sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Mais moderno.

 
 
Chegou um novinho de sorriso doce e olhos tristes aqui no meu setor. Vindo lá de onde o vento faz a curva. Ao ouvir as perguntas sonhadoras dele, aproveitei, por alguns minutinhos, pra representar o papel de  "antigona". Interessado, ele queria saber tudo com voracidade. Me peguei dando conselhos serenos a ele, com aquele ar de quem quer passar uma sabedoria calma, que alerta para os perigos . Foi então que percebi que não sou mais uma novinha. O tempo passa e eu aprendo, aprendo, aprendo e coleciono experiências que escrevem minha história. O que pra quem tá chegando já é muita coisa. Olho para as dificuldades que temos de enfrentar todos os dias sem deixar que elas queimem meus olhos. Resgato lá no fundo alguma coragem e sigo em frente com fé em Deus.  Nessa estrada, cresci bastante como pessoa, ardi em desafios e aplaquei obstáculos teimosos.  Esqueci o que é ficar esperando uma tempestade passar. Quero estar acesa na chuva cumprindo a missão, mesmo quando sinto medo ou aquela dorzinha na alma. Dor de humanidade? Com a chegada desse novinho, fiquei grávida de uma nova responsabilidade. E falando assim, me sinto até mais forte. Tanto. Só porque sinto sangue novo e vivo entrando nas veias. Seja muito bem-vindo, novinho.
 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Quatro anos do Blog Mulher na Polícia.

video

Galera, presta atenção na letra e esquece o mico de aniversário, porque os policiais desafinados também têm um coração (risos).

De janeiro a janeiro
(Roberta Campos)

"Não consigo olhar no fundo dos seus olhos
E enxergar as coisas que me deixam no ar, deixam no ar
As várias fases, estações que me levam com o vento
E o pensamento bem devagar

Outra vez, eu tive que fugir
Eu tive que correr, pra não me entregar
As loucuras que me levam até você
Me fazem esquecer, que eu não posso chorar

Olhe bem no fundo dos meus olhos
E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar
O universo conspira a nosso favor
A conseqüência do destino é o amor, pra sempre vou te amar

Mas talvez, você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor, não será passageiro
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar".

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Basta querer.

 
Tenho tido experiências que me fazem acreditar que dá pra fazer. Que dá pra mudar. Basta querer. Talvez o que eu faça não seja muito, mas é o que está ao meu alcance e é o que vou fazer. É pra isso que estou aqui e essa é a minha contribuição. É o que dá pra mudar agora. E embora o cenário seja parecido com aquele da Zumbilândia, aqui a-gente está fazendo. Aqui, graças a Deus, a-gente tem conquistado respeito e feito esse distintivo brilhar mais forte ainda.
 
Após o incidente com o procurador, não consegui pegar nada que se referisse a uma suposta corrupção no setor. Nada. Nem quero pegar pra falar a verdade. Mas aquilo me deu uma certa moral perante os terceirizados. Eles me respeitam, confiam. E eu tenho explorado isso.
 
Primeiro, tomamos providências para que os procuradores e o público em geral só tenham contato com os policiais (isolamos os terceirizados), o que me fez sentir bem mais tranquila e deixou a Dama de Ferro extremamente satisfeita.
 
Segundo, chamei pra mim o controle da produtividade dos meus terceirizados e percebi que havia um certo acordo malandro entre eles para que a produção não fosse tanta assim, o que evitaria um possível e consequente alargamento das metas diárias. É mole? E é porque a galera jura que precisa desse emprego... Eles preferem ter tempo livre pra bater papo, pra ficar na Internet, fazer trabalhos da faculdade, estudar pra concurso e passear pelos sites de relacionamento.
 
Eu até poderia fazer vista grossa se a papelada aqui estivesse em dia... mas quem não fica indignado vendo uma mesa cheia de trabalho por fazer e a terceirizada O DIA TODO marcando encontro para encontrar o "Par Perfeito" dela em sites de... né? Essa não teve jeito, foi devolvida para a empresa. Agora, passei a divulgar abertamente com gráficos a produtividade individual e, claro, a premiar os mais produtivos.
 
Resultados: 
 
1- Conseguimos organizar as demandas por ordem de chegada (o que me respalda contra qualquer tentativa de advocacia administrativa, tráfico de influência e essa coisa toda) e toda a papelada atrasada já está zerada, o que diminuiu sensivelmente o número de telefonemas externos (reclamações de contribuintes) que precisávamos parar o serviço para atender. Agora, gente, o trabalho aqui está em dia! Aleluia!
 
2 - Olhando os gráficos que fizemos, a Delegada Conterrânea resolveu me passar a incumbência de preparar as estatísticas de toda a Divisão. E isso, meus prezados amigos, é o que você ganha por tentar desenvolver um bom trabalho: mais trabalho. Lerê, lerê...

sábado, 30 de novembro de 2013

Na trave.

 
Olha... eu não tenho mais saco pra ouvir você reclamando que a polícia não tem carro blindado. Eu já sei que não tem e que deveria ter. Eu já sei. O que eu não entendo é porque, então, que você sai pra operação sem colete à prova de balas, já que, né?
 
Você arrota que nenhum ser humano é capaz de operar "inteiro" após doze horas de serviço ininterrupto. Claro que não é. Mas acontece. Eu, porém, te garanto que esse teu precário preparo físico, meu amigo, não te dá autonomia nem de duas horas de serviço ininterrupto.
 
Você reclama que as viaturas policiais não têm computadores interligados aos sistemas de informação pra você fazer consultas de emergência na rua e  blá, blá, blá, mas peraí... você perdeu o prazo de recadastramento da senha do INFOSEG?
 
Você reclama que a Administração não te paga horas extras de trabalho, mas vejo que você jamais reclama de ficar horas e horas na seção olhando as redes sociais da internet ou fazendo negócios particulares no telefone da Administração.
 
Meu querido, você reclama da falta de equipamentos necessários na polícia. Falta equipamento, mesmo. Mas eu já vi você sair pra diligências desarmado, aliás, nem lanterna tática você tem... Meu fi... nem o cinto de segurança da viatura... você usa!
 
Me dá nos nervos quando você reclama que não se sente valorizado pelo seu tempo de serviço. Ora é notório que você só quer trabalhar nos "grandes eventos", seu fanfarrão. Você não se qualifica, não quer fazer um curso, não quer botar a cara pra bater... e quer andar na janelinha?
 
Agora você reclama do planejamento "mal feito", mas você estava lá no briefing e ficou o tempo todo calado, emburrado, mal humorado. O Coordenador perguntou se alguém tinha sugestões, se o pessoal mais experiente gostaria de fazer alguma colocação... você ficou ca-la-do.
 
Já sei... você quer saber quem sou eu pra te criticar, né? Eu sou uma novinha que ainda nem sabe direito se fica na polícia. Não tenho nem de longe a experiência que você tem, mas tenho naturalmente te observado, afinal você é mais antigo, e foi essa a dica que me ensinaram na Academia. Mas, pra mim, são pessoas como você que estão acabando com este órgão. Você não me representa; você não me inspira; você não é, pra mim, um referencial.
 
Posso te dar uma simples sugestão? Primeiro, tire a trave do seu olho pra depois tentar tirar o cisco do olho do seu irmão, ô palhaço.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Corruptus non olet.


Você acha mesmo que o corruptor tem escrito na testa "Estou tentanto te corromper"? Tem não. Na droga da testa do corruptor não tem NADA escrito. Absolutamente nada. Nem cara de corruptor ele tem, sabia? Nem jeito... Esse filho do demo do corruptor não tem cheiro de corruptor nem de enxofre.

Acho que nessa semana um procurador tentou me corromper. No meu trabalho, eventualmente libero documentos para as pessoas. Às vezes faltam requisitos legais e alguém toma altos prejuízos financeiros pela falta do papel. O Brasil é muito criticado mundialmente por tanta complicação e burocracia pra resolver coisas simples. Eu tento ajudar arduamente, na medida do possível, mas tenho muito poder (e motivos fundamentados legal e socialmente) para dizer "não".
 
Um desses procuradores que as pessoas contratam pra viajar e resolver coisas em órgãos públicos, deixou ou "esqueceu" um pacote pardo, do tamanho de uma caixa de perfume em cima da minha mesa e saiu. Não era um perfume e não estava envolto em papel de presente. Não sei se foi no momento em que ele conversava comigo ou se foi numa hora que eu precisei sair da sala. Só sei que vejo sempre ele aqui nos corredores.
 
