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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Dica nº 4 - Faça bem feito.

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"A qualquer hora, em qualquer lugar, para qualquer missão"
- Lema do COT -

Se você já entendeu que é prioritário cuidar de seu bem-estar físico e mental e que você precisa levar sempre muito a sério a sua segurança, acho que agora podemos pensar em fazer um  bom trabalho profissional.

Qualquer um sabe que não tá fácil ser polícia nesse sistema deteriorado em que vivemos no Brasil. Portanto, se você quiser "desculpas" pra não trabalhar eu poderia te apresentar várias, amigo. Só tem um porém, não vale reclamar depois da falta de oportunidades, tá?

Na sua formatura, você jurou que cumpriria suas funções com probidade e denodo, isso se aplica àquelas situações em que ninguém está olhando, certo? Mas alguém pode estar te observando, viu, para o bem ou para o mal. É meio chato ficar usando exemplos pessoais num texto como esse, mas prometi que as "dicas" seriam baseadas em fatos reais... Então desculpem se soa pedante demais, mas já disse anteriormente que estou muito satisfeita em estar trabalhando nesta Unidade em que estou lotada atualmente, mas não foi me escondendo das operações que eu consegui um convite pra vir pra cá, foi porque me viram trabalhando duro e chefiando a operação mais importante da minha vida, até então. E pra ser escolhida como chefe naquela "missão mais importante da minha vida", foi preciso mostrar serviço em muitas outras missões para as quais ninguém queria ir. Assim, se você não é desses que apenas aguardam atrás da moita a chegada da aposentadoria, preste atenção nas dicas da Tia Novinha.

Primeiro: seja voluntário.

Quando entra na polícia, a grande maioria das pessoas não sabe ainda qual é o seu lugar. Outra parte, acha que sabe, mas mudará de opinião à medida em que vai conhecendo diferentes atividades policiais. Portanto, experimente missões em todas as oportunidades possíveis, principalmente naquelas operações para as quais ninguém quer ir. Não desperdice essas chances de descobrir onde você se enquadra melhor. Onde suas habilidades pessoais são mais úteis, mais valorizadas. Além disso, é trabalhando que você vai aprender a lidar com o risco, a ter controle emocional e a manter o foco para resolver problemas. Também é na prática que você vai aprender a ajustar bem e a calibrar o peso do equipamento e da responsabilidade que consegue levar em cada tipo de operação. Vai aprender que é preciso livrar-se do que é desnecessário. Então, aproveite! Claro que vai ser dureza, mas é no calor do nervosismo e da tensão que você vai ser forjado. A espada só é aperfeiçoada após sofrer muitas marretadas. E dói muito!

Segundo: disciplina na veia. 

Ser disciplinado exige insistência, porque não é de um dia para o outro que uma prática se torna um hábito. Faça o procedimento da forma correta, mesmo que todos estejam fazendo errado, sabemos que no trabalho policial, pessoas podem perder a vida se você descumprir uma simples regra de segurança, inclusive no trânsito, então se esforce para trabalhar sempre "no padrão". Insista nas repetições, até fazer com que os procedimentos corretos entrem na "massa do sangue", na memória muscular, e sejam cumpridos de forma quase automática!  Seja organizado com as suas anotações. Memorize informações importantes! Encontre seus equipamentos até de olhos fechados! Procure respeitar a doutrina! Admito que sou meio obcecada por doutrina, porque doutrina é um conjunto de princípios que já foram testados, comprovados, utilizados por vários grupos policiais em diferentes partes do globo terrestre, amigos. É sabedoria adquirida na experiência e nos erros dos outros! Então respeite a doutrina adotada na sua Unidade.  

Terceiro: obedeça a hierarquia. 

Poucas pessoas hoje em dia querem liderar na atividade policial, porque é difícil. Cada colega tem sua opinião e muitas vezes as pessoas criticam sem dó as coordenadas dadas pelo chefe seja ele agente, escrivão, delegado ou administrativo. Das vezes em que chefiei operações, senti como o ser humano é egoísta e como é solitário liderar. Muitas vezes não dá tempo de ficar justificando para cada colega, porque vamos fazer assim ou assado. E muitas vezes vão questionar mesmo depois de todas as explicações já terem sido dadas. Então, procure colaborar com a chefia. É muito desagradável ver um colega questionando sem motivo, só pra testar o chefe, pra irritá-lo, colocá-lo em situação difícil perante os colegas. Claro que dar sugestões, questionar é saudável, lúcido e lícito, mas tem que ter bom senso. Demonstre profissionalismo, lealdade.  Faça o seu melhor! Dê sinais de que você quer muito que a operação dê resultados positivos e que você está comprometido em não deixar que nada de errado aconteça!

Quarto: pense no seu parceiro.

Por mais cansado que você esteja, pense em quem ainda não está liberado para ir pra casa descansar. Se possível, ajude o colega a terminar o serviço dele, também, pra fecharem juntos a missão. Ele também tem família em casa esperando o seu retorno. Vá com ele entregar os equipamentos e viaturas acautelados. Ajude o escrivão na contagem e organização do material apreendido. Quando todo mundo já estiver louco pra terminar, pergunte ao chefe se ele precisa de mais alguma coisa. Seja o primeiro a chegar e o último a sair. Saia do WhatsApp e vá render o colega que ainda não foi almoçar. Ofereça-se para dirigir um pouco em longos deslocamentos. Vai buscar café? Pergunte ao grupo se alguém precisa que você traga alguma coisa.

E reflitam, pois, pra você, hoje, aqui, tudo isso pode não ser nada demais, mas pra quem está há horas em pé, com fome, cansado, com sono... é esse tipo de atitude que marca pra sempre nossa memória afetiva.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. Amiga, se não tá fácil para os novinhos (homens) que chegam ávidos por um lugar ao sol, pra você, que é mulher, vai ser duas, três vezes mais difícil a depender dos acessórios (filho pequeno, beleza física, marido ciumento etc.). É muito comum as pessoas partirem do princípio de que você não vai dar conta! Então, prepare-se pra ter de provar isso uma, duas, três vezes até que eles se convençam, e se mudar de equipe vai começar tudo do zero novamente! Além disso, saiba que se um colega do sexo masculino errar, vão dizer que "tudo bem", que "isso acontece", mas se você errar, as más línguas vão dizer que é porque você é mulher, e que mulher não nasceu pra esse tipo de atividade. Desse jeito, amiga! E mesmo se você fez tudo certinho e se deu bem, vão achar algum defeito ou algum motivo pra desmerecer sua vitória. Já disseram que eu "consegui" uma boa viagem, porque tava tendo um caso com o chefe. Já disseram que eu só recebia convite pra fazer curso fora por causa das minhas pernas... "Mas, Novinha, por que isso é assim?" Eu. Não. Sei. Outra coisa: desculpem entrar nesse assunto polêmico mas, se você quer mesmo ser levada a sério no mundo policial não se apoie em muletas de gênero. "Que isso, Novinha?" São aquelas artimanhas, do tipo chantagem emocional, para garantir um tratamento especial (tipo aliviar a sua carga, sua escala, etc.) na distribuição do serviço porque você é mulher. Olha aqui pra mim: esse tipo de estratégia é o campeão número 1 em arrecadar a antipatia da equipe e se isso acontecer, amiga. Já era! Espere a próxima lotação, porque eles não perdoam, mesmo.

