terça-feira, 27 de abril de 2010

Jogo dos sete erros (agora com o gabarito).


Querido Brasil, depois de 45 celebrados comentários (Eu amo vocês!), largas gargalhadas e muitas surpresas que fariam Freud reescrever sua teoria da sexualidade vou passar o que eu consideraria um gabarito meu para o joguinho dos sete erros, referente à foto acima.

1 – Nem todo mundo que veste a camisa da polícia é um policial de verdade.
Esse bonitão fardado aí da foto não é da PMERJ é um modelo trabalhando para uma campanha da grife italiana Relish. Indícios nesse sentido são as enormes tatuagens do braço e a barba mal feita... Ok, isso também não define nem de longe um verdadeiro policial.

2 – Nem sempre quem está numa aparente situação comprometedora é um bandido.
A moça também é modelo e está ganhando o dinheiro dela de forma honesta, até que provem o contrário. Bandida é a Relish que se deu bem na época, por fazer uma campanha-retaliação ao caso Cesari Battisti, o terrorista italiano que recebeu refúgio no Brasil (alguém lembra? Porque tem coisa que é melhor esquecer).

3 – A polícia (sua imagem, seu poder e seus recursos) não pode ser utilizada para fins outros não previstos em lei.
A farda na imagem é exatamente igual à da PMERJ. Comprometeram a imagem de uma instituição pública e do Rio de Janeiro em troca de quê? (snif...)

4 – A mulher foi representada numa atitude de forte conotação sexual, abusiva e que estimula a violência, a desigualdade e o desrespeito.
O ingênuo executivo machista da marca italiana da discórdia, senhor Alessandro Espósito, já pediu desculpas e a gente deixa barato a palhaçada.

5 – Não se deve achar que a fragilidade na aparência do inimigo signifique ausência de perigo.
Abaixe a guarda e você pode ser pessimamente surpreendido. O inimigo do “policial” que simula uma busca pessoal toda errada, pode ser a sensualidade da moça. Mas descobri que há mais inimigos sedutores na atividade policial do que poderia eu imaginar na minha vã filosofia (ui!).

6 – A presença feminina é imprescindível na polícia, pronto e acabou.
O blog é meu e eu puxo sardinha para o meu prato a hora que eu quiser. Isto posto, é um erro pensar que a atividade policial é “coisa pra homem”. Eu sou feliz aqui, tá? E busca pessoal em mulher é só uma das muitas situações onde convém a presença de uma policial. Até uma grife de moda italiana já sabe disso.

7 – Por último, quem tem que julgar é o juiz, aprovado no concurso da magistratura, possuidor de competência legal, capacitação e blá, blá, blá e mesmo os juízes são passíveis de erro. É preciso colocar os preconceitos à parte para um julgamento correto, ileso. Quem nos induziu a acreditar que os sete erros seriam do “policial”?

Agora reflitam... ou não, porque esse negócio de ficar apontando os erros dos outros é chato, né? : p

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Agora é a minha vez.


Ele tinha bastante experiência e muita classe. Fiquei fã desde o início. Me sentava sempre no meio da primeira fileira e quando ele precisava de alguma coisa pedia pra mim. Eu atendia por prazer, sem necessidade de algum sentido. Distribuía as cópias, recolhia material, ajudava com a papelada, fechava a porta da sala. E sem muito esforço ele foi o meu pai durante todos aqueles meses de curso de formação. Às vezes acho que me protegia - jeito perigoso de amar. Assim que terminou a formatura, esse instrutor pediu pra turma se reunir uma última vez na sala de aula. Subiu no tablado e nos colocamos em pé ali, de frente pra ele. Havia preparado um discurso latejante de despedida e imprimiu toda a sua alma numa folha de papel. A voz dele em sotaque gaúcho foi ficando mais grave e embargada. Disse coisas muito doloridas sobre a realidade do sacerdócio policial que a gente estava prestes a assumir. E chorou. Tentou continuar a leitura e chorou mais ainda. Alguns colegas olharam pra mim e eu entendi. Me aproximei, fiz um carinho no braço dele daquele jeito que só as pessoas que sentem paz sabem fazer e pedi pra ele me deixar terminar de ler o texto. No final da leitura me agradeceu envergonhado com os olhos vermelho-colorado, porque até as cores dos olhos dele eram gremistas. Dei um abraço nele e a turma toda fechou desorganizadamente unida em cima da gente. Naquela fina alegria vencedora que faz a gente acreditar que a partir de agora a história vai ser diferente. Porque vai.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A fera em questão.


