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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Dica nº 8 - Descanse.


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Policial precisa saber quando parar.

Tem quase um ano que eu estou insistindo pra você fazer e acontecer... correr, estudar, treinar e trabalhar, né verdade? Mas já percebeu que quando você pensa que está indo bem, que agora falta pouco... novidade! Mais cobranças que se renovam à medida que os anos vão passando e você vai deixando de ser novinho. Outros desafios também surgem porque você simplesmente decidiu que quer outra coisa, e mais outra e mais outra. É bem cansativo! E quem dera se o cansaço fosse relativo apenas ao trabalho, mas tem também seus outros projetos pessoais, sua casa e seus estudos... É muita coisa pra dar conta, e se você não se cuidar vai acabar com a sua saúde física e mental. Já notou que às vezes as coisas não estão dando certo, e por mais que você tente só dá pra ver pouco ou nenhum resultado? Isso vai te deixando cada vez mais irritado, estressado, amargurado e vai virando uma bola de neve. Talvez seja a hora de repensar o seu ritmo, pegar um pouco mais leve, ou então parar mesmo por um tempo e descansar.
O descanso é um tempo sem pressão, necessário pra respirar e recobrar o fôlego, pra conseguir avaliar melhor o que tá acontecendo. Pra voltar ao equilíbrio. Porque a vida é assim... o organismo fica saturado e pára de responder aos exercícios físicos quando está cansado. Da mesma forma, nas atividades cognitivas. Uma hora, de tão cansado, já não entra nada na cabeça de ninguém. Mas a pessoa nem percebe, porque segue num ritmo tão alucinado que parece que não dá mais pra desacelerar. Dá sim! Se liga nas dicas da Novinha.

1º - Separe as coisas! 
Aproveite as oportunidades que você tem para repousar. Tem um ditado militar que diz assim: "Se puder parar, sente; Se puder sentar, deite; Se puder deitar, durma".  Portanto, da mesma forma que você não pode levar atividades domésticas ou particulares para o trabalho você também não pode levar serviço pra casa; Tem que deixar todas as preocupações no trabalho. E outra, nada a ver levar assunto de serviço para o churrasco!  Questão de saúde mental: você precisa aprender a não ficar remoendo em casa as preocupações do trabalho. É preciso exercitar essa desconexão necessária! Tire um dia de vez em quando pra não fazer nada. Sem culpa, por favor! A ociosidade é para o cérebro o que a vitamina D é para o corpo. Promove a inspiração, favorece o surgimento daquelas "grandes sacadas" que mudam a vida da gente, sabe? Promove a reflexão e a revisão de nossa conduta, inclusive moral. Se for preciso saia da cidade; Faça um pique-nique; Faça atividades de lazer no campo, na montanha, na praia. Inspire o ar puro que a natureza te proporciona; Faça uma corrida longa num ambiente agradável. Marque um café com as amigas; Cultive pelo menos um robby relaxante, tipo colecionismo, jardinagem, ecoturismo, surf, outros esportes. Sei lá, cada um tem seu jeito de relaxar. Pare pra ler um bom livro; pare para ver um bom filme. Nada me faz melhor esquecer os problemas que uma boa sessão de cinema. 
Detalhe 1: Pode levar namorado. 
Detalhe 2: Pode comer pipoca junto!

2º - Sono é sagrado!
Invista em sua qualidade de sono e cuidado com o Plantão. As pessoas se iludem achando que uma escala de 24/72 é o sonho de todo trabalhador. Não é não! Plantão policial tem que ser eventual porque detona com seu ritmo biológico e isso acaba com sua saúde a longo prazo. Claro que depende do plantão, né? Tem plantão onde a gente descansa mais do que em casa... Fato. Agora, passar horas e horas sem dormir, ou sem comer por conta de uma ocorrência, faz muito mais mal para o organismo, para o raciocínio do que trabalhar com um horário organizado, feito gente normal. Vai por mim, dormir é sagrado! Então vale a pena comprar um black out que mantenha a baixa luminosidade no quarto. Evite levar computador ou televisão pra cama. Condicione seu organismo a entender que seu quarto é um ambiente reservado para o descanso e outras atividades relaxantes, digamos assim. Olha, eu sei a importância de uma boa noite de sono em dias turbulentos! E sei também o que é passar o dia inteiro trabalhando cansada por conta de uma noite mal dormida. Seu raciocínio, criatividade, motivação caem muito e tudo isso reflete na sua produtividade. E ainda tem gente que questiona a aposentadoria policial.

3º Invista nas suas férias!
Férias é bom pra caramba, mas já tirei férias que me estressaram mais do que se estivesse trabalhando, às vezes por falta de planejamento, mesmo, outras porque viajei com a pessoa errada, ou para o lugar errado... Bom, a ideia é repor energias e não desgastar-se mais ainda, tá? O importante é curtir as férias da forma como você acha que deve. Ponto final. Uns querem apenas descansar, outros explorar novos lugares, outros ainda querem mesmo é se divertir, namorar mais... Aí é contigo, mas  planeje bem, valorize suas férias pra fazer o que você realmente gosta.

Reflita novinho, porque se até Deus descansou no sétimo dia, o que há com a humanidade?  E foi o próprio Cristo quem disse "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei"!Então Vai "assistir o sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar", Cartola... 

Claro que tenho um bizu especial para as meninas. Tá tensa, antes de uma operação ou de um treinamento com risco? Amiga... Não tem coisa melhor do que fazer sexo pra aliviar as tensões antes de partir para uma atividade dessas. Não sei se isso tem fundamento científico mas parece que uma boa transa lubrifica todas as suas articulações. Até as articulações mentais (hehe), por que a mente parece que fica mais limpa, tipo zerada! Aproveita! Lubrifica até o relacionamento! Chega. Parei.

Pra fechar deixo o exemplo de Gertrude Caroline Ederle, nadadora norte-americana, que depois de ganhar várias provas de longa distância, em sua primeira tentativa de cruzar o Canal da Mancha foi traída por uma onda que a deixou sem condições de continuar e percebeu que precisava parar, após 8 longas horas de nado ininterruptas. Reconheceu que estava no seu limite, que ainda não seria daquela vez. Mas não desistiu. Continuou treinando e pegou o ritmo certo. Um ano depois, em 1926 ela foi lá e conseguiu sua travessia inédita. A garota só tinha 19 aninhos!

Então... É disso que eu tô falando!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Dica nº 7 - Seja humano.

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Policial precisa preservar a sua alma.

Oi!
Até aqui já fizemos seis postagens, certo? As quatro primeiras se referem ao preparo básico que todo policial deveria ter. É o mínimo que precisamos para partir para o ataque, digamos assim, quais sejam: o preparo físico, mental, tático e profissional. As outras 2 últimas postagens falavam sobre como nos defender, driblar as armadilhas no meio do caminho. Nesta posição, já falamos de dois grandes zagueiros que são a resistência e a discrição. Hoje vou falar de mais um jogador da defesa: a humanidade.

A sociedade quer que sejamos todos heróis com superpoderes e queixos quadrados. Querem que sejamos super-humanos. Já viu aquelas imagens de policiais com asas de anjo? Com equipamentos estilo Robocop? Realmente, quando colocamos nossa "fantasia" de super-heróis, é difícil não encher o peito de ar e pensar "estou pronto para salvar a humanidade". hehehe.

Só que não. Então eu já ficaria muito feliz se esse texto te ajudasse a salvar A SUA humanidade.

Somos apenas seres humanos que têm a prer-ro-ga-ti-va de lidar com outros seres humanos e suas mentiras, sua depravação, sua violência e opressão. Isso não significa que todo mundo é mentiroso, depravado, violento e opressor. A propósito, você conhece alguém que seja completamente bom, ou completamente mau?