Pra fechar, deixo com vocês o exemplo da Coronel Cynthiane da PMDF, primeira mulher a comandar uma tropa de elite, nada mais, nada menos que o Batalhão de Choque do Distrito Federal. Ela raspou o cabelo e ficou cinco meses na mata com um grupo de alunos do curso de operações especiais do BOPE. Casada com um policial civil, tinha um filho de 3 anos que se assustou quando a viu chegar em casa careca. Cynthiane garante que não houve qualquer regalia ou diferencial durante o curso em relação aos demais colegas. Leia o que ela tem a dizer:

"Quando me formei como PM, os tempos eram outros. As mulheres trabalhavam em grupos separados dos homens. Depois que fiz curso de pós-graduação, assumi a responsabilidade por áreas de ensino da polícia. Resolvi conhecer um dos vários cursos realizados no Bope e o primeiro que fiz foi para me especializar na segurança de autoridades. Eu estava em ótima forma física e o comandante do Bope me convidou para ficar. Não tinha ideia do que me esperava. Acho que foi muito mais difícil para eles, homens, entenderem que eu estava passando por todas as etapas e conseguindo ir adiante, do que para mim. (...) Ainda há preconceito. Ouço comentários de que não acreditam que eu concluí o curso, que não sou capaz. Mas os homens me respeitam, nunca tive caso de insubordinação. Ainda quero mais. Todo mundo sabe que meu sonho é comandar o BOPE (...) A minha chegada ao comando mostra que uma mulher pode qualquer coisa, basta querer, ter preparo psicológico e persistência".

Aí... é disso que eu tô falando!

sábado, 13 de janeiro de 2018

Dica nº 3 - Cultive uma mentalidade de sobrevivência.

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Policial precisa voltar vivo pra casa.

Já falamos sobre a necessidade de estar bem fisicamente e a importância de buscar o conhecimento. Agora chegou a vez de falar sobre a arte da guerra. Entenda que se realmente você leva sua profissão a sério, algumas coisas vão mudar naturalmente: suas prioridades, suas amizades, a forma como você gasta seu tempo livre. Você vai passar a ter um estilo de vida mais... tático. Para aprender a viver bem com essa nova identidade, é imprescindível que você cultive uma mentalidade de sobrevivência. 

Em primeiro lugar, treine

Não recomendo a ninguém o sentimento de que falhou ao enfrentar uma situação de risco. A perda dos valores envolvidos (vida, dignidade, integridade física, etc.) jamais será comparável ao que você deve investir em treinamento.  Aproveite bem cada oportunidade de treinamento que a Instituição te oferece e tente extrair o máximo de cada curso, de cada disparo no estande de tiro, faça anotações sobre o seu desempenho, veja o que você precisa fazer pra melhorar. Registre o seu desempenho! Mas não se limite a isso. Treine tiro sozinho em local seguro, tente aplicar o que aprendeu no treinamento. Se não tiver munição, treine sem munição. Como? Treine sacar e enquadrar o alvo o mais rápido possível. Treine fazer isso sentado, deitado, em baixa luminosidade, dentro do carro parado, dentro do carro em movimento (em local seguro, fazfavô!). Treine fazer isso cansado, após uma corrida, protegendo-se atrás de um abrigo. Treine trocar rapidamente o carregador da arma. Treine atirar com uma mão só. Trocar o carregador com uma mão só. Enfim, treine em condições bem próximas à realidade de um confronto armado onde tiro vai e tiro pode vir também. No confronto real você precisa sacar rápido e enquadrar o alvo da forma mais rápida possível. Segundos  e milímetros podem valer a sua vida. Então, treine!

Treine defesa pessoal policial, mas treine com objetivos concretos. Treine técnicas para neutralizar seu oponente. Treine o que fazer quando estiver com uma arma apontada para a sua cabeça. Treine como cair e não se machucar, treine como se levantar rápido da queda. Treine como se livrar de um estrangulamento, de um ataque com faca, de uma paulada, de um murro na cara, um chute no abdome. Treine táticas para se livrar de um estupro com um homem de 100 quilos em cima de você. Treine como atacar os pontos fracos do inimigo. Na hora "H" você vai reagir como treinou, se não treinou... vai fazer o que, né?

Treine como sobreviver em meio a adversidades. Treine flutuação em meio líquido usando calça jeans, boot e equipamentos. Treine a técnica correta para saltar um muro ou para saltar a uma altura de 10 metros n'água. Treine como descer ou subir de rapel. Treina vários tipos de nós e quando usar cada um deles. Treine como sair de um porta-malas de carro. Treine táticas para sobreviver a um incêndio. Treine como sobreviver no meio do mato, aí na sua região (na selva, na caatinga, na ilha, na montanha, no mar). Treine vários tipos de nós. Treine a arte de detectar mentiras.

Segundo, esteja sempre pronto pra responder a uma agressão. 

Para isso, crie o hábito de deixar sua arma sempre pronta para um saque rápido. Salve e deixe números de telefones de emergência ao alcance rápido. Deixe kits de primeiros socorros sempre à mão. Utilize equipamentos de proteção adequados. Invista em equipamentos úteis como um canivete suíço, um bastão retrátil, uma boa lanterna tática, armas backup, torniquete, óculos de sol de qualidade e aprenda a cuidar deles e a utilizá-los da forma correta. Esteja preparado! Não tem preço quando o colega tá tentando resolver um problema com uma tesourinha escolar, e alguém diz. "Novinha, vem cá, traz seu canivete suíço aí, por favor".

Terceiro, aprenda a detectar de onde vem o perigo. 

Para poder  sacar mais rápido e reagir, você precisa estar atento ao que acontece ao seu redor.  Não precisa ficar "full time a ponto de bala", mas precisa aprender a julgar vulnerabilidades e portar-se de acordo. Precisa detectar ameaças naquele cenário. O que tá errado, ou não tá combinando com o ambiente e então se antecipar. Não pode esperar a agressão ser anunciada para então poder agir. Precisa aprender a sentir se está sendo seguido. Aprender a estacionar o carro numa posição e local mais seguros e avaliar o cenário quando for embarcar de novo. Quando tiver que parar num semáforo, observe quem se aproxima e mantenha-se sempre em condição de reagir, porque ninguém surge na sua frente "do nada". Ou seja, em algum momento você se distraiu e "comeu mosca". Ficou falando ao celular na hora errada, ficou teclando no WhatsApp na hora errada, bebeu (bebida alcoólica) na hora ou da forma errada, etc.