Meu presente de aniversário pra você, amorzinho! Advinha???

a) Uma festa surpresa na nossa cidade de origem reunindo nossos amigos que ficaram lá;
b) Um jantarzinho romântico no nosso restaurante charmosinho;
c) Te dar aquele presente na cama na manhãzinha do grande dia (oi?);
d) Marcar a data glamourosamente pra sempre fazendo amor em algum cenário inusitado;
e) Alguma outra coisa que te convença forte que realmente valeu a pena vir atrás de mim;
f) Nenhuma das alternativas anteriores porque estarei viajando a serviço.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Só as mulheres sangram.

Quando nos apresentaram oficialmente, esta espingarda calibre 12 me deu oito coices no peito e uma lembrança roxa como um aviso do tipo "Nunca será!". Me lembro que um dos instrutores viu uma maldita lágrima rolando, mas não fez comentários. Nem eu. Fechei-me dura como quem fecha a câmara da arma após inserir o cartucho. Cleck, cleck! E terminei a série com a calma de um vento brando, camuflando as dores e o orgulho ferido. Mas para minha surpresa, permaneci irredutível no propósito de não desistir. Outro dia chamei esse canhão para um novo acerto de contas no estande de tiro. Veio com a mesma história e a briga foi feia. Até a chuva engrossou comigo naquele dia. Toda vez que eu tentava aconchegar melhor o recuo da arma no meu corpo era uma pancada, que em cima de outra pancada, potencializava o sofrimento. Como se quisesse abrir meu peito na marra. Juro que tentei entender a teoria mecânica e ensaiei várias vezes uma posição mais confortável, mas não adiantava argumentar com aquele trambolho. E quanto mais eu tentava obstinadamente trazê-lo pra perto de mim, mais o armamento me insultava. Foi quando cometi o erro de chegar perto demais, não sei se pra provar que não tenho medo, ou pela ânsia de ser levada a sério. Meus lábios quase tocaram a coronha. Mania de ignorar limites. E não houve perdão. O tiro foi perfeito, mas a desgraça do recuo veio como uma bicuda de coturno na minha boca que me fez ver todas as estrelas do firmamento dançando frevo e curtindo com a minha cara. O lábio superior sangrou... ficou inchado... e, como tantas mulheres que apanham da vida, simplesmente disfarcei, engoli o sangue e abafei a humilhação.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Herói secreto.

Foto: Rodrigo Coca/Foto Arena

A PMESP ainda não revelou o nome do policial militar à paisana, que na sexta-feira passada socorreu a soldado Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi, ferida com um golpe de palmatória madeira no rosto, quando compunha a tropa da Polícia Militar na manifestação da greve dos professores em São Paulo, onde o pau quebrou mesmo. Eu acho que tinham que divulgar o nome dele, sim! Nome, telefone, estado civil...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Verbo amar.

O celular tocou
eu atendi
ele falou
eu gritei
eles assustaram
elas morreram de inveja
ela saiu
- a transferência dele saiu -
nós viveremos aqui
e seremos felizes para sempre.

sábado, 20 de março de 2010

Pandora.


O flagrante, a abordagem, as algemas, a condução, tudo era real demais só que eu não sentia os meus pés no chão. Foi como se eu não estivesse na cena da prisão que fizemos essa semana. Não foi bem o tipo de prisão que se vê na TV, nem na Academia. Acho que o preso sentiu a mesma coisa. Nem ele, que era mais velho, nem eu entendíamos direito o que acontecia. O Parceiro que parecia estar com todos os músculos do corpo contraídos gritou os comandos duas vezes e por causa da muvuca e do barulho eu acho que o sujeito não percebia direito. O terceiro comando já foi com mais energia. Ele assustou feito galo marrento capturado de repente e eu mordia meu lábio inferior, tropeçando nos próprios passos. Acho que o susto foi maior ainda quando sentiu uma mão de mulher conduzindo-o pelo braço algemado. Foi estranho e engraçado. Olhou pra mim como se não acreditasse que a situação pudesse ser ainda mais surreal do que já se apresentava, mas a cada passo a prisão era mais verdade pra mim e pra ele. Depois do susto ele disse: "Até você?!". Era só um preso sem medo do ridículo arranhando uma reação normal. Nunca o vi na vida, mas mergulhei na pergunta dele. Era eu mesma! E ri, deixando solto o cabelo que devia parar atrás da orelha. Porém senti pena, um desconforto mortal e dúvidas. Pelo menos já sei que meu par de algemas funciona. Será que toda prisão é assim? Acho que essa não valeu, quero fazer de novo!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Admirável gado novinho.

