terça-feira, 8 de junho de 2010

Sr. e Sra. Má Reputação

Às 10 horas em ponto eu chegava toda produzida ao local indicado, conforme combinamos. Um hotel vinte estrelas nesta cidade. Pensei em telefonar, mas ele já estava fazendo o check in na recepção. De relevante, notei sim, a aliança que brilhava na mão esquerda desse colega policial assinando a ficha, mas não percebi mais ninguém conhecido na cena. Ótimo! Fico imaginando onde aprendi a correr esses riscos que parecem saltar na minha frente. Deixa. Tomamos o elevador. Como ele tava lindo! Que transformação! O surfista penteado e barbeado. Aquele cheiro macio e cremoso pós-barba. E mesmo sem olhar eu sabia onde estavam os olhos dele, por óbvio. Um silêncio que dava pra ouvir a respiração do outro e ele masca um chiclete de menta. Eu só encarava o chão, castamente, e contraía os músculos mandibulares de forma quase involuntária: queria um chiclete... e outra metáfora. Penúltimo andar. A porta do elevador se abriu. Corredor vazio de doer. Ele convidou, "vamos?". E agora? Acabou me convencendo de que ele sabia o que estava fazendo e permiti que ele me conduzisse por caminhos diferentes. Rotas de fuga. Não vou entrar em detalhes, mas posso garantir que aproveitamos bem o tempo para fazermos tudo o que aquela urgência exigia de nós... na piscina, na cobertura, nos restaurantes vazios, na sala de ginástica, na garagem, nas escadas de emergência, nos elevadores, etc. Não é exagero. Não podia imaginar que havia tantos detalhes interessantes num hotel! Saímos de lá juntos, três dias depois, exaustos devido às noites mal dormidas... E assim temos mais uma segurança de dignitários para o meu currículo. Dessa vez fiquei na equipe fixa do hotel. Trabalho, sim, vocês estavam pensando o quê? É assim mesmo que funciona: Uma very important person de fora, que tenha direito à nossa segurança, chega à uma cidade e é escoltada pela equipe móvel. Segue para um hotel bem legal. Claro que antes dela chegar uma equipe já fez todo o plano de segurança e levantamentos de inteligência, outra equipe já fez a varredura eletrônica (contra espionagem, escutas, captação de imagens) e anti-bombas na suíte VIP e adjacências. É sério! Daí a equipe de segurança fixa passa a se responsabilizar pela segurança do dignitário naquele hotel e a gente vai se revezando na porta da suíte VIP enquanto ele estiver na cidade. No meu turno, eu sou a responsável pela vida, pela segurança física e até moral da autoridade que descansa. É importante estar preparada para qualquer situação. Me senti tão profissional! E quase pude ouvir meu pai a dizer: "Filha, pode ser ótimo como experiência, mas péssimo pra reputação". Vida irônica.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Um super, máster elogio.

Um caminhão-pipa à frente vazando água na rua seguido de um carro de passeio pequeno. Tudo parando por causa do quebra-molas. Norah Jones de carona no som... Um dia tão lindo... Nada a ver com esse óleo na pista e carro patinando! Ai, meu Deus! Os olhinhos dele acompanhando tudo... Vai bater!! E záz!!! Sem controle o carro desliza pra esquerda. Nosso Pai!!! E antes que colidisse com um veículo em sentido contrário, o carro encontrou pista seca e respondeu ao volante. Volta pra via da direita, transpondo a lombada devagar. Está tudo bem... Graças ao bom Deus! Foi quando ouviu o filhote dizer, espantado e cheio de orgulho: "Mamãe, ainda bem que você é policial, né?".
  • Mandar o carro para a oficina - R$ 5.000,00
  • Cirurgia plástica para consertar o corte na testa - R$ 4.000,00
  • Psicólogo infantil para terapia pós-traumática - R$ 3.000,00
  • Um elogio desses vindo do filho de uma policial - Não-tem-pre-ço e nem vai constar nos assentamentos funcionais.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Pede pra sair.