Quando voltei pra mesa, sempre com mil e uma coisas na cabeça, percebi o pacote. Perguntei pra galera quem tinha deixado aquilo lá e ninguém tinha noção. Tem umas trinta pessoas na minha sala e ninguém soube explicar? Vai pro raio que o parta, né? Uma luzinha amarela de alerta piscou na minha cabeça feito um rotolight e uma setinha vermelho intermitente acusava o procurador! 
 
Peguei o volume e fui atrás dele no corredor. Senti uma movimentação estranha na sala. What the hell is going on? Uma das contratadas quis me dizer alguma coisa mas não disse. Algo no sentido de "deixa disso". Mas não. Ótimo, pois eu... não queria ouvir.
 
Bom, encontrei o procurador no corredor e entre dar logo voz de prisão em flagrante pra ele e investigar se era mesmo o que eu estava pensando. Optei por mandar um recado, um spam(talho) pra geral. Cheguei pra ele com o embrulho na mão, diante de olhares curiosos dos terceirizados da minha sala e disse: "o senhor esqueceu isso na minha mesa". Ele concordou sem graça tentando ser educado e levou o embrulho (se era pra ele entender, entendeu, porque ele deu aquela gaguejada. Sabe aquela amarelada beeeem característica?).

Cara... pra você pode ser tudo muito óbvio... mas eu tenho dúvidas. E se não fosse nada disso? E se fosse um bolinho de rolo que a avozinha dele mandou pra mim? Hein? E se fosse um pedido  de casamento? Ramás saberemos! Mas tem uma coisa. Se acontecer de novo, eu vou mandar esse capeta desgraçado pro inferno!

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Doeu.




- "Elas são policiais mas são legais".

Frase que a amiga da minha colega falou pra sobrinha dela de poucos aninhos e riu.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O casamento da minha melhor amiga.


Há situações na vida que fazem a gente se sentir um artista de picadeiro. "Senhoras e senhores, uma salva de palmas pra Novinha! Ela acaba de perder sua melhor amiga por causa de um amante dela" (da amiga, hein!).

Onde já civil... Arrisquei a amizade de uma vida (ou talvez uma vida de amizade, sei lá!) pra salvar um casamento e consegui! Marido e mulher fizeram as pazes, estão se entendendo sozinhos, como tem que ser. Os filhos agradecem. De nada. Porém, nenhum dos dois quer mais falar comigo. Ok, ok! Não está mais aqui quem só falou a verdade! Adiós, amiga... Em frente.

(Sou do tipo de pessoa que nessas horas pensa seriamente se não deveria ter investido meu precioso tempo no amante. Ops!)
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ninguém é insubstituível.


Além de elogios e do reconhecimento institucional, existem sim, muitas outras formas bem mais sutis, mas não menos importantes, de você se sentir verdadeira e excitantemente prestigiado na polícia.
 
Já tinha ouvido o nome dela ser pronunciado várias vezes por outros colegas da polícia. São essas interligações cognitivas positivas que dão sentido racional ao termo "policial de renome" que ela é. Antigona, daquelas que fazem parte da escola de policiais que, apesar de tudo, escrevem em caligrafia impressionantemente artística sua história na polícia. No mesmo nível do Jack Bauer, do Roger Murtaugh, da Cigana, ela tem lugar de honra na minha Galeria de Heróis Policiais Vivos. 
 
Casada com um também respeitável colega da minha gloriosa polícia (o marido dela é outra lenda!). Têm filhos. É atiradora de elite em várias modalidades de tiro. Pra você ter uma noção, ela é tão especial que dá aulas na Academia, mas só em cursos selecionados para quem já é policial especializado. Dá aula pra novinho não, entendeu? Tudo na vida dela parece que foi simbioticamente selecionado. E mais: ela tem aquela cara metafórica de "decifra-me.ou.te.devoro". Esse equilíbrio poético que ela vive me inspira melancolicamente, me estimula a querer crescer. Quero muitomuitomuito ser igualzinho a ela quando crescer.
 
Tivemos uma conversinha rápida por esses dias. Além de linda, notei nela uma simpatia singular! Mas o melhor de tudo é que, pra minha surpresa, é ela quem está me substituindo lá no setor onde eu trabalhava antes. Ou seja, sem chance de eu voltar pra lá quando terminar esse meu período temporário aqui. Mas te juro que não tive o menor problema com isso. Fiquei feliz. Fiquei sim!
 
Segue a tríade do meu pensamento dissertativo em prol dos motivos que me restam para rir da minha própria tragédia, drama's.queen.
 
Primeiro porque aquele lugar é "peruado". Muitos colegas homens queriam trabalhar lá. Mesmo assim, colocaram outra mulher no meu lugar (Às vezes passava pela minha cabeça que eu só estava lá por um capricho do Roger. Porque soube que se a equipe fosse do Jack, nenhuma mulher teria a menor chance - por puro machismo, óbvio!) Se eu tivesse pisado na bola, a minha saída seria uma oportunidade para generalizarem e defenderem que ali não é lugar pra mulherzinha. Só que não. Mesmo que o Roger já esteja aposentado, o chefe atual manteve a ideia de ter pelo menos uma mulher entre os oito.

(Roger recebeu uma senhora proposta na iniciativa privada, e se aposentou enquanto eu estava fazendo aquele curso com os militares).
 
Segundo porque se ela está lá, aquela função é realmente estratégica, é política. Ou seja, não é pra quem quer é pra quem não vai atrapalhar o que já foi conquistado. Pelo fato de ela ter sido designada pra trabalhar lá, eu posso te garantir que a função está sendo muito valorizada. Pode crer.
 
Terceiro, se ela foi pra lá, pelo menos teórica e metafisicamente falando, é pra dar continuidade ao que eu vinha fazendo, certo? (risos e ataques histéricos de euforia).

Conclusão: caraca, moleque... isso pra mim é a glória.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Madrinha de casamento.

 
Vou todos os meses à minha cidade pra me consultar com meu médico (que na verdade é o médico da minha família). Estou gastando horrores por não ter conseguido encontrar um médico da minha confiança nesta cidade, mas em contrapartida, tenho tido mais oportunidades de rever meus amigos antigos. Era pra ser uma vantagem.
 
Só que, numa dessas viagens, uma grande amiga minha me contou que tinha recém traído o marido. Por que ela me contou isso? Porque somos confidentes, temos essa mania adolescente de confessamos mutuamente os nossos piores segredos. Por quê? Porque nos conhecemos bem, ao ponto de sabermos que por pior que tenha sido o deslize cometido, não haverá julgamentos, nem apedrejamentos, nem lições hipócritas de moral. Ou seja, ela não esperava que eu fosse tomar as dores do marido dela que também é meu amigo.
 
Dei corda, perguntei como isso aconteceu e ela se esqueceu de que estava, até então, fazendo o gênero arrependida.perdida.e.sem.saber.o.que.fazer. Me contou uma história muito de cinema. Lembrou-se até da trilha sonora que era a música da Adriana Calcanhoto que rolava no apartamento do cara, quando ela decidiu ficar com ele naquela tarde... Aquele momento em que você entende que sua amiga foi abduzida para o mundo fantástico da ilusão.
 
Preciso avisar que sou dessas que ficam querendo tomar as rédeas da vida da pessoa quando vejo a vaca indo para o brejo... Podia ter dito pra ela refletir um pouco sobre suas ações; podia ter dito pra ela procurar ajuda psicológica; podia ter dito pra ela se proteger... Só que não. O que eu disse foi: "Liga pra esse cara agora e termina essa palhaçada. Não vou sair daqui enquanto você não acabar com isso". Eu sei, eu sei, eu sei, mas oi! Eu fui madrinha desse casamento. Ela? Riu da minha reação, né, e inventou uma desculpa qualquer pra não ligar naquela hora, reconhecendo que isso era uma loucura e prometendo que poria, sim, ~depois~, um fim nessa história. Não sei dizer porque eu achei que tava com essa moral toda, mas foi meio que  mais forte do que eu.