É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer.
(Zé Ramalho)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Crime sem castigo.


O Pequeno Terroristazinho viu a munição ("bala" de arma de fogo) no assoalho do carro, pegou e colocou no bolsinho do shortinho da escolinha. Quando a mãezinha imprudente chegou na escolinha o "brinquedinho" estava na mão da diretora que perguntou como aquilo podia ter acontecido. Refém do próprio filho, a mãezinha, que havia respondido na ficha do aluno que era "servidora pública" ficou sem cor de tanta vergonha e susto. Entregou logo que era policial e pediu desculpas. Alguns minutos de tortura, digo, de sermão e a mãezinha saiu pela tangente fazendo perguntas sobre a segurança da escolinha. Fazia todo o sentido. Acabaram ficando amigas, e até hoje, os três são cúmplices de um crime sem castigo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Dia da mulher.

A polícia me ajudou a resolver muitos problemas
e me arrumou outros.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Flashes, câmeras, ação!

Hoje concluí minha rápida participação num trabalho de segurança de uma dignitária. É claro que gostaria de trabalhar nessa atividade sempre que houvesse chance. Sou filha da cultura metropolitana e afinal, quem não quer passar a noite em hotéis caros, frequentar restaurantes e outros ambientes sofisticados, desfilar em terninhos finos e carrões bacanas pela cidade e ainda por cima a trabalho? Porém, vamos conter a empolgação, porque essa atividade é um privilégio para pouquíssimos policiais. Só tapei buraco de alguém que está de férias e adorei ouvir o delegado dizer alguns dias antes da operação: "Manda a Novinha porque eles precisam de uma mulher na equipe". Mesmo assim, tenho a sensação de que acabo de fazer uma prova e estou esperando os resultados. Já era tempo de aprender coisas novas. Talvez pelo fato de ter sido minha primeira experiência nisso, ouvi com humildade os colegas arrogantes e irritados da equipe me fazeram um milhão de recomendações um tanto quanto óbvias. Coisas relativas a protocolo, postura formal e discreta, e dicas como "só fale com ela se ela falar com você ou só fale o estritamente necessário". Enquanto eles falavam eu me imaginava contando piadas pra ela, rindo alto e fazendo imitações idiotas. Mas depois, confesso que fiquei um pouco tensa. Tem todo um glamour, um apelo heróico, uma estética plástica, um belo balé de sincronismo, holofotes, flashes, câmeras... Pude até sentir um gostinho suave de ação! Isso vicia...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Big girls don't cry.

 
Recentemente voltei à Academia, local onde um dia descobri que havia nascido pra ser policial. Entrei pelo mesmo local de sempre, me lembrando de como eu destilava insegurança no meu primeiro dia como aluna. Ele descia as malas pesadas na portaria pra mim, mas era o peso daquela escolha dentre três aprovações em concursos públicos e o risco de Ele não poder me acompanhar após a conclusão do curso de formação, que eram os mais pesados pra nós dois. Nem deixei que Ele comemorasse o fato de não mais pagar as minhas contas, porque estava com medo de não conseguir atingir o nível exigido nos treinamentos. Esperei tanto a convocação para a matrícula, mas no dia “D” o pessoal da portaria viu uma mulherzinha relutante em sair de sua zona de conforto. Nasci policial naquele momento. Me lembro quando Ele, sereno, segurava minhas mãos geladas por puro nervosismo e tentava aquecer meus dedos. Tinha vindo comigo até a entrada da Academia, mas agora eu precisava entrar sozinha e quase chorei ali meus temores e ansiedade. Ele ria por dentro, eu sei. E nos despedimos juntos de uma fase que ficaria para trás quando eu entrasse. Mais um abraço demorado e atravessei a portaria. Os meses em que eu dormia com um leãozinho de pelúcia numa cama gelada, num quarto cheio de mulheres à beira de um ataque de nervos, passaram rápido. Entreguei-lhe novamente minhas malas e Ele as colocou de volta no carro, cheias de novidades, expectativas, saudades... Sabe aqueles momentos nos quais você tem certeza que é feliz?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Neurose.



