sábado, 31 de agosto de 2013

Consta.

 
Ela já ganhou pontos comigo apenas pelo fato de ser da minha cidade e por  trazer o sotaque das minhas amigas. Por um mundo onde não se julgam as pessoas por sua origem, mas sabe aquela coisa de afinidade de raízes? Pois é, culturalmente falando, somos bem diferentes dos habilocs* daqui. 
 
Percebi que a Dama de Ferro também gosta dela. Elementar, já que minha conterrânea é quem mais trabalha e produz neste setor. É por isso que ela tem três estagiários.  Sabe escrever com objetividade e clareza e não tem tempo para aqueles floreamentos de estilo jurídico-boçais. Tem o raciocínio rápido, é desenrolada e parece ser uma ótima mãe de família.  Pode rir do meu jeito caipira-romântico de ver a vida, Poliana Moça, mas na minha escala de valores, está bem estabelecido que "família" vem antes de "trabalho".
 
Gente, o mundo precisa saber que a vida pessoal de boa parte dos policiais é uma catástrofe. Tendo por amostra nosso time feminino de vôlei,  parece até que o tempo de polícia é inversamente proporcional ao tempo de casada das policiais. Tinha que haver um curso top de "Operações Familiares". Não entendo como ninguém nunca pensou nisso...
 
Admiro o fato de que, além de competente, ela almoça em casa todos os dias e que às 18 horas em ponto, ela para tudo e vai cuidar da vida. Fiquei fã quando, após ouvir uma parte da conversa dela com uma orientadora escolar, me explicou que tinha dado uma dura na equipe de professores de exatas da melhor escola desta cidade, porque não souberam explicar o motivo de uma nota baixa da filha dela. Entendeu? Sem entrar no mérito da nota em si, ela me mostra que sabe transitar bem nisso de ser uma boa profissional do tipo "delegada durona" e ser super-amiga da filha pré-vestibulanda dela... 

Creio que posso tentar aprender alguma coisa com essa mulher que tem uma vivência profissional no mínimo interessante. Veio de outra polícia e, diga-se de passagem, já sofreu no lombo o ferro quente da Corregedoria. Se ela mereceu essa marca dolorosa, jamais saberemos.



* Gíria operacional para "habitantes locais". 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Ineficiência.


Recapitulando: a delegada saiu de férias e o setor que ela coordena emperrou. Por isso um gênio da Administração, formado em qualquer coisa menos Administração, manda pra este setor carente de mão-de-obra uma pessoa totalmente crua no assunto - eu - pra substituir esta figura lendária que ligou o "problemaseu" e foi viajar... My name is... Buraco, esqueceu? Tapa-Buraco.

Antes de começar a assinar toda essa papelada e fazer girar a manivela desta engenhoca burocrática, eu preciso estudar a porcaria toda da legislação, que está cheia de furos e falhas ridículas que precisam ser complementadas por pareceres óbvios e, diga-se de passagem, cafonas demais, onde o "dotô" operador, que possivelmente estudou com Pontes de Miranda, me irrita escrevendo palavras como "despiciendo" nas peças... (Assunto encerrado).

O telefone toca o dia inteiro porque a humanidade em peso decidiu telefonar para esta seção em busca de informações sobre seus documentos em trâmite por aqui. São três mega pilhas de papel, olhando impacientes pra mim em cima daquela mesa. Olhares impacientes exercem um certo poder sobre mim. Eu realmente fico me perguntando o que a última frase desse parágrafo tinha a ver com as anteriores.

Ocorre que para dar o devido andamento nesses papéis EU também preciso de autorização para consultar sistemas de informação. Sabe aquelas telas pretas dos computadores dos sistemas de pesquisa policiais que a gente vê nos filmes? Aqui tem vários destes. São muitos, com vários gestores diferentes. LOGO, pra cada um, uma senha diferente. Aí começa toda uma maratona pra descobrir como eu faço pra conseguir cada senha dessas. NENHUMA PESSOA HUMANA AQUI SABE INFORMAR NADA DIREITO!

Não obstante, o sistema é bruto, parceiro: "escreveu não leu o pau comeu". Por isso não posso sair por aí autorizando qualquer coisa sem saber do que se trata, por quê, como, quem, onde.

Não acabou. Após descobrir o caminho das senhas através de uma façanha resultante de extenuante trabalho de investigação que deixaria o CSI no chinelo, só falta você fazer noventa memorandos, contendo  seu nome, número de matrícula, local da sua lotação, uma dissertação com o porquê você precisa acessar esse sistema, seguidas do nome do seu seriado de TV favorito e o número do seu grau de miopia. Daí... protocola em quinhentas vias, todas assinadas e com o "de acordo" dos seus 981 chefes. Após, anexa cópia autenticada dos memorandos, da sua carteira funcional, identidade civil, da carteira de motorista, CPF, conta de luz, da carteirinha estudantil, a do clube do sindicato, associação, federação e a da irmandade muçulmana. Aí manda e espera. Mas espera sentado, amigo, porque vai demorar.