Mas a dor se intensifica quando você, no exercício da profissão, vê o mocinho fazendo maldades; O herói cometendo covardias inexprimíveis; Aquele que tem o dever de proteger abusando do protegido. O sacerdote cometendo sacrilégios. O pai que abusa da filha; O bombeiro induzindo o coma do acidentado pra tirar "o do café"; A merendeira botando água no leite das crianças e levando leite puro pra casa. O médico fraudando auditoria para incluir procedimentos desnecessários. A mãe comprando medicamento contrabandeado pra abortar um feto de 7 meses. Políticos "cristãos" orando em agradecimento pela "propina nossa de cada dia".

Aí vem o novinho policial cheio dos melhores ideais para limpar toda essa sujeira! "Meu Deus, me ajude!". Nasce policial, cresce no meio de todo esse lixo, tem a sua primeira grande decepção e morre, porque desistiu de lutar. Pensa que tudo o que faz é apenas "enxugar gelo". Não quer mais fazer operação de pegar aquele "mula" com 2 quilos de coca. Repete o mandra de que o "sistema é *&%#, parceiro". Se tomar esse caminho, das duas, uma: ou vai viver como um zumbi (já está morto, inútil, desistiu... mas ainda não sabe disso), ou vai partir para o lado negro da força. "Já que não posso vencê-los vou me juntar a eles", racionaliza. 

Um outro grande grupo, nasce, cresce no meio de todo esse lixo, tem a sua primeira grande decepção e, para não morrer, ergue o estandarte do ódio. Esse tipo tem tendência a partir para outro extremo. Arrota pérolas como "bandido bom é bandido morto"; "filho de bandido vai ser bandido também quando crescer"; "só a dor gera compreensão, confissão, cooperação", "direitos humanos são para humanos direitos" Esse indivíduo também racionaliza, justifica seus atos ilegais porque quer ser "o justiceiro", o "007 (Licença para matar!)" que vai salvar o mundo da praga do crime e em nome de Deus! Arre, égua! Das duas, uma, ou vai perder seu emprego, porque nenhum dos seus colegopatas vai te defender na Corregedoria ou vai ser condenado a "puxar cadeia", meu brother, porque você TAMBÉM virou um criminoso igual a eles...

"Tá louca, novinha, não quero nenhuma das alternativas anteriores...". Então ótimo: anota aí as dicas da Novinha:

  1. Meu caro policial, você, que mexe todo dia com a escória da sociedade, faz uma terapia psicológica, meu, porque eu já perdi muitos colegas "durões" para o suicídio. Precisamos entender melhor os nossos problemas primeiro, pra depois tentar resolver os dos outros. "Não tenho dinheiro pra pagar"..Então pede desconto, faz terapia na Associação, na Igreja, no confessionário, FAAAAAAALLLLLLAAAAAA com alguém da sua confiança. Mas pelo amor de Deus, peça ajuda, fiduaégua!
  2. Tenha mais contato com a arte, com a música, literatura, cinema, teatro, fotografia etc.. Arte é algo que nos diferencia dos animais, certo? A arte toca nossa alma de uma forma que outros meios e métodos racionais não chegam nem perto. Uma imagem um som, uma simples vírgula valem mais que mil comprimidos de fluoxetina. Por que vocês acham que eu escrevo esse blog?
  3. Converse com Deus, amigo, diz que tá doendo... com suas próprias palavras, com humildade, com-paixão, diga pra ele das suas dificuldades, seus medos e sentimentos. A oração te dá forças pra lutar, te dá uma visão além do alcance, numa outra perspectiva, menos egoísta, mais sincera, mais realista e ao mesmo tempo com mais fé, porque Deus é tão grande, gente , e nós, tão pequenos. Oração abre os nossos olhos, quando estamos cegos; faz a gente se mover, quando nos sentimos aleijados, paralíticos; faz a gente ouvir as verdades que e não queremos escutar.
  4. Tente ver as pessoas ao seu redor como seres humanos também. Não somos máquinas, somos humanos. Erramos todo dia, poxa! Eles também são pessoas que, como você, tomam decisões certas e erradas todos os dias. Temos nossos sentimentos de raiva, inconformismo, revolta... que muitas vezes nos fazem dizer ou fazer coisas que depois nos arrependemos de ter feito ou dito... as pessoas lá fora também são assim! Ok. Você tem toda razão, mas lembre-se, a regra é clara, mesmo no mais duro dos sistemas, você só pode apedrejar, matar, destruir alguém se você não tiver nenhum pecadinho...
Reflita, novinho, pois de que adianta você ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?!

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. Querida, por ser mulher, vão chamar você pra fazer busca em outras mulheres. Também vão colocar você naquela operação que tem criança envolvida. Sabe porque? Porque as pessoas entendem que você, sendo mulher, é mais humana ("mais sentimental", nas palavras deles)... Muitos acreditam que essa imagem da sensibilidade da mulher às vezes atrapalha. Mentira! Ajuda e muito. Você, com certeza, tem "entrada" onde homem não entra. Você entende de assuntos que eles não vão entender, nunca! Às vezes os colegas vão conversar com você sobre coisas que jamais conversariam com outros homens. Então, não deixe que a sua condição de mulher seja vista como uma fragilidade. Não é! A polícia precisa da mulher em seus quadros, e você precisa ter sempre consciência disso e se valorizar como ser humano e como profissional, combinado?

E pra fechar deixo o exemplo da professora Heley de Abreu Silva, que deu a sua vida para salvar as vítimas de um vigilante incendiário que ateou fogo em si e nas crianças do Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente. Mais de 30 pessoas ficaram feridas. "Familiares do segurança disseram, de acordo com a Polícia, que Santos planejava se matar 'Ele disse, na última terça-feira, que daria um presente a todos se matando em breve' informou o delegado. Segundo a investigação o segurança cometeu o crime na creche numa data simbólica para ele, quando a morte do pai completaria três anos". Para os cristãos, não existe amor maior do que este: dar a própria vida por seus amigos.

Então, é disso que eu tô falando.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Dica nº 5 - Aprenda a resistir.

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"Ninguém vai bater tão forte como a vida,
mas não se trata de bater forte.
Se trata de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente,
 o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando".
(Rocky Balboa)

 Já falarmos sobre a necessidade de um policial ter preparo físico, mental, psicológico, tático e fazer um bom trabalho profissional, certo. Aí você pensa: "Nossa, alguém com tantos pré-requisitos, vai logo se dar muito bem". Hum... não é bem assim, não. Uma pessoa tão bem preparada certamente vai incomodar os acomodados de plantão e vai virar alvo, rapidinho. Aliás, incomodar é intrínseco da profissão policial. Porque é estranho um policial que não incomoda, né? Precisamos falar sobre isso.

Primeiro - Não deixe que as pressões do dia-a-dia deformem o seu caráter. 

Na vida real, mesmo sendo um excelente policial, não raro você será acusado injustamente pelo preso de ter usado de violência para com ele. Maus advogados vão dizer, indevidamente, que você trapaceou na coleta das provas. O juiz, que não conhece nada de sobrevivência policial, vai dizer que você deveria e poderia ter pensado melhor naqueles rápidos 2 ou 3 segundos que você teve para reagir diante de uma ameaça à sua vida. Você vai se decepcionar com muita coisa, e com muitas pessoas. Não permita que as decepções no dia a dia transformem você em algo que você não é. Na física, aprendemos que alguns corpos possuem uma certa propriedade que lhes permitem retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Isso se chama resiliência.
Segundo - Não se deixe irritar por coisas que você não tem controle.

Muitas vezes, mesmo que você se esforce pra ser um cara disciplinado alguns dos seus próprios colegas vão te chamar de "engessado". Se você demonstra respeito pela hierarquia, vão te chamar de "puxa-saco" ou de "covarde". Vão dizer que você é um "Policial Nutela", porque você malha, treina, e cuida da sua alimentação. Tudo isso, pra alguns, é "pura viadagem"; Vão te apelidar de "teoricão" se você estuda os procedimentos e realmente conhece as leis e a doutrina. Quando quiser fazer um trajeto mais seguro, ou parar a viatura num local mais adequado, vão dizer em coro "relaxa novinho". O que dizem a seu respeito não pode ter mais força do que aquilo que você realmente é. No Judô, você aprende a usar a força adversária a seu favor. Um galho enrijecido quebra fácil com o peso da neve, mas o galho maleável, se flexiona e deixa a neve cair, permitindo que o galho volte ao normal. Assim, não absorva a adversidade, deixa-a passar por ti e siga o seu caminho. Portanto, não gaste energia com aquilo que não vai te trazer retorno algum. Uma hora vai perder a graça e vão parar de falar. Você é quem sabe onde quer chegar.