Não me senti ofendida, mas achei de muito mau gosto quando alguns dias antes da formatura, ao entregar uma foto oficial da turma como lembrança para um dos instrutores da Academia, ele apontou o dedo para a foto e olhou para a turma dizendo: "Aproveitem bastante a festa porque esta é a última vez que vocês verão toda essa turma reunida". Era um chato mesmo que vivia repetindo "Missão bem sucedida é aquela em que o policial volta vivo pra casa"... Mas, ele tinha razão porque um da minha turma já foi e da forma mais estúpida e sem lógica que o leitor puder imaginar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Pescador e o inferno de Dantas


Meus dois neurônios se agitam. Enquanto um tenta entender uma notícia velha no Estadão, que se repete todo dia, o outro briga com a música e chora.

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

300 agentes da Polícia Federal vão às ruas em três Estados (São Paulo, Rio e Bahia), além do Distrito Federal, para deflagrar a Operação Satiagraha.

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Prendem 17 pessoas, entre elas, o banqueiro Daniel Dantas, o investidor Naji Nahas, ex-prefeito Celso Pitta, este ainda de pijama, em casa.

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, se queixa de "espetacularização" da Satiagraha e das algemas.

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Dois dias depois, ele próprio manda soltar o grupo preso por ordem do juiz Fausto De Sanctis.

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso...

Mahatma Gandhi, pacifista indiano na luta pela independência da Índia cunhou o termo Sathiagraha. A palavra satya em sânscrito significa "verdade" e agraha "firmeza". Satyagraha é a “firmeza na verdade”, ou “firmeza da verdade”.

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final!

Atualmente Daniel Dantas, com ficha-limpa, tem seu processo suspenso no STJ e o DPF Protógenes foi punido mais uma vez conforme portaria abaixo:

DEPARTAMENTO DE POLÍCIA FEDERAL
BRASÍLIA-DF, TERÇA-FEIRA, 26 DE JANEIRO DE 2010
BOLETIM DE SERVIÇO No. 017
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
PORTARIA No. 007/2010-COGER/DPF
Brasília/DF, 21 de janeiro de 2010

O CORREGEDOR-GERAL DE POLÍCIA FEDERAL, no uso de suas atribuições previstas no inc. XVI, do art. 32, do Regimento Interno do DPF, aprovado por meio da Portaria no. 3961/MJ, de 24.11.2009, publicada no D.O.U no. 225, de 25.11.2009, c.c o inc. V, do art. 50, da Lei no. 4.878, de 03 de dezembro de 1.965, tendo em vista o disposto nos art. 10 e 11 do Decreto-Lei no. 200, de 25.02.1967 e considerando o que restou apurado nos autos do PAD no. 046/2009-COGER/DPF, R E S O L V E : I – APLICAR a pena disciplinar de 02 (dois) dias de suspensão ao servidor PROTÓGENES PINHEIRO DE QUEIROZ, Delegado de Polícia Federal, primeira classe, matrícula no. 8.452, lotado na CGDI/DIREX/DPF, por restar comprovado que publicou mensagem no endereço eletrônico denominado “http://blogdoprotogenes.com.br/”, acessado em 16.04.2009, dando a entender que o seu afastamento do exercício do cargo de Delegado de Polícia Federal, determinado pela Portaria no. 247/2009-DG/DPF, de 09.04.2009, ocorreu, possivelmente, em favor de pessoa investigada em processo criminal, conduta que configura a transgressão disciplinar tipificada no inc. I, do art. 43, da Lei no. 4.878, de 03.12.1965; II – Na mensuração da pena foram observadas as circunstâncias previstas no art 45 do referido dispositivo legal. (Publicado no DOU de 27.01.10.)

Sem final!
Sem final!
Final!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Mulher bunda-mole

Fernanda acordou às seis, arrumou as crianças, levou-as para o colégio e voltou para casa a tempo de dar um beijo burocrático em Artur, o marido, e de trocarem cheques, afazeres e reclamações.

