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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Dica nº 7 - Seja humano.

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Policial precisa preservar a sua alma.

Oi!
Até aqui já fizemos seis postagens, certo? As quatro primeiras se referem ao preparo básico que todo policial deveria ter. É o mínimo que precisamos para partir para o ataque, digamos assim, quais sejam: o preparo físico, mental, tático e profissional. As outras 2 últimas postagens falavam sobre como nos defender, driblar as armadilhas no meio do caminho. Nesta posição, já falamos de dois grandes zagueiros que são a resistência e a discrição. Hoje vou falar de mais um jogador da defesa: a humanidade.

A sociedade quer que sejamos todos heróis com superpoderes e queixos quadrados. Querem que sejamos super-humanos. Já viu aquelas imagens de policiais com asas de anjo? Com equipamentos estilo Robocop? Realmente, quando colocamos nossa "fantasia" de super-heróis, é difícil não encher o peito de ar e pensar "estou pronto para salvar a humanidade". hehehe.

Só que não. Então eu já ficaria muito feliz se esse texto te ajudasse a salvar A SUA humanidade.

Somos apenas seres humanos que têm a prer-ro-ga-ti-va de lidar com outros seres humanos e suas mentiras, sua depravação, sua violência e opressão. Isso não significa que todo mundo é mentiroso, depravado, violento e opressor. A propósito, você conhece alguém que seja completamente bom, ou completamente mau?

Mas a dor se intensifica quando você, no exercício da profissão, vê o mocinho fazendo maldades; O herói cometendo covardias inexprimíveis; Aquele que tem o dever de proteger abusando do protegido. O sacerdote cometendo sacrilégios. O pai que abusa da filha; O bombeiro induzindo o coma do acidentado pra tirar "o do café"; A merendeira botando água no leite das crianças e levando leite puro pra casa. O médico fraudando auditoria para incluir procedimentos desnecessários. A mãe comprando medicamento contrabandeado pra abortar um feto de 7 meses. Políticos "cristãos" orando em agradecimento pela "propina nossa de cada dia".

Aí vem o novinho policial cheio dos melhores ideais para limpar toda essa sujeira! "Meu Deus, me ajude!". Nasce policial, cresce no meio de todo esse lixo, tem a sua primeira grande decepção e morre, porque desistiu de lutar. Pensa que tudo o que faz é apenas "enxugar gelo". Não quer mais fazer operação de pegar aquele "mula" com 2 quilos de coca. Repete o mandra de que o "sistema é *&%#, parceiro". Se tomar esse caminho, das duas, uma: ou vai viver como um zumbi (já está morto, inútil, desistiu... mas ainda não sabe disso), ou vai partir para o lado negro da força. "Já que não posso vencê-los vou me juntar a eles", racionaliza. 

Um outro grande grupo, nasce, cresce no meio de todo esse lixo, tem a sua primeira grande decepção e, para não morrer, ergue o estandarte do ódio. Esse tipo tem tendência a partir para outro extremo. Arrota pérolas como "bandido bom é bandido morto"; "filho de bandido vai ser bandido também quando crescer"; "só a dor gera compreensão, confissão, cooperação", "direitos humanos são para humanos direitos" Esse indivíduo também racionaliza, justifica seus atos ilegais porque quer ser "o justiceiro", o "007 (Licença para matar!)" que vai salvar o mundo da praga do crime e em nome de Deus! Arre, égua! Das duas, uma, ou vai perder seu emprego, porque nenhum dos seus colegopatas vai te defender na Corregedoria ou vai ser condenado a "puxar cadeia", meu brother, porque você TAMBÉM virou um criminoso igual a eles...

"Tá louca, novinha, não quero nenhuma das alternativas anteriores...". Então ótimo: anota aí as dicas da Novinha:

  1. Meu caro policial, você, que mexe todo dia com a escória da sociedade, faz uma terapia psicológica, meu, porque eu já perdi muitos colegas "durões" para o suicídio. Precisamos entender melhor os nossos problemas primeiro, pra depois tentar resolver os dos outros. "Não tenho dinheiro pra pagar"..Então pede desconto, faz terapia na Associação, na Igreja, no confessionário, FAAAAAAALLLLLLAAAAAA com alguém da sua confiança. Mas pelo amor de Deus, peça ajuda, fiduaégua!
  2. Tenha mais contato com a arte, com a música, literatura, cinema, teatro, fotografia etc.. Arte é algo que nos diferencia dos animais, certo? A arte toca nossa alma de uma forma que outros meios e métodos racionais não chegam nem perto. Uma imagem um som, uma simples vírgula valem mais que mil comprimidos de fluoxetina. Por que vocês acham que eu escrevo esse blog?
  3. Converse com Deus, amigo, diz que tá doendo... com suas próprias palavras, com humildade, com-paixão, diga pra ele das suas dificuldades, seus medos e sentimentos. A oração te dá forças pra lutar, te dá uma visão além do alcance, numa outra perspectiva, menos egoísta, mais sincera, mais realista e ao mesmo tempo com mais fé, porque Deus é tão grande, gente , e nós, tão pequenos. Oração abre os nossos olhos, quando estamos cegos; faz a gente se mover, quando nos sentimos aleijados, paralíticos; faz a gente ouvir as verdades que e não queremos escutar.
  4. Tente ver as pessoas ao seu redor como seres humanos também. Não somos máquinas, somos humanos. Erramos todo dia, poxa! Eles também são pessoas que, como você, tomam decisões certas e erradas todos os dias. Temos nossos sentimentos de raiva, inconformismo, revolta... que muitas vezes nos fazem dizer ou fazer coisas que depois nos arrependemos de ter feito ou dito... as pessoas lá fora também são assim! Ok. Você tem toda razão, mas lembre-se, a regra é clara, mesmo no mais duro dos sistemas, você só pode apedrejar, matar, destruir alguém se você não tiver nenhum pecadinho...
Reflita, novinho, pois de que adianta você ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?!

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. Querida, por ser mulher, vão chamar você pra fazer busca em outras mulheres. Também vão colocar você naquela operação que tem criança envolvida. Sabe porque? Porque as pessoas entendem que você, sendo mulher, é mais humana ("mais sentimental", nas palavras deles)... Muitos acreditam que essa imagem da sensibilidade da mulher às vezes atrapalha. Mentira! Ajuda e muito. Você, com certeza, tem "entrada" onde homem não entra. Você entende de assuntos que eles não vão entender, nunca! Às vezes os colegas vão conversar com você sobre coisas que jamais conversariam com outros homens. Então, não deixe que a sua condição de mulher seja vista como uma fragilidade. Não é! A polícia precisa da mulher em seus quadros, e você precisa ter sempre consciência disso e se valorizar como ser humano e como profissional, combinado?

E pra fechar deixo o exemplo da professora Heley de Abreu Silva, que deu a sua vida para salvar as vítimas de um vigilante incendiário que ateou fogo em si e nas crianças do Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente. Mais de 30 pessoas ficaram feridas. "Familiares do segurança disseram, de acordo com a Polícia, que Santos planejava se matar 'Ele disse, na última terça-feira, que daria um presente a todos se matando em breve' informou o delegado. Segundo a investigação o segurança cometeu o crime na creche numa data simbólica para ele, quando a morte do pai completaria três anos". Para os cristãos, não existe amor maior do que este: dar a própria vida por seus amigos.

Então, é disso que eu tô falando.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Dica nº 6 - Seja Discreto.

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Policial precisa aprender a ver sem ser visto.

Após falarmos sobre os quatro pontos básicos que um jovem policial precisa para ter condições de sobreviver no mundo policial (preparo físico, mental, tático e profissional) passamos a falar sobre consequências do nosso próprio comportamento que boicotam um bom desenvolvimento na carreira e como evitá-los. Já dissemos na postagem anterior, que é preciso resistir às pedradas dos medíocres, agora, falaremos sobre a discrição, também como estratégia de auto-preservação. 

1º - Seja discreto nas redes sociais.

Primeiramente, desconecte-se! Gente, tá demais!!! Um colega meu, mandou um novinho sair da viatura, porque ele não tirava o olho do celular enquanto deveria estar prestando atenção no trabalho. Um delegado me chamou discretamente, pra mostrar uma colega que estava sentadinha, digitando mensagem no WhatsApp, enquanto deveria estar cuidando de uma situação. Um professor da Academia, amigo meu, foi duramente criticado pelos alunos policiais naquela avaliação que a gente faz do professor no final do curso, porque vivia no celular, enquanto deveria estar apoiando a instrução do outro professor, interagindo com os alunos...  Quantas fotos você já viu de guarnições inteiras de policiais olhando o celular ao mesmo tempo, em plena atividade e consequente vulnerabilidade? Lembra daquele vídeo que fizeram de agentes de trânsito de não sei onde, sendo filmados no celular dentro da viatura, ligada, com ar condicionado? Depois querem o respeito da população. Pra mim, não têm nem o respeito dos próprios colegas, pois é indelicado, deselegante mexer no celular enquanto alguém lhe dirige a palavra. Larga isso e preste atenção ao que se passa ao seu redor!