Terceiro - Controle suas expectativas

Em outras palavras, não se iluda. Muitos chefes não estão nem aí e vão realmente dar aquela vaga no curso para a menina que tem pernas bonitas. Muitos dirigentes vão convidar para cargos de chefia os "puxa-saco" do gabinete. E você vai começar a achar que não valeu a pena toda a sua dedicação e empenho, porque quem levou os louros do seu trabalho, foi o chefe que assinou o relatório, o parecer, ou a nota-técnica que você escreveu. Você vai perceber que a meritocracia será, inúmeras vezes, amassada e jogada no lixo, como um pedaço de papel qualquer. E não adianta ficar chateadinho, porque injustiças acontecem em todo lugar do mundo. Já cansei de dizer aqui, que normalmente a gente só consegue alguma boa oportunidade na polícia quando os "titulares" estão de férias, de licença ou impedidos de alguma outra forma. Até que, de tanto cobrir os furos dos titulares, você passa a ser visto como um deles. Por isso que eu sempre digo: esteja preparado, porque quando uma chance dessas chegar, você não vai desperdiçar, né?!

Reflitam, amigos, e fiquem espertos, porque "árvore que produz frutos é a que mais leva pedrada", então seja inteligente e deixe a pedrada passar. No trabalho policial se você não estiver incomodando ninguém tem alguma coisa errada. Quando você começar a crescer, algum colega vai passar a te tratar diferente, vai ficar de bico, vai começar a pegar no seu pé! A pancadaria começa porque você está crescendo e naturalmente vai ocupando os espaços antes ocupados pela mediocridade. E crescer é natural se você tem iniciativa, vitalidade, motivação, disponibilidade e está sempre disposto a aprender. Então, se você tá tranquilo aí e todo mundo te adora, desconfie.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. Cheguei achando que por sermos minoria as mulheres policiais seriam naturalmente unidas e mutuamente cooperativas. Não são. Mulheres na polícia também competem, também comparam, também sabotam e também menosprezam suas semelhantes. Um coronel falou assim pra mim uma vez: "As mulheres tinham tudo pra dominar o mundo. Não dominam porque são desunidas". Triste, né? Na minha experiência, só percebi duas situações excepcionais, quais sejam, quando você está num nível muito superior às demais ou muito inferior.

Pra fechar, deixo com vocês o exemplo Kathrine Switzer, primeira mulher a incomodar participar oficialmente da Maratona de Boston. A qual foi perseguida pelo diretor da prova, que tentou agarrá-la e tirar o número 261 de suas costas. A imagem de Kathrine sendo acossada tornou-se icônica e tranformou-a em uma conhecida defensora da igualdade de direitos entre homens e mulheres. As mulheres só começaram a correr oficialmente a maratona de Boston em 1972.

Nas palavras dela:

"Estava me sentindo feliz, (durante a corrida). E então, no caminhão onde ficava a imprensa, os jornalistas começaram a provocar o diretor da prova, Jock Semple, dizendo coisas como "tem uma garota na sua corrida". Ele se irritou e passou a me perseguir. 'Saia da minha prova, ele berrava, e tentava arrancar o número das minhas costas. Meu técnico começou a gritar para que me largasse. Semple insistitu, e então meu namorado acertou-o com o ombro, ele caiu e foi deixado para trás".(Fonte: Folha de São Paulo).

Aí, é disso que eu tô falando.


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Dica nº 4 - Faça bem feito.

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"A qualquer hora, em qualquer lugar, para qualquer missão"
- Lema do COT -

Se você já entendeu que é prioritário cuidar de seu bem-estar físico e mental e que você precisa levar sempre muito a sério a sua segurança, acho que agora podemos pensar em fazer um  bom trabalho profissional.

Qualquer um sabe que não tá fácil ser polícia nesse sistema deteriorado em que vivemos no Brasil. Portanto, se você quiser "desculpas" pra não trabalhar eu poderia te apresentar várias, amigo. Só tem um porém, não vale reclamar depois da falta de oportunidades, tá?

Na sua formatura, você jurou que cumpriria suas funções com probidade e denodo, isso se aplica àquelas situações em que ninguém está olhando, certo? Mas alguém pode estar te observando, viu, para o bem ou para o mal. É meio chato ficar usando exemplos pessoais num texto como esse, mas prometi que as "dicas" seriam baseadas em fatos reais... Então desculpem se soa pedante demais, mas já disse anteriormente que estou muito satisfeita em estar trabalhando nesta Unidade em que estou lotada atualmente, mas não foi me escondendo das operações que eu consegui um convite pra vir pra cá, foi porque me viram trabalhando duro e chefiando a operação mais importante da minha vida, até então. E pra ser escolhida como chefe naquela "missão mais importante da minha vida", foi preciso mostrar serviço em muitas outras missões para as quais ninguém queria ir. Assim, se você não é desses que apenas aguardam atrás da moita a chegada da aposentadoria, preste atenção nas dicas da Tia Novinha.

Primeiro: seja voluntário.

Quando entra na polícia, a grande maioria das pessoas não sabe ainda qual é o seu lugar. Outra parte, acha que sabe, mas mudará de opinião à medida em que vai conhecendo diferentes atividades policiais. Portanto, experimente missões em todas as oportunidades possíveis, principalmente naquelas operações para as quais ninguém quer ir. Não desperdice essas chances de descobrir onde você se enquadra melhor. Onde suas habilidades pessoais são mais úteis, mais valorizadas. Além disso, é trabalhando que você vai aprender a lidar com o risco, a ter controle emocional e a manter o foco para resolver problemas. Também é na prática que você vai aprender a ajustar bem e a calibrar o peso do equipamento e da responsabilidade que consegue levar em cada tipo de operação. Vai aprender que é preciso livrar-se do que é desnecessário. Então, aproveite! Claro que vai ser dureza, mas é no calor do nervosismo e da tensão que você vai ser forjado. A espada só é aperfeiçoada após sofrer muitas marretadas. E dói muito!

Segundo: disciplina na veia. 

Ser disciplinado exige insistência, porque não é de um dia para o outro que uma prática se torna um hábito. Faça o procedimento da forma correta, mesmo que todos estejam fazendo errado, sabemos que no trabalho policial, pessoas podem perder a vida se você descumprir uma simples regra de segurança, inclusive no trânsito, então se esforce para trabalhar sempre "no padrão". Insista nas repetições, até fazer com que os procedimentos corretos entrem na "massa do sangue", na memória muscular, e sejam cumpridos de forma quase automática!  Seja organizado com as suas anotações. Memorize informações importantes! Encontre seus equipamentos até de olhos fechados! Procure respeitar a doutrina! Admito que sou meio obcecada por doutrina, porque doutrina é um conjunto de princípios que já foram testados, comprovados, utilizados por vários grupos policiais em diferentes partes do globo terrestre, amigos. É sabedoria adquirida na experiência e nos erros dos outros! Então respeite a doutrina adotada na sua Unidade.  

Terceiro: obedeça a hierarquia. 