Fez um supermercado rápido, brigou com a empregada que manchou seu vestido de seda, saiu como sempre apressada, levou uma multa por estar dirigindo com o celular no ouvido e uma advertência por estacionar em lugar proibido, enquanto ia, por um minuto, ao caixa automático tirar dinheiro.

No caminho do trabalho batucava ansiedade no volante, num congestionamento monstro, e pensava quando teria tempo de fazer a unha e pintar o cabelo antes que se transformasse numa mulher grisalha.

Chegando à delegacia, foi quase atropelada por uma gata escultural que, segundo soube, era a nova investigadora, recém enviada pela chefia geral para o cargo que ela, Fernanda, fez de tudo para pegar, mas que, apesar do currículo excelente e de seus anos de experiência em quase todas as delegacias e nos departamentos especializados e por sua dedicação, e destreza no uso de armas, e sua aptidão para investigar não conseguiu.

Pensou se abdômen definido contaria ponto, mas logo esqueceu a gata, tira pára-quedas e calça branca porque no meio de uma reunião com o titular, ligaram do colégio de Clarinha, sua filha mais nova, dizendo que ela estava com dor de ouvido e febre.

Tentou em vão achar o marido pelo Nextel, pelo celular e em última instância pelo rádio da polícia e, como não conseguiu, resolveu ela mesma ir até o colégio, depois do encontro com o novo titular que acabava de assumir a delegacia, que se revelou um chato, neurótico, desconfiado e com quem teria que lidar nos próximos meses.

Saiu esbaforida e encontrou seu carro com pneu furado. Pensou em tudo que ainda ia ter que fazer antes de fechar os olhos e sonhar com um mundo melhor. Abandonou a droga do carro avariado, pegou um táxi e as crianças.

Quando chegou em casa, descobriu que tinha deixado a porcaria da pasta com os relatórios de investigações que precisava ler para o dia seguinte na delegacia! Telefonou para o celular do marido com a esperança que ele pudesse pegar os malditos relatórios de investigações na sua sala, na DP, mas a bosta continuava fora de área.

Conseguiu, depois de vários telefonemas, que um agente lhe trouxesse a porcaria dos documentos e não foi nem com a viatura, foi com sua motocicleta que rateava e falhava de um cilindro. Argh..!

Tomou uma merda de banho, deu a droga do jantar para as crianças, fez a porcaria dos deveres com os dispersos e botou os monstros para dormir.

Artur chegou puto de uma reunião na sede do departamento, reclamando de tudo. Jantaram em silêncio.

Na cama ela leu metade do relatório e começou a cabecear de sono. Artur a acordou com tesão, a fim de jogo. Como aqueles momentos estavam cada vez mais raros no casamento deles, ela resolveu fazer um último esforço de reportagem e transar.

Deram uma meio rápida, meio mais ou menos, e, quando estava quase pegando no sono de novo, sentiu uma apalpadela no seu traseiro com o seguinte comentário:- Tá ficando com a bundinha mole, Fernanda... Deixa de preguiça e começa a se cuidar.

Fernanda olhou para o abajur de metal e se imaginou martelando a cabeça de Artur até ver seus miolos espalhados pelo travesseiro! Já podia antever os tiras da homicídios fazendo o local com a competente recognição visuográfica que aprendera ao ler na academia o livro Recognição Visuográfica e a Lógica na Investigação Criminal lançado pelo Doutor Marco Antônio Desgualdo.

Depois se viu pulando sobre o tórax dele até quebrar todas as costelas! Com um alicate de unha arrancou um a um todos os seus dentes depois lhe deu um chute tão brutal no saco, que voou espermatozóide para todos os lados! Pobre do Artur...

Em seguida usou a técnica que aprendeu num livro de auto-ajuda: como controlar as emoções negativas. Respirou três vezes profundamente, mentalizando a cor azul, e ponderou. Não ia valer a pena, não estamos nos EUA, não conseguiria uma advogada feminista caríssima que fizesse sua defesa alegando que assassinou o marido cega de tensão pré-menstrual... Resolveu agir com sabedoria.

No dia seguinte, não levou as crianças ao colégio, não fez um supermercado rápido, nem brigou com a empregada. Foi para uma academia e malhou duas horas. De lá foi para o cabeleireiro pintar os cabelos de acaju e as unhas de vermelho. Ligou para o titular da delegacia, aquele insuportável e disse tudo que achava dele, da mulher dele da viatura dele e do projeto dele de como tocar uma delegacia cheia de problemas mil.... E aguardou os resultados da sua péssima conduta, fazendo uma massagem estética que jura eliminar, em dez sessões, a gordura localizada.