Melhor ter sofrido um trote daqueles que demonstram logo o "tipo sanguineo" do "sangue novo" que chega na polícia, a ter que aguentar essa mulher. Mais velha e mais antiga na casa que eu, ela implica dia e noite com meu sotaque, desaprova meu estilo street wear, recrimina minhas convicções políticas, faz piada da minha fé e torce contra o meu time de futebol. Adora me provocar, mas sempre levei em banho-maria e procuro manter distância segura. Finjo que nem é comigo. Em qualquer lugar do mundo isso seria bullying, mas aqui é normal que peguem no pé dos novinhos, ou de onde vocês pensam que veio a frase "Nunca serão!"? Dá vontade de pedir pra sair, mesmo. Só que o delegado percebeu, me chamou na sala dele e perguntou se eu queria que ele interferisse na situação. Imagina! Claro que eu disse que não. E o quê? Delegado se metendo em guerra de agentes? Porém, ele me fez perceber que a situação era mais grave do que eu imaginava e agora consigo entender algumas coisas estranhas que aconteceram. Mesmo assim insisti: "Muito obrigada, chefe, mas meus problemas resolvo eu. Já sou grandinha pra saber me cuidar". Mentira, porque né? Depois que saí da sala dele chorei igual criança sozinha. Agora eu sei... dores que a gente não entende são mais difíceis de tratar.

sábado, 22 de maio de 2010

Não faço a menor questão de ser fofa.

O delegado passa por mim apressado, me entrega um papel com nomes e respectivos números de telefone. Pede pra ligar e cancelar a reunião da tarde. Motivo: viagem. Tá... Pego o primeiro nome da lista: Daniel Inácio (fictício, né, meu povo...). Chama. Mal o telefone toca o sujeito atende.
- "Alô". (Voz de homem).
- "Oi, bom dia, o senhor Daniel Inácio, por favor".
- "Quem gostaria?" Ele perguntou. Só disse que era aqui da polícia e ele continuou. "Então você quer falar com o CORONEL Daniel Inácio"?
- "Por favor". Respondi, analisando o esmalte das unhas. E alguém quer saber a patente dele? Pensei.
- "Hummm, só um minuto, vou transferir pra ele". E a ligação caiu... Eu ligo de novo. Essas coisas acontecem. E ouço a voz do mesmo atendente.
- "Alô".
- "Oi, falei com você agora mesmo, pedi pra falar com o coronel Daniel Inácio e a ligação caiu". A cor e a textura desse esmalte são realmente fabulosas.
- "Ahhh, agora sim!!!" Comemorou ele. Tirei os olhos do esmalte e ele continuou: "Então você quer falar com o CORONEL Daniel Inácio??? Pois pode falar". Descruzei as pernas, me ajeitei na cadeira com os cotovelos na mesa, franzi a testa e conferi pra ver se estava entendendo direito. Onde é que fica o coronel na hierarquia militar? Não sei. Perguntei pausadamente:
- "Espera... então O SENHOR é o coronel Daniel Inácio?" Olhei de cantinho para o Parceiro que estava lendo alguma coisa. Ele já olhou pra mim rindo... Pisquei pra ele como quem diz "aguarde".
- "Sou eu mesmo. Agora você pode falar, minha filha". Gente, quase não acreditei!!! Será que esse corno pensa que é a rainha da Inglaterra? Pior! Esse sujeito tá se achando no direito de me enquadrar porque eu não o chamei de coronel??? Respirei fundo e a maldade já estava expressa no sorrisinho de um lado só da boca. Eu disse:
- "Ahhmm, não precisa mais não, viu? NÃO É NADA IMPORTANTE, CORONEL? NADA!" E pá! Bati a porcaria do telefone na cara dele, atendendo ao consagrado princípio da reciprocidade muito prestigiado no relacionamento entre as polícias.
Assim, um coronel veio marchando sozinho pra reunião que não teve, pra deixar de ser babaca. Palhaço!
Moral da história: Secretárias precisam dominar a arte de lidar com as vaidades; Agentes de polícia, não. Mulher na polícia é o quê?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Prerrogativas do cargo.