Poucas pessoas hoje em dia querem liderar na atividade policial, porque é difícil. Cada colega tem sua opinião e muitas vezes as pessoas criticam sem dó as coordenadas dadas pelo chefe seja ele agente, escrivão, delegado ou administrativo. Das vezes em que chefiei operações, senti como o ser humano é egoísta e como é solitário liderar. Muitas vezes não dá tempo de ficar justificando para cada colega, porque vamos fazer assim ou assado. E muitas vezes vão questionar mesmo depois de todas as explicações já terem sido dadas. Então, procure colaborar com a chefia. É muito desagradável ver um colega questionando sem motivo, só pra testar o chefe, pra irritá-lo, colocá-lo em situação difícil perante os colegas. Claro que dar sugestões, questionar é saudável, lúcido e lícito, mas tem que ter bom senso. Demonstre profissionalismo, lealdade.  Faça o seu melhor! Dê sinais de que você quer muito que a operação dê resultados positivos e que você está comprometido em não deixar que nada de errado aconteça!

Quarto: pense no seu parceiro.

Por mais cansado que você esteja, pense em quem ainda não está liberado para ir pra casa descansar. Se possível, ajude o colega a terminar o serviço dele, também, pra fecharem juntos a missão. Ele também tem família em casa esperando o seu retorno. Vá com ele entregar os equipamentos e viaturas acautelados. Ajude o escrivão na contagem e organização do material apreendido. Quando todo mundo já estiver louco pra terminar, pergunte ao chefe se ele precisa de mais alguma coisa. Seja o primeiro a chegar e o último a sair. Saia do WhatsApp e vá render o colega que ainda não foi almoçar. Ofereça-se para dirigir um pouco em longos deslocamentos. Vai buscar café? Pergunte ao grupo se alguém precisa que você traga alguma coisa.

E reflitam, pois, pra você, hoje, aqui, tudo isso pode não ser nada demais, mas pra quem está há horas em pé, com fome, cansado, com sono... é esse tipo de atitude que marca pra sempre nossa memória afetiva.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. Amiga, se não tá fácil para os novinhos (homens) que chegam ávidos por um lugar ao sol, pra você, que é mulher, vai ser duas, três vezes mais difícil a depender dos acessórios (filho pequeno, beleza física, marido ciumento etc.). É muito comum as pessoas partirem do princípio de que você não vai dar conta! Então, prepare-se pra ter de provar isso uma, duas, três vezes até que eles se convençam, e se mudar de equipe vai começar tudo do zero novamente! Além disso, saiba que se um colega do sexo masculino errar, vão dizer que "tudo bem", que "isso acontece", mas se você errar, as más línguas vão dizer que é porque você é mulher, e que mulher não nasceu pra esse tipo de atividade. Desse jeito, amiga! E mesmo se você fez tudo certinho e se deu bem, vão achar algum defeito ou algum motivo pra desmerecer sua vitória. Já disseram que eu "consegui" uma boa viagem, porque tava tendo um caso com o chefe. Já disseram que eu só recebia convite pra fazer curso fora por causa das minhas pernas... "Mas, Novinha, por que isso é assim?" Eu. Não. Sei. Outra coisa: desculpem entrar nesse assunto polêmico mas, se você quer mesmo ser levada a sério no mundo policial não se apoie em muletas de gênero. "Que isso, Novinha?" São aquelas artimanhas, do tipo chantagem emocional, para garantir um tratamento especial (tipo aliviar a sua carga, sua escala, etc.) na distribuição do serviço porque você é mulher. Olha aqui pra mim: esse tipo de estratégia é o campeão número 1 em arrecadar a antipatia da equipe e se isso acontecer, amiga. Já era! Espere a próxima lotação, porque eles não perdoam, mesmo.

Pra fechar, deixo com vocês o exemplo da Coronel Cynthiane da PMDF, primeira mulher a comandar uma tropa de elite, nada mais, nada menos que o Batalhão de Choque do Distrito Federal. Ela raspou o cabelo e ficou cinco meses na mata com um grupo de alunos do curso de operações especiais do BOPE. Casada com um policial civil, tinha um filho de 3 anos que se assustou quando a viu chegar em casa careca. Cynthiane garante que não houve qualquer regalia ou diferencial durante o curso em relação aos demais colegas. Leia o que ela tem a dizer:

"Quando me formei como PM, os tempos eram outros. As mulheres trabalhavam em grupos separados dos homens. Depois que fiz curso de pós-graduação, assumi a responsabilidade por áreas de ensino da polícia. Resolvi conhecer um dos vários cursos realizados no Bope e o primeiro que fiz foi para me especializar na segurança de autoridades. Eu estava em ótima forma física e o comandante do Bope me convidou para ficar. Não tinha ideia do que me esperava. Acho que foi muito mais difícil para eles, homens, entenderem que eu estava passando por todas as etapas e conseguindo ir adiante, do que para mim. (...) Ainda há preconceito. Ouço comentários de que não acreditam que eu concluí o curso, que não sou capaz. Mas os homens me respeitam, nunca tive caso de insubordinação. Ainda quero mais. Todo mundo sabe que meu sonho é comandar o BOPE (...) A minha chegada ao comando mostra que uma mulher pode qualquer coisa, basta querer, ter preparo psicológico e persistência".

Aí... é disso que eu tô falando!

sábado, 13 de janeiro de 2018

Dica nº 3 - Cultive uma mentalidade de sobrevivência.

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Policial precisa voltar vivo pra casa.

Já falamos sobre a necessidade de estar bem fisicamente e a importância de buscar o conhecimento. Agora chegou a vez de falar sobre a arte da guerra. Entenda que se realmente você leva sua profissão a sério, algumas coisas vão mudar naturalmente: suas prioridades, suas amizades, a forma como você gasta seu tempo livre. Você vai passar a ter um estilo de vida mais... tático. Para aprender a viver bem com essa nova identidade, é imprescindível que você cultive uma mentalidade de sobrevivência. 

Em primeiro lugar, treine

Não recomendo a ninguém o sentimento de que falhou ao enfrentar uma situação de risco. A perda dos valores envolvidos (vida, dignidade, integridade física, etc.) jamais será comparável ao que você deve investir em treinamento.  Aproveite bem cada oportunidade de treinamento que a Instituição te oferece e tente extrair o máximo de cada curso, de cada disparo no estande de tiro, faça anotações sobre o seu desempenho, veja o que você precisa fazer pra melhorar. Registre o seu desempenho! Mas não se limite a isso. Treine tiro sozinho em local seguro, tente aplicar o que aprendeu no treinamento. Se não tiver munição, treine sem munição. Como? Treine sacar e enquadrar o alvo o mais rápido possível. Treine fazer isso sentado, deitado, em baixa luminosidade, dentro do carro parado, dentro do carro em movimento (em local seguro, fazfavô!). Treine fazer isso cansado, após uma corrida, protegendo-se atrás de um abrigo. Treine trocar rapidamente o carregador da arma. Treine atirar com uma mão só. Trocar o carregador com uma mão só. Enfim, treine em condições bem próximas à realidade de um confronto armado onde tiro vai e tiro pode vir também. No confronto real você precisa sacar rápido e enquadrar o alvo da forma mais rápida possível. Segundos  e milímetros podem valer a sua vida. Então, treine!

Treine defesa pessoal policial, mas treine com objetivos concretos. Treine técnicas para neutralizar seu oponente. Treine o que fazer quando estiver com uma arma apontada para a sua cabeça. Treine como cair e não se machucar, treine como se levantar rápido da queda. Treine como se livrar de um estrangulamento, de um ataque com faca, de uma paulada, de um murro na cara, um chute no abdome. Treine táticas para se livrar de um estupro com um homem de 100 quilos em cima de você. Treine como atacar os pontos fracos do inimigo. Na hora "H" você vai reagir como treinou, se não treinou... vai fazer o que, né?

Treine como sobreviver em meio a adversidades. Treine flutuação em meio líquido usando calça jeans, boot e equipamentos. Treine a técnica correta para saltar um muro ou para saltar a uma altura de 10 metros n'água. Treine como descer ou subir de rapel. Treina vários tipos de nós e quando usar cada um deles. Treine como sair de um porta-malas de carro. Treine táticas para sobreviver a um incêndio. Treine como sobreviver no meio do mato, aí na sua região (na selva, na caatinga, na ilha, na montanha, no mar). Treine vários tipos de nós. Treine a arte de detectar mentiras.