Segundo, rede social não é lugar pra discutir assuntos internos, muito menos fofoca. Fuja desse tipo de conversa. Já vi muito colega bom, ser tirado da operação, do curso, da nova equipe, ser movimentado de setor porque falou demais. Perderam boas oportunidade porque falaram demais. Um diretor de polícia no Afeganistão teve a cabeça cortada, porque falou o que não devia pra quem não tinha que ouvir. Será que você ainda tem dúvida de que TERCEIROS estão lendo o que você escreve? 

Terceiro, pelo amor da Mãe do Guarda, coloque fotos discretas em perfis de redes sociais. Nada de uniforme, eu disse nenhum tipo de uniforme, nenhum símbolo, nenhum armamento, nenhuma viatura, nenhuma foto com preso... (Pôxa, galera... foto com preso?! Isso é simplesmente inacreditável!). Não publique vídeos de operações, nem fotos de flagrantes em seu perfil, não divulgue na Rede que conseguiu vaga em curso, viagem, etc. Gente, trabalho muito com pessoas de outros órgãos e sofro bullying toda vez que algum colega de farda  meu publica essas postagens inapropriadas... Muitas são ridículas, mesmo e seus professores da academia, morrem de vergonha de você, brother. A sua mãe, namorada, seus amigos, eleitores podem até achar bacana, mas seus colegas pensarão duas vezes antes de te convidar para fazer parte da equipe. Lembre-se, bonitão, que Narciso morreu afogado porque era deslumbrado demais com a própria imagem.

2º - Evite a carteirada

Sun Tzu já dizia, "Sê extremamente sutil, discreto, até o ponto de não ter forma. Sê completamente misterioso, confidencial, até o ponto de ser silencioso. Desta maneira poderás dirigir o destino de teus adversários". Aí eu pergunto a você, seus vizinhos, o dono do bar, a professora do seu filho, o dentista, o vendedor de ingressos precisam mesmo saber onde você trabalha? Porque se a vagabundagem sabe que você anda armado, vão procurar uma ocasião pra pegar sua arma, vão até a sua casa em busca de armamento, munição e outros artigos policiais. Pensa comigo, na balada, no trânsito, no avião se você tiver uma discussão e não sabem que você é policial, nada pega... mas se souberem, já deu ruim, porque as chances de você responder por isso na corregedoria são grandes. E só o fato de "estar respondendo" já te impede de participar de muita coisa bacana. Saiba, criatura, que tem muito jornalista, muito amigo de jornalista, interessado num furo de reportagem, no celular que você "perde" na balada, no HD que você deixou dentro do quarto de hotel, quando saiu pra jantar. Aquela gata que tava te dando mole, pode estar interessada apenas nos detalhes daquela conversa que você teve com seus colegas no boteco. Outra coisa, "quem bate esquece, quem apanha, nunca esquece"! Sabe-se lá quem quer gravar um vídeo seu, no lugar errado, com a pessoa errada, pra depois usar isso contra você. Não é mesmo?

3º - Não fique falando de si mesmo pra quem não precisa ouvir. 

Dom bosco dizia: "Fale pouco de você e menos ainda dos outros". Tem muita gente insegura que se irrita só porque você está por perto. Sofri muito pra entender "o que foi que eu fiz pra essa pessoa me tratar assim", até aceitar que o talento, a juventude, a competência incomodam. Você não acredita até começar a levar patada das pessoas sem nenhum motivo aparente. Até sentir que alguém não vai com a sua cara de jeito nenhum, sem nada que o justifique. Não é minha culpa se a mais antiga me vê como concorrente, então o melhor é que ela não me veja, não saiba o que fiz de bom ou de ruim. Sim, porque para pessoas inseguras, qualquer "munição" que conseguirem será usada contra você. Mas, em vez disso, minha tendência vaidosa é escancarar a vida para qualquer um em busca de aprovação. Tem gente que vai se irritar porque você é feliz, enquanto ele escolheu o cargo errado, a mulher errada, a profissão errada. Só lamento... Portanto, não leve assuntos domésticos para o trabalho. Não brilhe mais que seu chefe e cuidado com quem você divide seus sonhos e projetos. Você não precisa contar pra todo mundo que almeja fazer aquele curso, que quer dar aulas, que quer participar dessa ou daquela operação, porque se cai no ouvido da pessoa errada, acabaram as suas chances! Você tá achando um exagero? Às vezes, amigo, há situações onde a perseguição é tanta, que é melhor dizer que você não tá afim de ir, aí você vai! Nelson Rodrigues concorda comigo quando diz: "Finge-te de idiota e terás o céu e a terra".


Reflitam com Ruy Barbosa, amigos, pois "há tantos burros mandando em homens de inteligência, que às vezes fico pensando que a burrice é uma ciência". "Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembleia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: "Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo uns trinta inimigos. O talento assusta". (Fonte: Migalhas

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. Flor, você é jovem, bonita, inteligente e solteira? tsic, tsic, tsic, tsic... Vai chegar numa delegacia onde já existem casais de colegas se relacionando?  Apenas saiba que antes mesmo de sua chegada já puxaram sua ficha em todas as redes sociais. Levantaram todo o seu histórico na academia. Aquela sua foto, sensualizando, vai estar em todos os grupos ZAP da delegacia. VAI! Se o seu objetivo é que, bem ou mal, falem de você, vá em frente, você está no lugar e no caminho certo, porque novinhos vão mentir, dizendo que já saíram com você na academia, ou que você saiu com este e/ou aquele outro aluno, professor, orientador de turma, diretor, deputado, ministro, secretário geral da ONU. Então, tome cuidado com o que você publica. Agora, se você realmente quer ver, sem ser vista, tipo Arya Stark, passou no concurso, ou está pensando em trabalhar num local mais peruado (disputado), ou quer aquela única vaga, etc. desapareça de TODAS as redes sociais possíveis pelos próximos cinco anos e coloque a foto de um objeto neutro no seu WhatsApp. "Mas Novinha...", Não tem "mas", é o melhor que você tem a fazer.  Você já é um alvo e absolutamente tudo o que fizer nas redes sociais, SERÁ usado contra você, então, é uma questão de sobrevivência.

Para fechar, deixo com vocês o exemplo de Mary, uma escrava negra que trabalhava na Casa Branca dos Confederados e era a melhor fonte de Elisabeth "Bet" Van Lew, uma conhecida abolicionista que se tornou mundialmente famosa por conduzir uma operação de espionagem durante a Guerra Civil americana. Mary possuía memória fotográfica e posava como uma empregada lerda e boba para se infiltrar na casa de Jefferson Davis. Com uma empregada incapaz de ler e escrever, papéis importantes eram deixados expostos para Mary, que os lia, memorizava e depois repassava as informações para Bet. Quando começaram a suspeitar de suas ações ela fugiu. Mary viveu para ver o fim da guerra e para escrever sobre sua história (Fonte: Mahama).

Aí, é disso que eu tô falando.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Dica nº 4 - Faça bem feito.

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"A qualquer hora, em qualquer lugar, para qualquer missão"
- Lema do COT -

Se você já entendeu que é prioritário cuidar de seu bem-estar físico e mental e que você precisa levar sempre muito a sério a sua segurança, acho que agora podemos pensar em fazer um  bom trabalho profissional.

Qualquer um sabe que não tá fácil ser polícia nesse sistema deteriorado em que vivemos no Brasil. Portanto, se você quiser "desculpas" pra não trabalhar eu poderia te apresentar várias, amigo. Só tem um porém, não vale reclamar depois da falta de oportunidades, tá?

Na sua formatura, você jurou que cumpriria suas funções com probidade e denodo, isso se aplica àquelas situações em que ninguém está olhando, certo? Mas alguém pode estar te observando, viu, para o bem ou para o mal. É meio chato ficar usando exemplos pessoais num texto como esse, mas prometi que as "dicas" seriam baseadas em fatos reais... Então desculpem se soa pedante demais, mas já disse anteriormente que estou muito satisfeita em estar trabalhando nesta Unidade em que estou lotada atualmente, mas não foi me escondendo das operações que eu consegui um convite pra vir pra cá, foi porque me viram trabalhando duro e chefiando a operação mais importante da minha vida, até então. E pra ser escolhida como chefe naquela "missão mais importante da minha vida", foi preciso mostrar serviço em muitas outras missões para as quais ninguém queria ir. Assim, se você não é desses que apenas aguardam atrás da moita a chegada da aposentadoria, preste atenção nas dicas da Tia Novinha.