Daí que me deu um medo danado, uma indignação esquisita e uma vontade de falar: "ô minha filha... Você tá casada porque quis". Ah, gente, pôxa... não tem dor pior do que traição, tem? Mas me lembrei de que ela sabe exatamente como é a dor de ser traída, porque foi o marido dela quem traiu primeiro. Deixei quieto. Porque ela sabe como é essa dor de ser traída. Foi o marido dela quem traiu primeiro.
 
Cara, enfim. Estou contando essa história apenas pra dizer que além de estar atolada em serviço até a tampa, ainda preciso parar tudo o que estou fazendo pra atender o marido dela, meu amigo, que me telefona chorando várias vezes durante o expediente, se contorcendo em desespero, angústia e dor. Ela mesma contou pra ele.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Quem é o inimigo?




A Dama de Ferro me chamou na sala dela pra dizer pra eu me instalar logo na sala do barulho. Prefiro ficar na sala da delegada que eu estava substituindo porque ali é bem mais tranquilo pra trabalhar. Se já estou assumindo duas funções será que pelo menos minha sala eu posso escolher? Não. Porque o problema é outro. Ela desconfia dos terceirizados e quer que eu faça uma espécie de vigilância/auditoria naquele setor. Pelas barbas de Judas, Batman!
 
Sem querer questionar as habilidades em Análise Comportamental da minha Delegada-Chefe, mas sinceramente não sei se o que ela me falou faz algum sentido. Pra mim, ela tem preconceito econômico com a galera que ganha mal no nosso setor. Só isso. Até porque não existe nada acontecendo de concreto. Não que a equipe de policiais saiba. Mas é forçoso admitir que desconfio que meu desconfiômetro apresenta defeito de fábrica. Posso muito bem estar sendo iludida pelo meu lado paternalista (maternalista, no caso), que faz com que eu sempre me identifique com os menos favorecidos.
 
Nem sei, mas é prudente alertá-los de que tem coisas que acontecem bem na minha frente e eu pateticamente sou a última a saber. É sério! Uma colega que eventualmente me dá carona para o curso que estou fazendo à noite acabou de me dar uma senhora cantada gay e eu nunca imaginava que essa mulher fosse... enfim. Só faltou ela desenhar pra eu poder entender que ela estava me cantando, rosários bentos! Eu sou uma pata completamente sonsa, meu pai tinha razão. Na Academia eu apostava todas as minhas fichas que determinado colega era completamente gay, mas depois eu soube que ele saía desde o início do curso com uma colega casada do meu alojamento! Ou seja.
 
Mas por outro lado, se eu tivesse que montar uma vigilância em cima de alguém nesta divisão seria no alto escalão, haja vista que uma dormia com o inimigo; e outra tem graves antecedentes na Corregedoria. Isso é o que eu chamo de pressupostos concretos do imperativo categórico kantiano e fundadas suspeitas para uma investigação nesse sentido. Mas não estou afim de fazer isso, não. Tem setores na polícia cuja função é exatamente essa. Só quero provar que, preconceito por preconceito, sou mais os meus! De qualquer forma, já pedi mesa, cadeira e acessórios apropriados pra me mudar pra sala dos terceirizados. Vou ficar lá e deixar a Delegada-Chefe com a sensação de controle que ela precisa ter. Vamos ver até onde ela vai com essa história.
 
Queria tanto viver a irresponsabilidade de ser casual, mas é complicado trabalhar com essa desconfiança toda. Leio tudo nos mínimos detalhes e não assino nada antes de entender a verdadeira motivação de cada documento. Não posso errar, pois qualquer descuido poderá ser usado contra mim, caso eu descubra mais do que desejo. Já tenho certeza disso.

sábado, 28 de setembro de 2013

Amo você.


Você é um menino no corpo de um homem descalço, e eu morro de rir das suas manias bobas. De você me cobrir com edredom,  num ritual largo, quando está quente. Às vezes, não posso fazer nada porque já estou dormindo. Então acordo de madrugada com vontade de jogar aquele edredom pela janela do quarto. Janela essa que você adora esquecer aberta quando estou com frio.

Gosto de perceber como você fica feliz quando eu estou feliz. E me sinto pesada quando sei que você está triste porque eu estou triste. Aí o jeito é dar um jeito de ficar bem pra você ficar bem. Logo, você me faz bem, porque eu preciso estar bem pra você ficar bem.
 
Gosto quando você está deitado de lado na cama e eu fico olhando para as suas costas gigantes em forma de montanha russa, que começa lá em cima na linha do ombro e desce perigosamente até o vale da cintura. Eu fico torcendo pra você virar para o meu lado, porque não tenho coragem de perturbar seu sono. Espero, ansiosamente, com todo o meu corpo, que alguma parte da sua pele encoste em mim. Combina demais com o meu sono o seu nariz respirando poesias no meu pescoço.
 
Eu gosto quando me levanto da cama devagar pra não te acordar, mas você percebe e reage assustado como se tivesse me deixando escapar. Até parece... Então você me chama pra cama de novo dizendo que precisa me falar uma coisa muito importante, como se eu já não tivesse manjado há séculos essa sua estratégia engraçadinha.
 
Eu gosto quando é você quem está dirigindo. Eu digo que você dirige mal e você briga comigo. Depois passa a marcha e descansa sua mão enorme, displicentemente perdida na minha perna. É uma rasteira sutil no meu equilíbrio. Eu sempre coloco minha mão em cima da sua pra prorrogar o momento até chegar a próxima redução de marcha, num círculo vicioso.
 
Posso ficar horas explicando porque gosto de você mas você não acredita. É porque você é bobo demais. Mas eu não me importo. Não precisa pedir desculpas porque eu gosto disso também: você é bobo demais!

domingo, 15 de setembro de 2013

Arrogância.

  
Na semana passada ouvi de relance uma conversa de corredor entre a Dama de Ferro e uma funcionária terceirizada sobre meu destino. Ambas estavam quase em frente à minha porta e a moça precisava da decisão da chefona sobre se eu assumiria ou não a função do Agente que estava na iminência de deixar aquele setor, ou se eu continuaria fazendo o trabalho da Delegada que saiu de férias e não voltou mais porque foi movimentada para outra cidade. De que jeito ela conseguiu essa proeza, jamais saberemos.
 
Foi engraçado. A Dama de Ferro respondeu solenemente com aquele ar autoritário, marca fiel da personalidade empinadinha dela: "A Novinha vai acumular as duas funções". Neste momento o olhar dela me achou lá no fundo da sala (medo) e por fim, complementou, sorrindo igual à Mortícia Addams: "A Delegada Conterrânea da Novinha disse que ela é inteligente".
 
Três perguntas:
 
1 - Será que este ser arrogante achava que eu não era inteligente porque vim da área operacional?
 
Se eu quisesse tratá-la reciprocamente com a arrogância que julgo ser-lhe compatível, dir-lhe-ia que a expressão "agente inteligente" é uma redundância, mas como sou super-humilde (super-mentira), fui direto para a segunda pergunta:
 
2 - De onde minha conterrânea tirou essa conclusão a meu respeito?
 
Questão que pode ser respondida com uma terceira pergunta:
 
3 - Afinal, que tipo de vida inteligente deste planeta aceitaria trabalhar por dois, ganhando o salário de um?

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Intimidade.


Limpeza de primeiro escalão é para os fracos.

sábado, 31 de agosto de 2013

Consta.

 
Ela já ganhou pontos comigo apenas pelo fato de ser da minha cidade e por  trazer o sotaque das minhas amigas. Por um mundo onde não se julgam as pessoas por sua origem, mas sabe aquela coisa de afinidade de raízes? Pois é, culturalmente falando, somos bem diferentes dos habilocs* daqui. 
 
Percebi que a Dama de Ferro também gosta dela. Elementar, já que minha conterrânea é quem mais trabalha e produz neste setor. É por isso que ela tem três estagiários.  Sabe escrever com objetividade e clareza e não tem tempo para aqueles floreamentos de estilo jurídico-boçais. Tem o raciocínio rápido, é desenrolada e parece ser uma ótima mãe de família.  Pode rir do meu jeito caipira-romântico de ver a vida, Poliana Moça, mas na minha escala de valores, está bem estabelecido que "família" vem antes de "trabalho".
 
Gente, o mundo precisa saber que a vida pessoal de boa parte dos policiais é uma catástrofe. Tendo por amostra nosso time feminino de vôlei,  parece até que o tempo de polícia é inversamente proporcional ao tempo de casada das policiais. Tinha que haver um curso top de "Operações Familiares". Não entendo como ninguém nunca pensou nisso...
 