Segundo, esteja sempre pronto pra responder a uma agressão. 

Para isso, crie o hábito de deixar sua arma sempre pronta para um saque rápido. Salve e deixe números de telefones de emergência ao alcance rápido. Deixe kits de primeiros socorros sempre à mão. Utilize equipamentos de proteção adequados. Invista em equipamentos úteis como um canivete suíço, um bastão retrátil, uma boa lanterna tática, armas backup, torniquete, óculos de sol de qualidade e aprenda a cuidar deles e a utilizá-los da forma correta. Esteja preparado! Não tem preço quando o colega tá tentando resolver um problema com uma tesourinha escolar, e alguém diz. "Novinha, vem cá, traz seu canivete suíço aí, por favor".

Terceiro, aprenda a detectar de onde vem o perigo. 

Para poder  sacar mais rápido e reagir, você precisa estar atento ao que acontece ao seu redor.  Não precisa ficar "full time a ponto de bala", mas precisa aprender a julgar vulnerabilidades e portar-se de acordo. Precisa detectar ameaças naquele cenário. O que tá errado, ou não tá combinando com o ambiente e então se antecipar. Não pode esperar a agressão ser anunciada para então poder agir. Precisa aprender a sentir se está sendo seguido. Aprender a estacionar o carro numa posição e local mais seguros e avaliar o cenário quando for embarcar de novo. Quando tiver que parar num semáforo, observe quem se aproxima e mantenha-se sempre em condição de reagir, porque ninguém surge na sua frente "do nada". Ou seja, em algum momento você se distraiu e "comeu mosca". Ficou falando ao celular na hora errada, ficou teclando no WhatsApp na hora errada, bebeu (bebida alcoólica) na hora ou da forma errada, etc.

Resumindo. Dediquem-se arduamente a atividades de sobrevivência, porque agora você é policial. A quem muito é dado, muito será cobrado! Então aja e viva com responsabilidade, de forma coerente com a carreira que você abraçou! Um policial é caro demais pra morrer em situações tão bestas.

É claro que tenho um bizu especial para as meninas. No início vai ser uma grande confusão na sua cabeça, porque o curso de formação é todinho feito para homens. No tatame, você vai treinar "defesa do genital" como se fosse homem... A grande maioria dos equipamentos são feitos para homens. Vai na loja e tenta achar um boot 36, por exemplo. Procure um terno feminino que esconda apropriadamente a sua arma... Olha... pouquíssimos cursos terão professoras mulheres e dispostas a te dar aquele toque sobre "como continuar sendo mulher após entrar para a polícia". Então, o jeito é experimentar tudo e ver como fica em você. Hoje, eu amo o Fuzil Colt, parece que foi feito pra mim, porque é uma arma leve e eu consigo bancar o tempo que for preciso. Já adotei a munição que me deixa mais confiante. Já achei ótimos terninhos, sapatos sociais e coldres especiais, com os quais consigo manter a elegância sem quebrar nenhum protocolo de segurança. E descobri o Shemag que revolucionou a moda operacional. É um lenço tático que alguns usam pra proteger o rosto, eu uso pra proteger o pescoço do sol. Amoooo! Mas pra chegar até aqui confesso que comprei tanto coldre, calças e outros acessórios que dá pra encher uma mala. Não é fácil se adaptar. Outra coisa bacana que aprendi, depois de muita humilhação nos tatames da vida, é que treinar joelhadas e cotoveladas em pontos estratégicos é o que há, amiga, porque funcionam muito bem, mesmo se você não tiver tanta força. Entendeu? Porque na pior das hipóteses você ganha tempo pra sacar sua arma ou para simplesmente sair correndo. 

Pra fechar, inspirem-se na mensagem dessa nordestina sertaneja que tornou-se medalhista de bronze no Pentatlo em Londres. O que é Pentatlo?

"Diz a lenda que, durante uma guerra na Europa, um soldado recebeu uma missão: entregar uma mensagem cruzando os campos de batalha. O soldado pegou um cavalo que não conhecia e saiu. Para atravessar as linhas de frente teve que combater usando o revólver e a espada. Mas, no meio do caminho, um problema sério tornou a missão ainda mais difícil. O cavalo se feriu e o soldado teve que completar o percurso a pé, atravessando lagos e rios. Surgiu assim o pentatlo moderno. Cavalgar, correr, nadar, atirar, e enfrentar adversários com a espada. No sertão nordestino, surgiu uma brasileira capaz de fazer tudo isso Yane Marques!"

"Correr, nadar, atirar, usar cavalo e espada
Para uma autêntica sertaneja isso tudo não é nada.
Pois sertaneja é assim: faz de tudo e nada erra
E ainda não abre mão de exaltar a sua terra.
Em afogados da Ingazeira, onde o sol mais forte brilha
Brilha o brilho de Yane, sua mais brilhante filha".

(Trechos copiados do site Do Pernambuco)

Aí, é disso que eu tô falando!

sábado, 6 de janeiro de 2018

Dica número 2 - Mens sana in corpore sano.

Policial precisa investir em conhecimento.


Após discutirmos sobre a importância de um "corpore sano", precisamos investir também numa "mens sana" e fechar esse combo. Afinal, não queremos que os coleguinhas pensem que você é apenas um corpinho bonito, não é mesmo?

Sério que você achou que não precisaria mais estudar na vida, após aprovado no concurso? Sabia que algumas polícias exigem que seus policiais façam cursos inclusive para promoção na carreira? É... Quase uma tortura aquele de "suprimento de fundos", verdade, mas não é disso que estou falando.

Quando você realmente entrar para a polícia (lembrando que "tornar-se policial" é uma coisa, tornar-se um servidor público, é outra bem diferente), você vai sofrer um bombardeio de novas ideias e concepções. Para que esse processo de mudanças seja saudável, titia recomenda que você faça ótimos cursos, leia bons livros, investigue "por que isso é assim?", questione as idéias dos professores (depois do CFP, pode!). Estude. Eventualmente, você vai precisar defender seus pontos de vista perante outros colegas policiais, colaboradores, servidores de outros órgãos, cidadãos, autoridades. Esteja preparado. Pare de fazer as coisas no automático, andando no fluxo da multidão e pense. Conheça a legislação afeta ao seu trabalho. Considere suas vulnerabilidades. Confronte suas práticas. Clique nas abas ocultas. E se você discorda, sei lá eu de quê, tá tudo certo, mas discorda por que? Você realmente sabe onde estão fundamentados os teus parâmetros de certo e errado? Espero que não seja nas listas de dicas dos blogs da Internet! Você precisa avaliar constantemente as premissas que te levaram a adotar estes padrões e, então, tirar suas próprias conclusões, porque, se não fizer isso, você vai virar um mero papagaio repetidor das frases idiotas que se ouve por aí.

É bem provável que você passe no mínimo uns cinco anos na sua primeira lotação, concorda? Você pode passar todos esses anos jogando World of Warcraft nas horas vagas, pra que o tempo passe logo, ou talvez possa construir algo mais inteligente e sólido pra levar contigo dessa experiência. Conheça a região onde você trabalha e explore o que essa vivência tem a te oferecer. E então, trace clara e objetivamente seus percursos de curto, médio e longo prazos, porque existe vida após o estágio probatório! Já pensou que talvez este seja o momento mais que oportuno para aprender um novo idioma, uma nova cultura! Tente ver as coisas de um modo diferente.

Já pensou que em cinco anos, você pode fazer outra graduação, um mestrado, um doutorado.  Sabia que tem novinho fazendo pós-graduação na Academia? Sabia que tem novinho publicando pesquisas científicas baseadas em dados do trabalho policial? Sabia que enquanto você reclama da distância, do descaso, da diferença, tem gente fazendo excelentes cursos policiais (e novos amigos!) que só são oferecidos aí na sua região? Sabia que grupos de operações especiais estrangeiros vêm fazer cursos no Brasil para dominar artes e técnicas que o PM da sua região aprendeu na infância?