Ultimamente tenho tido pesadelos frequentes envolvendo morte em operações. Sonho que fui baleada, que estava desarmada, que a arma estava quebrada, que meu parceiro é bandido, que não consigo correr, que não consigo gritar, que não consigo. Então ele me abraça, me cura e me deixa dormir no melhor lugar do mundo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Relatório de missão.

Só posso descrever meu estado como ebriedade profissional. Foi bom, intenso e muito gratificante participar da missãozinha chata, na qual ninguém acreditava, e que por isso mesmo caiu de bandeja no meu colo. E embora um delegado constasse como chefe da operação e houvesse discutido comigo cada ponto do plano, tinha que fazer outras coisas e acabei, por ironia do destino, assumindo o rock n' roll todo. Era eu tentando ensaiar meus passinhos tímidos na imensidão do universo policial. Todavia, o susto foi grande porque a operação evoluiu. Aumentaram o som, as cores e a moral da história. Pelo fato de ter acompanhado tudo desde o início era eu que tirava dúvidas dos colegas no brieffing (pasmem!). Por alguns instantes realmente senti toda a beleza de fazer parte de uma equipe de polícia, tal qual uma peça bem engrenada na força da máquina..., mas ainda é cedo. Segue. Me lasquei de tanto trabalhar e de tanta pressão porque se "tocasse o barata voa" (abafa!) eu não sei nem se saberia por onde começar. Oi, aquela fase de curso de formação acabou, baby. Não tem nenhum instrutor aqui pra tirar a gente do desespero e é terminantemente proibido errar! Não. Claro que meus erros não passaram em branco. Fizeram críticas quanto à "estética da coisa". Ok, não poderia passar sem críticas, mas logo sobre estética!? Se todo o resto estava bem então isso foi um tremendo elogio! Eu acho graça porque era uma missão impossível de dar certo. Mas deu e a causa era nobre! Graças a Deus pude dormir em paz. Hoje, meu coração acordou em ritmo de fé, pronto para novos horizontes, porém antes tenho que lavar essa camiseta suada que por vezes me deixa encharcada de orgulho.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Jogo dos sete erros (agora com o gabarito).


Querido Brasil, depois de 45 celebrados comentários (Eu amo vocês!), largas gargalhadas e muitas surpresas que fariam Freud reescrever sua teoria da sexualidade vou passar o que eu consideraria um gabarito meu para o joguinho dos sete erros, referente à foto acima.

1 – Nem todo mundo que veste a camisa da polícia é um policial de verdade.
Esse bonitão fardado aí da foto não é da PMERJ é um modelo trabalhando para uma campanha da grife italiana Relish. Indícios nesse sentido são as enormes tatuagens do braço e a barba mal feita... Ok, isso também não define nem de longe um verdadeiro policial.

2 – Nem sempre quem está numa aparente situação comprometedora é um bandido.
A moça também é modelo e está ganhando o dinheiro dela de forma honesta, até que provem o contrário. Bandida é a Relish que se deu bem na época, por fazer uma campanha-retaliação ao caso Cesari Battisti, o terrorista italiano que recebeu refúgio no Brasil (alguém lembra? Porque tem coisa que é melhor esquecer).

3 – A polícia (sua imagem, seu poder e seus recursos) não pode ser utilizada para fins outros não previstos em lei.
A farda na imagem é exatamente igual à da PMERJ. Comprometeram a imagem de uma instituição pública e do Rio de Janeiro em troca de quê? (snif...)

