sem muita verve de autoridade, mas que ele viu desenrolando com desenvoltura as paradas em inglês junto aos Noruegueses aflitos. 

Tinha uma coisa meio paternal na voz dele. Mas também pode ser seu subconsciente querendo afastar aquela impressão de que ele estava apenas te paquerando enquanto te olhava trabalhar naquele dia. Um gato daqueles te dando bola, hein!? Mas essa teoria já foi patenteada pelo delegado seu chefe, pra quem está claro que um convite desses não seria, digamos assim, exatamente por conta da sua competência profissional. Nessa hora você quer mandar um beijinho no ombro pra ele, mas coldrea, afinal sua liberação depende de sua boa vontade e sigilo, senão mandam um DeMO no seu lugar (delegado metido a operacional).

Imagina...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Que fase é essa, minha gente?



Às vezes sinto que a minha carreira policial está muito acelerada. Essa história de eu chefiar operações... Sou nova demais, amigos, muito inexperiente pra esse tipo de coisa. Aí, hoje, fiz as contas e descobri que tenho sete convites recém recebidos: três são pra trabalhar fora da polícia, os outros quatro são pra trabalhar em áreas mais ou menos interessantes aqui dentro mesmo. E eu procurando as câmeras pra ver se não era nenhuma pegadinha.

Estranho, pois são coisas que só vejo acontecer com policiais que estão no final de carreira. Roger Murtaugh saiu da Polícia por conta de um convite. Jack Bauer e o Guerreiro idem e vários outros colegas que trabalhavam com o Jack.  Tentando avaliar direito como isso tudo foi simplesmente acontecendo... Incapaz de entender. De qualquer forma sinto-me feliz por ver meu nome na mesma frase que qualquer um desses outros policiais acima citados.

Espera, na verdade eu não deveria considerar aquele primeiro convite simpático que cruzou meu caminho. Aquele pra trabalhar no exterior, porque né. Ninguém falou mais nada sobre o assunto. Embora eu tenha ficado super empolgada, sinto que não vai dar em nada mesmo.

Também não deveria levar em conta aquele convite pra voltar pra delegacia onde tudo começou. É porque um chefe novo (muito amigo do Guerreiro) assumiu uma área que sempre me interessou. Mas diante de tantas propostas aquilo já não me interessa mais. Tenho a impressão que voltar pra lá seria regredir na carreira. Mas foi um convite.

Tá, teve também um desses convites que não chegou a ser um convite, porque o pessoal só disse que seria muito interessante se eu trabalhasse com eles, sabe? Não chegaram e disseram exatamente "Vem trabalhar com a gente, Novinha". Mas eu sei que se eu quisesse mesmo trabalhar lá seria legal. Seria muito, muito interessante.

Veja bem, é que também tem esse um outro convite aqui que não vale a pena considerar, porque zero intenções de trabalhar na área burocrática. Agora não! Mesmoooo. Mas vai que amanhã eu pense diferente... Deixa aqui.

E teve também um outro convite que não sei se deveria realmente levar a sério. Sabe por que? Porque o chefão só me chamou porque eu fui fazer uma discreta sondagem com ele sobre um outro convite recebido. "Se eu soubesse que você estava querendo sair do seu setor eu teria chamado você pra trabalhar aqui comigo". Humm. Qual foi o objetivo dele ao dizer isso, amigos?

Mas, chega. Não vou ficar desconsiderando todos os sete convitinhos que recebi, porque independente de qualquer coisa, eu só queria compartilhar que a sensação foi muito boa e isso, por si só já vale a postagem. 

Agora, tem um convite aqui, minha gente, que eu toparia até pra ganhar menos. Sem demagogia! Vamos supor que eu reserve os últimos cinco anos de minha carreira policial pra juntar um dinheiro para minha aposentadoria, porque agora, não vou me preocupar com isso, não. Só consigo pensar que eu quero mesmo é continuar curtindo a vida policial à enésima potência. E lá eu sei que a diversão é garantida.

Se eu passar nos testes, claro.