Primeiro: seja voluntário.

Quando entra na polícia, a grande maioria das pessoas não sabe ainda qual é o seu lugar. Outra parte, acha que sabe, mas mudará de opinião à medida em que vai conhecendo diferentes atividades policiais. Portanto, experimente missões em todas as oportunidades possíveis, principalmente naquelas operações para as quais ninguém quer ir. Não desperdice essas chances de descobrir onde você se enquadra melhor. Onde suas habilidades pessoais são mais úteis, mais valorizadas. Além disso, é trabalhando que você vai aprender a lidar com o risco, a ter controle emocional e a manter o foco para resolver problemas. Também é na prática que você vai aprender a ajustar bem e a calibrar o peso do equipamento e da responsabilidade que consegue levar em cada tipo de operação. Vai aprender que é preciso livrar-se do que é desnecessário. Então, aproveite! Claro que vai ser dureza, mas é no calor do nervosismo e da tensão que você vai ser forjado. A espada só é aperfeiçoada após sofrer muitas marretadas. E dói muito!

Segundo: disciplina na veia. 

Ser disciplinado exige insistência, porque não é de um dia para o outro que uma prática se torna um hábito. Faça o procedimento da forma correta, mesmo que todos estejam fazendo errado, sabemos que no trabalho policial, pessoas podem perder a vida se você descumprir uma simples regra de segurança, inclusive no trânsito, então se esforce para trabalhar sempre "no padrão". Insista nas repetições, até fazer com que os procedimentos corretos entrem na "massa do sangue", na memória muscular, e sejam cumpridos de forma quase automática!  Seja organizado com as suas anotações. Memorize informações importantes! Encontre seus equipamentos até de olhos fechados! Procure respeitar a doutrina! Admito que sou meio obcecada por doutrina, porque doutrina é um conjunto de princípios que já foram testados, comprovados, utilizados por vários grupos policiais em diferentes partes do globo terrestre, amigos. É sabedoria adquirida na experiência e nos erros dos outros! Então respeite a doutrina adotada na sua Unidade.  

Terceiro: obedeça a hierarquia. 

Poucas pessoas hoje em dia querem liderar na atividade policial, porque é difícil. Cada colega tem sua opinião e muitas vezes as pessoas criticam sem dó as coordenadas dadas pelo chefe seja ele agente, escrivão, delegado ou administrativo. Das vezes em que chefiei operações, senti como o ser humano é egoísta e como é solitário liderar. Muitas vezes não dá tempo de ficar justificando para cada colega, porque vamos fazer assim ou assado. E muitas vezes vão questionar mesmo depois de todas as explicações já terem sido dadas. Então, procure colaborar com a chefia. É muito desagradável ver um colega questionando sem motivo, só pra testar o chefe, pra irritá-lo, colocá-lo em situação difícil perante os colegas. Claro que dar sugestões, questionar é saudável, lúcido e lícito, mas tem que ter bom senso. Demonstre profissionalismo, lealdade.  Faça o seu melhor! Dê sinais de que você quer muito que a operação dê resultados positivos e que você está comprometido em não deixar que nada de errado aconteça!

Quarto: pense no seu parceiro.

Por mais cansado que você esteja, pense em quem ainda não está liberado para ir pra casa descansar. Se possível, ajude o colega a terminar o serviço dele, também, pra fecharem juntos a missão. Ele também tem família em casa esperando o seu retorno. Vá com ele entregar os equipamentos e viaturas acautelados. Ajude o escrivão na contagem e organização do material apreendido. Quando todo mundo já estiver louco pra terminar, pergunte ao chefe se ele precisa de mais alguma coisa. Seja o primeiro a chegar e o último a sair. Saia do WhatsApp e vá render o colega que ainda não foi almoçar. Ofereça-se para dirigir um pouco em longos deslocamentos. Vai buscar café? Pergunte ao grupo se alguém precisa que você traga alguma coisa.

E reflitam, pois, pra você, hoje, aqui, tudo isso pode não ser nada demais, mas pra quem está há horas em pé, com fome, cansado, com sono... é esse tipo de atitude que marca pra sempre nossa memória afetiva.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. Amiga, se não tá fácil para os novinhos (homens) que chegam ávidos por um lugar ao sol, pra você, que é mulher, vai ser duas, três vezes mais difícil a depender dos acessórios (filho pequeno, beleza física, marido ciumento etc.). É muito comum as pessoas partirem do princípio de que você não vai dar conta! Então, prepare-se pra ter de provar isso uma, duas, três vezes até que eles se convençam, e se mudar de equipe vai começar tudo do zero novamente! Além disso, saiba que se um colega do sexo masculino errar, vão dizer que "tudo bem", que "isso acontece", mas se você errar, as más línguas vão dizer que é porque você é mulher, e que mulher não nasceu pra esse tipo de atividade. Desse jeito, amiga! E mesmo se você fez tudo certinho e se deu bem, vão achar algum defeito ou algum motivo pra desmerecer sua vitória. Já disseram que eu "consegui" uma boa viagem, porque tava tendo um caso com o chefe. Já disseram que eu só recebia convite pra fazer curso fora por causa das minhas pernas... "Mas, Novinha, por que isso é assim?" Eu. Não. Sei. Outra coisa: desculpem entrar nesse assunto polêmico mas, se você quer mesmo ser levada a sério no mundo policial não se apoie em muletas de gênero. "Que isso, Novinha?" São aquelas artimanhas, do tipo chantagem emocional, para garantir um tratamento especial (tipo aliviar a sua carga, sua escala, etc.) na distribuição do serviço porque você é mulher. Olha aqui pra mim: esse tipo de estratégia é o campeão número 1 em arrecadar a antipatia da equipe e se isso acontecer, amiga. Já era! Espere a próxima lotação, porque eles não perdoam, mesmo.

Pra fechar, deixo com vocês o exemplo da Coronel Cynthiane da PMDF, primeira mulher a comandar uma tropa de elite, nada mais, nada menos que o Batalhão de Choque do Distrito Federal. Ela raspou o cabelo e ficou cinco meses na mata com um grupo de alunos do curso de operações especiais do BOPE. Casada com um policial civil, tinha um filho de 3 anos que se assustou quando a viu chegar em casa careca. Cynthiane garante que não houve qualquer regalia ou diferencial durante o curso em relação aos demais colegas. Leia o que ela tem a dizer:

"Quando me formei como PM, os tempos eram outros. As mulheres trabalhavam em grupos separados dos homens. Depois que fiz curso de pós-graduação, assumi a responsabilidade por áreas de ensino da polícia. Resolvi conhecer um dos vários cursos realizados no Bope e o primeiro que fiz foi para me especializar na segurança de autoridades. Eu estava em ótima forma física e o comandante do Bope me convidou para ficar. Não tinha ideia do que me esperava. Acho que foi muito mais difícil para eles, homens, entenderem que eu estava passando por todas as etapas e conseguindo ir adiante, do que para mim. (...) Ainda há preconceito. Ouço comentários de que não acreditam que eu concluí o curso, que não sou capaz. Mas os homens me respeitam, nunca tive caso de insubordinação. Ainda quero mais. Todo mundo sabe que meu sonho é comandar o BOPE (...) A minha chegada ao comando mostra que uma mulher pode qualquer coisa, basta querer, ter preparo psicológico e persistência".

Aí... é disso que eu tô falando!

sábado, 13 de janeiro de 2018

Dica nº 3 - Cultive uma mentalidade de sobrevivência.

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Policial precisa voltar vivo pra casa.

Já falamos sobre a necessidade de estar bem fisicamente e a importância de buscar o conhecimento. Agora chegou a vez de falar sobre a arte da guerra. Entenda que se realmente você leva sua profissão a sério, algumas coisas vão mudar naturalmente: suas prioridades, suas amizades, a forma como você gasta seu tempo livre. Você vai passar a ter um estilo de vida mais... tático. Para aprender a viver bem com essa nova identidade, é imprescindível que você cultive uma mentalidade de sobrevivência. 