4 – A mulher foi representada numa atitude de forte conotação sexual, abusiva e que estimula a violência, a desigualdade e o desrespeito.
O ingênuo executivo machista da marca italiana da discórdia, senhor Alessandro Espósito, já pediu desculpas e a gente deixa barato a palhaçada.

5 – Não se deve achar que a fragilidade na aparência do inimigo signifique ausência de perigo.
Abaixe a guarda e você pode ser pessimamente surpreendido. O inimigo do “policial” que simula uma busca pessoal toda errada, pode ser a sensualidade da moça. Mas descobri que há mais inimigos sedutores na atividade policial do que poderia eu imaginar na minha vã filosofia (ui!).

6 – A presença feminina é imprescindível na polícia, pronto e acabou.
O blog é meu e eu puxo sardinha para o meu prato a hora que eu quiser. Isto posto, é um erro pensar que a atividade policial é “coisa pra homem”. Eu sou feliz aqui, tá? E busca pessoal em mulher é só uma das muitas situações onde convém a presença de uma policial. Até uma grife de moda italiana já sabe disso.

7 – Por último, quem tem que julgar é o juiz, aprovado no concurso da magistratura, possuidor de competência legal, capacitação e blá, blá, blá e mesmo os juízes são passíveis de erro. É preciso colocar os preconceitos à parte para um julgamento correto, ileso. Quem nos induziu a acreditar que os sete erros seriam do “policial”?

Agora reflitam... ou não, porque esse negócio de ficar apontando os erros dos outros é chato, né? : p

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Agora é a minha vez.


Ele tinha bastante experiência e muita classe. Fiquei fã desde o início. Me sentava sempre no meio da primeira fileira e quando ele precisava de alguma coisa pedia pra mim. Eu atendia por prazer, sem necessidade de algum sentido. Distribuía as cópias, recolhia material, ajudava com a papelada, fechava a porta da sala. E sem muito esforço ele foi o meu pai durante todos aqueles meses de curso de formação. Às vezes acho que me protegia - jeito perigoso de amar. Assim que terminou a formatura, esse instrutor pediu pra turma se reunir uma última vez na sala de aula. Subiu no tablado e nos colocamos em pé ali, de frente pra ele. Havia preparado um discurso latejante de despedida e imprimiu toda a sua alma numa folha de papel. A voz dele em sotaque gaúcho foi ficando mais grave e embargada. Disse coisas muito doloridas sobre a realidade do sacerdócio policial que a gente estava prestes a assumir. E chorou. Tentou continuar a leitura e chorou mais ainda. Alguns colegas olharam pra mim e eu entendi. Me aproximei, fiz um carinho no braço dele daquele jeito que só as pessoas que sentem paz sabem fazer e pedi pra ele me deixar terminar de ler o texto. No final da leitura me agradeceu envergonhado com os olhos vermelho-colorado, porque até as cores dos olhos dele eram gremistas. Dei um abraço nele e a turma toda fechou desorganizadamente unida em cima da gente. Naquela fina alegria vencedora que faz a gente acreditar que a partir de agora a história vai ser diferente. Porque vai.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A fera em questão.


Meu presente de aniversário pra você, amorzinho! Advinha???

a) Uma festa surpresa na nossa cidade de origem reunindo nossos amigos que ficaram lá;
b) Um jantarzinho romântico no nosso restaurante charmosinho;
c) Te dar aquele presente na cama na manhãzinha do grande dia (oi?);
d) Marcar a data glamourosamente pra sempre fazendo amor em algum cenário inusitado;
e) Alguma outra coisa que te convença forte que realmente valeu a pena vir atrás de mim;
f) Nenhuma das alternativas anteriores porque estarei viajando a serviço.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Só as mulheres sangram.