Resumindo. Dediquem-se arduamente a atividades de sobrevivência, porque agora você é policial. A quem muito é dado, muito será cobrado! Então aja e viva com responsabilidade, de forma coerente com a carreira que você abraçou! Um policial é caro demais pra morrer em situações tão bestas.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. No início vai ser uma grande confusão na sua cabeça, porque o curso de formação é todinho feito para homens. No tatame, você vai treinar "defesa do genital" como se fosse homem... A grande maioria dos equipamentos são feitos para homens. Vai na loja e tenta achar um boot 36, por exemplo. Procure um terno feminino que esconda apropriadamente a sua arma... Olha... pouquíssimos cursos terão professoras mulheres e dispostas a te dar aquele toque sobre "como continuar sendo mulher após entrar para a polícia". Então, o jeito é experimentar tudo e ver como fica em você. Hoje, eu amo o Fuzil Colt, parece que foi feito pra mim, porque é uma arma leve e eu consigo bancar o tempo que for preciso. Já adotei a munição que me deixa mais confiante. Já achei ótimos terninhos, sapatos sociais e coldres especiais, com os quais consigo manter a elegância sem quebrar nenhum protocolo de segurança. E descobri o Shemag que revolucionou a moda operacional. É um lenço tático que alguns usam pra proteger o rosto, eu uso pra proteger o pescoço do sol. Amoooo! Mas pra chegar até aqui confesso que comprei tanto coldre, calças e outros acessórios que dá pra encher uma mala. Não é fácil se adaptar. Outra coisa bacana que aprendi, depois de muita humilhação nos tatames da vida, é que treinar joelhadas e cotoveladas em pontos estratégicos é o que há, amiga, porque funcionam muito bem, mesmo se você não tiver tanta força. Entendeu? Porque na pior das hipóteses você ganha tempo pra sacar sua arma ou para simplesmente sair correndo. 

Pra fechar, inspirem-se na mensagem dessa nordestina sertaneja que tornou-se medalhista de bronze no Pentatlo em Londres. O que é Pentatlo?

"Diz a lenda que, durante uma guerra na Europa, um soldado recebeu uma missão: entregar uma mensagem cruzando os campos de batalha. O soldado pegou um cavalo que não conhecia e saiu. Para atravessar as linhas de frente teve que combater usando o revólver e a espada. Mas, no meio do caminho, um problema sério tornou a missão ainda mais difícil. O cavalo se feriu e o soldado teve que completar o percurso a pé, atravessando lagos e rios. Surgiu assim o pentatlo moderno. Cavalgar, correr, nadar, atirar, e enfrentar adversários com a espada. No sertão nordestino, surgiu uma brasileira capaz de fazer tudo isso Yane Marques!"

"Correr, nadar, atirar, usar cavalo e espada
Para uma autêntica sertaneja isso tudo não é nada.
Pois sertaneja é assim: faz de tudo e nada erra
E ainda não abre mão de exaltar a sua terra.
Em afogados da Ingazeira, onde o sol mais forte brilha
Brilha o brilho de Yane, sua mais brilhante filha".

(Trechos copiados do site Do Pernambuco)

Aí, é disso que eu tô falando!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Dica número 1 - Aos barrigudinhos.

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Policial precisa estar bem fisicamente

Como vocês já devem saber, de norte a sul, de leste ao velho oeste, as boas oportunidades na polícia normalmente vão para os "antigões" (princípio da paleontocracia) ou para os "amigos da corte" (instituto do amicus curiae). Apenas excepcionalmente, é que uma chance boa dessas bate à porta de um "novinho", não é verdade? É aí que você precisa estar preparado.

A primeira dica que me vem à cabeça quando penso no Novinho Policial é essa: considere o seu potencial físico. Seu corpo é o seu principal objeto de trabalho. Você acha bom sair para uma operação com munição fraca? Com dúvidas sobre a manutenção do seu armamento ou sobre o perfeito funcionamento de uma viatura? Então, cabeça.

Muitos bons policiais perdem grandes oportunidades por estarem fora de forma, mesmo quem acabou de sair da Academia! Desculpas e dificuldades são muitas: seja porque ainda não encontraram um bom local pra treinar na nova lotação; seja porque o trabalho é muito exigente e não sobra tempo ou estão muito cansados pra treinar; ou simplesmente, porque estão desanimados, deprimidos, decepcionados. Então... é neste momento, quando você menos espera, que aquele colega te liga dizendo que surgiu um curso, mas que é preciso "flutuar sei lá quanto tempo em meio aquático", ou que teria que "correr mais de 2.000 metros em 12 minutos". É aí que se não estiver preparado, você vai declinar do convite com alguma desculpa qualquer, não é mesmo? Muita gente quer vir para o meu setor, mas poucos querem treinar... é pra esses poucos que eu passo bizu.

Acho muito importante frisar que a atividade física também melhora tua saúde mental e psicológica. Previne, por exemplo, a depressão, sabia não??? Quem já passou no concurso conhece o preço pago em "perseguir um sonho" por meio das longas horas em estudos e treinos, certo? Não é difícil encontrar relatos de concurseiros que perderam namoros e amizades, baladas e botecos, casamentos e funerais porque aquela prova insana estava chegando. O custo do estilo "Vida Social 0 X 10 Edital", deixa suas marcas. Quando passa no concurso, finalmente você vai para a Academia de Polícia, que alegria! E aí vai passar mais alguns meses isolado do mundo sendo gerado no útero daquela... daquela Madrasta-Megera-Malvada (pronto, falei!), ouvindo-a dizer, tácita ou explicitamente, que você "Nunca será". E quando, então, você prova para ela que você é capaz, sim... eles te mandam pra longe de casa, do namoradinho, do conforto de morar no seu apartamento, da casa da mamãe, da convivência cotidiana com os seus amigos, dos colegas no trabalho anterior, dos melhores parceiros da Academia... Mimimimimi! Engole esse choro, meu bem... porque agora você vai começar uma nova vida lá onde o vento faz a curva, onde o clima é estranho, os costumes são diferentes, o ambiente social e os desafios são completamente novos pra você.

Nesta altura me vem a pergunta: "Será que ainda tem alguém lendo este post motivacional?".

Tenho um histórico respeitável de depressão na minha família. Queria compartilhar isso. Obrigada. Mas, até o momento, graças a Deus, essa desgraça nunca me pegou. Pra mim, a atividade física é, além de uma amiga do peito, um forte antidepressivo preventivo. Se este problema estiver rondado o seu caminho, saiba que depois de Jesus Cristo, nosso Senhor, é aquele seu tênis de corrida que vai se apresentar como um dos seus amigos mais chegados. Esse é o cara que nunca vai largar do seu pé! Que sempre vai ter tempo pra você. E o seu quimono. Este será seu melhor parceiro de lutas! Jamais vai te deixar na mão quando você estiver sem fôlego no combate. É ele que vai estar ali te dando forças, te abraçando, enquanto você se recompõe perante o adversário.

E haja coração, queridos novinhos, pois ter um ataque cardíaco ao fazer uma abordagem ou durante uma perseguição policial é literalmente o fim da picada... Nunca se sabe quando você vai ter que pular o "muro do desespero", ou sustentar seu peso agarrando-se ao esqui de pouso de um helicóptero, ou ainda subir numa embarcação estando dentro d'água com equipamento, botas e tudo o mais. Espero sinceramente que você consiga, porque, caso contrário, na melhor das hipóteses, você vai virar a piada do ano na delegacia. Se cair nas redes sociais, então, misericórdia!