Admiro o fato de que, além de competente, ela almoça em casa todos os dias e que às 18 horas em ponto, ela para tudo e vai cuidar da vida. Fiquei fã quando, após ouvir uma parte da conversa dela com uma orientadora escolar, me explicou que tinha dado uma dura na equipe de professores de exatas da melhor escola desta cidade, porque não souberam explicar o motivo de uma nota baixa da filha dela. Entendeu? Sem entrar no mérito da nota em si, ela me mostra que sabe transitar bem nisso de ser uma boa profissional do tipo "delegada durona" e ser super-amiga da filha pré-vestibulanda dela... 

Creio que posso tentar aprender alguma coisa com essa mulher que tem uma vivência profissional no mínimo interessante. Veio de outra polícia e, diga-se de passagem, já sofreu no lombo o ferro quente da Corregedoria. Se ela mereceu essa marca dolorosa, jamais saberemos.



* Gíria operacional para "habitantes locais". 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Ineficiência.


Recapitulando: a delegada saiu de férias e o setor que ela coordena emperrou. Por isso um gênio da Administração, formado em qualquer coisa menos Administração, manda pra este setor carente de mão-de-obra uma pessoa totalmente crua no assunto - eu - pra substituir esta figura lendária que ligou o "problemaseu" e foi viajar... My name is... Buraco, esqueceu? Tapa-Buraco.

Antes de começar a assinar toda essa papelada e fazer girar a manivela desta engenhoca burocrática, eu preciso estudar a porcaria toda da legislação, que está cheia de furos e falhas ridículas que precisam ser complementadas por pareceres óbvios e, diga-se de passagem, cafonas demais, onde o "dotô" operador, que possivelmente estudou com Pontes de Miranda, me irrita escrevendo palavras como "despiciendo" nas peças... (Assunto encerrado).

O telefone toca o dia inteiro porque a humanidade em peso decidiu telefonar para esta seção em busca de informações sobre seus documentos em trâmite por aqui. São três mega pilhas de papel, olhando impacientes pra mim em cima daquela mesa. Olhares impacientes exercem um certo poder sobre mim. Eu realmente fico me perguntando o que a última frase desse parágrafo tinha a ver com as anteriores.

Ocorre que para dar o devido andamento nesses papéis EU também preciso de autorização para consultar sistemas de informação. Sabe aquelas telas pretas dos computadores dos sistemas de pesquisa policiais que a gente vê nos filmes? Aqui tem vários destes. São muitos, com vários gestores diferentes. LOGO, pra cada um, uma senha diferente. Aí começa toda uma maratona pra descobrir como eu faço pra conseguir cada senha dessas. NENHUMA PESSOA HUMANA AQUI SABE INFORMAR NADA DIREITO!

Não obstante, o sistema é bruto, parceiro: "escreveu não leu o pau comeu". Por isso não posso sair por aí autorizando qualquer coisa sem saber do que se trata, por quê, como, quem, onde.

Não acabou. Após descobrir o caminho das senhas através de uma façanha resultante de extenuante trabalho de investigação que deixaria o CSI no chinelo, só falta você fazer noventa memorandos, contendo  seu nome, número de matrícula, local da sua lotação, uma dissertação com o porquê você precisa acessar esse sistema, seguidas do nome do seu seriado de TV favorito e o número do seu grau de miopia. Daí... protocola em quinhentas vias, todas assinadas e com o "de acordo" dos seus 981 chefes. Após, anexa cópia autenticada dos memorandos, da sua carteira funcional, identidade civil, da carteira de motorista, CPF, conta de luz, da carteirinha estudantil, a do clube do sindicato, associação, federação e a da irmandade muçulmana. Aí manda e espera. Mas espera sentado, amigo, porque vai demorar.

Saudades da rua, onde bastava uma ligação telefônica para o cara certo e tudo se resolvia.

Sabe quem é o otário nessa história toda? Não... não sou eu, não... É você, pacato cidadão, que PAGA CARO POR ESSA PORCARIA DE BUROCRACIA DO FATÍDICO SERVIÇO PÚBLICOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A dama de ferro.

 
Vai ser tenso trabalhar com essa mulher. Depois de um belo chá de cadeira que tomei na recepção antes de entrar no gabinete dela, a delegada-chefe foi o mais seca e impessoal possível quando fui me apresentar oficialmente pra ela. Fez questão de rezar logo a cartilha da "hierarquia e disciplina", como se já me desse uma bronca antecipada. Talvez porque  na minha testa estivesse escrito que eu não tenho o menor interesse em trabalhar ali por muito tempo. Se ela percebeu isso, mereço o Oscar de pior atriz do ano porque isso era tudo o que eu queria evitar.

O telefone da mesa dela tocava toda hora, depois tocava o celular, até que ela deu ordens à secretária (terceirizada) pra segurar um pouco as ligações. E todo o discursozinho que eu ensaiei pra falar pra ela, no sentido de estabelecer alguma parceria amigável neste momento delicado, ficou pra outra oportunidade, pelo simples fato de que ela tem mais o que fazer.

Em suma, o único sinal de aprovação que recebi - e olha que eu coloquei o meu melhor terninho versão "clássicos", fiz cabelo, unha, maquiagem... - foi quando respondi à sua pergunta sobre a minha área de formação superior.  Mas por que mesmo que eu preciso da aprovação dela? Oi! Não preciso, ok? De qualquer forma, foi neste momento que ela me deu alguma esperança de que poderei ser bem empregada em alguma coisa naquela Divisão.

- "Ora, Novinha! E o que você esperava que uma mulher daquelas quisesse ouvir de alguém que apareceu do nada no território dela, mais perdida do que cego em tiroteio?"

Nada né, porque o tempo monstro que essa monstra tem de polícia deve ser o que eu tenho de idade. E ela deve ter razão mesmo, afinal tenho consciência de que tudo o que já aprendi não vai contribuir em nada nesta nova função. Ela deve estar mais preocupada é com todos os Deltas (Delegados) sedentos de poder que maquinam um dia ocupar a cadeira dela.

Minha frustração foi aumentando naquela sala na medida em que não encontrava nenhum sinalzinho sequer de entusiasmo no rosto dela. Será que é muita exigência querer sentir pelo menos da parte da chefia algum envolvimento de alma, algum comprometimento com a missão do setor? Sabe aquela devoção da pessoa que se entrega por uma causa válida? Zero.

domingo, 4 de agosto de 2013

Analisa.


Sabe cachoro quando cai do caminhão de mudança? É bem como me sinto. Quem sou eu? Onde estou? A única coisa que sei é de onde vim. E de onde vim, o trabalho policial era completamente diferente desse aqui. Mas será por pouco tempo, assim espero. O quê que eu tô fazendo aqui? Me preservando, conforme determinação da Administração. Acontece às vezes de o policial ter que ficar um tempo na "geladeira". É o meu caso.

Espeto conformada a última alcaparra da minha salada generosamente regada de azeite, pensando: "fazer o quê, né?" Pior seria se tivessem me mandado de volta para a minha delegacia anterior. Então, vamos aproveitar esse clima de fim de festa para encerrarmos mais essa temporada da qual certamente sentirei saudades. "Garçon, vê pra mim um suco de abacaxi com hortelã, on the rocks, por favor, porque estou precisando".
 
Estou bem, gente. Vou trabalhar no horário normal de expediente, com intervalo definido para o almoço. Estarei em casa todas as noites como uma pessoa normal! Olha que chic! Porque caí de para-quedas, vou começar substituindo uma delegada que está de férias: mesma função; salários diferentes. "Segura a sua onda, Novinha", penso comigo mesma. Vou trabalhar numa salinha pequena com três estagiários fofos do curso de Direito. Meu novo setor tem cinco(!) delegados (dois machos e três fêmeas), dois agentes (machos) e um milhão de empregados terceirizados de ambos os sexos que fazem muito barulho. Quando a Delegada voltar das férias eu saio da sala dela e vou para a sala do barulho que fica do outro lado do corredor. Parece que vou substituir um agente relativamente antigo que pediu pra ser movimentado para outro setor. Este tem mó jeitão de polícia. O outro Agente, mais moderno, é meio nerd, eu diria.
 
