quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A minha equipe.


Queria ter tido tempo pra fazer todos os reconhecimentos, anotar os detalhes importantes, estudar e me preparar direitinho para essa missão a fim de não fazer nenhuma besteira, mas a coisa aqui é dinâmica. Eu me sinto como alguém que tem que pegar um trem em movimento. E o que mais me preocupa é que o único braço forte disponível pra me ajudar a subir é o do Guerreiro. Paciência... não vou discutir com a vida. Vou me permitir o luxo de confiar nele porque não posso desperdiçar uma oportunidade dessas! Já não aguentava mais. Passei muito tempo só tapando buraco por aí. Agora sim, estou numa equipe fixa, numa atividade nova (aleluia!) e longe da delegacia. Mas principalmente... longe das provocações daquela louca, cheia de pontos de vista emprestados, que não poderia deixar passar uma oportunidade pra ironizar a legitimidade da missão em que vou trabalhar. Cara, interna corporis aqui é igualzinho aos filmes americanos: os caras do DEA ironizam o FBI, que zoa os caras da SWAT, que implicam com os homens da CIA. Eu não entro nessa guerra inútil. Pra mim qualquer experiência nova é lucro. E isso não tem nada a ver com aqueles mantras ridículos de livro oco de auto-ajuda ou marketing pessoal de quinta. Para!

Isso é vibração de novinho mesmo, e daí?

Já fui apresentada ao Poderoso Chefão, que não é policial, e claro, já percebi uma nuance de dúvida no jeito dele, tipo: "será que essa menina vai mesmo dar conta do recado?" Humpf! Mas suas rugas de desconfiança se esvaíram rápido, porque quem me levou até ele foi aquele colega meu, estilo Jack Bauer. Contudo não vou trabalhar diretamente com o Jack, infelizmente (pausa para um suspiro), embora essa equipe lhe esteja subordinada. E o que ele falou sobre a importância de ter uma mulher na equipe foi suficiente para convencer não só o Poderoso Chefão, mas até a mim mesma! Na hora cresci uns quarenta centímetros de deslumbramento e o coraçãozinho pulava como o Pelé dando aqueles socos no ar. Depois fiquei pensando se o Jack estava realmente sendo sincero ou se teria dito aquilo só pra convencer o cliente a ficar satisfeito com o único produto que ele tinha a oferecer no momento (já que estamos em um período de férias...) Acho que nunca vou saber, mas não importa. O meu desejo pelo desafio suplanta meu medo de errar. Agora é embarcar e virar essa página.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Uma honra e um desafio.


Tenho quase 400 comentários aqui de pessoas que pediram para não publicar.  
Ah, se os bastidores desse blog falassem...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sobre a poça.

Brasí­lia, 1º de janeiro de 2011 – Tá na chuva é pra se molhar... Seis motociclistas batedoras da Polí­cia Rodoviária Federal, destacadas para escoltar a presidente Dilma Rousseff no trajeto da Granja do Torto até a Esplanada dos Ministérios. Armadas, motorizadas e muito bem preparadas para abrir caminho  para a Presidente da República. E de pensar que em alguns países as mulheres são proibidas de dirigir... São nossas mulheres ensinando ao mundo.  E eu aqui não me cabendo de orgulho...


Essa é uma parte da equipe de segurança de dignitários da PF em meio a um implacável temporal na capital federal. Ar-ra-sa-ram com esse modelito padronizado e mega fashion! Lindas... Não tem tempo ruim com essas mulheres, gente! Um show de elegância operacional para garantir a integridade física da Presidente da República. Fato inédito numa cerimônia de posse presidencial. E de pensar que 20% das mulheres do mundo (eu, inclusive) já sofreram violência física ou sexual. Nossas meninas chegando todas juntas ao Congresso Nacional, de cabeça erguida, sem dever nada a ninguém. Mirem-se no exemplo dessas mulheres. Bravo! Bravíssimo!
 

Depois do temporal, a presidente Dilma se desloca em carro aberto ao lado da filha Paula Rousseff em direção ao Palácio do Planalto. Ahhhh, Dilma parece muito feliz, mas todos sabemos que ela já passou por vários temporais. Não poderia deixar de comentar que depois de minhas últimas postagens fiquei impressionada com o número de leitores e leitoras que alegaram estar passando ou ter passado exatamente pelo que passei. Gente, uma imagem dessas ensina pra gente que se a poça não sai do seu caminho, oras, Deus te ajuda a passar por cima! A policial federal à direita da presidente demonstra preparo físico e corre de boca fechada... A-pos-to! Aposto que é pra calar a boca de quem duvida. Bem típico dessas mulheres de preto...
 