Saudades da rua, onde bastava uma ligação telefônica para o cara certo e tudo se resolvia.

Sabe quem é o otário nessa história toda? Não... não sou eu, não... É você, pacato cidadão, que PAGA CARO POR ESSA PORCARIA DE BUROCRACIA DO FATÍDICO SERVIÇO PÚBLICOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A dama de ferro.

 
Vai ser tenso trabalhar com essa mulher. Depois de um belo chá de cadeira que tomei na recepção antes de entrar no gabinete dela, a delegada-chefe foi o mais seca e impessoal possível quando fui me apresentar oficialmente pra ela. Fez questão de rezar logo a cartilha da "hierarquia e disciplina", como se já me desse uma bronca antecipada. Talvez porque  na minha testa estivesse escrito que eu não tenho o menor interesse em trabalhar ali por muito tempo. Se ela percebeu isso, mereço o Oscar de pior atriz do ano porque isso era tudo o que eu queria evitar.

O telefone da mesa dela tocava toda hora, depois tocava o celular, até que ela deu ordens à secretária (terceirizada) pra segurar um pouco as ligações. E todo o discursozinho que eu ensaiei pra falar pra ela, no sentido de estabelecer alguma parceria amigável neste momento delicado, ficou pra outra oportunidade, pelo simples fato de que ela tem mais o que fazer.

Em suma, o único sinal de aprovação que recebi - e olha que eu coloquei o meu melhor terninho versão "clássicos", fiz cabelo, unha, maquiagem... - foi quando respondi à sua pergunta sobre a minha área de formação superior.  Mas por que mesmo que eu preciso da aprovação dela? Oi! Não preciso, ok? De qualquer forma, foi neste momento que ela me deu alguma esperança de que poderei ser bem empregada em alguma coisa naquela Divisão.

- "Ora, Novinha! E o que você esperava que uma mulher daquelas quisesse ouvir de alguém que apareceu do nada no território dela, mais perdida do que cego em tiroteio?"

Nada né, porque o tempo monstro que essa monstra tem de polícia deve ser o que eu tenho de idade. E ela deve ter razão mesmo, afinal tenho consciência de que tudo o que já aprendi não vai contribuir em nada nesta nova função. Ela deve estar mais preocupada é com todos os Deltas (Delegados) sedentos de poder que maquinam um dia ocupar a cadeira dela.

Minha frustração foi aumentando naquela sala na medida em que não encontrava nenhum sinalzinho sequer de entusiasmo no rosto dela. Será que é muita exigência querer sentir pelo menos da parte da chefia algum envolvimento de alma, algum comprometimento com a missão do setor? Sabe aquela devoção da pessoa que se entrega por uma causa válida? Zero.

domingo, 4 de agosto de 2013

Analisa.


Sabe cachoro quando cai do caminhão de mudança? É bem como me sinto. Quem sou eu? Onde estou? A única coisa que sei é de onde vim. E de onde vim, o trabalho policial era completamente diferente desse aqui. Mas será por pouco tempo, assim espero. O quê que eu tô fazendo aqui? Me preservando, conforme determinação da Administração. Acontece às vezes de o policial ter que ficar um tempo na "geladeira". É o meu caso.

Espeto conformada a última alcaparra da minha salada generosamente regada de azeite, pensando: "fazer o quê, né?" Pior seria se tivessem me mandado de volta para a minha delegacia anterior. Então, vamos aproveitar esse clima de fim de festa para encerrarmos mais essa temporada da qual certamente sentirei saudades. "Garçon, vê pra mim um suco de abacaxi com hortelã, on the rocks, por favor, porque estou precisando".
 
Estou bem, gente. Vou trabalhar no horário normal de expediente, com intervalo definido para o almoço. Estarei em casa todas as noites como uma pessoa normal! Olha que chic! Porque caí de para-quedas, vou começar substituindo uma delegada que está de férias: mesma função; salários diferentes. "Segura a sua onda, Novinha", penso comigo mesma. Vou trabalhar numa salinha pequena com três estagiários fofos do curso de Direito. Meu novo setor tem cinco(!) delegados (dois machos e três fêmeas), dois agentes (machos) e um milhão de empregados terceirizados de ambos os sexos que fazem muito barulho. Quando a Delegada voltar das férias eu saio da sala dela e vou para a sala do barulho que fica do outro lado do corredor. Parece que vou substituir um agente relativamente antigo que pediu pra ser movimentado para outro setor. Este tem mó jeitão de polícia. O outro Agente, mais moderno, é meio nerd, eu diria.
 
Estava aqui analisando as informações preventivamente levantadas até o momento e fazendo umas contas pra ter uma noção de como será minha próxima temporada na polícia:
 
  • delegados no setor = 5 toneladas de papel.
  • Para apenas 2 agentes, sendo que o mais antigo pediu remoção = Baixíssimo IEPA: Índice de Expectativa Proporcional de Adrenalina.
  • 1 milhão de contratados e estagiários = Zero policial querendo vir trabalhar nesta bodega. 

Pronto: estatisticamente falando, me ferrei.