Estava aqui analisando as informações preventivamente levantadas até o momento e fazendo umas contas pra ter uma noção de como será minha próxima temporada na polícia:
 
  • delegados no setor = 5 toneladas de papel.
  • Para apenas 2 agentes, sendo que o mais antigo pediu remoção = Baixíssimo IEPA: Índice de Expectativa Proporcional de Adrenalina.
  • 1 milhão de contratados e estagiários = Zero policial querendo vir trabalhar nesta bodega. 

Pronto: estatisticamente falando, me ferrei.

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Ps.: Quero dar os parabéns à Futuras Novinhas do Grupo "TAF para Mulheres" do Facebook, que têm se estimulado mutuamente para a árdua batalha diária de treinamento para os testes físicos para ingresso nas carreiras  policiais. Força meninas e levem esse espírito de união para a polícia porque estamos precisando (valeu DoceAcida!!!).

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Superado.


Graças a Deus, consegui concluir mais esse desafio com boas notas e resultados. E aquelas temidas situações na vida real que eu teria de enfrentar na etapa final, nem foram tão complicadas assim. Nada que um bom trabalho em equipe não pudesse resolver. É inacreditável o que a gente consegue fazer quando o grupo é forte e coeso. Será que este curso me deixou mais dura? Acho que não. Estou é mais apaixonada ainda pela vida. Pena é que nunca vou saber o que aconteceu depois com aquelas pessoas. Eu vi muita gente destruída, vi muita dor e sofrimento. Vi a morte e vi a vida frágil como ela é. Olhares e expressões que tatuei na memória pelo resto dos meus dias. Não dá pra explicar tamanha vibração do momento exato do acionamento da equipe e a gente correndo pra viatura sabendo que cada segundo é de extrema importância. Fecho os olhos devagar pra tentar lembrar esse sentimento ímpar, o qual por si só já teria valido pelo curso todo. Valeu demais! Tirando aquele cheiro enjoativo de sangue agridoce da viatura operacional deles, foi de longe o melhor curso que já fiz depois que entrei para a Polícia.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

sábado, 6 de julho de 2013

Músicas de trabalho.


    Uma lista de músicas especiais pra ouvir antes de partir pra uma operação.
  • Wide awake - Katy Perry - Essa é uma música para despertador! Ótima pra já acordar no clima, espantar o sono, e ficar esperta. Polícia é isso mesmo: abandonar ilusões e partir pra vida. Acorda, Katy, pra vida né, Perry!
  • Save the world - Swedish House Mafia - Tão difícil sair dos braços dele nesse friozinho da madrugada, mas alguém tem que salvar o mundo, né? Quem? Eu, é lógico! Ah, e essa também é uma homenagem ao meu cachorro e a todos os cães policiais. É, hoje tá difícil acreditar na polícia, né? Por isso eu sou a favor de mais cães policiais no nosso efetivo. Quem tá comigo aumenta o som!
  • Titaniun - David Gueta - Ok... Essa é pra ouvir antes de sair com o carro da garagem. Porque se eu não acreditasse SEMPRE na ajuda do sobrenatural eu não sairia de casa nem pra comprar pão para o café da manhã! Caiam mil ao meu lado esquerdo e dez mil à minha direita eu não serei JAMAIS atingida. Armadura de titânio puro! Faruêêêê, Faruêêêê...
  • Zombie - The Cranberries - Pode ouvir no caminho... Sempre bom lembrar que a gente tem que olhar o mundo com olhos de águia. Não focar apenas no quadradinho da situação, mas sempre entender o contexto macrosistêmico dessa por.caria toda. O poliça quer acabar com a violência como? Com mais violência? Quedizê... What's in your head?
  • Chasing the sun - The Wanted - Como assim "desistir"? Te disseram que você não tem condições de chegar lá? É mentira! Olha eu aqui! Então se joga, amiga, persiga o seu "alvo", o seu objetivo até alcançá-lo. Daí grita bem alto igual a uma louca: "vim, vi e venci!". U-hu!
  • I follow rivers - Likke Li - Música de perseguição. Tem que ter! Vai que... Mas é claro que eu vou te pegar e vai ser lindo! "I follow you deep sea baby. I follow you, don't run baby. You're my river running high. Run deep, run wild".
  • Try - P!nk - Essa é pra todo mundo que tomou a pílula vermelha e já entendeu que a coisa é mais embaixo. Você já se perguntou ‘bout what he’s doing? How it all turned to lies?. Cadeia neles! E essa coreografia também é bastante inspirativa. É o Apache, um estilo de dança de rua parisiense. (Lei Maria da Penha nesse barriga de tanquinho, Pink!) ~apagar~
  • One way or another - Piper Perabo - Flagrante postergado. Só os fortes têem paciência pra esperar o momento certo de pegar... mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro eu vou te prender! One way or another, I'm gonna find ya! Isso, joga o cabelo, amiga, igual a Joelma.
  • This is my house, this is my home - We Were Promised Jetpacks - Estranho como todo o foco da polícia é o bandido. Não deveria ser a vítima? Bora humanizar e fazer um atendimento bacana às vítimas?  Duzentos reais pra quem me disser what.the.hell aconteceu nesse raio de sótão dessa música. 
  • Part of me - Katy Perry - Amiga... essa é pra chegar chegando! "Todas as mulheres são criadas iguais, até que algumas decidem se tornar policiais". Consegue imaginar? Oquei, isso foi uma piada... Mas, ó... jamais subestime uma mulherzinha...
 

domingo, 30 de junho de 2013

Controle de pânico.


Acho que aquilo era um teste, um pré-requisito pra passar para a parte de exercícios reais. Ninguém disse que era, mas o próprio nome do exercício já era indicativo: Controle de Pânico. Como assim controle de pânico? São situações onde você tem que aplicar uma técnica aprendida, porém num contexto de estresse, onde sua determinação, coragem, e o autocontrole emocional são avaliados.  Enfim, nas entrelinhas eles ensinam que controlar seus próprios medos pode te dar aqueles preciosos segundos que poderão salvar sua vida. Por falar em entrelinhas, descobri que não tenho claustrofobia. Ok, tenho pavor de rato, de sapo, de cobra, do Aécio ganhar as eleições pra presidente mas claustrofobia não é problema meu! Basta ver o tamanho do meu apartamento.
Outra coisa importante que tenho aprendido aqui é que militar têm uma verdadeira compulsão por organização. Por exemplo, eles têm checklist pra tudo. Particularmente, me amarro no passo-a-passo pra você seguir antes, durante e depois das ações. Aqui o certo e o errado estão sempre muito bem definidos. Assim, minhas poucas dúvidas basicamente giram em torno dos termos e expressões militares que desconheço. O resto é tudo muito claro.
Na minha polícia definitivamente não é assim. Temos um sério problema chamado falta de padronização de procedimentos. Um chefe quer que você faça de um jeito, o outro quer que seja feito diferente e na grande maioria das vezes, pasme... você faz do jeito que acha melhor! Se deu certo, era sua obrigação fazer dar certo; se deu errado a culpa e a responsabilidade são inteiramente suas. Entendeu agora todo esse meu medo de errar? Pois é, sinto que é como se eu tivesse a obrigação de já tomar posse no cargo sabendo! Afinal, quantos anos eu estudei para o concurso? Quanto tempo eu fiquei estudando e treinando na Academia?
Bom, não criemos pânico, mas, se é do seu interesse, as matérias da Academia e do concurso público não foram nem 10% do que tive que aprender, "no tapa", em meus poucos anos de polícia e isso é grave, porque a maioria dos antigões experientes estão se aposentando agora e vão levar com eles todo o know how adquirido em toda a sua carreira policial. Neste caso, quem aprendeu com eles ali na tradição falada, ótimo. Quem não aprendeu, não aprenderá mais. 

sábado, 22 de junho de 2013

Mulher de fases.


Passamos da fase delicada de adaptação, assim, já me sinto um pouco mais à vontade com eles e eles comigo. Fizemos ótimos progressos e tudo indica que estamos no caminho certo. Aquela desconfiança mútua dos primeiros dias já passou. Ninguém aqui quer tomar chá vermelho no meu crânio, pelo contrário, eles se sentem orgulhosamente honrados por eu estar querendo aprender com eles. Querem que eu goste do curso e seja aprovada. Estão conseguindo. 