Quando nos apresentaram oficialmente, esta espingarda calibre 12 me deu oito coices no peito e uma lembrança roxa como um aviso do tipo "Nunca será!". Me lembro que um dos instrutores viu uma maldita lágrima rolando, mas não fez comentários. Nem eu. Fechei-me dura como quem fecha a câmara da arma após inserir o cartucho. Cleck, cleck! E terminei a série com a calma de um vento brando, camuflando as dores e o orgulho ferido. Mas para minha surpresa, permaneci irredutível no propósito de não desistir. Outro dia chamei esse canhão para um novo acerto de contas no estande de tiro. Veio com a mesma história e a briga foi feia. Até a chuva engrossou comigo naquele dia. Toda vez que eu tentava aconchegar melhor o recuo da arma no meu corpo era uma pancada, que em cima de outra pancada, potencializava o sofrimento. Como se quisesse abrir meu peito na marra. Juro que tentei entender a teoria mecânica e ensaiei várias vezes uma posição mais confortável, mas não adiantava argumentar com aquele trambolho. E quanto mais eu tentava obstinadamente trazê-lo pra perto de mim, mais o armamento me insultava. Foi quando cometi o erro de chegar perto demais, não sei se pra provar que não tenho medo, ou pela ânsia de ser levada a sério. Meus lábios quase tocaram a coronha. Mania de ignorar limites. E não houve perdão. O tiro foi perfeito, mas a desgraça do recuo veio como uma bicuda de coturno na minha boca que me fez ver todas as estrelas do firmamento dançando frevo e curtindo com a minha cara. O lábio superior sangrou... ficou inchado... e, como tantas mulheres que apanham da vida, simplesmente disfarcei, engoli o sangue e abafei a humilhação.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Herói secreto.

Foto: Rodrigo Coca/Foto Arena

A PMESP ainda não revelou o nome do policial militar à paisana, que na sexta-feira passada socorreu a soldado Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi, ferida com um golpe de palmatória madeira no rosto, quando compunha a tropa da Polícia Militar na manifestação da greve dos professores em São Paulo, onde o pau quebrou mesmo. Eu acho que tinham que divulgar o nome dele, sim! Nome, telefone, estado civil...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Verbo amar.

O celular tocou
eu atendi
ele falou
eu gritei
eles assustaram
elas morreram de inveja
ela saiu
- a transferência dele saiu -
nós viveremos aqui
e seremos felizes para sempre.

sábado, 20 de março de 2010

Pandora.


O flagrante, a abordagem, as algemas, a condução, tudo era real demais só que eu não sentia os meus pés no chão. Foi como se eu não estivesse na cena da prisão que fizemos essa semana. Não foi bem o tipo de prisão que se vê na TV, nem na Academia. Acho que o preso sentiu a mesma coisa. Nem ele, que era mais velho, nem eu entendíamos direito o que acontecia. O Parceiro que parecia estar com todos os músculos do corpo contraídos gritou os comandos duas vezes e por causa da muvuca e do barulho eu acho que o sujeito não percebia direito. O terceiro comando já foi com mais energia. Ele assustou feito galo marrento capturado de repente e eu mordia meu lábio inferior, tropeçando nos próprios passos. Acho que o susto foi maior ainda quando sentiu uma mão de mulher conduzindo-o pelo braço algemado. Foi estranho e engraçado. Olhou pra mim como se não acreditasse que a situação pudesse ser ainda mais surreal do que já se apresentava, mas a cada passo a prisão era mais verdade pra mim e pra ele. Depois do susto ele disse: "Até você?!". Era só um preso sem medo do ridículo arranhando uma reação normal. Nunca o vi na vida, mas mergulhei na pergunta dele. Era eu mesma! E ri, deixando solto o cabelo que devia parar atrás da orelha. Porém senti pena, um desconforto mortal e dúvidas. Pelo menos já sei que meu par de algemas funciona. Será que toda prisão é assim? Acho que essa não valeu, quero fazer de novo!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Admirável gado novinho.

É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer.
(Zé Ramalho)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Crime sem castigo.