À frente da ajudante de ordens (essa de branco) outra elegante policial fazendo provavelmente a segurança da esposa do Vice-Presidente, Marcela Temer. Errou quem disse que ela é federal. A moça é da polícia militar de São Paulo. Do outro lado do veículo, sim, de cabelos soltos, uma loira fe-de-ral de costas para os flashes, provavelmente responsável pela segurança de Paula Roussef (pois correu ao lado dela em carro aberto). A postura delas me pareceu corretíssima, voltando-se para áreas consideradas prioritárias ou mais vulneráveis. Será que eu preciso dizer mais alguma coisa sobre o profissionalismo e capacidade dessas mulheres!? Ótimo! Então, pra fechar o texto, uma belíssima mensagem da presidente:

Gostaria que pais e mães das meninas pudessem olhar no olho delas e dizer ‘sim, a mulher pode”.
Dilma Roussef - Primeira mulher presidente do Brasil.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mulheres de preto.




Decidi que quero fazer um curso de operações especiais. Um curso pauleira desses do COT, do BOPE, do CORE, sei lá, qualquer um serve. Me disseram que esses cursos trabalham bem a parte emocional da pessoa, a resistência psicológica e física. Decidi que quero ser caveira! Porque caveira que é caveira de verdade nunca se rende. É disso que eu preciso, porque estou cansada. Quero ter um coração bombado, daqueles que nunca se entregam e nunca te traem. Um coração endurecido feito pedra pra nunca mais me apaixonar por homem nenhum nesse mundo.

É bem verdade que sempre critiquei esses cursos onde o aluno apanha e é humilhado pelos instrutores. Palhaçada isso de raspar a cabeça. Dizer que "o que não me mata me fortalece" sempre me pareceu propaganda ideológica do sistema. Nunca gostei de Nietzsche. Agora mudei de ideia. Quero fazer um curso da-que-les onde o pau quebra, onde rola solta a pancadaria. Dignidade pra quê, né? Como se pudesse existir algo pior do que acordar de madrugada e não poder sentir você dormindo ao meu lado. Eu quero apanhar na cara e sentir gosto de sangue na boca, se isso me ajudar a esquecer seu gosto de vez. É o caso clássico de levar uma surra pra deixar de ser otária. E de pensar que eu me achava inteligente quando você ria das minhas piadas sarcásticas, irônicas. Descobri que a piada era eu... Meu coração é traiçoeiro e mais uma vez conseguiu me expor ao ridículo. Entenda, coração, que se é pra sofrer quero sofrer bonito. Por que não? Preto sempre me caiu muito bem. Faca na caveira!

Quando eu era pequena e sentia dor de cabeça eu deitava no colo da minha mãe e ela colocava uma das mãos sobre os meus olhos e fazia uma oração pra Deus. Aí era só esperar um pouquinho que a dor passava. Não sei o que houve, mas hoje o colo dela não me cabe mais. E nada do que ela me fala resolve coisa nenhuma. Agora perdi o teu colo também. Você sempre soube aliviar as minhas dores. Preciso fazer um curso onde eu experimente outros tipos de dor pra esquecer esta. Quero apanhar até perder a consciência, quero apagar. Até esquecer que você me chamava de "florzinha". Quero apagar da memória o timbre grave da tua voz cantarolando neste apartamento. Eu tô cansada demais. Quero apagar agora! Nenhuma ralação em treinamento deve ser pior do que pensar que acreditei que você me amava. Não pode ser pior do que você ligar pra sua melhor amiga às duas horas da manhã dizendo que você está sentindo uma dor insuportável ao respirar e ela mandar você dormir porque precisa acordar cedo no dia seguinte.  Hoje chorei no único ombro que me apareceu. Aquela que me persegue aqui na delegacia foi quem se esforçou pra me consolar quando explodi em lágrimas de desespero. E eu que jurei que essa mulher jamais me veria chorar. Não deu pra segurar! Ela percebeu, me chamou e perguntou. Não soube o que responder, mas ela já entendeu tudo. A que nível eu cheguei?  É por isso que eu digo que esse sofrimentozinho de treinamento é "fichinha" perto da falta que me faz a tua perna jogada em cima de mim e os sons que você fazia quando me amava, e me invadia, e me acalmava. Quero apagar agora, porque não suporto mais isso.