Em primeiro lugar, treine

Não recomendo a ninguém o sentimento de que falhou ao enfrentar uma situação de risco. A perda dos valores envolvidos (vida, dignidade, integridade física, etc.) jamais será comparável ao que você deve investir em treinamento.  Aproveite bem cada oportunidade de treinamento que a Instituição te oferece e tente extrair o máximo de cada curso, de cada disparo no estande de tiro, faça anotações sobre o seu desempenho, veja o que você precisa fazer pra melhorar. Registre o seu desempenho! Mas não se limite a isso. Treine tiro sozinho em local seguro, tente aplicar o que aprendeu no treinamento. Se não tiver munição, treine sem munição. Como? Treine sacar e enquadrar o alvo o mais rápido possível. Treine fazer isso sentado, deitado, em baixa luminosidade, dentro do carro parado, dentro do carro em movimento (em local seguro, fazfavô!). Treine fazer isso cansado, após uma corrida, protegendo-se atrás de um abrigo. Treine trocar rapidamente o carregador da arma. Treine atirar com uma mão só. Trocar o carregador com uma mão só. Enfim, treine em condições bem próximas à realidade de um confronto armado onde tiro vai e tiro pode vir também. No confronto real você precisa sacar rápido e enquadrar o alvo da forma mais rápida possível. Segundos  e milímetros podem valer a sua vida. Então, treine!

Treine defesa pessoal policial, mas treine com objetivos concretos. Treine técnicas para neutralizar seu oponente. Treine o que fazer quando estiver com uma arma apontada para a sua cabeça. Treine como cair e não se machucar, treine como se levantar rápido da queda. Treine como se livrar de um estrangulamento, de um ataque com faca, de uma paulada, de um murro na cara, um chute no abdome. Treine táticas para se livrar de um estupro com um homem de 100 quilos em cima de você. Treine como atacar os pontos fracos do inimigo. Na hora "H" você vai reagir como treinou, se não treinou... vai fazer o que, né?

Treine como sobreviver em meio a adversidades. Treine flutuação em meio líquido usando calça jeans, boot e equipamentos. Treine a técnica correta para saltar um muro ou para saltar a uma altura de 10 metros n'água. Treine como descer ou subir de rapel. Treina vários tipos de nós e quando usar cada um deles. Treine como sair de um porta-malas de carro. Treine táticas para sobreviver a um incêndio. Treine como sobreviver no meio do mato, aí na sua região (na selva, na caatinga, na ilha, na montanha, no mar). Treine vários tipos de nós. Treine a arte de detectar mentiras.

Segundo, esteja sempre pronto pra responder a uma agressão. 

Para isso, crie o hábito de deixar sua arma sempre pronta para um saque rápido. Salve e deixe números de telefones de emergência ao alcance rápido. Deixe kits de primeiros socorros sempre à mão. Utilize equipamentos de proteção adequados. Invista em equipamentos úteis como um canivete suíço, um bastão retrátil, uma boa lanterna tática, armas backup, torniquete, óculos de sol de qualidade e aprenda a cuidar deles e a utilizá-los da forma correta. Esteja preparado! Não tem preço quando o colega tá tentando resolver um problema com uma tesourinha escolar, e alguém diz. "Novinha, vem cá, traz seu canivete suíço aí, por favor".

Terceiro, aprenda a detectar de onde vem o perigo. 

Para poder  sacar mais rápido e reagir, você precisa estar atento ao que acontece ao seu redor.  Não precisa ficar "full time a ponto de bala", mas precisa aprender a julgar vulnerabilidades e portar-se de acordo. Precisa detectar ameaças naquele cenário. O que tá errado, ou não tá combinando com o ambiente e então se antecipar. Não pode esperar a agressão ser anunciada para então poder agir. Precisa aprender a sentir se está sendo seguido. Aprender a estacionar o carro numa posição e local mais seguros e avaliar o cenário quando for embarcar de novo. Quando tiver que parar num semáforo, observe quem se aproxima e mantenha-se sempre em condição de reagir, porque ninguém surge na sua frente "do nada". Ou seja, em algum momento você se distraiu e "comeu mosca". Ficou falando ao celular na hora errada, ficou teclando no WhatsApp na hora errada, bebeu (bebida alcoólica) na hora ou da forma errada, etc.

Resumindo. Dediquem-se arduamente a atividades de sobrevivência, porque agora você é policial. A quem muito é dado, muito será cobrado! Então aja e viva com responsabilidade, de forma coerente com a carreira que você abraçou! Um policial é caro demais pra morrer em situações tão bestas.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. No início vai ser uma grande confusão na sua cabeça, porque o curso de formação é todinho feito para homens. No tatame, você vai treinar "defesa do genital" como se fosse homem... A grande maioria dos equipamentos são feitos para homens. Vai na loja e tenta achar um boot 36, por exemplo. Procure um terno feminino que esconda apropriadamente a sua arma... Olha... pouquíssimos cursos terão professoras mulheres e dispostas a te dar aquele toque sobre "como continuar sendo mulher após entrar para a polícia". Então, o jeito é experimentar tudo e ver como fica em você. Hoje, eu amo o Fuzil Colt, parece que foi feito pra mim, porque é uma arma leve e eu consigo bancar o tempo que for preciso. Já adotei a munição que me deixa mais confiante. Já achei ótimos terninhos, sapatos sociais e coldres especiais, com os quais consigo manter a elegância sem quebrar nenhum protocolo de segurança. E descobri o Shemag que revolucionou a moda operacional. É um lenço tático que alguns usam pra proteger o rosto, eu uso pra proteger o pescoço do sol. Amoooo! Mas pra chegar até aqui confesso que comprei tanto coldre, calças e outros acessórios que dá pra encher uma mala. Não é fácil se adaptar. Outra coisa bacana que aprendi, depois de muita humilhação nos tatames da vida, é que treinar joelhadas e cotoveladas em pontos estratégicos é o que há, amiga, porque funcionam muito bem, mesmo se você não tiver tanta força. Entendeu? Porque na pior das hipóteses você ganha tempo pra sacar sua arma ou para simplesmente sair correndo. 

Pra fechar, inspirem-se na mensagem dessa nordestina sertaneja que tornou-se medalhista de bronze no Pentatlo em Londres. O que é Pentatlo?

"Diz a lenda que, durante uma guerra na Europa, um soldado recebeu uma missão: entregar uma mensagem cruzando os campos de batalha. O soldado pegou um cavalo que não conhecia e saiu. Para atravessar as linhas de frente teve que combater usando o revólver e a espada. Mas, no meio do caminho, um problema sério tornou a missão ainda mais difícil. O cavalo se feriu e o soldado teve que completar o percurso a pé, atravessando lagos e rios. Surgiu assim o pentatlo moderno. Cavalgar, correr, nadar, atirar, e enfrentar adversários com a espada. No sertão nordestino, surgiu uma brasileira capaz de fazer tudo isso Yane Marques!"

"Correr, nadar, atirar, usar cavalo e espada
Para uma autêntica sertaneja isso tudo não é nada.
Pois sertaneja é assim: faz de tudo e nada erra
E ainda não abre mão de exaltar a sua terra.
Em afogados da Ingazeira, onde o sol mais forte brilha
Brilha o brilho de Yane, sua mais brilhante filha".

(Trechos copiados do site Do Pernambuco)

Aí, é disso que eu tô falando!

sábado, 6 de janeiro de 2018

Dica número 2 - Mens sana in corpore sano.

Policial precisa investir em conhecimento.


Após discutirmos sobre a importância de um "corpore sano", precisamos investir também numa "mens sana" e fechar esse combo. Afinal, não queremos que os coleguinhas pensem que você é apenas um corpinho bonito, não é mesmo?

Sério que você achou que não precisaria mais estudar na vida, após aprovado no concurso? Sabia que algumas polícias exigem que seus policiais façam cursos inclusive para promoção na carreira? É... Quase uma tortura aquele de "suprimento de fundos", verdade, mas não é disso que estou falando.

Quando você realmente entrar para a polícia (lembrando que "tornar-se policial" é uma coisa, tornar-se um servidor público, é outra bem diferente), você vai sofrer um bombardeio de novas ideias e concepções. Para que esse processo de mudanças seja saudável, titia recomenda que você faça ótimos cursos, leia bons livros, investigue "por que isso é assim?", questione as idéias dos professores (depois do CFP, pode!). Estude. Eventualmente, você vai precisar defender seus pontos de vista perante outros colegas policiais, colaboradores, servidores de outros órgãos, cidadãos, autoridades. Esteja preparado. Pare de fazer as coisas no automático, andando no fluxo da multidão e pense. Conheça a legislação afeta ao seu trabalho. Considere suas vulnerabilidades. Confronte suas práticas. Clique nas abas ocultas. E se você discorda, sei lá eu de quê, tá tudo certo, mas discorda por que? Você realmente sabe onde estão fundamentados os teus parâmetros de certo e errado? Espero que não seja nas listas de dicas dos blogs da Internet! Você precisa avaliar constantemente as premissas que te levaram a adotar estes padrões e, então, tirar suas próprias conclusões, porque, se não fizer isso, você vai virar um mero papagaio repetidor das frases idiotas que se ouve por aí.