A turma é toda composta por jovens profissionais que têm os mesmos objetivos que eu: novinhos oficiais (todos Tenentes) e novinhos praças (todos Soldados). Boa parte dos instrutores são Sargentos e um ou dois são Capitães. A maioria das alunas são Tenentes. Não sei se é espontâneo ou se lhes deram essa ordem, mas são elas que cuidam de mim e não me deixam fazer besteira. São muito aplicadas e realmente estão dispostas a estudar. Almoçamos juntas,  saímos no final de semana, olhamos revistas de noivas  enquanto tomávamos café e comíamos pães de queijo que nós mesmas fizemos na casa de uma delas. Temos uma noiva - muito linda - no grupo!

Somos mulheres que têm algumas afinidades entre si, mas de vez em quando nossas diferenças profissionais afloram e o clima fica um pouco tenso.  Uma delas carrega o peso da medalha de primeira colocada geral em seu curso de formação. Imagine o que é suportar o ódio de um pelotão de jovens oficiais tendo que engolir uma mulherzinha como a melhor e mais competente aluna do curso deles. Ela é do tipo que não pode errar, logo quer exigir o mesmo dos outros. Tanto que quase caí pra trás quando ela deu uma retumbante patada num colega soldado-aluno que na minha visão só estava querendo ajudar, coitadinho... Pela minha cara de "focaisthis???" uma delas achou por bem tentar me explicar, porém não me olhou nos olhos enquanto falava. Ouvi, claro, mas... não deu pra camuflar o mal-estar de ver o colega saindo todo desconcertado.

Não posso deixar de fazer as comparações que pretendia evitar desde o início. Na minha polícia, chefe é chefe, como em qualquer lugar do mundo, mas curso é curso e nos três cursos que já fiz internamente (quatro com o Curso de Formação) só tinham duas classes de pessoas: ou você é aluno ou você é professor. Já aqui, a patente do aluno tem que ser respeitada até no trato informal entre os mesmos!  Esse foi o problema: o fato de ele tê-la tratado como colega e não como alguém superior na hierarquia militar. Não sei o que dizer. Esperar a próxima fase.
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

As próprias limitações.

 
Logo na primeira semana tive que pagar dez flexões de braço, na frente de toda a turma, porque tinha descuidado de um equipamento. Tinha que ser eu! Os oficiais alunos sentiram um certo desconforto pelo fato de o instrutor me punir assim, como se tal prática fosse apenas para militares. Eu soube disso porque o mesmo instrutor que me fez pagar veio no dia seguinte me pedir desculpas... "Quê isso Sargento..." respondi, "Imagina! Estou me sentindo em casa (mentira). Na minha Academia é pior porque muitas vezes se um aluno erra, todos pagam, inclusive os professores... (verdade)".

Ah, gente, na boa... dez flexões não são nada perto do que estou me preparando pra enfrentar no decorrer deste curso. Olhando a grade curricular que nos foi distribuída, já estou pensando em como vou fazer pra vencer algumas sérias barreiras pessoais. Mas estou feliz porque acho que não tem nada que eu queira mais em termos profissionais do que me capacitar e estar apta a fazer um bom trabalho para o qual já sou paga. É um privilégio enorme poder vencer, com fé em Deus, as próprias limitações. Olhar pra trás e ver que elas nem eram tão grandes como supostamente se apresentavam.
 

domingo, 9 de junho de 2013

A caserna.

 
Sou a única aluna "civil" neste curso. O volume exagerado da apostila que preciso devorar me deixa feliz. Como se conseguisse me fazer acreditar que é possível vencer esse medo de não ser capaz na hora do pesadelo.

O curso é todo em formato militar. É ministrado dentro de um quartel. Tem provas teóricas, práticas e atuação em situações reais na rua onde também serei avaliada. Sim, operações de verdade acontecendo no mundo real! É disso que estou falando! Porém, se eu falhar, vou virar estudo de caso como "a policial que foi reprovada no curso dos militares". Vira essa boca pra lá, ô... Freddy Kruegger! Isso dói no ego, sabia?

Pra piorar a minha situação, a maioria destas matérias que estou vendo aqui, praticamente pela primeira vez, é arroz com feijão para os demais alunos do curso. Portanto, vou precisar de muita humildade, diplomacia e jogo de cintura, pra conseguir toda a ajuda possível dos meus colegas, porque Freddy me diz que, do contrário, eles vão tomar chá vermelho no meu crânio.

O curso é na casa deles. Os alunos participam das "formaturas" que são uma espécie de briefing, uma reunião formal no início das atividades diárias da vida de um quartel. Então, já aprendi por conta própria algumas coisas sobre ordem unida, cultura militar, patentes militares, o que significam aquelas estrelinhas e botõezinhos... E não pense que é simples porque essas coisinhas mudam de instituição para instituição. Tem também toda uma etiqueta militar que é uma coisa de louco... Mas enfim, pessoas normais assumem logo que não são militares e dane-se, eu tenho altas fantasias de que sou uma agente infiltrada na "caserna" levantando informações com os melhores do ramo. Então meu plano é me entrosar com os "milicos", trocar figurinhas, conquistar o meu "brevêzinho", aprender essa porcaria toda e ter segurança para operar na hora do pega. Brasil!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Escuta clandestina.



Eles não perceberam que eu estava ouvindo a conversa do outro lado da vitrine, enquanto namorava as peças de uma senhora joalheria que ficava no hall de um dos hotéis mais famosos de uma das cidades mais badaladas que conheço. No diálogo, curiosíssimo, os dois atendentes  comentavam sobre "um certo ar de mistério" das policiais que estavam trabalhando ali. Aquele momento em que você pensa: "meu salário não dá pra comprar essa jóia nem em 483 prestações, mas me divirto ouvindo conversas alheias". 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Os caminhos da navalha.


Outra daquelas brigas feias e eu pedi pra ele ir embora. Aquela hora nos relacionamentos em que você pensa "eu não sou maluca de continuar com isso". Ele foi mas já voltou e vocês foram poupados de mais um daqueles textos chorosos e desesperadamente dramáticos. Vou explicar. Não dá, amiga, pra você terminar um relacionamento e ficar em contato com o dito cujo senão não funciona, certo? Porém... ele tem que ver o filho dele, o que eu posso fazer? Saí de casa pra não ter que me encontrar com ele, mas ele sabe por quem os sinos dobram. Logo, dispensou a babá e disse que ficaria lá até eu chegar! É aí que complica o meu meio de campo. O bandido me vem com aquela camisa preta que eu adoro (tirem as crianças da sala!). Aquela em que ele fica lindo demais. Aquela camisa tem uma gola preta, sabe? A gola preta realça aquela parte do pescoço, da nuca, do paraíso onde o barbeiro raspa com a navalha pra determinar os limites exatos de onde eu me perco completamente. Maldita navalha. Eu só conseguia pensar na minha língua percorrendo os caminhos da navalha.
 
E aquele jeito como ele se senta no meu sofá? Eu deveria ter queimado aquela droga daquele sofá que se transforma num sofá-trono quando ele se senta lá com a pose de um rei. Até a sola do sapato dele, que fica visível quando ele cruza maravilhosamente bem a perna sobre o joelho da outra perna, fica perfeita naquele sofá. Pela-santa-mãe-do-guarda! Aquela criatura abre os braços sobre o encosto do meu sofá e sem querer eu vejo aquela parte interna do braço dele. É, aquela parte que foi feita para nós mulheres nos encaixarmos perfeitamente bem nessa obra divina que é o Universo. A manga da camisa preta em contraste com a parte interna do braço dele sobre o sofá da minha sala... e eu seeeeei que se eu olhar só mais um pouquinho... daqui a poucos segundos estarei prostrada perante Sua Majestade só aguardando ele dar o próximo comando. Você queria o quê? Só se eu... me jogasse pela janela.
 