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Ps.: Quero dar os parabéns à Futuras Novinhas do Grupo "TAF para Mulheres" do Facebook, que têm se estimulado mutuamente para a árdua batalha diária de treinamento para os testes físicos para ingresso nas carreiras  policiais. Força meninas e levem esse espírito de união para a polícia porque estamos precisando (valeu DoceAcida!!!).

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Superado.


Graças a Deus, consegui concluir mais esse desafio com boas notas e resultados. E aquelas temidas situações na vida real que eu teria de enfrentar na etapa final, nem foram tão complicadas assim. Nada que um bom trabalho em equipe não pudesse resolver. É inacreditável o que a gente consegue fazer quando o grupo é forte e coeso. Será que este curso me deixou mais dura? Acho que não. Estou é mais apaixonada ainda pela vida. Pena é que nunca vou saber o que aconteceu depois com aquelas pessoas. Eu vi muita gente destruída, vi muita dor e sofrimento. Vi a morte e vi a vida frágil como ela é. Olhares e expressões que tatuei na memória pelo resto dos meus dias. Não dá pra explicar tamanha vibração do momento exato do acionamento da equipe e a gente correndo pra viatura sabendo que cada segundo é de extrema importância. Fecho os olhos devagar pra tentar lembrar esse sentimento ímpar, o qual por si só já teria valido pelo curso todo. Valeu demais! Tirando aquele cheiro enjoativo de sangue agridoce da viatura operacional deles, foi de longe o melhor curso que já fiz depois que entrei para a Polícia.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

sábado, 6 de julho de 2013

Músicas de trabalho.


    Uma lista de músicas especiais pra ouvir antes de partir pra uma operação.
  • Wide awake - Katy Perry - Essa é uma música para despertador! Ótima pra já acordar no clima, espantar o sono, e ficar esperta. Polícia é isso mesmo: abandonar ilusões e partir pra vida. Acorda, Katy, pra vida né, Perry!
  • Save the world - Swedish House Mafia - Tão difícil sair dos braços dele nesse friozinho da madrugada, mas alguém tem que salvar o mundo, né? Quem? Eu, é lógico! Ah, e essa também é uma homenagem ao meu cachorro e a todos os cães policiais. É, hoje tá difícil acreditar na polícia, né? Por isso eu sou a favor de mais cães policiais no nosso efetivo. Quem tá comigo aumenta o som!
  • Titaniun - David Gueta - Ok... Essa é pra ouvir antes de sair com o carro da garagem. Porque se eu não acreditasse SEMPRE na ajuda do sobrenatural eu não sairia de casa nem pra comprar pão para o café da manhã! Caiam mil ao meu lado esquerdo e dez mil à minha direita eu não serei JAMAIS atingida. Armadura de titânio puro! Faruêêêê, Faruêêêê...
  • Zombie - The Cranberries - Pode ouvir no caminho... Sempre bom lembrar que a gente tem que olhar o mundo com olhos de águia. Não focar apenas no quadradinho da situação, mas sempre entender o contexto macrosistêmico dessa por.caria toda. O poliça quer acabar com a violência como? Com mais violência? Quedizê... What's in your head?
  • Chasing the sun - The Wanted - Como assim "desistir"? Te disseram que você não tem condições de chegar lá? É mentira! Olha eu aqui! Então se joga, amiga, persiga o seu "alvo", o seu objetivo até alcançá-lo. Daí grita bem alto igual a uma louca: "vim, vi e venci!". U-hu!
  • I follow rivers - Likke Li - Música de perseguição. Tem que ter! Vai que... Mas é claro que eu vou te pegar e vai ser lindo! "I follow you deep sea baby. I follow you, don't run baby. You're my river running high. Run deep, run wild".
  • Try - P!nk - Essa é pra todo mundo que tomou a pílula vermelha e já entendeu que a coisa é mais embaixo. Você já se perguntou ‘bout what he’s doing? How it all turned to lies?. Cadeia neles! E essa coreografia também é bastante inspirativa. É o Apache, um estilo de dança de rua parisiense. (Lei Maria da Penha nesse barriga de tanquinho, Pink!) ~apagar~
  • One way or another - Piper Perabo - Flagrante postergado. Só os fortes têem paciência pra esperar o momento certo de pegar... mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro eu vou te prender! One way or another, I'm gonna find ya! Isso, joga o cabelo, amiga, igual a Joelma.
  • This is my house, this is my home - We Were Promised Jetpacks - Estranho como todo o foco da polícia é o bandido. Não deveria ser a vítima? Bora humanizar e fazer um atendimento bacana às vítimas?  Duzentos reais pra quem me disser what.the.hell aconteceu nesse raio de sótão dessa música. 
  • Part of me - Katy Perry - Amiga... essa é pra chegar chegando! "Todas as mulheres são criadas iguais, até que algumas decidem se tornar policiais". Consegue imaginar? Oquei, isso foi uma piada... Mas, ó... jamais subestime uma mulherzinha...
 

domingo, 30 de junho de 2013

Controle de pânico.