Eu tento, mas esse final de semana foi crítico. Liguei pra um grande amigo e pedi pra ele sair comigo. É uns quinze, vinte anos mais velho que eu e me conhece desde meus onze anos. É meu confidente, contei tudo pra ele. Olha... a minha carência afetiva pareceu-me tão preocupante que mesmo que nunca-antes-na-história-deste-país eu tivesse sentido qualquer sinal de atração física por ele, a gente quase ficou no sábado! Inacreditável, mas se ele me desse um único sinal de que estava a fim de se aproveitar da situação acho que eu teria deixado rolar. Porque eu tava muito afim e com muita raiva, mesmo. Medo. Nunca fui de ficar pra afogar as mágoas. Acho muito fraco esse tipo de mulher. Já sei que estou a perigo e que preciso me proteger... Maldito feromônio! Escuta aqui, mas escuta bem, vou raspar a cabeça e pintar a cara de preto. Quero ser caveira!

No domingo, implorei ajuda a uma grande amiga de adolescência que adoro e que testemunhou a nossa história desde o início. Nós duas até namoramos os mesmos caras (não ao mesmo tempo, claro, né!). Tanto é que ela tá casada com o meu primeiro namorado.  Saímos pra conversar. Eu tinha certeza que se alguém nesse mundo poderia me ajudar a passar melhor por isso era ela que me conhece, talvez, até melhor que eu mesma. A gente pediu suco de abacaxi com hortelã. Zero açúcar, zero álcool e zero calmante até o momento. Quando ela tocou com habilidade cirúrgica no ponto nevrálgico da minha dor eu me calei. Senti que a coisa seria mesmo sem anestesia. Me lembrei qua a única vez que vi minha mãe de porre foi por causa do meu pai. E me senti íntima de todos os bêbados e noiados que já desprezei pela vida afora. Me deu vontade de abraçar a cada um e dizer "eu te entendo, meu amigo". Não consegui dizer nada, não consegui chorar não consegui olhar pra ela, não consegui esboçar nenhuma reação. Colei as placas! Travei nas quatro rodas... E ela foi super amorosa comigo, mas não adiantou nada porque eu não consegui deixar que ela me ajudasse.  Tava doendo demais. Ela entendeu que precisava encerrar a "sessão" (Hum rum... ela é psicóloga). Antes de ela descer do carro, a gente se despediu, ela me abraçou, tadinha, e chorou comigo. Eu vim embora. E essa porcaria dessa dor veio no carro comigo.

Meu pai vai soltar foguetes quando souber. Você não era o tipo de cara que ele sonhou pra mim. Nosso relacionamento faz parte dos motivos pelos quais ele se decepcionou com a família. Não quero nem ver o meu pai. Ele vai jogar na minha cara toda a indiferença com que reagi quando ele se separarou da minha mãe. Fui rasa nesse dia como quem diz "eu te avisei, pai, a culpa é só sua". À época isso me parecia tão verdade, hoje eu já nem sei mais. Ele vai me perguntar onde foi que a "dona da verdade" a "expert" em vida a dois falhou. E essa é a pergunta mais difícil de toda a minha vida. E eu vou ter que reconhecer que eu não sou diferente dele. Que nenhum de nós dois sabe manter um relacionamento e que tenho mais do meu pai em mim do que eu gostaria de ter. "Tá bom, pai, você venceu e a princesinha aqui falhou". Somos dois fracassados e ainda não tenho ideia de como vou explicar isso para o "Pequeno Terroristazinho" quando ele me perguntar.

Meu chefe perguntou se eu precisava de umas folgas. Mas folga pra quê? Pra ir chorar em casa? Já tenho a madrugada toda pra chorar. Mas bem que ele poderia me mandar para os confins da Amazônia pra eu fazer um curso de sobreviência na selva! Sei que sou 100% operações urbanas (tradução: desculpa gente, mas não gosto de roça, não gosto de cobra, não gosto de inseto e evito pisar em cidade onde não tem Mac Donald's). Mas agora quero fazer um curso de sobrevivência na selva. Onde eu não possa encontrar nenhum papel contendo a sua letrinha executiva. Não acho ambiente pra mim. Não consigo respirar, porque doi. Esse bando de caveira de preto, careca e bombado deve ter algum segredo. Deve ter algum sentido maior em tomar porrada, passar fome, frio e medo até a exaustão, até conhecer o seu limite e apagar. Deve ser um alívio apagar. Não quero sentir mais nada, só um pouco de alívio. Quero esquecer o jeito como você promovia os pratos que preparava para que eu resolvesse comer nem que fosse só um pouquinho. Quero me empanturrar de  raízes amargas. Quero aprender a sobreviver sozinha. Porque amarga é a falta violenta que sinto da sua barba, de te puxar impaciente pela gravata, da sua força apertando o meu braço. Me faz mal essa vontade ardente de escalar o teu corpo e de desaparecer do mundo embaixo de você. Mas agora é comigo. Eu vou sobreviver sem você, pode apostar. Vou raspar a cabeça e pintar a cara de preto. Combina demais comigo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Duelo de titãns.