Difícil explicar aquela noite. Só sei que ele estava falando não-sei-quê-lá do uniforme escolar do filho que já estava dormindo na caminha do quartinho dele. Foi o que eu entendi enquanto desviava o olhar, porque aquele perfume dele  que não pede licença pra invadir o meu espaço, já estava me embriagando... (munição que eu dei para o inimigo). Mas quando ele fez uma pausa no que estava falando e fez aquele negócio de passar a mão na barba, subindo pela nuca até chegar no cabelo,  eu me desconcentrei e olhei nos olhos dele ou será que olhei nos olhos dele e me desconcentrei? Bom, nesse momento eu soube que minhas forças acabaram. Daí em diante eu só conseguia ouvir o canto da sereia macho ou seria o canto do boto rosa? Nenhum dos dois. Era o canto da mula-sem-cabeça que sou! Não entendia mais palavra nenhuma do que ele estava dizendo. Só olhava o movimento perfeito dos lábios perfeitos dele falando blás-blás-blás. E no gesto mais condescendente do mundo, olhei o relógio e pensei... "Tá. Eu fico com ele só mais essa noite e amanhã a gente vê o que faz". Foi a melhor noite da minha vida.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Humilhação institucional.


Após o almoço, um agente colega meu escovava os dentes no espelho d'água que fica na parte externa do prédio. Não sei realmente o que ele tem na cabeça, mas me pareceu um protesto circunscrito e bastante inteligente. A qualidade da água lá fora estava melhor que a do ar ambiente que respiramos aqui dentro. "O que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai dela". Quanta falsidade envolve essas missões policiais "glamourosas" e quanta decepção em tão curto espaço de tempo! Todo o mundo hypster quer participar desse tipo de missão. Todas as forças, todos os órgãos públicos. Todo mundo quer uma foto, uma história dessas pra contar. Quando te perguntam se você tem experiência nessa área, as pessoas adoram citar esse tipo de trabalho, de evento. É o tipo de missão que enaltece o currículo. E, de fato, a hipercinesia de quem narra impressiona principalmente quem é novinho e mais ainda quem não é da casa. Isso tudo me dá asco. A subserviência nauseabunda do Brasil é espantosa. Esqueçam as fronteiras, Forças Armadas, o que ameaça a nossa soberania é Brasília.

sábado, 4 de maio de 2013

Ingresso para o filme errado.

 
Chegamos a essa cidade para uma força tarefa numa missãozinha besta do caramba e o pior é que estamos aqui voluntariamente. Aquela sensação de que você comprou o ingresso para o filme errado. Tem coisa mais importante pra polícia fazer! Enquanto nos exploram a gente grita: diária! Lá no trabalho, numa sala repleta de cosplayers o melhor conteúdo que encontrei foi no meu livro (obrigada, Ernest Hemingway). Olha só, não é que eu queira discutir o "aumento da reserva de mercado", mas nas conversas por lá só rolam histórias mentirosas, piadas sem graça e reclamações inóquas... Não sei como podem ter tanto pra contar e nada pra dizer. Coisa irritante! Um colega nosso, antigão, tombou ontem por excesso de álcool na veia e foi parar no Serviço Médico. O que vou dizer de um cara cuja esperança é que com a reestruturação da carreira todo antigão um dia vai chefiar uma delegacia? Nem o futebol conseguiu iludir tanto as massas! Proponho um teorema paradoxo: ele bebe porque não progrediu na carreira como gostaria; ou ele não progrediu na carreira como gostaria porque bebe?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quarto de hotel.


Sasha Grey in The Girlfriend Experience
 
Ela é do meu concurso. Estamos dividindo o mesmo quarto de hotel nessa missão. É bom que vocês saibam que a minha história na polícia é um "Conto de Fadas" perto de "A Hora do Pesadelo III" que foi o que ela passou na primeira lotação.  Teve uma depressão ~daquelas~ logo que chegou lá, e quase levou uma punição por conta disso (depressão é um motivo alegado com alta frequência nos pedidos de remoção, logo, atrai certa desconfiança); se envolveu com o cara errado; sofreu um acidente sério, não necessariamente nessa ordem, mas enfim, ela se machucou bastante. Agora parece que o pior já passou e ela me conta tudo, embora mantenha um ar longínquo, exceto quando chora. Eu gosto dela. Ela conhece todas as novidades sobre cremes, makes e produtos para o cabelo. Tornou-se meu referencial teórico nessa área.  Está fazendo uma pós em Direito Processual Civil (autopunição? rs). Contudo, o que ela não sabe, nem precisa saber, é que eu sou amiga da mulher do cara por quem ela ainda sofre.

sábado, 20 de abril de 2013

Voz de prisão.


 
Acho que a parte de lidar com preso é a mais difícil pra mim. A primeira vez que entrei numa carceragem não consegui ficar lá nem cinco minutos. Quase passei mal. Havia uns cinquenta presos atrás das grades de umas dez celas, talvez. Não me lembro direito, até porque eu não conseguia sequer olhar diretamente pra eles. Pelo contrário, os olhares lascivos deles é que me fuzilavam por todos os ângulos possíveis. Me sentia como um frango assado desfilando num canil. Eu tinha duas opções: ou encarava de volta até o preso olhar pra outro lado; ou fingia que o preso não era gente, mas um pedaço de carne ignorável (atitude tomada por 99% da sociedade).
 
Resultado: dei meia volta e saí da carceragem. Eu? Encarar um preso??? Melhor não, porque se não funcionasse eu iria fazer o quê? Entrar na cela e bater nele pra ele nunca mais olhar para uma mulher policial daquele jeito? Gente, eu morro de timidez e não consigo encarar nem quem eu tô paquerando... E se o preso sorrisse pra mim e eu sorrisse de volta? Ferrou!
 
A-gente não pode se dar ao luxo de ter conflitos interiores. É resolver logo e cumprir a missão.
 
Então, uma grande parte de nós opta pela segunda opção. É por isso que tantos policiais são marrentos. Por que você acha que polícia adora óculos de sol? Mas Renato Russo estava certo: "mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira" e toda prisão que faço, sem exceção, é uma tortura. Não dá pra ignorar que ali tem um ser humano. O cheiro, o choro, a textura da pele, o olhar deles é de um ser humano, igualzinho a mim. Mas como um outro ser humano comete um crime desses?
 
Por mais que eu evite conversar com o preso e saber menos, pra sofrer menos... não adianta. Outro dia, dei um sermão de meia hora num preso, porque, durante a busca domiciliar encontrei um Certificado de Reservista onde constava que ele havia servido a Força Aérea Brasileira. Em suma, eu queria saber do preso como ele poderia ter mudado de lado depois de todo o treinamento militar que ele recebeu. O preso chorou tanto de arrependimento... que bem poderia me acusar de tortura psicológica. Agora é tarde, soldado.
 
Recentemente prendi um pastor evangélico que estava fazendo a coisa certa, porém da forma errada. Na delegacia ele pagou fiança e foi embora. Não sem antes passar por mim e dizer: "a Bíblia diz que feliz é aquele que for preso pelo nome de Jesus". Eu não vou discutir as leis de Deus com um pastor que desconhece as leis dos homens. Não sou eu quem faz as leis, Reverendo. Eu cumpro a lei, por mais idiota que ela seja. E não fui eu quem colocou o Tiririca lá... Mas se não estou enganada, quando Jesus estava sendo preso, Pedro, que parece que era meio metido a segurança particular, sacou sua espada (é galera, São Pedro andava armado!) e feriu a orelha do agente que estava cumprindo o mandado de prisão!!! Não sei o que aconteceu com o agente na hora, se desmaiou, se a dor tava demais... O que sei é que, contrariando todas as normas de segurança, ele deixou o preso (Jesus) tocar na orelha dele e isso sarou o ferimento na hora... 
 
Fica a mensagem que serve tanto para os policiais feridos quanto pra quem me julga. Pra mim, quando Jesus disse aos religiosos "quem não tem pecado atire a primeira pedra" era como se dissesse "não vai subir ninguém", do Capitão Nascimento. Porque no fundo, somos todos iguais, o que nos diferencia é o toque de Jesus.

sábado, 6 de abril de 2013

Não me representa.


 
*AGENTE POLICIAL NERVOSA* entra na sala: Quando a gente usa as algemas tem que justificar para o Supremo. Quando não usa tem que justificar para os colegas. Me encanta a pessoa que reclama da falta de liberdade de decisão criticando a liberdade de quem decidiu diferente. Wake me up quando a militância das algemas ends.

sábado, 23 de março de 2013

O vestiário feminino.