É bem provável que você passe no mínimo uns cinco anos na sua primeira lotação, concorda? Você pode passar todos esses anos jogando World of Warcraft nas horas vagas, pra que o tempo passe logo, ou talvez possa construir algo mais inteligente e sólido pra levar contigo dessa experiência. Conheça a região onde você trabalha e explore o que essa vivência tem a te oferecer. E então, trace clara e objetivamente seus percursos de curto, médio e longo prazos, porque existe vida após o estágio probatório! Já pensou que talvez este seja o momento mais que oportuno para aprender um novo idioma, uma nova cultura! Tente ver as coisas de um modo diferente.

Já pensou que em cinco anos, você pode fazer outra graduação, um mestrado, um doutorado.  Sabia que tem novinho fazendo pós-graduação na Academia? Sabia que tem novinho publicando pesquisas científicas baseadas em dados do trabalho policial? Sabia que enquanto você reclama da distância, do descaso, da diferença, tem gente fazendo excelentes cursos policiais (e novos amigos!) que só são oferecidos aí na sua região? Sabia que grupos de operações especiais estrangeiros vêm fazer cursos no Brasil para dominar artes e técnicas que o PM da sua região aprendeu na infância?

Reflitam, porque na pior das hipóteses você vai se tornar uma pessoa muito mais interessante.

Para as meninas, é claro que tenho um bizu especial. Não é por acaso, amiga, que o curso de formação é de quase um semestre em regime semi-aberto, longe do seu habitat natural. "Mais alguém aí foi crucificada pela sociedade por se ausentar do ninho tanto tempo?" Então... sugiro que você avalie bem as oportunidades de crescimento que a polícia pode te oferecer, e selecione aquelas que realmente merecem sua atenção e o preço que está disposta a pagar por isso. Daí, converse com seu namorado ou marido (na verdade deveríamos ter feito isso antes mesmo de começar a estudar para o concurso, não é mesmo?). E decidam juntos como vai ser isso de viajar a serviço, trabalhar até tarde ou em regime de plantão, fazer cursos fora, continuar estudando, enfim... organize essa parte antes, ajuste esses ponteiros com antecedência, pra evitar muito estresse, crises e confusões desnecessárias quando as oportunidades profissionais baterem na sua porta. E vão bater! Caso você tenha filho pequeno, amiga, é imprescindível que vocês montem um "staff" de confiança pra dar apoio quando você precisar. Super invista nisso, pois mãezinhas policiais precisam ter Plano Alfa, Plano Bravo, Plano Charlie... sempre! Levem em consideração tudo isso antes de montar sua estratégia de escolha de lotação e divirta-se! Não estou dizendo de jeito nenhum que você precisa abrir mão disso ou daquilo, meu ponto é apenas sugerir que você decida conscientemente e conviva bem com suas decisões. Porque, sério, ser mulher na polícia é buscar constantemente um tal de equilíbrio entre a culpa por ter saído e o arrependimento por ter ficado.

Pra fechar, leia e deixe-se inspirar por este trechinho do relato de vida da PhD brasileira, negra, filha de uma empregada doméstica e de um profissional de curtume, a qual, após vários episódios de superação, conquistou um convite para fazer o seu pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos EUA, e mesmo com todo o preconceito ja´conquistou 56 prêmios na carreira.

"...minha mãe me levava com ela para o trabalho. Ela aproveitou que tinham jornais na casa da patroa e me ensinou a ler para eu ficar mais quieta. Tinha quatro anos e ficava o dia todo lendo. (...) um dia, a diretora da escola Sesi foi visitar a dona da casa e perguntou se eu estava vendo as fotos do jornal. Respondi que estava lendo. Ela se surpreendeu, me pediu para ler um pedaço e eu li perfeitamente. Coincidentemente, era começo de fevereiro e ela sugeriu, que eu fosse uns dias na escola. Se eu conseguisse acompanhar, a vaga seria minha. Deu certo e com 14 anos eu já terminava o ensino médio. (...) As armas mais poderosas que temos para vencer na vida são a educação e o estudo". 

Aplaudo de pé a sua história de vida, Doutora Joana D'Arc. Olha bem o nome da guerreira!!! E parabéns, também, para a incrível sabedoria iluminada da sua mãezinha que soube aproveitar os jornais da casa da patroa para te ensinar a ler. Uma belíssima e inspiradora parceria entre mãe e filha.

Aí... é disso que eu tô falando!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Dica número 1 - Aos barrigudinhos.

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Policial precisa estar bem fisicamente

Como vocês já devem saber, de norte a sul, de leste ao velho oeste, as boas oportunidades na polícia normalmente vão para os "antigões" (princípio da paleontocracia) ou para os "amigos da corte" (instituto do amicus curiae). Apenas excepcionalmente, é que uma chance boa dessas bate à porta de um "novinho", não é verdade? É aí que você precisa estar preparado.

A primeira dica que me vem à cabeça quando penso no Novinho Policial é essa: considere o seu potencial físico. Seu corpo é o seu principal objeto de trabalho. Você acha bom sair para uma operação com munição fraca? Com dúvidas sobre a manutenção do seu armamento ou sobre o perfeito funcionamento de uma viatura? Então, cabeça.

Muitos bons policiais perdem grandes oportunidades por estarem fora de forma, mesmo quem acabou de sair da Academia! Desculpas e dificuldades são muitas: seja porque ainda não encontraram um bom local pra treinar na nova lotação; seja porque o trabalho é muito exigente e não sobra tempo ou estão muito cansados pra treinar; ou simplesmente, porque estão desanimados, deprimidos, decepcionados. Então... é neste momento, quando você menos espera, que aquele colega te liga dizendo que surgiu um curso, mas que é preciso "flutuar sei lá quanto tempo em meio aquático", ou que teria que "correr mais de 2.000 metros em 12 minutos". É aí que se não estiver preparado, você vai declinar do convite com alguma desculpa qualquer, não é mesmo? Muita gente quer vir para o meu setor, mas poucos querem treinar... é pra esses poucos que eu passo bizu.

Acho muito importante frisar que a atividade física também melhora tua saúde mental e psicológica. Previne, por exemplo, a depressão, sabia não??? Quem já passou no concurso conhece o preço pago em "perseguir um sonho" por meio das longas horas em estudos e treinos, certo? Não é difícil encontrar relatos de concurseiros que perderam namoros e amizades, baladas e botecos, casamentos e funerais porque aquela prova insana estava chegando. O custo do estilo "Vida Social 0 X 10 Edital", deixa suas marcas. Quando passa no concurso, finalmente você vai para a Academia de Polícia, que alegria! E aí vai passar mais alguns meses isolado do mundo sendo gerado no útero daquela... daquela Madrasta-Megera-Malvada (pronto, falei!), ouvindo-a dizer, tácita ou explicitamente, que você "Nunca será". E quando, então, você prova para ela que você é capaz, sim... eles te mandam pra longe de casa, do namoradinho, do conforto de morar no seu apartamento, da casa da mamãe, da convivência cotidiana com os seus amigos, dos colegas no trabalho anterior, dos melhores parceiros da Academia... Mimimimimi! Engole esse choro, meu bem... porque agora você vai começar uma nova vida lá onde o vento faz a curva, onde o clima é estranho, os costumes são diferentes, o ambiente social e os desafios são completamente novos pra você.

Nesta altura me vem a pergunta: "Será que ainda tem alguém lendo este post motivacional?".

Tenho um histórico respeitável de depressão na minha família. Queria compartilhar isso. Obrigada. Mas, até o momento, graças a Deus, essa desgraça nunca me pegou. Pra mim, a atividade física é, além de uma amiga do peito, um forte antidepressivo preventivo. Se este problema estiver rondado o seu caminho, saiba que depois de Jesus Cristo, nosso Senhor, é aquele seu tênis de corrida que vai se apresentar como um dos seus amigos mais chegados. Esse é o cara que nunca vai largar do seu pé! Que sempre vai ter tempo pra você. E o seu quimono. Este será seu melhor parceiro de lutas! Jamais vai te deixar na mão quando você estiver sem fôlego no combate. É ele que vai estar ali te dando forças, te abraçando, enquanto você se recompõe perante o adversário.