- "O senhor é o policial que vai embarcar armado?" Detalhe: Todo mundo na fila ouvindo à porta da aeronave.
- "Sim, obrigado por perguntar". Respondeu o policial, ironicamente.
- "O senhor conhece a legislação sobre o tema?". Insistiu o comandante indiscreto.
- "Conheço, claro". E a fila aguardando...
- "A sua arma já está desmuniciada?" Todo mundo olhando para o policial.
- "Está municiada, mas não está carregada".
- "Como assim? O que isso significa?"
- "Significa que eu entendo de armas e o senhor de aeronave. Passar bem".

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Precisão.

Fiz uma besteira enorme, enorme, enorme de grande. Um verdadeiro fiasco que não sei se classifico como humorístico ou dramático.  E por muito, muito, muito pouco eu não respondi a uma bronca daquelas que poderiam ter-me custado o emprego. Essa foi por um triz... Ainda não adquiri essa habilidade para dosar com exatidão a medida de energia necessária pra cumprir uma missão como convém. Exagero quando não é preciso e deixo a desejar na hora em que realmente tenho que agir com energia.  Pelo menos é o que ouço dizerem, ora num sentido ("Pô, Novinha, deixa o moleque"; "Calma moça, também não precisa apelar"); Ora noutro ("Novinha, você me parece ainda muito tímida"; "Novinha, aquela sua postura demonstrou submissão. Não pode!"),  E por aí vai... Resultado: Sei não. Será que estou exagerando?  Não sei precisar. Contudo, esse incidente não vai constar na minha ficha pessoal. Estúpida e livre, ganhei uma segunda chance e mais que um aviso urgente: o poder machuca.
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Tá, mas eu vim por outro motivo. Após deliciosos 15 dias de hospedagem e regalias lá no Blog da Priscila a gente encerra a festa com um texto inédito. Meus agradecimentos à Pri e aos queridos amigos que nos visitaram lá e se divertiram com as nossas brincadeiras. Priscila, minha linda, você só se esqueceu de responder àquela pergunta que te fiz por email: "Que palavras a gente usa pra agradecer nessas horas?" E para o querido leitor tenho outra pergunta: Qual é a diferença entre uma mulher normal com TPM e uma mulher policial também com TPM? Te respondo no Blog da Pri.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Salmo calibre 91.


O texto a seguir é de um guerreiro israelita bastante experiente que viveu muito tempo antes de Cristo. Não sei se é um poema ou se é uma música, mas é conhecido como Salmo 91. Claro, que minha parte preferida da história do autor deste texto, é quando ele, ainda muito novinho, voluntariamente, enfrentou o abusado gigante Golias e o derrotou com uma arma caseira! Faço minhas as palavras do grande guerreiro Davi.

"Aquele que habita no abrigo do Altíssimo e descansa à sombra do Todo-poderoso pode dizer ao Senhor: Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio. Ele o livrará do laço do caçador e do veneno mortal. Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor. Você não temerá o pavor da noite, nem a flecha que voa de dia, nem a peste que se move sorrateira nas trevas, nem a praga que devasta ao meio-dia. Mil poderão cair ao seu lado, dez mil à sua direita, mas nada o atingirá. Você simplesmente olhará, e verá o castigo dos ímpios. Se você fizer do Altíssimo o seu refúgio, nenhum mal o atingirá, desgraça alguma chegará à sua tenda. Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos; com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra. Você pisará o leão e a cobra; pisoteará o leão forte e a serpente. "Porque ele me ama, eu o resgatarei; eu o protegerei, pois conhece o meu nome. Ele clamará a mim, e eu lhe darei resposta, e na adversidade estarei com ele; vou livrá-lo e cobri-lo de honra. Vida longa eu lhe darei, e lhe mostrarei a minha salvação. "

Pra cima deles!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Burra é a Administração.


Dois colegas antigões se estranhando no restaurante e eu, quietinha...

- Cara, come direito, você parece um otário. Vê se isso é jeito de se portar num restaurante desses?
- Ah, eu que sou otário? Tu é formado em quê, mesmo, ô babaca?
- Sou engenheiro civil, otário, e você, que não tem um pingo de educação, deve ser analfabeto de pai e mãe, né?
- Engraçado, tu é engenheiro e eu só tirei o segundo grau. Mas ganho o mesmo salário que você. Quem é o otário aqui?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Culpa.