Reflitam, porque na pior das hipóteses você vai se tornar uma pessoa muito mais interessante.

Para as meninas, é claro que tenho um bizu especial. Não é por acaso, amiga, que o curso de formação é de quase um semestre em regime semi-aberto, longe do seu habitat natural. "Mais alguém aí foi crucificada pela sociedade por se ausentar do ninho tanto tempo?" Então... sugiro que você avalie bem as oportunidades de crescimento que a polícia pode te oferecer, e selecione aquelas que realmente merecem sua atenção e o preço que está disposta a pagar por isso. Daí, converse com seu namorado ou marido (na verdade deveríamos ter feito isso antes mesmo de começar a estudar para o concurso, não é mesmo?). E decidam juntos como vai ser isso de viajar a serviço, trabalhar até tarde ou em regime de plantão, fazer cursos fora, continuar estudando, enfim... organize essa parte antes, ajuste esses ponteiros com antecedência, pra evitar muito estresse, crises e confusões desnecessárias quando as oportunidades profissionais baterem na sua porta. E vão bater! Caso você tenha filho pequeno, amiga, é imprescindível que vocês montem um "staff" de confiança pra dar apoio quando você precisar. Super invista nisso, pois mãezinhas policiais precisam ter Plano Alfa, Plano Bravo, Plano Charlie... sempre! Levem em consideração tudo isso antes de montar sua estratégia de escolha de lotação e divirta-se! Não estou dizendo de jeito nenhum que você precisa abrir mão disso ou daquilo, meu ponto é apenas sugerir que você decida conscientemente e conviva bem com suas decisões. Porque, sério, ser mulher na polícia é buscar constantemente um tal de equilíbrio entre a culpa por ter saído e o arrependimento por ter ficado.

Pra fechar, leia e deixe-se inspirar por este trechinho do relato de vida da PhD brasileira, negra, filha de uma empregada doméstica e de um profissional de curtume, a qual, após vários episódios de superação, conquistou um convite para fazer o seu pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos EUA, e mesmo com todo o preconceito ja´conquistou 56 prêmios na carreira.

"...minha mãe me levava com ela para o trabalho. Ela aproveitou que tinham jornais na casa da patroa e me ensinou a ler para eu ficar mais quieta. Tinha quatro anos e ficava o dia todo lendo. (...) um dia, a diretora da escola Sesi foi visitar a dona da casa e perguntou se eu estava vendo as fotos do jornal. Respondi que estava lendo. Ela se surpreendeu, me pediu para ler um pedaço e eu li perfeitamente. Coincidentemente, era começo de fevereiro e ela sugeriu, que eu fosse uns dias na escola. Se eu conseguisse acompanhar, a vaga seria minha. Deu certo e com 14 anos eu já terminava o ensino médio. (...) As armas mais poderosas que temos para vencer na vida são a educação e o estudo". 

Aplaudo de pé a sua história de vida, Doutora Joana D'Arc. Olha bem o nome da guerreira!!! E parabéns, também, para a incrível sabedoria iluminada da sua mãezinha que soube aproveitar os jornais da casa da patroa para te ensinar a ler. Uma belíssima e inspiradora parceria entre mãe e filha.

Aí... é disso que eu tô falando!

domingo, 29 de outubro de 2017

Antes.

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Sabe que o problema não é a operação em si? O pior é o antes. São os dias que a antecedem. São as suas perguntas sem resposta. É a noite mal dormida. É a expectativa. É o alvo embaçado. É a infinidade de coisas que podem acontecer num local que você não reconheceu. É o ensaio mental sobre o que não foi "brifado".  É o medo. É a dúvida. É não saber em quem se deve confiar ou não. É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Cada um usa as armas que tem.



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Ela contou que estava andando num lugar ermo à noite e percebeu que alguém a estava seguindo. Andou mais rápido e o cara também acelerou. Virou numa rua para despistá-lo, virou na outra e ele fez o mesmo! Daí ela teve uma ideia. Foi diminuindo o ritmo e olhando pra trás até o sujeito chegar mais perto. Então ela parou de repente e se virou, encarando-o. Ele parou e começou a olhar pra ela de forma lasciva e libidinosa. Então ela simplesmente levantou a saia, sem tirar os olhos dele. Imediatamente ele baixou as calças. 

"Mas e aí??? O que foi que aconteceu, gente?"

Ela saiu correndo ué, porque é muito mais fácil correr com a saia levantada do que com as calças arriadas. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

Pra eu me lembrar de ser humilde.

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Estou conseguindo colher umas dicas legais de sobrevivência com os mais antigos aqui. É que eu ainda tenho essa coragem de acreditar que algumas pessoas sabem que sou nova no pedaço e têm uma certa boa vontade pra "me preparar" para o que pode vir a acontecer. Difícil é separar as fofocas e as histórias de terror daquilo que pode realmente ser útil.

Vejam o caso de Beatrix Kiddo, vamos chamá-la assim. Kiddo era uma policial que trabalhava neste setor antes de mim, legitimamente loira, alta, magra e linda. Por sua competência, ela era o arquétipo de mulher policial de sucesso em que todas nós mulheres policiais, nos espelhamos; uma lenda; uma verdadeira policial do Brasil que dá certo. Segundo a Constituição, Kiddo é o ícone absoluto para aquelas que querem atingir o sucesso e o respeito profissional de forma fina, elegante e sincera. 

Lembro-me de que, quando eu estava ainda dando meus primeiros passos na polícia, precisei do apoio dela em uma missão que vim cumprir aqui e ela agiu com a educação e nobreza de uma rainha. Impecavelmente profissional, porque ela era encantadora assim com todo mundo, mesmo. Nessa época ela já era chefe aqui e eu sequer imaginava ser possível para mim, um dia, trabalhar neste lugar. Não obstante, esta mulher já me mostrava que eu poderia chegar bem mais além do que eu achava ser possível. 

Adoraria aprender diretamente com ela, no dia a dia, mas como ela não está mais aqui, me contento com os spin-offs de testemunhas. Todos concordam que ela tinha o timing perfeito, o tom de voz preciso, a capacidade de intervir cirurgicamente e que ela sabia calcular de cabeça o delta espaço sobre o delta tempo da chegada ou retirada  na hora certa. Ela é talentosa em lidar com bom senso e oportunidade. Não me constranjo em dizer que ela sabe ser na prática o que eu só sei na teoria. Me debato com isso de saber chegar e saber sair o tempo todo. É uma habilidade, ainda pouco dominada por policiais, infelizmente, uma ciência que não se aprende na Academia.

- Certo. E por que então que ela "caiu"?

Boa pergunta. Fontes de confiança me disseram que ela foi dispensada dessa missão porque era "preparada demais, sabida demais, segura demais", dando a entender que foi sua própria vaidade que puxou o tapete dela.

- Sério mesmo? - Pergunto desconfiada. - Daí que eu nem sei por onde começar, amados. O que é isso, afinal, o "Dia Internacional do Mistério"? 

Assim, como policial mirim que sou, venho informar que não tenho como processar essa teoria esquizofrênica, ok? Porque não estou admitindo ninguém colocar "preparo", "sabedoria", "segurança" e "vaidade" na mesma frase. Se é uma pessoa vaidosa, logo, não tem preparo! Não tem sabedoria! E não tem segurança nenhuma!

terça-feira, 2 de maio de 2017

A primeira lotação a gente nunca esquece.

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Então você ainda é aspirante a um cargo nas fileiras policiais e já está providenciando inquietações com a sua primeira lotação? Normal. Aí vão algumas noções preliminares pra você sobreviver às primeiras desilusões do lado de cá.

Antes de mais nada, acho charmoso quem se sente completamente à vontade com a escolha do cargo. Existem atividades típicas de escrivão, papi, perito etc. que estarão na pauta por toda a sua carreira. Logo, tenho muita pena de quem não tem a menor vontade de tocar inquéritos policiais e escolhe trabalhar como delegado ou escrivão, ou de quem é louco com armas e faz prova pra agente administrativo. Mas uma coisa é certa: cada cargo tem seu ônus e seu bônus, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Uma escolha consciente do cargo já vai eliminar boa dose de frustração desde o início. 