E haja coração, queridos novinhos, pois ter um ataque cardíaco ao fazer uma abordagem ou durante uma perseguição policial é literalmente o fim da picada... Nunca se sabe quando você vai ter que pular o "muro do desespero", ou sustentar seu peso agarrando-se ao esqui de pouso de um helicóptero, ou ainda subir numa embarcação estando dentro d'água com equipamento, botas e tudo o mais. Espero sinceramente que você consiga, porque, caso contrário, na melhor das hipóteses, você vai virar a piada do ano na delegacia. Se cair nas redes sociais, então, misericórdia!

Para as meninas, é claro que tenho um bizu especial. Noto que vários colegas meus gostam de ressaltar o fato de sempre me verem treinando uma coisinha aqui, outra ali. Eles acham que isso demonstra seriedade ou coisa do gênero. Outros comentam admirados o fato de terem me visto correndo outro dia láááááá na ponte. Acham que isso demonstra comprometimento. Saiba que em matéria de treinamento físico, mulher já chama a atenção logo e muito facilmente... para o bem ou para o mal, amiga. Cansei de ver cofrinho masculino, elástico de cueca, etc... e ninguém fala nada. Agora vai você para qualquer treinamento com roupa inadequada pra ver... Por outro lado, você também será notada pelo simples fato de chegar mais cedo pra alongar ou aquecer direitinho, entendeu? Se entrar um pouco além do horário, treinando repetições, é certo que vão comentar. "Por que, hein?" Não sei, gente, tenho tantas questões quanto vocês. Mas in-fe-liz-men-te dizem que é raro ver esse tipo de comportamento no segmento feminino... bem... E pra quem não é do meio, aviso que fazer corpo mole pode até funcionar para outros fins, se é que me entendes, mas se você quer ser reconhecida como uma boa profissional da área policial, não mete essa, ever

Pra fechar, deixo com vocês as palavras de uma atleta olímpica militar da gloriosa Marinha Brasileira, medalha de bronze no Pan-Americano de Toronto em 2015 que quando questionada sobre a polêmica da continência no pódio, nos Jogos Olímpicos Pan-Americanos simplesmente respondeu:

"...Se não fosse a Marinha, eu não estaria onde estou hoje. Portanto, sem dúvidas e com toda honra, eu prestaria continência para o Hino Brasileiro no pódio.” Fernanda Decnop

Eu acho que o inverso também é plenamente verdadeiro, né Fernanda, minhas respeitosas continências a você, porque se não fosse VOCÊ, a Marinha e o Brasil não estariam brilhando daquela forma no pódio, não é mesmo?

Aí... é disso que eu tô falando.


sábado, 9 de dezembro de 2017

Vou dar dez!

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Considerando que em minha primeira lotação sofri bullying de colegas mais antigos e pastei muito tempo vagando no submundo policial atééé encontrar um antigão decente que pudesse me ajudar a encontrar o caminho das pedras na polícia;

Considerando que já passei por vários setores com chefes, colegas, missões and... diferentes tipos de "cascas de banana" aqui na Polícia, contabilizando um planeta de aventuras e desventuras com as quais você também pode aprender;

Considerando que nesta nova lotação após um "período teste" de bons serviços prestados, meu chefe me convidou pra assumir uma "função diferenciada", que eu nem sabia que era diferenciada, mas enfim;

Considerando que esse é o mês de aniversário do Blog Mulher na Polícia e que estou devendo aquele post de comemoração do ano passado que passou batido, né?!

Considerando que estou feliz para caramba e que ninguém sabe o dia de amanhã... logo, é prudente aproveitar este bom momento...

Vou fazer dez posts para dar dez dicas, sendo todas elas...

 ~&~ BASEADAS EM FATOS REAIS ~&~ 

...sobre como sobreviver e quem sabe até achar o caminho das pedras na sua primeira lotação. Combinado!?

domingo, 29 de outubro de 2017

Antes.

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Sabe que o problema não é a operação em si? O pior é o antes. São os dias que a antecedem. São as suas perguntas sem resposta. É a noite mal dormida. É a expectativa. É o alvo embaçado. É a infinidade de coisas que podem acontecer num local que você não reconheceu. É o ensaio mental sobre o que não foi "brifado".  É o medo. É a dúvida. É não saber em quem se deve confiar ou não. É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A primeira lotação a gente nunca esquece.

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Então você ainda é aspirante a um cargo nas fileiras policiais e já está providenciando inquietações com a sua primeira lotação? Normal. Aí vão algumas noções preliminares pra você sobreviver às primeiras desilusões do lado de cá.

Antes de mais nada, acho charmoso quem se sente completamente à vontade com a escolha do cargo. Existem atividades típicas de escrivão, papi, perito etc. que estarão na pauta por toda a sua carreira. Logo, tenho muita pena de quem não tem a menor vontade de tocar inquéritos policiais e escolhe trabalhar como delegado ou escrivão, ou de quem é louco com armas e faz prova pra agente administrativo. Mas uma coisa é certa: cada cargo tem seu ônus e seu bônus, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Uma escolha consciente do cargo já vai eliminar boa dose de frustração desde o início. 

O cargo onde a gama de atividades possíveis é maior, sem sombra de dúvida ou empáfia, é o de agente de polícia. Na prática, agentes podem ser lotados em qualquer setor da polícia, do plantão à corregedoria; Do setor de pessoal ao IML; Podem assumir tanto funções mais intelectuais, como aquelas mais operacionais e até administrativas. Têm chance de ter de lidar com o público externo; de trabalhar em grupo ou de cumprir expediente fechado numa salinha. Penso que o maior contingente na minha polícia é formado por ocupantes deste cargo. Assim, pelo menos teoricamente, é este profissional que tem mais liberdade ou flexibilidade de locomoção sem comprometer o efetivo local. Até pra conseguir uma permuta é mais fácil... agora, se só tem um papiloscopista na sua delegacia, normalmente o chefe só vai liberá-lo quando chegar outro pra ocupar o lugar dele. Note, porém, que uns 85% (ou mais, não sei) dos heróis mortos em combate foram policiais ocupantes do cargo de agente.

Claro que qualquer pessoa minimamente sensata entende que pra tudo isso existem cínicas exceções. Então vamos falar das exceções! Por exemplo, o critério técnico às vezes ajuda. Qualquer policial com habilitação para pilotar aeronave, terá boas chances de um dia ser recrutado pra trabalhar na atividade de operações aéreas, não é mesmo? Não tem nada de vil nisso, porque é um policial em 1.000 (10.000, sei lá eu) que já chega na polícia com essa habilidade. E a polícia precisa de pilotos de aeronave! Então, mesmo que ironicamente esse cara tenha sido primeiramente lotado na caixa prego do velho oeste ele tem chances de ser movimentado para este setor específico. Mas presta atenção! Eu disse "chance"... Não estou dizendo que se o cara tem brevê de piloto, certeza que ele vai pilotar aeronave policial... Sei, por exemplo, de inúmeros casos de colegas muito competentes que perderam oportunidades interessantes, simplesmente porque fizeram uma declaração pública infeliz sobre uma licitação mal feita, sobre seus planos de carreira ou sobre o cabelo do Diretor da Polícia. Diagnóstico: "queimado!". Outros não falaram nem fizeram nada, mas deram com a cara na porta por uma simples mudança da política interna do setor. Diagnóstico: "azarado!".

Desmistificando melhor o tema, dos agentes novinhos que chegaram na primeira lotação junto comigo, parece que o primeiro critério para determinação de lotação dentro da delegacia foi a capacidade técnica. Quem declarou habilidades administrativas (licitação, contratos, jornalismo, RH, TI, etc), assumiu funções ligadas a tais áreas. Os demais foram pulverizados nos setores mais carentes de pessoal.

Pelo que observei, as lotações internas mais traumáticas foram a de um colega muito bacana que tinha experiência em tribunal, olhinhos azuis, todo mauricinho que foi designado a cuidar do transporte. Alguém aí faz concurso pra polícia sonhando em cuidar das viaturas? Ficou visivelmente desapontado, mas foi. Ficou nesse setor por uns dois másculos anos e depois conseguiu um lugar pra chamar de seu. Teve também uma colega especializada, que foi para o RH super voluntariamente, feliz e realizada, mas ao assumir a função, bateu de frente com uma agente administrativa, antiga chefe do setor e quase se pegaram. Dava pra ouvir o choro nervoso dela na sala do chefe. Mas todos sobrevivemos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Adaptações.