De arrepiar a alegria dele pela chegada da mãe após alguns dias fora, caçando com os homens da aldeia. A mãezinha guerreira ganhou beijo molhado, abraço gostoso e três bilhetinhos que diziam: "Mamãe eu te amo"; "Mamãe, você é muito linda" e "Mamãe, senti falta de você". Tinha tudo pra se sentir a última bolachinha do pacote, afinal ela era uma caçadora, uma guerreira e era a mãe do indiozinho mais alegre, mais lindo e mais carinhoso da tribo. Mas tinha aquela dor. A lembrança do dia em que a professora dele a chamou pra bater um papinho causticante. E enquanto o indiozinho brincava no pátio ela ficou sabendo que ele  demonstra que adora os pais, mas parece ver a mãe como uma pessoa inacessível. Essa última palavrinha ácida lhe acertou o peito como flecha profundamente lançada, do tipo que entra e não quer mais soltar e que dói ao toque mais tênue. "Deve ser de família" concluiu a mãezinha absorta e cheia de tristeza "pois o pai dele pensa a mesma coisa de mim".

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Queridos leitores,

Nossa amiga Priscila Castro publicou em seu blog a  entrevista que vocês pediram. Só tem um pequeno detalhe, depois de alguma negociação (de dar inveja à máfia siciliana), concordamos em retirar as perguntas e só ficaram as respostas mix-turadas. Pra você que votou na enquete da Pri, os meus comovidos agradecimentos e 130 (!!!) beijos no coração. Aguardo vocês lá:

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Velozes e furiosas.


Uma equipe de motociclistas de outra polícia participou conosco da missão e nos deram a maior força  no trânsito. Cada moto linda recuperando nervosamente pela esquerda, outras mais ousadas ainda recuperando pela direita! Gestos imponentes, elegantes. Movimentos precisos, coordenados. Manobras intrépidas, corajosas. Arrancadas velozes e furiosas! A cidade parou para o comboio passar tranquilo e majestoso por ruas e avenidas. Era rock'n'roll total lá fora, mas no silêncio do interior do carro eu quase podia ouvir o "Concerto para Piano nº 21" de Mozart, enquanto observava as pessoas com a boca entreaberta de curiosidade na rua. Quando chegamos ao ponto final da missão voltamos lá fora para agradecer o necessário e tão útil apoio recebido. Já estavam de partida, mas cerimonialmente estacionaram, desceram das motos e então tiraram seus capacetes... Rá! Sabe propaganda de shampoo? Pensa só: uma equipe todinha de mulheres policiais batedoras!!! Gente, que coisa mais linda! Sufoquei bravamente os gritos histéricos de tietagem explícita, porque né, sou adulta. Mas também não me peçam o impossível! Não dava pra perder uma foto com uma equipe dessas! E na maior cara de pau eu perguntei. Perguntei, mesmo, porque eu realmente precisava saber onde foi que elas compraram aquelas botas de pa-rar o trânsito.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Passado inglório.

"Ah eu não sei se eram os antigos que diziam,
 em seus papiros, Papillon já me dizia
que nas torturas toda carne se trai e
normalmente,
comumente,
fatalmente,
felizmente,
displicentemente o
nervo se contrai
com precisão"

(Zé Ramalho)
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Ps.: Santa barba virgem!!!
Acabei de ver o "Mulher na Polícia" numa enquete lá no Blog da Pri!
Não é um post, a pesquisa está na barra lateral.
Sacanagem, Pri! Eu vou levar uma surra!



quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Tiro no pé.



Ele sempre teve ciúmes dos meus amigos, mesmo fora da polícia, porém ciúmes eu também tenho e acho que um pouquinho só não mata ninguém. Me acompanhou, meio a contragosto, a uma festinha da polícia e fiz questão de apresentar-lhe todos os meus colegas. Apostei que seria legal enturmá-lo com o pessoal. Mas não. Errei o tiro porque ele se sentiu totalmente deslocado, talvez impressionado ou inseguro. Pra quem não é do meio, deve ser mesmo um saco esse papinho de polícia, cheio de frases de laboratório... Ficou emburradinho a noite toda. Bruto, como se nunca mais quisesse ser meu. E eu triste sem poder fazer nada, porque ele sofre calado sem dar o braço a torcer. Senti uma mágoa na voz dele quando me disse que não tem dúvidas da atração físico-químico-linguístico-antropológica que tenho por ele, mas questiona filosoficamente o amor que sinto. Bandido! E, pra piorar, as circunstâncias não colaboram nem um pouco. Outro dia me perguntou por que a secretária do delegado ligou aqui em casa se eu estava trabalhando. Alerta! Como é que eu vou saber?! “Porque eu não ouvi o celular tocar” respondi. Que ódio daquela desunida bigoduda! Cara, isso queima o filme da gente, né? Mas o golden point da semana foi outro colega que ligou para o meu celular no sábado de manhã. Ele atende e o cara desliga! (E o quê? Susto?). Ele então  ri com desprezo: Óbvio que ele conhece o número da delegacia... Caramba! Será que esse pessoal não se dá conta de como é difícil arrumar um homem decente na atualidade?