Para as meninas, é claro que tenho um bizu especial. Noto que vários colegas meus gostam de ressaltar o fato de sempre me verem treinando uma coisinha aqui, outra ali. Eles acham que isso demonstra seriedade ou coisa do gênero. Outros comentam admirados o fato de terem me visto correndo outro dia láááááá na ponte. Acham que isso demonstra comprometimento. Saiba que em matéria de treinamento físico, mulher já chama a atenção logo e muito facilmente... para o bem ou para o mal, amiga. Cansei de ver cofrinho masculino, elástico de cueca, etc... e ninguém fala nada. Agora vai você para qualquer treinamento com roupa inadequada pra ver... Por outro lado, você também será notada pelo simples fato de chegar mais cedo pra alongar ou aquecer direitinho, entendeu? Se entrar um pouco além do horário, treinando repetições, é certo que vão comentar. "Por que, hein?" Não sei, gente, tenho tantas questões quanto vocês. Mas in-fe-liz-men-te dizem que é raro ver esse tipo de comportamento no segmento feminino... bem... E pra quem não é do meio, aviso que fazer corpo mole pode até funcionar para outros fins, se é que me entendes, mas se você quer ser reconhecida como uma boa profissional da área policial, não mete essa, ever

Pra fechar, deixo com vocês as palavras de uma atleta olímpica militar da gloriosa Marinha Brasileira, medalha de bronze no Pan-Americano de Toronto em 2015 que quando questionada sobre a polêmica da continência no pódio, nos Jogos Olímpicos Pan-Americanos simplesmente respondeu:

"...Se não fosse a Marinha, eu não estaria onde estou hoje. Portanto, sem dúvidas e com toda honra, eu prestaria continência para o Hino Brasileiro no pódio.” Fernanda Decnop

Eu acho que o inverso também é plenamente verdadeiro, né Fernanda, minhas respeitosas continências a você, porque se não fosse VOCÊ, a Marinha e o Brasil não estariam brilhando daquela forma no pódio, não é mesmo?

Aí... é disso que eu tô falando.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Cada um usa as armas que tem.



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Ela contou que estava andando num lugar ermo à noite e percebeu que alguém a estava seguindo. Andou mais rápido e o cara também acelerou. Virou numa rua para despistá-lo, virou na outra e ele fez o mesmo! Daí ela teve uma ideia. Foi diminuindo o ritmo e olhando pra trás até o sujeito chegar mais perto. Então ela parou de repente e se virou, encarando-o. Ele parou e começou a olhar pra ela de forma lasciva e libidinosa. Então ela simplesmente levantou a saia, sem tirar os olhos dele. Imediatamente ele baixou as calças. 

"Mas e aí??? O que foi que aconteceu, gente?"

Ela saiu correndo ué, porque é muito mais fácil correr com a saia levantada do que com as calças arriadas. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O legado.


Após uma eternidade, os papéis finalmente tramitaram e eu já estou aqui no meu novo local de serviço. Eles estavam falando sério quando disseram que queriam me trazer pra cá. E eu vim! 

Todos que chegam precisam fazer esse curso e eu entrei de cabeça, sonhando com cada instrução aqui da grade horária. Estou adorando tudo! Anotando tudo! Vivendo tudo com muita intensidade! Só não gosto do professor de tiro que por vezes aponta a arma para os alunos, quebrando regra básica de segurança, o que me deixa extremamente incomodada. Espero que não seja o mesmo instrutor nas aulas de tiro real.

Todos aqueles testes que fiz anteriormente eram meramente preliminares e o que vai valer mesmo são os novos testes que faremos durante o curso. Tudo de novo mais teste de tiro, teste teórico e outros que ainda não sei bem como serão e eu não posso fazer feio. 

Bom, o que posso dizer para início de conversa, é que eles são extremamente organizados. E nossas sinapses disparam no sentido de concluir que tem dedo de militar aí, não é mesmo? Mais um desafio: ser organizada.

A divisão do trabalho aqui é completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto antes. Sim, porque as funções são muito diferentes. Aqui não tem delegado (não disse nada e a mente humana já fica pensando maldades). 

Existe um roteiro que você deve seguir assim que se apresenta na casa. Você é recebido no Gabinete, depois se apresenta no setor de pessoal, entrega documentos, 22 fotos, vários exames médicos, tem que tomar vacinas, daí você recebe uma cartilha, com várias informações úteis e sobre o passo a passo de quem está chegando. Recebe seu crachá, equipamentos de treinamento, apostilas impressas que não pode copiar e um monte... um montão de procedimentos padrão operacionais... que não sei se funcionam, mas acho isso fascinante!

Você policial que como eu chegou completamente perdido na sua lotação e a cada dia descobre algo novo que deveriam ter te falado no dia em que se apresentou, sinta-se consternado, porque aqui tudo isso está devidamente escrito e organizado racionalmente! Além disso, existem livros sobre a doutrina da casa, existem cadernetas impressas com check-lists de assuntos gerais e existem manuais sobre procedimentos operacionais. Amigos, tem mais material escrito aqui do que eu já li em toda a minha vida na polícia a respeito do tema. 

Então... era disso que eu tava falando!

Sabe aquela sensação do nerd que vivia sofrendo bullying na universidade e no fim é selecionado pra trabalhar tipo na Apple? Igual!

Vou explicar melhor, quase todos os setores onde já trabalhei antes eram movidos pelo empirismo. Cada um executa do jeito que sua experiência determina. Logo, se você não tem experiência, não tem nada! Sim, porque pra eles, ser organizado, escrever procedimentos, conhecer e seguir a doutrina era sinônimo de engessamento, uma coisa obsoleta, inflexível. De onde eu vim, instruções normativas só são normalmente escritas quando algum grande erro de colega o justificasse. O que não significa que o ensinamento seria passado para as gerações futuras. Resultado: aquela insegurança de novinho que vocês já viram nos textos passados, né, e um enorme desperdício de tempo pra quem chega e precisa reinventar a roda em cada operação. 

Portanto, quase tive um acesso de alegria quando solenemente recebi esse material todo escrito. Pra mim, é como se fosse um legado de quem passou por aqui antes e contribuiu. Muito obrigada, antigões, eu vou saber honrar as gerações passadas e sinalizar para as que vierem depois de mim.


domingo, 10 de janeiro de 2016

Minotauro, Teseu e Ariadne



Querido blog, 


Ele é agente, veio de outra cidade pra cumprir missão aqui no meu setor. Não é muito antigo de casa, não, é antigo de idade, mesmo. Os cabelos grisalhos dele e a voz impostada impõem moral por onde passa. E ele passou por várias outras instituições irmãs antes de vir pra cá. Adora contar histórias de quando trabalhava noutra polícia. O problema é que são histórias estúpidas de gente arrogante, preconceituosa, machista, sexista e amarga. Aquelas coisas que os minotauros acham importante deixar claro para as mulheres. Mas ele jura ter algo a dizer pra humanidade. Ele precisa de atenção. Então tá, estou prestando atenção e mantendo a linha editorial educada do blog.

Minotauro foi tenente da Nasa, mas aqui não é a Nasa. Nem a Nasa é a Nasa que ele pinta. E eu sei que não tem tenente na Nasa, mas eu não queria ferir suscetibilidades. Bom, ele pôs na cabeça que a gente tem que padronizar tudo. Poxa, por que que a Nasa tem essa mania de padronizar?! Volta pra Nasa, Minotauro! Tem, sei lá eu, umas 40 instituições americanas pra fazer só o que a minha polícia faz por aqui. São tantas atribuições que algumas não têm nada a ver com trabalho de polícia em si. Aí o tenente chega da Nasa cheinho de preconceitos e acha que tem que padronizar tanto o policial que opera na Tundra Siberiana do Paralelo 30 quanto o que progride nos pântanos equatorianos?