Acho que aquilo era um teste, um pré-requisito pra passar para a parte de exercícios reais. Ninguém disse que era, mas o próprio nome do exercício já era indicativo: Controle de Pânico. Como assim controle de pânico? São situações onde você tem que aplicar uma técnica aprendida, porém num contexto de estresse, onde sua determinação, coragem, e o autocontrole emocional são avaliados.  Enfim, nas entrelinhas eles ensinam que controlar seus próprios medos pode te dar aqueles preciosos segundos que poderão salvar sua vida. Por falar em entrelinhas, descobri que não tenho claustrofobia. Ok, tenho pavor de rato, de sapo, de cobra, do Aécio ganhar as eleições pra presidente mas claustrofobia não é problema meu! Basta ver o tamanho do meu apartamento.
Outra coisa importante que tenho aprendido aqui é que militar têm uma verdadeira compulsão por organização. Por exemplo, eles têm checklist pra tudo. Particularmente, me amarro no passo-a-passo pra você seguir antes, durante e depois das ações. Aqui o certo e o errado estão sempre muito bem definidos. Assim, minhas poucas dúvidas basicamente giram em torno dos termos e expressões militares que desconheço. O resto é tudo muito claro.
Na minha polícia definitivamente não é assim. Temos um sério problema chamado falta de padronização de procedimentos. Um chefe quer que você faça de um jeito, o outro quer que seja feito diferente e na grande maioria das vezes, pasme... você faz do jeito que acha melhor! Se deu certo, era sua obrigação fazer dar certo; se deu errado a culpa e a responsabilidade são inteiramente suas. Entendeu agora todo esse meu medo de errar? Pois é, sinto que é como se eu tivesse a obrigação de já tomar posse no cargo sabendo! Afinal, quantos anos eu estudei para o concurso? Quanto tempo eu fiquei estudando e treinando na Academia?
Bom, não criemos pânico, mas, se é do seu interesse, as matérias da Academia e do concurso público não foram nem 10% do que tive que aprender, "no tapa", em meus poucos anos de polícia e isso é grave, porque a maioria dos antigões experientes estão se aposentando agora e vão levar com eles todo o know how adquirido em toda a sua carreira policial. Neste caso, quem aprendeu com eles ali na tradição falada, ótimo. Quem não aprendeu, não aprenderá mais. 

sábado, 22 de junho de 2013

Mulher de fases.


Passamos da fase delicada de adaptação, assim, já me sinto um pouco mais à vontade com eles e eles comigo. Fizemos ótimos progressos e tudo indica que estamos no caminho certo. Aquela desconfiança mútua dos primeiros dias já passou. Ninguém aqui quer tomar chá vermelho no meu crânio, pelo contrário, eles se sentem orgulhosamente honrados por eu estar querendo aprender com eles. Querem que eu goste do curso e seja aprovada. Estão conseguindo. 

A turma é toda composta por jovens profissionais que têm os mesmos objetivos que eu: novinhos oficiais (todos Tenentes) e novinhos praças (todos Soldados). Boa parte dos instrutores são Sargentos e um ou dois são Capitães. A maioria das alunas são Tenentes. Não sei se é espontâneo ou se lhes deram essa ordem, mas são elas que cuidam de mim e não me deixam fazer besteira. São muito aplicadas e realmente estão dispostas a estudar. Almoçamos juntas,  saímos no final de semana, olhamos revistas de noivas  enquanto tomávamos café e comíamos pães de queijo que nós mesmas fizemos na casa de uma delas. Temos uma noiva - muito linda - no grupo!

Somos mulheres que têm algumas afinidades entre si, mas de vez em quando nossas diferenças profissionais afloram e o clima fica um pouco tenso.  Uma delas carrega o peso da medalha de primeira colocada geral em seu curso de formação. Imagine o que é suportar o ódio de um pelotão de jovens oficiais tendo que engolir uma mulherzinha como a melhor e mais competente aluna do curso deles. Ela é do tipo que não pode errar, logo quer exigir o mesmo dos outros. Tanto que quase caí pra trás quando ela deu uma retumbante patada num colega soldado-aluno que na minha visão só estava querendo ajudar, coitadinho... Pela minha cara de "focaisthis???" uma delas achou por bem tentar me explicar, porém não me olhou nos olhos enquanto falava. Ouvi, claro, mas... não deu pra camuflar o mal-estar de ver o colega saindo todo desconcertado.

Não posso deixar de fazer as comparações que pretendia evitar desde o início. Na minha polícia, chefe é chefe, como em qualquer lugar do mundo, mas curso é curso e nos três cursos que já fiz internamente (quatro com o Curso de Formação) só tinham duas classes de pessoas: ou você é aluno ou você é professor. Já aqui, a patente do aluno tem que ser respeitada até no trato informal entre os mesmos!  Esse foi o problema: o fato de ele tê-la tratado como colega e não como alguém superior na hierarquia militar. Não sei o que dizer. Esperar a próxima fase.
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

As próprias limitações.