Ps. Essa policial aí na imagem é a Beyoncé, no clip "If I were a boy". Mais conhecido por estas bandas como "If I were a cop". Cuidado: contém fortes ceninhas de ciúmes.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Outra novinha em adaptação.

(Por e-mail)
Oi "Novinha"! Que bom que me ligou. O plantão me deu o recado mas não me passou o número do telefone pra eu te ligar de volta! Adorei receber notícias tuas! Como estão as coisas? Ainda estás no mesmo lugar, com o "007"? Estou louca pra saber as novidades sobre tua casa, tua família, o trabalho. Como estão os estudos de línguas? Eu resolvi vir para o plantão, primeiro no "setor Sierra” e agora no “Alfa”, pra tentar estudar. Não é bem meu trabalho preferido mas não dá pra reclamar. Quando passar o verão, que é bem movimentado, vai ser um paraíso pra estudar. Quando vens "à minha cidade"? Precisas vir ver minha casa nova. Tá ficando bem legal. Já passei da fase de construção, tô me batendo agora é com os móveis. Devagar e sempre. Beijos. Da tua amiga "de longe".

Ps.1: O que está entre aspas foi adaptado.
Ps.2: Tem selinho aqui pra você.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Touché!

Interessante como algumas coisas na vida de uma mulher podem até parecer simples mas se eternizam pelos efeitos: duas gotinhas de um certo perfume, aquela cinematográfica cruzada de pernas e uma legítima carteirada policial bem dada. Em qualquer uma dessas situações prepare-se para ver um predador se transformar em presa.

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Caríssimos leitores,

É com grata satisfação que comunico a vocês que uma jornalista de Brasília, a gatíssima Alane Moraes, conseguiu arrancar de mim o que outros jornalistas não conseguiram. Ela acaba de publicar um texto meu em seu blog "Manual das Mulheres Modernas". E antes que vocês se assustem explico que o assunto lá foi provocação dela mesma. Beijo, Brasil!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O 007 só fala 001 idioma.

Estou começando a entender o funcionamento da coisa por estas bandas. Perguntaram se eu falava inglês e eu respondi "Yes, I do". Então tinha que ser eu mesma. Ótimo! Todavia, quando chegamos ao local da missão, a necessidade era de alguém que falasse inglês, francês e espanhol! E eu fui, devagarzinho, me soltando e marcando meus pontinhos com a equipe: Yes, yes, yes! Oui, oui, oui! ¡Si, si, si! Placar final: três a zero pra novinha aqui. Bom, falaaar mesmo que é bom eu não falo quase nada desses idiomas, mas foi o meu enrolation aliado ao portuñol e um biquinho forçado que tirou a equipe toda do sufoco. E se eu fosse babaca aproveitaria a oportunidade pra mandar um recado para o meu chefe, que adora dizer que os novinhos de hoje têm muita teoria na cabeça, mas perfil policial que é bom, nada: "Perdeu, chefe! Perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado".

sábado, 25 de setembro de 2010

Ela dança com lobos.

Eu bem que poderia tirar a maior onda com este certificado bonitinho. Posar de "policial operacional especializada". Mas, francamente, que cursinho mais besta! Eles têm uma mania de colocar tanta pompa e cerimônia no nome do curso que beira o cinismo. Pois fico achando que até um chipanzé domesticado concluiria este treinamento com louvor. É mais um mito que despenca numa dose extra de realismo. Tô andando pra esses cursos e só não vou considerar uma perda total de tempo porque pude fazer bons contatos e conhecer pessoas interessantes. Esta agente, por exemplo, tão ironicamente aluna quanto eu. Com a pequena diferença de que eu sou anônima né, e ela é uma lenda viva que jamais passaria despercebida, primeiro por seu exótico visual neo-hippie, segundo pelo fato de que todo mundo ali já tinha ouvido falar dela.