Mulher-Usando-Coturno

Pela primeira vez na vida, notei que minhas pernas estão, de fato, muito bem definidas, embora eu nem tenha feito muita força pra isso. Apesar dos risinhos dos colegas quando acuso essa minha condição estranha, não era pra menos... porque foi esse o jeito que encontrei de me enturmar com os meninos nesse novo local de trabalho - fazer atividade física com eles - judô, jiu jitsu, corridinha e malhação. A propósito, não quero causar nenhum mal-estar nos demais setores da polícia, mas aqui a gente tem essa graça de, com muita classe e elegância, malhar no horário de expediente. Sim, é parte da programação, inclusive.  

Quero apenas que morram de inveja, pois a grande maioria dos colegas que chegou junto comigo ficou lotada numa seção que facilita o aprendizado e o treinamento. Então além de cuidar do preparo físico, estou estudando a papelada, revendo aqueles pontos mais delicados, tirando dúvidas que surgem no dia a dia e tenho conseguido acompanhar os treinamentos muito bem. Eu precisava dizer isso porque "isso" é condição básica pra quem quer durar pelo menos uns dois anos neste setor aqui.

(O trabalho é tenso às vezes, mas a cada turno de serviço tenho a oportunidade de conversar com um colega mais interessante que o anterior. Nossa! É cada história de vida! Dava pra escrever vários e excelentes livros sobre policiais infiltrados, policiais atletas, policiais especialistas, policiais que cumpriram missão no exterior! É muita riqueza institucional por metro quadrado!)

Sinto-me realmente privilegiada por fazer parte deste grupo, mas não sei quanto tempo vou aguentar, não... A diretoria é muito, mas muito, muito exigente e a carga horária às vezes chega a ser exaustiva! Nessa brincadeira, como você já deve imaginar, vida social é quase zero. Além disso, já sacrifiquei meu cursinho de Francês e só malho no serviço, agora, porque todo o tempo livre que tenho ultimamente é pra ir pra casa cuidar dos meus homens, mas tenho conseguido levar bem.

Minha maior dificuldade por enquanto é que não estou conseguindo me enturmar com as meninas do trabalho... Estou tirando zero nessa prova. Nossas escalas de serviço, treinamento e viagens não coincidem de jeito nenhum e eu simplesmente não consigo ter acesso a elas. Quando passo por uma ou outra no corredor, estão sempre correndo, ninguém tem um minuto pra um café... Sei que tudo leva um tempo pra acontecer, mas tenho muita dificuldade de provar que sou legal pra quem não tá interessada, logo, não provarei. 

Sinto falta de uma coisa chamada amizade que ajuda muito, não é mesmo?

sábado, 7 de janeiro de 2017

Meninas que dormem no banheiro.

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Uma das coisas que mais me deixavam curiosa neste novo local de trabalho, era ver como as meninas daqui atuavam. Eu queria muito saber como elas resolvem coisas que até hoje não resolvi. Não tinha nenhuma instrutora no curso, o que é uma pena, porque elas sempre dão uns bizus para o público feminino. Sim, já tinha visto algumas dessas meninas operando, mas foi sempre de longe, no máximo um olá, ou minutos rápidos daquela conversa formal de quem se respeita e se analisa mutuamente.

Na verdade só fui apresentada ao segmento feminino, informal e acidentalmente no banheiro das meninas. Foi meio traumático, pra falar a verdade. Neste "posto", nós não temos o que se pode chamar de alojamento para repouso. Nos banheiros temos aqueles armários individuais e alguns sofás. Entrei nesse toilete feminino, acendi a luz e bingo... Tinha umas quatro meninas descansando lá, na hora do almoço. Dormindo, né? 

Lembrei-me da aula de bombas e explosivos quando o professor dizia "não acendam a luz quando entrarem num ambiente com suspeita de bombas". Hihihi... Tudo bem, não foi nada, mas sabe? E essa foi minha breve introdução. 

Lembro-me que uma delas, que nem é tãããão antiga assim, estava com uma cara meio grogue de tanto sono. A outra me olhou como quem diz "quem é esta que perturba?". Era eu me explicando, "Desculpa gente, não, era nada não. volto depois"  e blé. Fugi.

Mas isso aconteceu tão logo cheguei aqui. Como eu havia dito, o blog tá atrasado e inclusive, nosso aniversário passou sem postagem especial no ano passado. Pretendo me redimir.

Mas voltando ao assunto, ainda estou procurando por alguma marca de estilo que a experiência delas tenha trazido para nossa atividade. Quero muito aprender algo delas que eu leve comigo depois que eu sair daqui. E que seja exclusivo, porque isso aqui é uma experiência única! Sei lá se estou ficando exigente demais. Simplesmente me recuso a aceitar que a doutrina seja tão masculina assim.

Até o presente momento a única coisa que eu sei, é que as meninas aqui dormem no banheiro e dormem mesmo. Agora, por mais que eu me mate o dia inteiro e esteja exausta na cama por volta de 20 horas quase todos os dias. Eu não vou dormir assim no banheiro, gente. Ou seja, algo me diz que trarei um certo desconforto iluminista ao ambiente. Fiat lux! 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O legado.


Após uma eternidade, os papéis finalmente tramitaram e eu já estou aqui no meu novo local de serviço. Eles estavam falando sério quando disseram que queriam me trazer pra cá. E eu vim! 

Todos que chegam precisam fazer esse curso e eu entrei de cabeça, sonhando com cada instrução aqui da grade horária. Estou adorando tudo! Anotando tudo! Vivendo tudo com muita intensidade! Só não gosto do professor de tiro que por vezes aponta a arma para os alunos, quebrando regra básica de segurança, o que me deixa extremamente incomodada. Espero que não seja o mesmo instrutor nas aulas de tiro real.

Todos aqueles testes que fiz anteriormente eram meramente preliminares e o que vai valer mesmo são os novos testes que faremos durante o curso. Tudo de novo mais teste de tiro, teste teórico e outros que ainda não sei bem como serão e eu não posso fazer feio. 

Bom, o que posso dizer para início de conversa, é que eles são extremamente organizados. E nossas sinapses disparam no sentido de concluir que tem dedo de militar aí, não é mesmo? Mais um desafio: ser organizada.

A divisão do trabalho aqui é completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto antes. Sim, porque as funções são muito diferentes. Aqui não tem delegado (não disse nada e a mente humana já fica pensando maldades). 

Existe um roteiro que você deve seguir assim que se apresenta na casa. Você é recebido no Gabinete, depois se apresenta no setor de pessoal, entrega documentos, 22 fotos, vários exames médicos, tem que tomar vacinas, daí você recebe uma cartilha, com várias informações úteis e sobre o passo a passo de quem está chegando. Recebe seu crachá, equipamentos de treinamento, apostilas impressas que não pode copiar e um monte... um montão de procedimentos padrão operacionais... que não sei se funcionam, mas acho isso fascinante!

Você policial que como eu chegou completamente perdido na sua lotação e a cada dia descobre algo novo que deveriam ter te falado no dia em que se apresentou, sinta-se consternado, porque aqui tudo isso está devidamente escrito e organizado racionalmente! Além disso, existem livros sobre a doutrina da casa, existem cadernetas impressas com check-lists de assuntos gerais e existem manuais sobre procedimentos operacionais. Amigos, tem mais material escrito aqui do que eu já li em toda a minha vida na polícia a respeito do tema. 

Então... era disso que eu tava falando!

Sabe aquela sensação do nerd que vivia sofrendo bullying na universidade e no fim é selecionado pra trabalhar tipo na Apple? Igual!

Vou explicar melhor, quase todos os setores onde já trabalhei antes eram movidos pelo empirismo. Cada um executa do jeito que sua experiência determina. Logo, se você não tem experiência, não tem nada! Sim, porque pra eles, ser organizado, escrever procedimentos, conhecer e seguir a doutrina era sinônimo de engessamento, uma coisa obsoleta, inflexível. De onde eu vim, instruções normativas só são normalmente escritas quando algum grande erro de colega o justificasse. O que não significa que o ensinamento seria passado para as gerações futuras. Resultado: aquela insegurança de novinho que vocês já viram nos textos passados, né, e um enorme desperdício de tempo pra quem chega e precisa reinventar a roda em cada operação. 

Portanto, quase tive um acesso de alegria quando solenemente recebi esse material todo escrito. Pra mim, é como se fosse um legado de quem passou por aqui antes e contribuiu. Muito obrigada, antigões, eu vou saber honrar as gerações passadas e sinalizar para as que vierem depois de mim.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Seis anos blogando.





Hoje vou comemorar os seis anos do "Mulher na Polícia" junto com os futuros novinhos da Polícia Federal!