Um dia acho que ele se deu conta de que estava meio ultrapassado. Viu um novinho operando um fuzil que ele não conhecia e parece que não soube lidar bem com isso. Porque se o Tenente veio do mundo da Lua, o novinho serviu no Iraque. Aprendeu a matar com o Rambo, o Shuazeneger. o Teseu. Ele era o Sniper Americano e o Minotauro não sabia sequer acoplar uma luneta no fuzil. 

Posso falar, querido blog?

Policial de verdade, pra mim, é o cara que desenrola a parada e cumpre a missão, simples assim. Se ele assovia, canta, dança, se foi tenente da Nasa ou aluno do Rambo, não me interessa. De pensar que eu achava que esses eram os caras, pois já chegaram prontos na Polícia. Ledo engano. Porque na hora do "vamovê", do "pegapracapá", na hora da "onçabebeágua"... os dois agentes de polícia mega brevetados deixaram muito a desejar... Pois é.

Na mitologia grega, Teseu, super corajoso mas burrão, estaria perdido se não fosse a ideia do fio de Ariadne (mãe do GPS) pra ele conseguir se orientar a fim de sair do labirinto, após matar o terrível Minotauro fortão que só lanchava adolescentes. Entendeu?

O novinho do Iraque deu, como posso explicar? Uma crise nervosa, um medo de não sei quê... e o resultado foi uma lambança. Porque não há nada mais exaustivo do que administrar expectativas alheias, né. Vai entender. Foi dispensado automaticamente de seguir na missão e voltou pra casa apesar de toda a sua brutal expertise de guerra. 

O antigão também foi muito aquém do esperado. Disse que era porque ele estava sem os óculos. Perdeu o prumo, passou vergonha demais, coitado. Disse que seria a última vez que ele participaria desse tipo de missão. Duvido. Ano que vem ele tá aqui de novo. Que venha, pois quem não vai estar aqui ano que vem sou eu, amigos, alçarei vôos mais altos. Agora, sou eu que vou trabalhar fora do ninho! 


domingo, 28 de setembro de 2014

Pra cho-car a sociedade.


Quando cheguei aqui neste setor, tive que descobrir praticamente sozinha como trabalhar. Isso é muito normal por aqui, e, não vou omitir, aconteceu em quase todos os lugares por onde passei na polícia. Praticamente não houve passagem de serviço ou da carga de equipamentos, et cetera et al. Por que isso, comunidade? Cara, eu acho que a Administração pensa mais ou menos assim: "você passou num concurso punk desses, sobreviveu a um curso de formação parrudo, então sabe se virar muito bem..." E a vida ri da minha cara.

Curiosamente, a única coisa que me deram quando cheguei aqui pra trabalhar foi uma apostila nada engraçada contendo a legislação aplicável à área. Sério. Minha chefa ou qualquer outro colega só entravam no circuito quando eu provocava com alguma dúvida. Nos primórdios, era tanta informação nova que eu tinha que anotar. Tantos detalhes, e minúcias, e exceções. Assim, tudo o que eu aprendia no tapa ia para o meu roteiro particular de análise de documentos. Acho que manjei uns checklists bacanas (influências militares). Aos poucos, errando aqui e acertando ali, fui traçando um roteiro, um verdadeiro "mapa do caminho das pedras" que não tinha no Google Maps. Quando a minha nova tropa de contratados chegou, apresentei-lhes os checklists e tudo fluiu sem traumas. A vida me encara séria, às vezes.

Agora, nossa chefa quer reunir todos os nossos "clientes policiais", nossos colegas que trabalham na ponta dessa área aqui, e vamos mostrar pra eles onde podem melhorar. Assim, além do consumo interno, a gente agora vai exportar nossos checklists. Bonitinho, né?

(Entenda o caso: os policiais da ponta mandam pra gente o fruto do trabalho deles e os errinhos são tantos que às vezes a gente precisa, inevitavelmente, devolver a papelada toda pra fazerem tudo de novo... Um vergonhoso desperdício de tempo, dinheiro público e energia. Mas agora os nossos problemas acabaram).

Vamos reunir nossa "clientela" num lugar mais que especial... É. E esta que vos escreve será uma das palestrantes no evento!!! Eu. Que escrevo estas mal digitadas linhas para os senhores. Serei pa-les-tran-te. Num evento. Policiaaaaaal. Queria tanto que o nível da polícia não decaísse a esse ponto.

Resta-me sorrir pra vida em "Sol Lamento", disfarçando o frio na barriga.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fim de expediente.


Agora que passei a ser chefinha com gratificação e tudo, ganhei uma sala pra chamar de minha, a qual divido com um assistente estagiário superlegal. Era pra ser uma vantagem fantástica, afinal, um novo escritório é um símbolo moderno do progresso na carreira de uma pessoa. Além do que, aquela outra sala era barulhenta demais, parecia uma feira. Só que não. Eu fico sozinha à tarde porque o estagiário só trabalha no período da manhã. E qual seria o maldito problema de ficar sozinha? Simplesmente não posso ficar nem um segundo nesta sala após o expediente porque tem um delegado antigão metido a galanteador aqui! Blé.

Pensando seriamente em trazer o Bush meu fuzil preferido pra me fazer companhia. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O único dia fácil foi ontem.

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Este texto está sendo escrito a partir do meu ponto de vista. Não representa o posicionamento dos instrutores do setor de tiro da minha escola de formação policial, nem é a opinião da minha Academia, nem é a doutrina oficial da minha Polícia. E digo mais... muitos dos meus bons colegas certamente criticariam este texto. Paciência, meu bem... porque o blog é meu.


Na minha Academia, o que vai fazer a diferença na nota da galera são as matérias práticas. O resto é tudo nota 10 ou 9.9,  9.8... assim. Essas matérias, principalmente Ed. Física, Defesa Pessoal e Tiro, são também as campeãs em reprovação (vide último curso, meninas). Além disso, na minha modesta concepção, é no tiro, principalmente, que se detectam os alunos psicologicamente despreparados. (Não... não é no psicotécnico, tá?). Mas graças às misericórdias de Deus Pai Todo-Poderoso, foi nessas matérias aí que me saí melhor. Enganei bem!

 Pensa comigo. No caso do tiro, o treinamento me rendeu:
  • a segunda melhor nota na minha turma (a primeira foi de outra menina, oriunda de outra polícia);
  • o apelido carinhoso de "pistoleira" entre os colegas (adorei!!) e
  • um final de semana maravilhoso, namorando, é claro, porque ninguém é de ferro e eu mereci (minha prova foi na sexta-feira à tarde).
Esta "pistoleira" abusada que vos escreve entende que existem três princípios básicos pra se dar bem no tiro. É o "SAT" - Segurança, Atenção e Técnica.
Quando partir para as aulas práticas no estande de tiro, certifique-se cuidadosamente de que está com todos os equipamentos necessários e bem ajustados. Isso é fundamental. Se você estiver sem um equipamento de proteção por exemplo, não vai poder fazer aula... e vai levar falta! Use protetor solar, mas limpe bem as mãos depois, pra arma não ficar escorregando; Amarre firme o cabelo e cuidado com o franjão no olho... atrapalha! Amarre forte o cadarço do boot; dá uma passada no banheiro antes... Beba bastante água, porque não pode levar "mamadeira" para a linha de tiro... e re-la-xa. Por que? Porque não dá pra entrar num estande e ficar preocupado com qualquer outra coisa na face da Terra, senão em fazer um tiro seguro e eficiente. Vai por mim.