Eu acredito que ela já tenha tempo para se aposentar, mas quem a vê operando não diz isso. E isso é bonito demais. Ela tem enormes tranças loiras no estilo rastafari a contrastar com a pele marcadamente bronzeada que lhe dão um ar de medusa, de cigana, de mistério, de disfarce. O que dizem é que ela sabe se portar muito bem no teatro operacional, enxerga tudo como uma águia e tem verdadeiro feeling pra coisa. Não fica atrás de homem nenhum nas operações que participa, nem na hora de levar tiro! Logo se vê que ela tem um caso com o perigo de viver e definitivamente se entrega à paixão. "Ela tem sangue no olho", gente (bom, seja lá o que isso quer significar, pelo contexto me pareceu muito irado). E sofro de pensar que ela consegue fazer tudo isso sem estragar aquele esmalte nas unhas luxuosamente vermelhas. E tem mais... Me contaram que aquele capricho todo nas delicadas trancinhas dela é obra de um preso... cabeleireiro... que está na custódia da delegacia dela! Vai ver essa mulher hipnotiza cobras também...

Quanto tive coragem de puxar conversa, ela não fez aquela pose blasé característica de quem se acha. Não. Continuou sentada no meio-fio, como se já me esperasse e disse "Claro que sim, tem alguma coisa específica que você queira saber?" Tem. Eu queria saber até o que ela come no café da manhã! Acho que ela sacou que eu me perdia em tanta dualidade e que eu procurava não ser a chata das perguntas sem-noção. E com a delicadeza de quem sentia ternura por minhas dúvidas ou talvez por meu coração batendo apertado de deslumbramento, não quis reforçar nem anular a mística que rola em torno dela. Ela é dessas que não precisam se afirmar. Tínhamos que encerrar a conversa, pois os veículos da aula já tinham chegado, então ela me disse sutilmente pra relaxar, e acrescentou que tudo acontece naturalmente na vida da gente. Não é de arrepiar? Só falta alguém dizer que ela também lê o futuro das pessoas.

domingo, 19 de setembro de 2010

Confissões de uma concurseira.

Já pedi desculpas a ele várias vezes por adormecer de cansaço antes da hora; Já varei noite estudando para concurso; Já dormi muito em mesa de biblioteca; Já tomei muito café pra acordar; Já passei frio no ar-condicionado do curso; Já passei fome em sala de estudos; Já fui dormir às duas da manhã porque acabei tomando pó de guaraná demais para ficar acordada durante a aula; Já senti dores de coluna por causa das longas horas sentada pra estudar; Já assisti aula gripada; Já pedi a Deus para chegar logo o intervalo a fim de comprar remédio pra cólicas menstruais; Já fiz prova com dor de cabeça; Já tive dúvidas se valeria a pena; Já tive certeza que não valeria a pena; Já ouvi conselhos para estudar menos; Já ouvi conselhos para estudar mais e já estudei errado demais.
Já fiz versão de música do U2 para decorar os crimes hediondos; Já ouvi CD para decorar a Constituição; Já viajei para fazer prova; Já viajei na maionese; Já falei sozinha estudando; Já fiz passos de dança estudando; Já “mandei” colega calar a boca pra poder ouvir o professor; Já quis matar o vizinho que liga o som na maior altura; Já pensei em me mudar para o Alasca a fim de ter um pouco de paz para estudar; Já cantei "Breakaway" da Kelly Clarkson, com a mão no peito, como se fosse o "Hino Oficial dos Concursandos".

Já fiquei por muito pouco; Já perdi no psicotécnico; Já tomei pau em entrevista (que ódio!); Já fui reprovada em prova de digitação; Já "boiei" a aula inteira sem entender por.caria nenhuma; Já dei muito tapa na testa sem acreditar que consegui errar aquela questão; Já ouvi muito "boa-sorte" antes da prova; Já gastei horrores com cursinho; Já jurei nunca mais fazer cursinho; Já botei banca de quem vai arrasar na prova e saí da prova arrasada; Já fiz prova de natação com maiô emprestado; Já chutei em muitas questões; Já errei questão que até hoje não entendi por quê; Já fiz pergunta idiota; Já me assumi como burra e idiota; Já considerei o professor um burro e idiota e já achei que o mundo inteiro era burro e idiota.

Já levei patada de professor de cursinho; Já levei cantada de professor de cursinho; Já fiquei com professor de cursinho; Já fiz muito resumo de livro; Já comprei livro caro que nem usei; Já li muito sobre como passar em concursos públicos; Já assisti palestras sobre memorização, motivação, embromação; Já li "A Arte da Guerra"; Já pintei muitos trechos de livros de amarelo (importante!), cor-de-rosa (jurisprudência!), azul (novidade!), verde (caiu em concurso!), laranja (caiu na prova da polícia!!!); Já dei muito murro em ponta de faca; Já chutei o pau da barraca e já fiquei meses sem ânimo nem coragem de pegar num livro!