Obrigada pelo convite!!! 

sábado, 31 de outubro de 2015

Lucidez.


Tem missão que, sinceramente, não vale o que se gastou da sola do seu sapato. É preciso esmagá-la ainda na fase de planejamento, antes que ela roube você de você mesmo. Com o tempo a gente aprende a direcionar melhor nossa intensidade, porque a vontade de agir transborda como jazz e furtivamente te faz escravo dos caprichos de gente manipuladora. Assim, entendemos que essa, afinal, era a nossa grande missão: dizer não ao vazio, que é pra onde vai nossa energia e os gastos públicos com esse tipo de ação. Dormi com o estigma de incompetente, mas acordei com aquela leveza da sensação do dever cumprido. É preciso aprender a sentir o baque da realidade policial no Brasil. Espero que não seja muito tarde. Às vezes demoramos um pouco mais para constatar isso. Talvez você sofra um pouco quando perceber essa clareza. Mas não desista, isso se chama lucidez. Ela brilha na escuridão.


domingo, 12 de julho de 2015

Os professores.


Sonhei que eu dava aulas na Academia e no sonho eu era mais nova de casa ainda do que sou agora. Esse detalhe não foi ocultado pra provar pra vida que quem determina o nível do ridículo nesse blog, soy yo.

Olha, se aluno já pensa que é muita coisa, imagina os professores. Nas solenidades da Academia, os professores ficam destacados em áreas especiais. Os alunos sempre chegam mais cedo e os observam se aproximando aos poucos, se cumprimentando e tomando seu lugar no dispositivo.

Nos cursos de formação profissional, o professor é sempre chamado de senhor e quando entra em sala de aula, toda a turma fica em pé ao comando do xerife. Antes da primeira aula, o professor é apresentado à turma com a leitura do seu currículo. E essa é uma das partes que eu acho mais interessante, a história da vida do cara, seus cursos, locais de lotação, menções honrosas.

Adorava também quando o professor contava uma história sua pra ilustrar alguma aplicação do ensino proposto. Até quem tá cochilando acorda e chovem perguntas! Até hoje, o que melhor consigo lembrar dos professores que me deram aula, são pelos "causos" que contaram. Tinha uma professora que eu não lembro mais o nome, nem a matéria, mas lembro bem dela contando sobre uma operação divertidíssima em que trabalhou fazendo exatamente o que eu faço hoje.

Mas já percebi que, infelizmente, rola muita vaidade, como em todo meio acadêmico. E onde rola vaidade, rola muita coisa que a tia do jardim de infância já dizia ser muito feia. Virou professor? De brinde, vira alvo do recalque dos coleguinhas. Principalmente mulher! Coisa muito triste isso.

Nas aulas de conteúdo mais teórico, que envolve muita legislação e conhecimentos que você tem fácil acesso, digamos assim, é mais tranquilo. Já nas matérias mais operacionais o clima é bem mais tenso. Nessas aulas a gente sempre ouve que "um detalhe esquecido pode ser catastrófico para toda uma operação", que isso ou aquilo "pode custar a vida de alguém". Exagero ou não, nessas matérias sempre vai rolar muita discussão se a técnica proposta se aplica ou não na prática; se não seria mais fácil fazer de outra forma; se a doutrina americana, francesa ou boliviana seria melhor que a nossa e por aí vai.

Imagino que para o professor também não seja fácil, pois mesmo em turmas de curso de formação profissional tem alunos com bagagem adquirida em outras instituições, polícias e forças militares. E sempre tem um iluminado pra questionar: "mas, professor, e se... aqui eu fosse atacado por um... jacaré voador"? Enfim.

E o que dizer dos cursos especializados? Aí é que a vaidade rola mesmo, porque às vezes aparecem umas figuras que se acham e cuja missão da vida é não aceitar orientação de seres "inferiores".  Isso, sim, é o que eu chamo de circo. Palmas para os palhaços.

Li por aí que no Japão os professores são os únicos profissionais que não se curvam ao imperador, porque para os japoneses, numa terra que não há professores, não pode haver imperadores. Aqui é o contrário. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Mais iguais que os outros.


Enquanto devolvia materiais sob minha cautela naquela Divisão, me assombrei com a necessidade que aquele engravatado tinha de tentar se vingar de qualquer jeito. Ficou só na vontade, porque agora quem não quer sou eu. Entreguei a chefia por conta daquele incidente que narrei no post anterior. 

Essa reação agressiva do delta corrobora com a perspectiva de Clarice Lispector que disse estar enganado aquele que não sabe que a simplicidade se conquista com muito trabalho. É que pra ele, era uma afronta eu abrir mão do "status" que "ele me dava" através daquela chefia ridícula. Um ingênuo esse pobre coitado. É uma vítima da competitividade autocentrada e estúpida entre pessoas e cargos nesse estilo irracional pré-renascentista de comandar a polícia, onde o chefe ainda se acha o centro do universo. 

Não me enquadro nessa cadeia de produção. Meu problema, segundo Fernanda Young, é que quero muitas coisas simples, então pareço exigente. Deve ser muito complexo para algumas pessoas aqui no Ocidente esse raciocínio de quem quer apenas fazer seu trabalho de forma honesta e dormir em paz. Essa é a paz que eu quero conservar pra continuar sendo feliz, ô Rappa.

Estou voltando para a minha área operacional, em um nível ainda melhor. E lá pretendo continuar trabalhando sem fazer acepção de pessoas. A lei precisa ser igual pra todos.

Fica um sentimento de revolta, de desesperança na Administração pela falta de humanidade no tratamento prestado ao contribuinte que, infelizmente, é quem sempre leva o prejuízo porque, provavelmente, estarão procurando quatro servidores pra fazer o trabalho que eu fazia sozinha e com muito prazer naquela Divisão. Acho que é uma boa oportunidade para aprenderem a prestigiar mais a alteridade em vez da autoridade.

Eu sou policial, sou servidora pública e tenho coisas mais interessantes pra fazer na polícia antes de me aposentar. Perdão pelo transtorno que causei, mas não fiz um concurso desses pra ser capacho de delegado capacho. 


***Hoje é aniversário do Mulher na Polícia. Cinco anos. Muito obrigada a você, leitor***.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Integridade.



Fé em Deus acredito que até o diabo tem. Agora, viver de forma coerente com essa fé e o amor que dizemos ter pelo nosso Deus "acima de todas as coisas" é outros quinhentos. E acredito também que Deus testa pedagogicamente a nossa fidelidade ao longo do caminho.

Há uns dias atrás, um desses cosplays do "poderoso chefão" me chamou no gabinete dele, a portas fechadas, e pediu uma "atenção especial" para um processo... Não gosto dessa expressão "atenção especial". Gosto de deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Prerrogativa esta que não negocio em hipótese alguma. Por isso, dei de ombros, solenemente, ao pedido do engravatado, pois me reservo, categoricamente, o direito de dizer "não" toda vez que alguém me obrigar a fazer ou deixar de fazer algo, se isso agredir a minha natureza; estuprar a minha essência ou violar os meus valores.

Adivinha o que aconteceu?

~().()~
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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fim de expediente.


Agora que passei a ser chefinha com gratificação e tudo, ganhei uma sala pra chamar de minha, a qual divido com um assistente estagiário superlegal. Era pra ser uma vantagem fantástica, afinal, um novo escritório é um símbolo moderno do progresso na carreira de uma pessoa. Além do que, aquela outra sala era barulhenta demais, parecia uma feira. Só que não. Eu fico sozinha à tarde porque o estagiário só trabalha no período da manhã. E qual seria o maldito problema de ficar sozinha? Simplesmente não posso ficar nem um segundo nesta sala após o expediente porque tem um delegado antigão metido a galanteador aqui! Blé.

Pensando seriamente em trazer o Bush meu fuzil preferido pra me fazer companhia. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

Seleção.


Tem uma coisa mágica em ser chefe que é ver um pouco de você em cada um dos seus chefiados mas com o conforto de saber que nenhum deles é você, de fato. É uma prerrogativa.

O contrato dos terceirizados e estagiários da nossa "Divisão" era temporário e acabou. Com a Delegada Conterrânea dando linha... eu mesma selecionei um por um da minha equipe e montei um time pra chamar de meu.

Interessante ver as semelhanças, o que tenho em comum com cada um deles e ver o que eles ainda têm de complementar. Sou toda séria com algumas coisas mas adoro o jeito anarquista de alguns deles. Cada um no seu estilo e a equipe está indo bem em todos os sentidos. Bonito isso.

sábado, 12 de abril de 2014

Obstáculo.

 
"Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão".
(Oswaldo Montenegro)