Não faça ~nada~ sem ter sido comandado antes, (não tire a arma do coldre sem autorização, não municie os carregadores da arma sem comando, não se levante, etc.!) Obs.: municiar é uma coisa, carregar é outra (joga no gugou).

Só coloque o dedo no gatilho da arma, quando realmente for efetuar o disparo. Só!!! Olhe as fotos na Internet... é tudo com o dedo indicador estendido ao longo da armação. É uma regra espetacularmente simples, mas em quase toda turma ocorre um disparo acidental. Aí, será quase meia hora de sermão do professor com a decepção estampada no rosto, mais o sofrimento dos colegas que estão próximos a você na linha de tiro.
Por tudo o que lhe for mais sagrado... "Controle a direção do bendito cano da arma", ou seja, jamais, nunca... em hipótese alguma... esqueça a sua arma apontada para alguém ou para uma área não segura. Se você se distrair vai ouvir doces berros dos professores no seu ouvido. Do not do that, ever, pra depois não reclamar que os professores de tiro são grossos... pôxa.
Importantississississimo!!! Controle sua ansiedade nessas aulas e preste atenção, meu querido. Ouça  e confie nas orientações dos professores... Aproveite-as! Porque tiro é uma matéria que não se aprende lendo apostila. Não tem como "pegar" depois com um colega. É um passo de cada vez e nessa aula tem que se concentrar no que está sendo feito. É muita informação (que não tem na apostila, repito) em pouquíssimo espaço de tempo. Às vezes o aluno, por melhor que seja, tem dificuldade de acompanhar a aula por causa do cansaço, do stress, da tensão, da adrenalina e... da pressão dos professores... (isso prepara você para o combate em ambientes e situações exigentes). Então, olha... não entendeu? Pergunta! Pede para o professor demonstrar novamente. Por que? Porque tem coisa que se você não prestar atenção, pode se machucar feio! Exemplos (esses bizus você não lê nos fóruns da vida):

  • Na submetralhadora, você deve "colar" o rosto no prolongamento da coronha pra dar estabilidade ao seu tiro (são cinco pontos de apoio dessa arma no seu corpo, o rosto é um deles, cola!). Já na espingarda calibre 12 se você chegar o rosto muito perto da arma esse trambolho vai te dar uma porrada (aconteceu comigo, depois da Academia!) podendo até te quebrar alguns dentes (a SPAS 15, principalmente! Porcaria de arma).
  • Observe exatamente a posição das mãos na empunhadura de cada arma. Muita gente boa machuca o dedo na submetralhadora porque chegou a mão de apoio muito perto do cano da arma. Bisonhice pura... mas acontece muito.
  • Cuidado com a posição das mãos no tiro noturno, a mão que porta a lanterna passa por baixo da mão que segura a arma, obviamente, do contrário o ferrolho vai bater violentamente na mão que segura a lanterna, na hora da ciclagem (quando a arma abre pra saída do estojo). Esta já aconteceu comigo, também... meus amigos Dããã. (mas também foi fora da Academia e ninguém viu... sou super bisonha!) . 
No mais, meus queridos leitores que vão enfrentar a "madrasta" (academia de polícia), os desafios serão um atrás do outro, mas vale a pena! Você vai sentir medo, desânimo, cansaço, desespero, tristeza, dor, solidão... mas se fosse fácil a vitória não seria tão gostosa e essa camisa não seria tão linda e cobiçada! Se você errar, bem-vindo ao clube dos humanos! Fique calado, guarde suas desculpas pra você mesmo e supere isso rápido, aprender a lidar com seus próprios erros e com os erros dos colegas faz parte do treinamento pra vida real. Vai na força que Deus te dá e senta o dedo!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Alfabeto da Academia.

 
A sua vida vai mudar depois que você se tornar um policial (pronto: primeiro cliché do ano). Sua visão de mundo, seu comportamento e o seu alfabeto vão mudar. Vá entrando no clima.
 
O "P1" (lê-se pê-um") é como alguns funcionários e professores chamam a entrada da Academia. A Portaria. O Plantão. No começo é estranho mas depois você entende que "P" é "ponto", logo P1 é o "ponto um". É verdade que não consegui identificar o P2, o P3... Mas o P1 todo mundo aprende logo onde é. Mas P1, P2, P3... também é a nomenclatura com a qual você identifica os policiais num treinamento de abordagem, por exemplo. Assim, em vez de dizer "o policial que está conduzindo o veículo" ou "o policial que está sentado no banco do carona" ou ainda o "o policial que está atrás do banco do carona" fala logo P1, P2, P3... pronto.
 
Como esta, várias outras expressões se resumem a letras e números. Por exemplo, G36, G 17, PT 100, PT 24/7 são armas. É bem melhor falar "G36" do que "Fuzil Heckler & Koch 5.56x45mm Gewehr 36" até porque existem variantes G36, G36V, G36K, G36KV, G36C, MG36 e MG36E. Se liga, aluno!

S1, VIP, S2 são viaturas em comboio e o mundo inteiro fala assim. Ah, policial não anda em carro, ok? Anda em viatura.
 
X9 é um informante, também pode ser um "dedo duro" ou um traidor. Depende de que lado você está. Já sabia, né? Só que eu não.

O calendário gregoriano também sofre alterações na Academia. Se um aluno pergunta para o outro "Que dia é hoje?" e este responde que hoje é "D menos 30" ou "30 fora" isso significa que faltam 30 dias para o final do curso.
 
Ás vezes, prefere-se utilizar o alfabeto fonético internacional (Alpha, Bravo, Charlie, Delta...). Assim, a letra "D" vira Delta. PM vira Papa Mike (Policial Militar), Papa Charlie (Policial Civil), Alpha Papa Fox (Agente de Polícia Federal). Você aprenderá rápido!
Normalmente, as turmas são nomeadas oficialmente por ordem alfabética, mas é claro que os apelidos são férteis. "Turma Garra" para a Turma G; "Muralha" para a Turma M; Mas os professores também se utilizam da letra para identificar as turmas "problemáticas" tipo, Turma A de "Amadora", Turma B de "Bisonha", Turma C de "Turma Chata", Turma D vira a "Turma Delicada"... e por aí vai. Aí, meus amigos... coitado do(a) Xerife (representante da turma)!
 
O "Código Q" ainda é usado nas comunicações via rádio, câmbio, mas ganha adaptações, câmbio. QRF não existe no "Código Q" oficial, mas pra nós era "Refeição". QRU ("tem algo pra mim?") vira "encontro com o(a) amante". "Alpha 2" também significa amante. E, abre o olho amiga, se seu namorado policial tiver no celular, o indicativo "sobreaviso" isso também significa amante. Câmbio final, nele!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Quatro anos do Blog Mulher na Polícia.


Galera, presta atenção na letra e esquece o mico de aniversário, porque os policiais desafinados também têm um coração (risos).