 
Logo na primeira semana tive que pagar dez flexões de braço, na frente de toda a turma, porque tinha descuidado de um equipamento. Tinha que ser eu! Os oficiais alunos sentiram um certo desconforto pelo fato de o instrutor me punir assim, como se tal prática fosse apenas para militares. Eu soube disso porque o mesmo instrutor que me fez pagar veio no dia seguinte me pedir desculpas... "Quê isso Sargento..." respondi, "Imagina! Estou me sentindo em casa (mentira). Na minha Academia é pior porque muitas vezes se um aluno erra, todos pagam, inclusive os professores... (verdade)".

Ah, gente, na boa... dez flexões não são nada perto do que estou me preparando pra enfrentar no decorrer deste curso. Olhando a grade curricular que nos foi distribuída, já estou pensando em como vou fazer pra vencer algumas sérias barreiras pessoais. Mas estou feliz porque acho que não tem nada que eu queira mais em termos profissionais do que me capacitar e estar apta a fazer um bom trabalho para o qual já sou paga. É um privilégio enorme poder vencer, com fé em Deus, as próprias limitações. Olhar pra trás e ver que elas nem eram tão grandes como supostamente se apresentavam.
 

domingo, 9 de junho de 2013

A caserna.

 
Sou a única aluna "civil" neste curso. O volume exagerado da apostila que preciso devorar me deixa feliz. Como se conseguisse me fazer acreditar que é possível vencer esse medo de não ser capaz na hora do pesadelo.

O curso é todo em formato militar. É ministrado dentro de um quartel. Tem provas teóricas, práticas e atuação em situações reais na rua onde também serei avaliada. Sim, operações de verdade acontecendo no mundo real! É disso que estou falando! Porém, se eu falhar, vou virar estudo de caso como "a policial que foi reprovada no curso dos militares". Vira essa boca pra lá, ô... Freddy Kruegger! Isso dói no ego, sabia?

Pra piorar a minha situação, a maioria destas matérias que estou vendo aqui, praticamente pela primeira vez, é arroz com feijão para os demais alunos do curso. Portanto, vou precisar de muita humildade, diplomacia e jogo de cintura, pra conseguir toda a ajuda possível dos meus colegas, porque Freddy me diz que, do contrário, eles vão tomar chá vermelho no meu crânio.

O curso é na casa deles. Os alunos participam das "formaturas" que são uma espécie de briefing, uma reunião formal no início das atividades diárias da vida de um quartel. Então, já aprendi por conta própria algumas coisas sobre ordem unida, cultura militar, patentes militares, o que significam aquelas estrelinhas e botõezinhos... E não pense que é simples porque essas coisinhas mudam de instituição para instituição. Tem também toda uma etiqueta militar que é uma coisa de louco... Mas enfim, pessoas normais assumem logo que não são militares e dane-se, eu tenho altas fantasias de que sou uma agente infiltrada na "caserna" levantando informações com os melhores do ramo. Então meu plano é me entrosar com os "milicos", trocar figurinhas, conquistar o meu "brevêzinho", aprender essa porcaria toda e ter segurança para operar na hora do pega. Brasil!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Escuta clandestina.



Eles não perceberam que eu estava ouvindo a conversa do outro lado da vitrine, enquanto namorava as peças de uma senhora joalheria que ficava no hall de um dos hotéis mais famosos de uma das cidades mais badaladas que conheço. No diálogo, curiosíssimo, os dois atendentes  comentavam sobre "um certo ar de mistério" das policiais que estavam trabalhando ali. Aquele momento em que você pensa: "meu salário não dá pra comprar essa jóia nem em 483 prestações, mas me divirto ouvindo conversas alheias". 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Os caminhos da navalha.


Outra daquelas brigas feias e eu pedi pra ele ir embora. Aquela hora nos relacionamentos em que você pensa "eu não sou maluca de continuar com isso". Ele foi mas já voltou e vocês foram poupados de mais um daqueles textos chorosos e desesperadamente dramáticos. Vou explicar. Não dá, amiga, pra você terminar um relacionamento e ficar em contato com o dito cujo senão não funciona, certo? Porém... ele tem que ver o filho dele, o que eu posso fazer? Saí de casa pra não ter que me encontrar com ele, mas ele sabe por quem os sinos dobram. Logo, dispensou a babá e disse que ficaria lá até eu chegar! É aí que complica o meu meio de campo. O bandido me vem com aquela camisa preta que eu adoro (tirem as crianças da sala!). Aquela em que ele fica lindo demais. Aquela camisa tem uma gola preta, sabe? A gola preta realça aquela parte do pescoço, da nuca, do paraíso onde o barbeiro raspa com a navalha pra determinar os limites exatos de onde eu me perco completamente. Maldita navalha. Eu só conseguia pensar na minha língua percorrendo os caminhos da navalha.
 