O cargo onde a gama de atividades possíveis é maior, sem sombra de dúvida ou empáfia, é o de agente de polícia. Na prática, agentes podem ser lotados em qualquer setor da polícia, do plantão à corregedoria; Do setor de pessoal ao IML; Podem assumir tanto funções mais intelectuais, como aquelas mais operacionais e até administrativas. Têm chance de ter de lidar com o público externo; de trabalhar em grupo ou de cumprir expediente fechado numa salinha. Penso que o maior contingente na minha polícia é formado por ocupantes deste cargo. Assim, pelo menos teoricamente, é este profissional que tem mais liberdade ou flexibilidade de locomoção sem comprometer o efetivo local. Até pra conseguir uma permuta é mais fácil... agora, se só tem um papiloscopista na sua delegacia, normalmente o chefe só vai liberá-lo quando chegar outro pra ocupar o lugar dele. Note, porém, que uns 85% (ou mais, não sei) dos heróis mortos em combate foram policiais ocupantes do cargo de agente.

Claro que qualquer pessoa minimamente sensata entende que pra tudo isso existem cínicas exceções. Então vamos falar das exceções! Por exemplo, o critério técnico às vezes ajuda. Qualquer policial com habilitação para pilotar aeronave, terá boas chances de um dia ser recrutado pra trabalhar na atividade de operações aéreas, não é mesmo? Não tem nada de vil nisso, porque é um policial em 1.000 (10.000, sei lá eu) que já chega na polícia com essa habilidade. E a polícia precisa de pilotos de aeronave! Então, mesmo que ironicamente esse cara tenha sido primeiramente lotado na caixa prego do velho oeste ele tem chances de ser movimentado para este setor específico. Mas presta atenção! Eu disse "chance"... Não estou dizendo que se o cara tem brevê de piloto, certeza que ele vai pilotar aeronave policial... Sei, por exemplo, de inúmeros casos de colegas muito competentes que perderam oportunidades interessantes, simplesmente porque fizeram uma declaração pública infeliz sobre uma licitação mal feita, sobre seus planos de carreira ou sobre o cabelo do Diretor da Polícia. Diagnóstico: "queimado!". Outros não falaram nem fizeram nada, mas deram com a cara na porta por uma simples mudança da política interna do setor. Diagnóstico: "azarado!".

Desmistificando melhor o tema, dos agentes novinhos que chegaram na primeira lotação junto comigo, parece que o primeiro critério para determinação de lotação dentro da delegacia foi a capacidade técnica. Quem declarou habilidades administrativas (licitação, contratos, jornalismo, RH, TI, etc), assumiu funções ligadas a tais áreas. Os demais foram pulverizados nos setores mais carentes de pessoal.

Pelo que observei, as lotações internas mais traumáticas foram a de um colega muito bacana que tinha experiência em tribunal, olhinhos azuis, todo mauricinho que foi designado a cuidar do transporte. Alguém aí faz concurso pra polícia sonhando em cuidar das viaturas? Ficou visivelmente desapontado, mas foi. Ficou nesse setor por uns dois másculos anos e depois conseguiu um lugar pra chamar de seu. Teve também uma colega especializada, que foi para o RH super voluntariamente, feliz e realizada, mas ao assumir a função, bateu de frente com uma agente administrativa, antiga chefe do setor e quase se pegaram. Dava pra ouvir o choro nervoso dela na sala do chefe. Mas todos sobrevivemos.

domingo, 15 de maio de 2016

Audácia.


Pra falar a verdade, não sei bem onde termina a audácia e começa a insanidade mental, portanto, relevem.

Eis que me telefonaram perguntando se eu estaria livre na terça-feira às 16 horas para fazer os benditos testes físicos preliminares. Na terça-feira?! Cara, quem marca um teste físico no meio do horário de expediente?! Não, infelizmente não vai dar! Esqueceu que o fisioterapeuta me avisou pra pegar leve com as tensões dos tendões do meu pé direito?

- "Claro!" Respondi, imediatamente. "Pra mim, terça-feira tá perfeito!" E isso foi suficiente pra eu me sentir uma tonta de tão contente.

Então fiz o reconhecimento dos locais das provas. Estudei o terreno. Repassei as estratégias. Reatei aquele relacionamento sério com meu tênis velho (agora fico emotiva quando falo de tênis velhos). Assisti novamente "Até o Limite da Honra". Não me julguem, algumas pessoas fumam maconha, outras roem as unhas, há quem faça infiltração ou vai dopado mesmo... eu assisto filmes motivacionais. E é tanta inspiração, adrenalina e dedicação na tela que me sinto bem capaz de mandar o aedes para o aegypti ou provar que a hipótese dos números primos de Riemann é verdadeira.

Dor no calcanhar?  Que dor??? Não, senti nada! Só um carinho enorme quando meu bem marcou o tempo no último treino no domingo pra mim e a sensação de satisfação em ver a cara de contentamento do meu avaliador após cada teste.

Uma mulher que se supera no dia do teste é aquele tipo singular que não necessariamente quer ser uma atleta e ganhar medalha, mas ama perder o fôlego no beijo da vitória suada.

Aliviada agora e bem confiante. Mas, por ora, apenas comemorações conscientes de que este foi apenas um de uma bateria multidisciplinar de testes objetivos e subjetivos a que vamos nos submeter. "Sorria, Novinha, você está sendo anotada".

sábado, 16 de abril de 2016

Vírgula.

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Queria escrever esse post usando muitos pontos de exclamação, só que ainda não, vírgula.

Decidi, super de boa, reunir todos os dias e horários livres que tinha para treinar para aquele teste físico importante de que lhes falei. Férias, horas acumuladas, feriados e parti pra treinar sério, com acompanhamento personalizado, sabe? Porque isso significa escrever meu nome no hall de mulheres que fizeram proezas nesta polícia. Só que parece que fui com muita sede ao pote e machuquei o tornozelo. Está enorme de inchado. Um minuto de silêncio, por favor.

E agora vamos exercitar a paciência e começar tudo de novo, torcendo obviamente pra que  não nos chamem para os exames enquanto durar o tratamento. Dói demais ver o sol lá fora me chamando pra vida, mas vai ter que esperar. Me entrego nas mãos dos fisioterapeutas, agora. Poderia me mudar pra clínica de fisioterapia porque tenho horários de manhã e de tarde. Todos os dias.

O médico disse que foi só uma coisinha muscular essa dor aguda e que vai dar tudo certo. A professora da natação disse que vai dar tempo, sim. Isso deveria amenizar a ansiedade, mas sou tomada pela dúvida sobre se eles perceberam algo de desespero na minha condição e não ousaram me contrariar nesse momento crítico. E ainda tem gente que acusa os médicos e professores de serem frios... Mentirosos, no máximo.

Chego em casa e quero ficar sozinha com umas questões: "Será que não vai ser dessa vez?"; "Deveria ter pegado leve, né, novinha!!!"; "Seriam estes dois quilinhos que provocaram todas essas reticências?"; "Ou será que foi o peso na consciência de estar abandonando a galera daqui?". São minhas dúvidas, inchando mais que o tornozelo.

Acabou não, tá? Vírgula. Aquele tênis novo, além de me custar o olho da cara levou também a unha do dedão! Não tá doendo, não, mas me disseram que vai cair... Como vou correr sem unha? Nunca mais vou usar uma rasteirinha? 

Vamos todos dar as mãos neste momento, respirar fundo e aguardar passar a tempestade. É o que temos pra hoje.