De janeiro a janeiro
(Roberta Campos)

"Não consigo olhar no fundo dos seus olhos
E enxergar as coisas que me deixam no ar, deixam no ar
As várias fases, estações que me levam com o vento
E o pensamento bem devagar

Outra vez, eu tive que fugir
Eu tive que correr, pra não me entregar
As loucuras que me levam até você
Me fazem esquecer, que eu não posso chorar

Olhe bem no fundo dos meus olhos
E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar
O universo conspira a nosso favor
A conseqüência do destino é o amor, pra sempre vou te amar

Mas talvez, você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor, não será passageiro
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar".

sábado, 30 de novembro de 2013

Na trave.

 
Olha... eu não tenho mais saco pra ouvir você reclamando que a polícia não tem carro blindado. Eu já sei que não tem e que deveria ter. Eu já sei. O que eu não entendo é porque, então, que você sai pra operação sem colete à prova de balas, já que, né?
 
Você arrota que nenhum ser humano é capaz de operar "inteiro" após doze horas de serviço ininterrupto. Claro que não é. Mas acontece. Eu, porém, te garanto que esse teu precário preparo físico, meu amigo, não te dá autonomia nem de duas horas de serviço ininterrupto.
 
Você reclama que as viaturas policiais não têm computadores interligados aos sistemas de informação pra você fazer consultas de emergência na rua e  blá, blá, blá, mas peraí... você perdeu o prazo de recadastramento da senha do INFOSEG?
 
Você reclama que a Administração não te paga horas extras de trabalho, mas vejo que você jamais reclama de ficar horas e horas na seção olhando as redes sociais da internet ou fazendo negócios particulares no telefone da Administração.
 
Meu querido, você reclama da falta de equipamentos necessários na polícia. Falta equipamento, mesmo. Mas eu já vi você sair pra diligências desarmado, aliás, nem lanterna tática você tem... Meu fi... nem o cinto de segurança da viatura... você usa!
 
Me dá nos nervos quando você reclama que não se sente valorizado pelo seu tempo de serviço. Ora é notório que você só quer trabalhar nos "grandes eventos", seu fanfarrão. Você não se qualifica, não quer fazer um curso, não quer botar a cara pra bater... e quer andar na janelinha?
 
Agora você reclama do planejamento "mal feito", mas você estava lá no briefing e ficou o tempo todo calado, emburrado, mal humorado. O Coordenador perguntou se alguém tinha sugestões, se o pessoal mais experiente gostaria de fazer alguma colocação... você ficou ca-la-do.
 
Já sei... você quer saber quem sou eu pra te criticar, né? Eu sou uma novinha que ainda nem sabe direito se fica na polícia. Não tenho nem de longe a experiência que você tem, mas tenho naturalmente te observado, afinal você é mais antigo, e foi essa a dica que me ensinaram na Academia. Mas, pra mim, são pessoas como você que estão acabando com este órgão. Você não me representa; você não me inspira; você não é, pra mim, um referencial.
 
Posso te dar uma simples sugestão? Primeiro, tire a trave do seu olho pra depois tentar tirar o cisco do olho do seu irmão, ô palhaço.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Intimidade.


Limpeza de primeiro escalão é para os fracos.

sábado, 6 de julho de 2013

Músicas de trabalho.


    Uma lista de músicas especiais pra ouvir antes de partir pra uma operação.
  • Wide awake - Katy Perry - Essa é uma música para despertador! Ótima pra já acordar no clima, espantar o sono, e ficar esperta. Polícia é isso mesmo: abandonar ilusões e partir pra vida. Acorda, Katy, pra vida né, Perry!
  • Save the world - Swedish House Mafia - Tão difícil sair dos braços dele nesse friozinho da madrugada, mas alguém tem que salvar o mundo, né? Quem? Eu, é lógico! Ah, e essa também é uma homenagem ao meu cachorro e a todos os cães policiais. É, hoje tá difícil acreditar na polícia, né? Por isso eu sou a favor de mais cães policiais no nosso efetivo. Quem tá comigo aumenta o som!
  • Titaniun - David Gueta - Ok... Essa é pra ouvir antes de sair com o carro da garagem. Porque se eu não acreditasse SEMPRE na ajuda do sobrenatural eu não sairia de casa nem pra comprar pão para o café da manhã! Caiam mil ao meu lado esquerdo e dez mil à minha direita eu não serei JAMAIS atingida. Armadura de titânio puro! Faruêêêê, Faruêêêê...
  • Zombie - The Cranberries - Pode ouvir no caminho... Sempre bom lembrar que a gente tem que olhar o mundo com olhos de águia. Não focar apenas no quadradinho da situação, mas sempre entender o contexto macrosistêmico dessa por.caria toda. O poliça quer acabar com a violência como? Com mais violência? Quedizê... What's in your head?
  • Chasing the sun - The Wanted - Como assim "desistir"? Te disseram que você não tem condições de chegar lá? É mentira! Olha eu aqui! Então se joga, amiga, persiga o seu "alvo", o seu objetivo até alcançá-lo. Daí grita bem alto igual a uma louca: "vim, vi e venci!". U-hu!
  • I follow rivers - Likke Li - Música de perseguição. Tem que ter! Vai que... Mas é claro que eu vou te pegar e vai ser lindo! "I follow you deep sea baby. I follow you, don't run baby. You're my river running high. Run deep, run wild".
  • Try - P!nk - Essa é pra todo mundo que tomou a pílula vermelha e já entendeu que a coisa é mais embaixo. Você já se perguntou ‘bout what he’s doing? How it all turned to lies?. Cadeia neles! E essa coreografia também é bastante inspirativa. É o Apache, um estilo de dança de rua parisiense. (Lei Maria da Penha nesse barriga de tanquinho, Pink!) ~apagar~
  • One way or another - Piper Perabo - Flagrante postergado. Só os fortes têem paciência pra esperar o momento certo de pegar... mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro eu vou te prender! One way or another, I'm gonna find ya! Isso, joga o cabelo, amiga, igual a Joelma.
  • This is my house, this is my home - We Were Promised Jetpacks - Estranho como todo o foco da polícia é o bandido. Não deveria ser a vítima? Bora humanizar e fazer um atendimento bacana às vítimas?  Duzentos reais pra quem me disser what.the.hell aconteceu nesse raio de sótão dessa música. 
  • Part of me - Katy Perry - Amiga... essa é pra chegar chegando! "Todas as mulheres são criadas iguais, até que algumas decidem se tornar policiais". Consegue imaginar? Oquei, isso foi uma piada... Mas, ó... jamais subestime uma mulherzinha...
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

As próprias limitações.

 
Logo na primeira semana tive que pagar dez flexões de braço, na frente de toda a turma, porque tinha descuidado de um equipamento. Tinha que ser eu! Os oficiais alunos sentiram um certo desconforto pelo fato de o instrutor me punir assim, como se tal prática fosse apenas para militares. Eu soube disso porque o mesmo instrutor que me fez pagar veio no dia seguinte me pedir desculpas... "Quê isso Sargento..." respondi, "Imagina! Estou me sentindo em casa (mentira). Na minha Academia é pior porque muitas vezes se um aluno erra, todos pagam, inclusive os professores... (verdade)".