E aquele jeito como ele se senta no meu sofá? Eu deveria ter queimado aquela droga daquele sofá que se transforma num sofá-trono quando ele se senta lá com a pose de um rei. Até a sola do sapato dele, que fica visível quando ele cruza maravilhosamente bem a perna sobre o joelho da outra perna, fica perfeita naquele sofá. Pela-santa-mãe-do-guarda! Aquela criatura abre os braços sobre o encosto do meu sofá e sem querer eu vejo aquela parte interna do braço dele. É, aquela parte que foi feita para nós mulheres nos encaixarmos perfeitamente bem nessa obra divina que é o Universo. A manga da camisa preta em contraste com a parte interna do braço dele sobre o sofá da minha sala... e eu seeeeei que se eu olhar só mais um pouquinho... daqui a poucos segundos estarei prostrada perante Sua Majestade só aguardando ele dar o próximo comando. Você queria o quê? Só se eu... me jogasse pela janela.
 
Difícil explicar aquela noite. Só sei que ele estava falando não-sei-quê-lá do uniforme escolar do filho que já estava dormindo na caminha do quartinho dele. Foi o que eu entendi enquanto desviava o olhar, porque aquele perfume dele  que não pede licença pra invadir o meu espaço, já estava me embriagando... (munição que eu dei para o inimigo). Mas quando ele fez uma pausa no que estava falando e fez aquele negócio de passar a mão na barba, subindo pela nuca até chegar no cabelo,  eu me desconcentrei e olhei nos olhos dele ou será que olhei nos olhos dele e me desconcentrei? Bom, nesse momento eu soube que minhas forças acabaram. Daí em diante eu só conseguia ouvir o canto da sereia macho ou seria o canto do boto rosa? Nenhum dos dois. Era o canto da mula-sem-cabeça que sou! Não entendia mais palavra nenhuma do que ele estava dizendo. Só olhava o movimento perfeito dos lábios perfeitos dele falando blás-blás-blás. E no gesto mais condescendente do mundo, olhei o relógio e pensei... "Tá. Eu fico com ele só mais essa noite e amanhã a gente vê o que faz". Foi a melhor noite da minha vida.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Humilhação institucional.


Após o almoço, um agente colega meu escovava os dentes no espelho d'água que fica na parte externa do prédio. Não sei realmente o que ele tem na cabeça, mas me pareceu um protesto circunscrito e bastante inteligente. A qualidade da água lá fora estava melhor que a do ar ambiente que respiramos aqui dentro. "O que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai dela". Quanta falsidade envolve essas missões policiais "glamourosas" e quanta decepção em tão curto espaço de tempo! Todo o mundo hypster quer participar desse tipo de missão. Todas as forças, todos os órgãos públicos. Todo mundo quer uma foto, uma história dessas pra contar. Quando te perguntam se você tem experiência nessa área, as pessoas adoram citar esse tipo de trabalho, de evento. É o tipo de missão que enaltece o currículo. E, de fato, a hipercinesia de quem narra impressiona principalmente quem é novinho e mais ainda quem não é da casa. Isso tudo me dá asco. A subserviência nauseabunda do Brasil é espantosa. Esqueçam as fronteiras, Forças Armadas, o que ameaça a nossa soberania é Brasília.

sábado, 4 de maio de 2013

Ingresso para o filme errado.

 
Chegamos a essa cidade para uma força tarefa numa missãozinha besta do caramba e o pior é que estamos aqui voluntariamente. Aquela sensação de que você comprou o ingresso para o filme errado. Tem coisa mais importante pra polícia fazer! Enquanto nos exploram a gente grita: diária! Lá no trabalho, numa sala repleta de cosplayers o melhor conteúdo que encontrei foi no meu livro (obrigada, Ernest Hemingway). Olha só, não é que eu queira discutir o "aumento da reserva de mercado", mas nas conversas por lá só rolam histórias mentirosas, piadas sem graça e reclamações inóquas... Não sei como podem ter tanto pra contar e nada pra dizer. Coisa irritante! Um colega nosso, antigão, tombou ontem por excesso de álcool na veia e foi parar no Serviço Médico. O que vou dizer de um cara cuja esperança é que com a reestruturação da carreira todo antigão um dia vai chefiar uma delegacia? Nem o futebol conseguiu iludir tanto as massas! Proponho um teorema paradoxo: ele bebe porque não progrediu na carreira como gostaria; ou ele não progrediu na carreira como gostaria porque bebe?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quarto de hotel.


Sasha Grey in The Girlfriend Experience
 
Ela é do meu concurso. Estamos dividindo o mesmo quarto de hotel nessa missão. É bom que vocês saibam que a minha história na polícia é um "Conto de Fadas" perto de "A Hora do Pesadelo III" que foi o que ela passou na primeira lotação.  Teve uma depressão ~daquelas~ logo que chegou lá, e quase levou uma punição por conta disso (depressão é um motivo alegado com alta frequência nos pedidos de remoção, logo, atrai certa desconfiança); se envolveu com o cara errado; sofreu um acidente sério, não necessariamente nessa ordem, mas enfim, ela se machucou bastante. Agora parece que o pior já passou e ela me conta tudo, embora mantenha um ar longínquo, exceto quando chora. Eu gosto dela. Ela conhece todas as novidades sobre cremes, makes e produtos para o cabelo. Tornou-se meu referencial teórico nessa área.  Está fazendo uma pós em Direito Processual Civil (autopunição? rs). Contudo, o que ela não sabe, nem precisa saber, é que eu sou amiga da mulher do cara por quem ela ainda sofre.

sábado, 20 de abril de 2013

Voz de prisão.