O Pequeno Terroristazinho viu a munição ("bala" de arma de fogo) no assoalho do carro, pegou e colocou no bolsinho do shortinho da escolinha. Quando a mãezinha imprudente chegou na escolinha o "brinquedinho" estava na mão da diretora que perguntou como aquilo podia ter acontecido. Refém do próprio filho, a mãezinha, que havia respondido na ficha do aluno que era "servidora pública" ficou sem cor de tanta vergonha e susto. Entregou logo que era policial e pediu desculpas. Alguns minutos de tortura, digo, de sermão e a mãezinha saiu pela tangente fazendo perguntas sobre a segurança da escolinha. Fazia todo o sentido. Acabaram ficando amigas, e até hoje, os três são cúmplices de um crime sem castigo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Dia da mulher.

A polícia me ajudou a resolver muitos problemas
e me arrumou outros.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Flashes, câmeras, ação!

Hoje concluí minha rápida participação num trabalho de segurança de uma dignitária. É claro que gostaria de trabalhar nessa atividade sempre que houvesse chance. Sou filha da cultura metropolitana e afinal, quem não quer passar a noite em hotéis caros, frequentar restaurantes e outros ambientes sofisticados, desfilar em terninhos finos e carrões bacanas pela cidade e ainda por cima a trabalho? Porém, vamos conter a empolgação, porque essa atividade é um privilégio para pouquíssimos policiais. Só tapei buraco de alguém que está de férias e adorei ouvir o delegado dizer alguns dias antes da operação: "Manda a Novinha porque eles precisam de uma mulher na equipe". Mesmo assim, tenho a sensação de que acabo de fazer uma prova e estou esperando os resultados. Já era tempo de aprender coisas novas. Talvez pelo fato de ter sido minha primeira experiência nisso, ouvi com humildade os colegas arrogantes e irritados da equipe me fazeram um milhão de recomendações um tanto quanto óbvias. Coisas relativas a protocolo, postura formal e discreta, e dicas como "só fale com ela se ela falar com você ou só fale o estritamente necessário". Enquanto eles falavam eu me imaginava contando piadas pra ela, rindo alto e fazendo imitações idiotas. Mas depois, confesso que fiquei um pouco tensa. Tem todo um glamour, um apelo heróico, uma estética plástica, um belo balé de sincronismo, holofotes, flashes, câmeras... Pude até sentir um gostinho suave de ação! Isso vicia...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Big girls don't cry.

 
Recentemente voltei à Academia, local onde um dia descobri que havia nascido pra ser policial. Entrei pelo mesmo local de sempre, me lembrando de como eu destilava insegurança no meu primeiro dia como aluna. Ele descia as malas pesadas na portaria pra mim, mas era o peso daquela escolha dentre três aprovações em concursos públicos e o risco de Ele não poder me acompanhar após a conclusão do curso de formação, que eram os mais pesados pra nós dois. Nem deixei que Ele comemorasse o fato de não mais pagar as minhas contas, porque estava com medo de não conseguir atingir o nível exigido nos treinamentos. Esperei tanto a convocação para a matrícula, mas no dia “D” o pessoal da portaria viu uma mulherzinha relutante em sair de sua zona de conforto. Nasci policial naquele momento. Me lembro quando Ele, sereno, segurava minhas mãos geladas por puro nervosismo e tentava aquecer meus dedos. Tinha vindo comigo até a entrada da Academia, mas agora eu precisava entrar sozinha e quase chorei ali meus temores e ansiedade. Ele ria por dentro, eu sei. E nos despedimos juntos de uma fase que ficaria para trás quando eu entrasse. Mais um abraço demorado e atravessei a portaria. Os meses em que eu dormia com um leãozinho de pelúcia numa cama gelada, num quarto cheio de mulheres à beira de um ataque de nervos, passaram rápido. Entreguei-lhe novamente minhas malas e Ele as colocou de volta no carro, cheias de novidades, expectativas, saudades... Sabe aqueles momentos nos quais você tem certeza que é feliz?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Neurose.