Já fiquei sozinha em casa para estudar com a família viajando e já-ouvi-sermão-por-causa-disso... Já me pediram pra mudar de assunto porque eu só falava em concurso; Já fui chamada de antisocial, de maluca, de egoísta e inconsequente; Já disseram que eu ficaria louca de tanto estudar; Já disseram que eu iria morrer de tanto estudar; Já vi muita gente boa desistindo pelo caminho; Já esperei edital demais e quase morri mesmo, quando o bendito edital finalmente saiu.

Já cruzei a linha de chegada, já recebi os parabéns por ter conseguido passar nessa droga dessa prova filhadamãe! Já recebi o contracheque, a carteira, o distintivo e a "Isabella" (a belíssima, elegante e estonteante pistola que anda comigo) mas o melhor de tudo é que nunca vi minha mãe tão linda e tão feliz, chorando de orgulho na minha formatura na Academia (ô, mãe...).

Portanto, dá pra perceber que não sou ninguém para dar conselhos. Só sei que não existe “receitinha fácil” para passar em concurso público. Não tem isso de sorte ou azar. Existe determinação, abnegação e fé. Mas o mais importante é ter fé, porque né, se mesmo aos trancos e barrancos, com tantos erros, trapalhadas e fracassos, Deus ainda resolveu atender generosamente às minhas orações, por que ele não atenderia às suas também?

sábado, 11 de setembro de 2010

sábado, 4 de setembro de 2010

Mulher e ponto.


O primeiro homem que me chamou de "novinha" não era policial. Era o tipo "partidão absoluto", daqueles que roubam a cena e monopolizam as atenções em qualquer reunião social. Ele tinha 25 anos e uma família ultra tradicional vivendo no interior do meu Estado. E eu tinha 15 aninhos e uma certeza juvenil de que aquele era "o homem da minha vida". E a gente conversava, trocava umas cantadas imperfeitas, elogios insinuantes entre sorrisos intensos e olhares indefinidos. Era uma linguagem pura e bonita de sedução. E só ficava nisso.

Até que numa bela noite de lua cheia e cheiro de árvores ele veio com um olhar animal e aquela pegada firme de quem avisa: "Eu vou te engolir inteira!" e eu, com experiência "zero km", me assustei e dei o passo para trás mais tímido de toda a minha existência como quem pede "Hold on, cowboy". E isso foi tudo. Foi o mais perto dele que consegui chegar. Graças a Deus, porque dias depois, ao tentar engatar novamente a primeira marcha, tomei um fora tão intempestivo e tão dolorosamente descomunal que até hoje trago a cicatriz. O motivo? Eu era "muito novinha" pra ele... Tudo bem que perdi o chão, o rumo de casa e fui parar no inferno, mas hoje, sei que o trauma poderia ter sido bem pior.

Atualmente são necessárias algumas horas de carro na estrada para chegar à minha cidade. É lá que vivem meus familiares, meus grandes amigos e o meu passado. Soube que "o partidão" se separou da mulher. E ele também já sabe que o meu coração agora tem dono. Então, ninguém se esbarra a não ser quando a vida resolve aprontar das suas. Num desses feriados prolongados na minha cidade, eu contava empolgadíssima as minhas "aventuras policiais", feito gente grande, numa roda de amigos onde, em meio a muita risada, choviam essas perguntas curiosas e ninguém piscava pra não perder o fio da meada... Era eu me sentindo de alguma forma interessante. E eis que o meu passado resolve aparecer no meio da noite pra me assombrar. A chegada do "partidão" era a deixa para que eu concluísse a minha historinha e evaporasse dali resignada e obediente, como manda a etiqueta do mais fraco... Mas dessa vez foi diferente. O presente me era tão mais pulsante e atraente! Eu estava tão bem, tão feliz e com tantos amigos querendo saber tudo sobre como era na polícia, e como é que eu fazia e não sei mais quê... que minha respiração foi se acalmando e eu fui ficando! O "partidão" entrou... veio me cumprimentar de um jeito que não era o seu, mas que me pareceu adequado, e até participou daquela sabatina de amigos! Cara! Vocês precisavam ver o jeito disfarçadamente espantado e surpreso como ele me olhava... Foi naquela noite que vi nos olhos dele como aquela guriazinha tímida de 15 aninhos cresceu e se tornou uma mulher. Até sonhei que estava cantando "Baba, baby, baba" pra muita gente esnobe na polícia que ainda me chama de "Novinha".