 
Acho que a parte de lidar com preso é a mais difícil pra mim. A primeira vez que entrei numa carceragem não consegui ficar lá nem cinco minutos. Quase passei mal. Havia uns cinquenta presos atrás das grades de umas dez celas, talvez. Não me lembro direito, até porque eu não conseguia sequer olhar diretamente pra eles. Pelo contrário, os olhares lascivos deles é que me fuzilavam por todos os ângulos possíveis. Me sentia como um frango assado desfilando num canil. Eu tinha duas opções: ou encarava de volta até o preso olhar pra outro lado; ou fingia que o preso não era gente, mas um pedaço de carne ignorável (atitude tomada por 99% da sociedade).
 
Resultado: dei meia volta e saí da carceragem. Eu? Encarar um preso??? Melhor não, porque se não funcionasse eu iria fazer o quê? Entrar na cela e bater nele pra ele nunca mais olhar para uma mulher policial daquele jeito? Gente, eu morro de timidez e não consigo encarar nem quem eu tô paquerando... E se o preso sorrisse pra mim e eu sorrisse de volta? Ferrou!
 
A-gente não pode se dar ao luxo de ter conflitos interiores. É resolver logo e cumprir a missão.
 
Então, uma grande parte de nós opta pela segunda opção. É por isso que tantos policiais são marrentos. Por que você acha que polícia adora óculos de sol? Mas Renato Russo estava certo: "mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira" e toda prisão que faço, sem exceção, é uma tortura. Não dá pra ignorar que ali tem um ser humano. O cheiro, o choro, a textura da pele, o olhar deles é de um ser humano, igualzinho a mim. Mas como um outro ser humano comete um crime desses?
 
Por mais que eu evite conversar com o preso e saber menos, pra sofrer menos... não adianta. Outro dia, dei um sermão de meia hora num preso, porque, durante a busca domiciliar encontrei um Certificado de Reservista onde constava que ele havia servido a Força Aérea Brasileira. Em suma, eu queria saber do preso como ele poderia ter mudado de lado depois de todo o treinamento militar que ele recebeu. O preso chorou tanto de arrependimento... que bem poderia me acusar de tortura psicológica. Agora é tarde, soldado.
 
Recentemente prendi um pastor evangélico que estava fazendo a coisa certa, porém da forma errada. Na delegacia ele pagou fiança e foi embora. Não sem antes passar por mim e dizer: "a Bíblia diz que feliz é aquele que for preso pelo nome de Jesus". Eu não vou discutir as leis de Deus com um pastor que desconhece as leis dos homens. Não sou eu quem faz as leis, Reverendo. Eu cumpro a lei, por mais idiota que ela seja. E não fui eu quem colocou o Tiririca lá... Mas se não estou enganada, quando Jesus estava sendo preso, Pedro, que parece que era meio metido a segurança particular, sacou sua espada (é galera, São Pedro andava armado!) e feriu a orelha do agente que estava cumprindo o mandado de prisão!!! Não sei o que aconteceu com o agente na hora, se desmaiou, se a dor tava demais... O que sei é que, contrariando todas as normas de segurança, ele deixou o preso (Jesus) tocar na orelha dele e isso sarou o ferimento na hora... 
 
Fica a mensagem que serve tanto para os policiais feridos quanto pra quem me julga. Pra mim, quando Jesus disse aos religiosos "quem não tem pecado atire a primeira pedra" era como se dissesse "não vai subir ninguém", do Capitão Nascimento. Porque no fundo, somos todos iguais, o que nos diferencia é o toque de Jesus.

sábado, 6 de abril de 2013

Não me representa.


 
*AGENTE POLICIAL NERVOSA* entra na sala: Quando a gente usa as algemas tem que justificar para o Supremo. Quando não usa tem que justificar para os colegas. Me encanta a pessoa que reclama da falta de liberdade de decisão criticando a liberdade de quem decidiu diferente. Wake me up quando a militância das algemas ends.

sábado, 23 de março de 2013

O vestiário feminino.

Sabe o que as mulheres policiais mais fazem no vestiário feminino? Choram. Choram porque querem um amor; choram porque querem outro amor; choram porque não são reconhecidas; porque não são correspondidas; choram quando não conseguem atingir as expectativas de todo mundo; choram quando não querem corresponder às expectativas de ninguém; choram porque não conseguem conciliar vida pessoal e trabalho; choram porque se sentem culpadas;  choram de raiva; choram quando as tratam diferente; choram quando as tratam igual; choram quando querem o que não têm; choram de medo de perderem o que têm. As mulheres policiais também choram.
 
Chegou ao meu conhecimento de forma extremamente desagradável que há comentários a respeito de um suposto caso que eu estaria tendo com o meu chefe. Que maravilha, né? Era só o que me faltava. Tenho ódio de mim mesma quando me importo com essas questões xexelentas, mas é que fico preocupada com as outras pessoas envolvidas! Desagradável. Tanto, que abri o jogo com meu amor logo e contei tudo o que estava acontecendo.
 