Sabe o que as mulheres policiais mais fazem no vestiário feminino? Choram. Choram porque querem um amor; choram porque querem outro amor; choram porque não são reconhecidas; porque não são correspondidas; choram quando não conseguem atingir as expectativas de todo mundo; choram quando não querem corresponder às expectativas de ninguém; choram porque não conseguem conciliar vida pessoal e trabalho; choram porque se sentem culpadas;  choram de raiva; choram quando as tratam diferente; choram quando as tratam igual; choram quando querem o que não têm; choram de medo de perderem o que têm. As mulheres policiais também choram.
 
Chegou ao meu conhecimento de forma extremamente desagradável que há comentários a respeito de um suposto caso que eu estaria tendo com o meu chefe. Que maravilha, né? Era só o que me faltava. Tenho ódio de mim mesma quando me importo com essas questões xexelentas, mas é que fico preocupada com as outras pessoas envolvidas! Desagradável. Tanto, que abri o jogo com meu amor logo e contei tudo o que estava acontecendo.
 
Por que é tão difícil digerir o fato de que uma mulher pode trabalhar bem na policia? Quando não acham nada pra falar mal do seu trabalho, adotam um discurso pronto da marca mais vagabunda existente no mercado: fazer fofoca da sua vida pessoal. O resultado são estas pérolas do pensamento evacuadas: "Tem que ter algum motivo pra essa novinha ter sido escolhida pra trabalhar na equipe do Roger"; "Por que você acha que tanta gente naquele setor já foi substituído e ela não"; "Por que será que o Roger tá dando as melhores missões pra ela?"; "Por que o Roger protege a Novinha até na hora de pagar a multa que ela recebeu?".
 
Até agora não acredito que me dei ao trabalho de fazer uma postagem sobre isso...
 
Meu benzinho sabe quando eu fico abatida com alguma coisa. Sabe que eu não gostaria de ter que pedir pra sair do setor do Roger, mas também sabe que eu não seria capaz de permanecer lá sabendo que ele se sente de alguma forma desconfortável com uma situação dessas. Deixei pra ele decidir. Não sei se o Roger tá sabendo desses comentários e também não vou perguntar pra ele. Até porque agora isso também já não vai mais ser problema meu. Meu bem já disse que se toda vez que eu tiver esse tipo de problema eu pedir pra sair... vai ser fogo, né? E ele tem razão!
 
Se alguém extraiu alguma lição útil desse episódio tosco me avisa, porque eu não penso em mudar um til no meu comportamento por causa do que aconteceu. Não vou deixar de ser mulher pra evitar ser alvo de fofoca. Aliás eu já tô cansada desse suposto dilema de gênero na polícia "feminilidade versus cargo de autoridade". Vaskatar! Parece até que ser mulher, ou melhor ser feminina exclui a competência... 
 
Ao contrário do que pensa quem tá de fora, nem todas as mulheres bonitas que vejo na polícia querem fazer uma carreira levando vantagem em cima de seus atributos físicos. Vejo tanta menina na polícia que parece ver na própria sensualidade um problema. Outro dia mandei um abraço para um professor da Academia por intermédio de uma colega e ela respondeu pra eu mesma fazer isso porque o professor era casado... Quequéisso, gente!
 
Sério! Incrível, mas eu até arriscaria em dizer que parece que quanto mais feminina, delicada, sensual, bonita é a menina que quer trabalhar sério na polícia, mais medo ela tem de não ser levada a sério! Que praga! Será que eu é que estou errada? Porque pra mim, quanto mais preocupada com essas questões menor é o cérebro da mulher. Quer saber? A preocupação em ser respeitada é tanta, que muitas policiais dentre as que querem muito fazer um serviço de excelência aqui dentro, chegam ao ponto de querer meio que compensar suas características femininas com a adoção de um estilo masculinizado, o que imprime nelas uma imagem mais agressiva do que as outras colegas reconhecidamente delicadas, femininas, sensuais. O que elas não percebem, ironicamente, é que junto dessa imagem agressiva acabam demonstrando um comportamento grosseiro, irritadiço, arrogante que gera maior aversão e antipatia ainda dos colegas e superiores, tornando-as naturalmente evitáveis e menos provável sua progressão na carreira. Adianta?

domingo, 3 de março de 2013

Investimentos.

 
A diferença pode estar no fato de que eu vim de família pobre, né? Ganhava um salário mínimo por mês. Mas aquela empresa tinha um dos melhores planos de saúde que conheço e pagando um pouquinho a mais incluí minha família toda. Meu bem já está trabalhando de novo. Passou aquela depressão maldita. Já saímos do aluguel. Compramos nosso apartamento e, claro, estamos pagando as prestações. Também trocamos de carro. Faltou um pouco de dinheiro mas pedimos emprestado ao meu tio à época, e agora já está pago! Ajudo lá em casa sempre que surge algum imprevisto e contribuo com a faculdade da minha irmã, com muito prazer. É o mínimo que eu posso fazer como retribuição à força que ela me deu quando eu vim pra cá.  A minha irmã carrega água no jacá por mim, se eu precisar. Além disso, eu sei bem o que é não ter grana pra pagar a faculdade. Mesmo trabalhando em projetos sociais pra ganhar algum desconto nas mensalidades, às vezes atrasava, e também faltava grana pra pegar ônibus, pra lanchar, pra almoçar. Livro? Esquece... Praticamente morei na biblioteca estudando pelos livros da Reserva. E o peso em não poder decepcionar? Por isso que eu brinco com a minha mãe hoje, dizendo que ela fez o melhor investimento da vida dela: ela investiu em mim. Enfim, não posso reclamar de jeito nenhum! Deus é o meu Pai e ele tem me dado muito mais do que preciso. E quando olho para os lados, tenho consciência de que o que recebo é muito mais do que mereço. Então, se eu for parar pra pensar, já tenho motivos acumulados pra comemorar pela vida toda e o que vier é lucro.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Polícia na Favela


Pela primeira vez na vida subi uma favela ("não-pacificada"). Estávamos dando proteção aos agentes de outra instituição pública que precisavam subir lá pra realizar uma tarefa. Viaturas, armamento pesado e indumentária ostensiva. Experiência inesquecível! A propósito, acho que Isabella está apaixonada pelo Bush, um Fuzil AR-15 que tem andado com a gente. Uma gracinha! Encaixa certinho no corpo, é leve, super confiável, bonitão, imponente e aquela bandoleira lhe confere um charme todo especial! Só é um pouco nervoso, ele. Quando irritado... tsic, tsic, tsic, sai da frente, porque o estrago é grande.
 
Dia desses houve uma operação policial de tráfico sanguinolenta nesta mesma favela, da qual não participei. Houve confronto, tiroteio e tal. Não sei se voltar lá nesse contexto seria melhor ou pior. Pra ser bem sincera, eu não entendo nada de favela e nem tenho treinamento adequado para operar em favela.
 
Se eu tive medo? Tive. Especialmente no momento em que soube da missão. Medo e inveja do colega escrivão que ficaria na base, pois só começaria o trabalho dele quando a gente terminasse o nosso. Aliás tenho mais medo de não ter medo, do que das causas do medo em si, porque o medo é parceiro. Ajuda a gente a continuar vivo. Só que este foi um medo diferente que eu não conhecia até então.  Eu não sei não, mas tenho a impressão de que estou me acostumando com esse negócio de correr riscos, tanto que o medo "parece" não ter mais tanto efeito. Sabe o que é ter plena consciência de que você vai cumprir missão na "Faixa de Gaza" mas não dá tanta importância ao fato em si? É, porque "dar a devida importância ao fato em si" no meu caso, significa se trancar em alguma cela da custódia na hora da saída e engolir a chave repetindo o mantra: "Não vou, véi! Nem de blindado, véi!".
 
Mas fui. Não chorei. Não desmaiei. Não tive nenhum desarranjo intestinal (ocorre bastante, nas melhores polícias). E deu tudo certo. Ao mesmo tempo que foi super rápido demorou uma eternidade. Quando retornamos notei que o mundo continuava igual. Aquilo tudo lá, não foi nada demais. Não deu no jornal, não houve faixa de boas vindas na recepção, ninguém nos deu os parabéns... Ora, policiais arriscam as suas vidas todos os dias. Onde está a novidade nisso? A maioria dos próprios colegas nem ficou sabendo que nossa equipe esteve lá. Só houve um novinho que me encontrou à noite malhando na academia e perguntou bastante interessado. "E aí, Novinha, como é que foi lá na favela". Eu sorri pra ele e não sei por que, mas até eu respondi sem muita empolgação: "Tranquilo".