Não me senti ofendida, mas achei de muito mau gosto quando alguns dias antes da formatura, ao entregar uma foto oficial da turma como lembrança para um dos instrutores da Academia, ele apontou o dedo para a foto e olhou para a turma dizendo: "Aproveitem bastante a festa porque esta é a última vez que vocês verão toda essa turma reunida". Era um chato mesmo que vivia repetindo "Missão bem sucedida é aquela em que o policial volta vivo pra casa"... Mas, ele tinha razão porque um da minha turma já foi e da forma mais estúpida e sem lógica que o leitor puder imaginar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Pescador e o inferno de Dantas


Meus dois neurônios se agitam. Enquanto um tenta entender uma notícia velha no Estadão, que se repete todo dia, o outro briga com a música e chora.

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

300 agentes da Polícia Federal vão às ruas em três Estados (São Paulo, Rio e Bahia), além do Distrito Federal, para deflagrar a Operação Satiagraha.

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Prendem 17 pessoas, entre elas, o banqueiro Daniel Dantas, o investidor Naji Nahas, ex-prefeito Celso Pitta, este ainda de pijama, em casa.

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, se queixa de "espetacularização" da Satiagraha e das algemas.

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Dois dias depois, ele próprio manda soltar o grupo preso por ordem do juiz Fausto De Sanctis.

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso...

Mahatma Gandhi, pacifista indiano na luta pela independência da Índia cunhou o termo Sathiagraha. A palavra satya em sânscrito significa "verdade" e agraha "firmeza". Satyagraha é a “firmeza na verdade”, ou “firmeza da verdade”.

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final!

Atualmente Daniel Dantas, com ficha-limpa, tem seu processo suspenso no STJ e o DPF Protógenes foi punido mais uma vez conforme portaria abaixo:

DEPARTAMENTO DE POLÍCIA FEDERAL
BRASÍLIA-DF, TERÇA-FEIRA, 26 DE JANEIRO DE 2010
BOLETIM DE SERVIÇO No. 017
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
PORTARIA No. 007/2010-COGER/DPF
Brasília/DF, 21 de janeiro de 2010

O CORREGEDOR-GERAL DE POLÍCIA FEDERAL, no uso de suas atribuições previstas no inc. XVI, do art. 32, do Regimento Interno do DPF, aprovado por meio da Portaria no. 3961/MJ, de 24.11.2009, publicada no D.O.U no. 225, de 25.11.2009, c.c o inc. V, do art. 50, da Lei no. 4.878, de 03 de dezembro de 1.965, tendo em vista o disposto nos art. 10 e 11 do Decreto-Lei no. 200, de 25.02.1967 e considerando o que restou apurado nos autos do PAD no. 046/2009-COGER/DPF, R E S O L V E : I – APLICAR a pena disciplinar de 02 (dois) dias de suspensão ao servidor PROTÓGENES PINHEIRO DE QUEIROZ, Delegado de Polícia Federal, primeira classe, matrícula no. 8.452, lotado na CGDI/DIREX/DPF, por restar comprovado que publicou mensagem no endereço eletrônico denominado “http://blogdoprotogenes.com.br/”, acessado em 16.04.2009, dando a entender que o seu afastamento do exercício do cargo de Delegado de Polícia Federal, determinado pela Portaria no. 247/2009-DG/DPF, de 09.04.2009, ocorreu, possivelmente, em favor de pessoa investigada em processo criminal, conduta que configura a transgressão disciplinar tipificada no inc. I, do art. 43, da Lei no. 4.878, de 03.12.1965; II – Na mensuração da pena foram observadas as circunstâncias previstas no art 45 do referido dispositivo legal. (Publicado no DOU de 27.01.10.)

Sem final!
Sem final!
Final!