Por que é tão difícil digerir o fato de que uma mulher pode trabalhar bem na policia? Quando não acham nada pra falar mal do seu trabalho, adotam um discurso pronto da marca mais vagabunda existente no mercado: fazer fofoca da sua vida pessoal. O resultado são estas pérolas do pensamento evacuadas: "Tem que ter algum motivo pra essa novinha ter sido escolhida pra trabalhar na equipe do Roger"; "Por que você acha que tanta gente naquele setor já foi substituído e ela não"; "Por que será que o Roger tá dando as melhores missões pra ela?"; "Por que o Roger protege a Novinha até na hora de pagar a multa que ela recebeu?".
 
Até agora não acredito que me dei ao trabalho de fazer uma postagem sobre isso...
 
Meu benzinho sabe quando eu fico abatida com alguma coisa. Sabe que eu não gostaria de ter que pedir pra sair do setor do Roger, mas também sabe que eu não seria capaz de permanecer lá sabendo que ele se sente de alguma forma desconfortável com uma situação dessas. Deixei pra ele decidir. Não sei se o Roger tá sabendo desses comentários e também não vou perguntar pra ele. Até porque agora isso também já não vai mais ser problema meu. Meu bem já disse que se toda vez que eu tiver esse tipo de problema eu pedir pra sair... vai ser fogo, né? E ele tem razão!
 
Se alguém extraiu alguma lição útil desse episódio tosco me avisa, porque eu não penso em mudar um til no meu comportamento por causa do que aconteceu. Não vou deixar de ser mulher pra evitar ser alvo de fofoca. Aliás eu já tô cansada desse suposto dilema de gênero na polícia "feminilidade versus cargo de autoridade". Vaskatar! Parece até que ser mulher, ou melhor ser feminina exclui a competência... 
 
Ao contrário do que pensa quem tá de fora, nem todas as mulheres bonitas que vejo na polícia querem fazer uma carreira levando vantagem em cima de seus atributos físicos. Vejo tanta menina na polícia que parece ver na própria sensualidade um problema. Outro dia mandei um abraço para um professor da Academia por intermédio de uma colega e ela respondeu pra eu mesma fazer isso porque o professor era casado... Quequéisso, gente!
 
Sério! Incrível, mas eu até arriscaria em dizer que parece que quanto mais feminina, delicada, sensual, bonita é a menina que quer trabalhar sério na polícia, mais medo ela tem de não ser levada a sério! Que praga! Será que eu é que estou errada? Porque pra mim, quanto mais preocupada com essas questões menor é o cérebro da mulher. Quer saber? A preocupação em ser respeitada é tanta, que muitas policiais dentre as que querem muito fazer um serviço de excelência aqui dentro, chegam ao ponto de querer meio que compensar suas características femininas com a adoção de um estilo masculinizado, o que imprime nelas uma imagem mais agressiva do que as outras colegas reconhecidamente delicadas, femininas, sensuais. O que elas não percebem, ironicamente, é que junto dessa imagem agressiva acabam demonstrando um comportamento grosseiro, irritadiço, arrogante que gera maior aversão e antipatia ainda dos colegas e superiores, tornando-as naturalmente evitáveis e menos provável sua progressão na carreira. Adianta?

domingo, 3 de março de 2013

Investimentos.

 
A diferença pode estar no fato de que eu vim de família pobre, né? Ganhava um salário mínimo por mês. Mas aquela empresa tinha um dos melhores planos de saúde que conheço e pagando um pouquinho a mais incluí minha família toda. Meu bem já está trabalhando de novo. Passou aquela depressão maldita. Já saímos do aluguel. Compramos nosso apartamento e, claro, estamos pagando as prestações. Também trocamos de carro. Faltou um pouco de dinheiro mas pedimos emprestado ao meu tio à época, e agora já está pago! Ajudo lá em casa sempre que surge algum imprevisto e contribuo com a faculdade da minha irmã, com muito prazer. É o mínimo que eu posso fazer como retribuição à força que ela me deu quando eu vim pra cá.  A minha irmã carrega água no jacá por mim, se eu precisar. Além disso, eu sei bem o que é não ter grana pra pagar a faculdade. Mesmo trabalhando em projetos sociais pra ganhar algum desconto nas mensalidades, às vezes atrasava, e também faltava grana pra pegar ônibus, pra lanchar, pra almoçar. Livro? Esquece... Praticamente morei na biblioteca estudando pelos livros da Reserva. E o peso em não poder decepcionar? Por isso que eu brinco com a minha mãe hoje, dizendo que ela fez o melhor investimento da vida dela: ela investiu em mim. Enfim, não posso reclamar de jeito nenhum! Deus é o meu Pai e ele tem me dado muito mais do que preciso. E quando olho para os lados, tenho consciência de que o que recebo é muito mais do que mereço. Então, se eu for parar pra pensar, já tenho motivos acumulados pra comemorar pela vida toda e o que vier é lucro.