AAAAHHHHHHHHHHHHHHHGGGGGHHHHHHHHTTTTTTTT!!!!

domingo, 10 de janeiro de 2016

Minotauro, Teseu e Ariadne



Querido blog, 


Ele é agente, veio de outra cidade pra cumprir missão aqui no meu setor. Não é muito antigo de casa, não, é antigo de idade, mesmo. Os cabelos grisalhos dele e a voz impostada impõem moral por onde passa. E ele passou por várias outras instituições irmãs antes de vir pra cá. Adora contar histórias de quando trabalhava noutra polícia. O problema é que são histórias estúpidas de gente arrogante, preconceituosa, machista, sexista e amarga. Aquelas coisas que os minotauros acham importante deixar claro para as mulheres. Mas ele jura ter algo a dizer pra humanidade. Ele precisa de atenção. Então tá, estou prestando atenção e mantendo a linha editorial educada do blog.

Minotauro foi tenente da Nasa, mas aqui não é a Nasa. Nem a Nasa é a Nasa que ele pinta. E eu sei que não tem tenente na Nasa, mas eu não queria ferir suscetibilidades. Bom, ele pôs na cabeça que a gente tem que padronizar tudo. Poxa, por que que a Nasa tem essa mania de padronizar?! Volta pra Nasa, Minotauro! Tem, sei lá eu, umas 40 instituições americanas pra fazer só o que a minha polícia faz por aqui. São tantas atribuições que algumas não têm nada a ver com trabalho de polícia em si. Aí o tenente chega da Nasa cheinho de preconceitos e acha que tem que padronizar tanto o policial que opera na Tundra Siberiana do Paralelo 30 quanto o que progride nos pântanos equatorianos?

Um dia acho que ele se deu conta de que estava meio ultrapassado. Viu um novinho operando um fuzil que ele não conhecia e parece que não soube lidar bem com isso. Porque se o Tenente veio do mundo da Lua, o novinho serviu no Iraque. Aprendeu a matar com o Rambo, o Shuazeneger. o Teseu. Ele era o Sniper Americano e o Minotauro não sabia sequer acoplar uma luneta no fuzil. 

Posso falar, querido blog?

Policial de verdade, pra mim, é o cara que desenrola a parada e cumpre a missão, simples assim. Se ele assovia, canta, dança, se foi tenente da Nasa ou aluno do Rambo, não me interessa. De pensar que eu achava que esses eram os caras, pois já chegaram prontos na Polícia. Ledo engano. Porque na hora do "vamovê", do "pegapracapá", na hora da "onçabebeágua"... os dois agentes de polícia mega brevetados deixaram muito a desejar... Pois é.

Na mitologia grega, Teseu, super corajoso mas burrão, estaria perdido se não fosse a ideia do fio de Ariadne (mãe do GPS) pra ele conseguir se orientar a fim de sair do labirinto, após matar o terrível Minotauro fortão que só lanchava adolescentes. Entendeu?

O novinho do Iraque deu, como posso explicar? Uma crise nervosa, um medo de não sei quê... e o resultado foi uma lambança. Porque não há nada mais exaustivo do que administrar expectativas alheias, né. Vai entender. Foi dispensado automaticamente de seguir na missão e voltou pra casa apesar de toda a sua brutal expertise de guerra. 

O antigão também foi muito aquém do esperado. Disse que era porque ele estava sem os óculos. Perdeu o prumo, passou vergonha demais, coitado. Disse que seria a última vez que ele participaria desse tipo de missão. Duvido. Ano que vem ele tá aqui de novo. Que venha, pois quem não vai estar aqui ano que vem sou eu, amigos, alçarei vôos mais altos. Agora, sou eu que vou trabalhar fora do ninho! 


sábado, 31 de outubro de 2015

Lucidez.


Tem missão que, sinceramente, não vale o que se gastou da sola do seu sapato. É preciso esmagá-la ainda na fase de planejamento, antes que ela roube você de você mesmo. Com o tempo a gente aprende a direcionar melhor nossa intensidade, porque a vontade de agir transborda como jazz e furtivamente te faz escravo dos caprichos de gente manipuladora. Assim, entendemos que essa, afinal, era a nossa grande missão: dizer não ao vazio, que é pra onde vai nossa energia e os gastos públicos com esse tipo de ação. Dormi com o estigma de incompetente, mas acordei com aquela leveza da sensação do dever cumprido. É preciso aprender a sentir o baque da realidade policial no Brasil. Espero que não seja muito tarde. Às vezes demoramos um pouco mais para constatar isso. Talvez você sofra um pouco quando perceber essa clareza. Mas não desista, isso se chama lucidez. Ela brilha na escuridão.


quarta-feira, 11 de março de 2015

"40 tons de punição"


Peguei meu pedreiro, em flagrante, me roubando. 

Foi assim: vendi meu apartamento, comprei um lote, escolhi uma planta com um engenheiro legal e contratei o pedreiro. Poié... esse cara, o pedreiro que me indicaram, com mil e uma recomendações, havia atrasado assombrosamente o andamento da minha obra, porque precisava construir, ao mesmo tempo, a casa dele com meu material de construção. Eu disse: "construindo, ao mesmo tempo, a casa dele". Eu disse: "comeu material de construção". Primeiro dei falta de um saco de cimento. Mas porque sou policial, meu bem disse que desconfio de todo mundo. Desconfio mesmo! É a ética da vida, sem sentimentalismos ou utopias, amore. Bem disse o jesuíta Baltasar Gracián: "a confiança é a mãe do descuido". 

Depoieu simplesmente vo pedreiro carregando o meu material pra casa dele

Aí você, baseando-se naquelas milhares de histórias de policiais que ouviu por aí, imagina logo que eu dei voz de prisão em flagrante para o safado, né?

Estudos recentes dão conta de que policiais adoram contar vitórias, principalmente professor de academia de polícia, mas poucos contam as derrotas. A menina super esperta da polícia de Marte que perdeu o cargo por ter grampeado o celular do namorado, jamais se do tipo que fica na boate dando  carteirada de heroína com essa história pra novinho dormir. O antigão policial de Pluo que "puxou arma" pra vendedora da banca de muamba, uma chinesa que lhe vendera mercadoria danificada, levou, sei lá, uns 40 dias de suspensão, mesmo tendo recorrido ao judiciário. Esse extra-terrestre policial não vai escrever um livro sobre os "40 tons de punição" que ele levou. Ocorre que depois da estratégia mal sucedida da "PEC da Impunidade" os delegados humilhados precisam mostrar serviço para o Ministério Público. Se espirrar, saúde, Senhor Corregedor!  

o pergunteo que eu fiz coo pedreiro ladrão.

"Mas você fez o que com o pedreiro ladrão, Novinha espera?"

Nadinha, obrigada. Apenas dei-lhe um sermão do tipo "sabão", entreguei a obra pra Deus e para o meu bem (em amboos sentidos, mesmo). o... nem demitir o pedreiro eu pude, porque mesmo se ele voltasse a me roubar, ainda compensava financeiramente porque  meu prejuízo seria menor. Haja vista que um distinto cavalheiro  que chamo de meu bem já tinha dado um adiantamento robusto para o vagabundo que me recomendaram tão bem. Va-ga-bun-do, sim! 

Achando que fui conivente com um roubo contra minha pessoa. Procede?

Estou contando tudo isso porque mundo precisa saber que pela primeira vez na minha vida... sério mesmo, senti uma forte empatia para coos assassinos frioe calculistas que entraram para a história da humanidade. (Furto famélico porque não é o seu material, meritíssimo!) Eu realmente quis matar esse filho de chocadeira, desgraçado, porque eu passo dias e dias fazendo orçamentos, para o bonitão colocar meu material comprado com meu dinheirinho suado e honesto na casa dele ainda receber poisso? Muita raiva, tanta que não consigo sequer pisar naquela obra mais. Porém, como tudo na vida tem suas consequências, levarei para a terapia essas minhas recém adquiridas fantasias de SNIPER! Sabe aquele cara que atira de longe, com tranquilidade e precisão? Fantasias, né, porque nessa histórieu não sou sniper, sou refém do desgraçado do pedreiro ladrão. 

A propósito,hipoteticamente falando, se alguéestivessentind
refém coessa roubalheira da Petrobrás, não pode chamar THE SNIPERS, pode?