Ah, gente, na boa... dez flexões não são nada perto do que estou me preparando pra enfrentar no decorrer deste curso. Olhando a grade curricular que nos foi distribuída, já estou pensando em como vou fazer pra vencer algumas sérias barreiras pessoais. Mas estou feliz porque acho que não tem nada que eu queira mais em termos profissionais do que me capacitar e estar apta a fazer um bom trabalho para o qual já sou paga. É um privilégio enorme poder vencer, com fé em Deus, as próprias limitações. Olhar pra trás e ver que elas nem eram tão grandes como supostamente se apresentavam.
 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Escuta clandestina.



Eles não perceberam que eu estava ouvindo a conversa do outro lado da vitrine, enquanto namorava as peças de uma senhora joalheria que ficava no hall de um dos hotéis mais famosos de uma das cidades mais badaladas que conheço. No diálogo, curiosíssimo, os dois atendentes  comentavam sobre "um certo ar de mistério" das policiais que estavam trabalhando ali. Aquele momento em que você pensa: "meu salário não dá pra comprar essa jóia nem em 483 prestações, mas me divirto ouvindo conversas alheias". 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quarto de hotel.


Sasha Grey in The Girlfriend Experience
 
Ela é do meu concurso. Estamos dividindo o mesmo quarto de hotel nessa missão. É bom que vocês saibam que a minha história na polícia é um "Conto de Fadas" perto de "A Hora do Pesadelo III" que foi o que ela passou na primeira lotação.  Teve uma depressão ~daquelas~ logo que chegou lá, e quase levou uma punição por conta disso (depressão é um motivo alegado com alta frequência nos pedidos de remoção, logo, atrai certa desconfiança); se envolveu com o cara errado; sofreu um acidente sério, não necessariamente nessa ordem, mas enfim, ela se machucou bastante. Agora parece que o pior já passou e ela me conta tudo, embora mantenha um ar longínquo, exceto quando chora. Eu gosto dela. Ela conhece todas as novidades sobre cremes, makes e produtos para o cabelo. Tornou-se meu referencial teórico nessa área.  Está fazendo uma pós em Direito Processual Civil (autopunição? rs). Contudo, o que ela não sabe, nem precisa saber, é que eu sou amiga da mulher do cara por quem ela ainda sofre.

sábado, 6 de abril de 2013

Não me representa.


 
*AGENTE POLICIAL NERVOSA* entra na sala: Quando a gente usa as algemas tem que justificar para o Supremo. Quando não usa tem que justificar para os colegas. Me encanta a pessoa que reclama da falta de liberdade de decisão criticando a liberdade de quem decidiu diferente. Wake me up quando a militância das algemas ends.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Polícia na Favela


Pela primeira vez na vida subi uma favela ("não-pacificada"). Estávamos dando proteção aos agentes de outra instituição pública que precisavam subir lá pra realizar uma tarefa. Viaturas, armamento pesado e indumentária ostensiva. Experiência inesquecível! A propósito, acho que Isabella está apaixonada pelo Bush, um Fuzil AR-15 que tem andado com a gente. Uma gracinha! Encaixa certinho no corpo, é leve, super confiável, bonitão, imponente e aquela bandoleira lhe confere um charme todo especial! Só é um pouco nervoso, ele. Quando irritado... tsic, tsic, tsic, sai da frente, porque o estrago é grande.
 
Dia desses houve uma operação policial de tráfico sanguinolenta nesta mesma favela, da qual não participei. Houve confronto, tiroteio e tal. Não sei se voltar lá nesse contexto seria melhor ou pior. Pra ser bem sincera, eu não entendo nada de favela e nem tenho treinamento adequado para operar em favela.
 
Se eu tive medo? Tive. Especialmente no momento em que soube da missão. Medo e inveja do colega escrivão que ficaria na base, pois só começaria o trabalho dele quando a gente terminasse o nosso. Aliás tenho mais medo de não ter medo, do que das causas do medo em si, porque o medo é parceiro. Ajuda a gente a continuar vivo. Só que este foi um medo diferente que eu não conhecia até então.  Eu não sei não, mas tenho a impressão de que estou me acostumando com esse negócio de correr riscos, tanto que o medo "parece" não ter mais tanto efeito. Sabe o que é ter plena consciência de que você vai cumprir missão na "Faixa de Gaza" mas não dá tanta importância ao fato em si? É, porque "dar a devida importância ao fato em si" no meu caso, significa se trancar em alguma cela da custódia na hora da saída e engolir a chave repetindo o mantra: "Não vou, véi! Nem de blindado, véi!".
 
Mas fui. Não chorei. Não desmaiei. Não tive nenhum desarranjo intestinal (ocorre bastante, nas melhores polícias). E deu tudo certo. Ao mesmo tempo que foi super rápido demorou uma eternidade. Quando retornamos notei que o mundo continuava igual. Aquilo tudo lá, não foi nada demais. Não deu no jornal, não houve faixa de boas vindas na recepção, ninguém nos deu os parabéns... Ora, policiais arriscam as suas vidas todos os dias. Onde está a novidade nisso? A maioria dos próprios colegas nem ficou sabendo que nossa equipe esteve lá. Só houve um novinho que me encontrou à noite malhando na academia e perguntou bastante interessado. "E aí, Novinha, como é que foi lá na favela". Eu sorri pra ele e não sei por que, mas até eu respondi sem muita empolgação: "Tranquilo".

domingo, 4 de novembro de 2012

Só por uma noite.

 
 
 
Conseguimos cumprir a missão naquela cidade logo pela manhã, mas só poderíamos voltar pra casa no dia seguinte. É o meu trabalho... fazer o quê? Turismo, oras! Meu parceiro, me levou pra conhecer os pontos interessantes da região. Eu gosto de conhecer lugares diferentes e gosto mais ainda de fazer essas coisas de oportunidade única. Olhamos a agenda cultural e ainda conseguimos comprar ingressos para um show imperdível! Perfeitooooo - pensei - Hoje vou sem stress, sem arma, sem carteira... e sem noção, pois só por uma noite eu quero esquecer que sou policial. Quero ter 17 anos de novo e sair pra me divertir, espairecer, respirar, ser uma pessoa normal (eu disse isso alto?). Fui.

Inesquecível perceber como o mundo é grande aqui longe de casa. E essa música é muito irada e essa cidade é muito irada... E 17 é uma idade muito irada... Veja bem... não há argumentos racionais. Apenas curti até não poder mais, voltei para o hotel e apaguei.
 
Dia seguinte. Café da manhã regional, check out, despedidas... Vambora! Porém, chegando no que vou chamar de portão de saída da cidade, me lembrei que tinha esquecido uma outra coisa: a Isabella (minha pistola) tinha ficado no hotel. Pânico! Voltamos imediatamente para buscá-la... No caminho eu calculando a minha estupidez e o tamanho da punição referente: "Será que isso dá inquérito? Posso alegar incapacidade civil ou inimputabilidade penal? Afinal, ontem eu tinha 17 anos e hoje não é o dia do meu aniversário..." Sei lá, sabe.
 
Pedi a chave, disfarçando a ansiedade e subi correndo. Quando abri a porta, fui direto ao ponto. E essa sapequina tava lá bonitinha, no lugarzinho onde a deixei. Toda brava, olhando séria e reto dentro dos meus olhos tão felizes e aliviados por vê-la novamente. Eh, Isabella. Ciumenta, traquina e vingativa!  Ela fica fosca e gelada de raiva quando saio sozinha.