Enquanto se hospedava num spa, ouviu o marido desesperado tentar localiza-lá pelo celular e descobrir por que ela havia sumido. Pacientemente não atendeu. E, como vingança é um prato que se come frio, mandou um recado lacônico para a caixa postal dele.

- A bunda ainda está mole. Só volto quando estiver dura. Um beijo da preguiçosa...

(Extraído do livro: Este sexo é feminino/Patrícia Travassos e adaptado para o contexto policial por Marco Vinícios Ferreira, do blog Ligeirinho, que gentilmente sugeriu sua publicação no Mulher na Polícia).

domingo, 24 de janeiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Conflito de gerações.


É lamentável mas entre os novinhos tá rolando muita competição e aquela urgência de provar pra que vieram. Todos estamos sentindo claustrofobia, castração, blá, blá, blá. Na verdade nem posso reclamar da minha situação, tem novinho pegando cada missão! Tipo: conferência de patrimônio, controle de viaturas, comunicação social, organização de arquivos, enxugar gelo ou ficar só coçando mesmo. O que é de grande valia se você fez concurso para tal.

Os antigões ainda não confiam no sangue novo da polícia... Estariam inseguros em mostrar o caminho das pedras? Ou será que acham que ainda não estamos prontos? E enquanto a gente blasfema que pode fazer tudo melhor que a geral, as grandes missões continuam indo impreterivelmente pra quem??? Para os mesmos de sempre.

Acho que o maior orgulho do meu chefe é dizer que conhece “cada-buraco-dessa-cidade” e acho isso muito digno, mas ele manda sinais de que tá meio bolado pelo fato de o Parceiro e eu, que mal conhecemos sequer a vizinhança, estarmos dando conta do recado sem depender dele. Nosso segredo não está na argúcia policial, se essa é a preocupação dele. A gente tem Google Maps e GPS no celular do Parceiro... Oi, eu sei que GPS não mostra esconderijo de bandido, nem onde já morreu polícia. Mas como vou explicar isso pra um cara que usava máquina de datilografia até pouco tempo atrás porque tinha medo de digitar ordens de missão no computador dizendo que elas sumiam lá dentro?!

Embora eu ache até divertido entregar correspondência em viatura policial, penso que a população não precisa tanto desse tipo de carteiro de várzea (momento clichê). Mas um dia ainda vou descobrir por que raios a gente não manda essas benditas intimações pelos Correios, uma conceituada empresa pública, cujo efetivo é especializado nessa honrosa função. É só o destinatário assinar o AR (aviso de recebimento), ué...

Pensando bem, é melhor nem dar idéia, senão vou acabar fazendo segurança de carteiro ou pior, conferência de patrimônio, controle de viaturas, comunicação social, organização de arquivos, enxugamento de gelo, inventar história no blog - "... e daquele dia em diante sempre que eu passava a bandidagem se afligia desesperadamente: '...droga, droga, cancela geral! Novinha na área!!!' ".

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Dúvida irritante.

Será que eu mando logo um "vaza!" nesse delegado engraçadinho ou continuo fingindo que não estou entendendo essa conversinha fiada dele?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Reflexos e reflexões.

As pessoas me olham diferente quando me mostro policial por causa desse aparato todo. Acho isso interessante. Meus pais não me viram assim ainda, eles são como quem me lê. Mesmo assim eles contam pra todo mundo com orgulho, os casos que eu narro, e sentem amor pelo que essas coisas dizem sobre mim. Eu herdei esse orgulho dos meus pais. Gosto da imagem forte e misteriosa que vejo refletida nos olhos das pessoas. Queria tanto ser o que elas vêem. Também olho a minha imagem nos olhos dos meus pais e sinto uma saudade dengosa do que fui pra eles. Enquanto sentir saudades saberei que ainda sou eu. Quero fazer você sentir essas saudades também pra poder se emocionar e gostar das minhas histórias. Você será testemunha das minhas saudades.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dois neurônios.

 
 
Eu tenho dois neurônios. Enquanto um pensa e escreve o outro ouve e se entrega à música.

"A minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego. Pois paz sem voz, paz sem voz, não é paz, é medo".

Ainda não me acostumei a andar armada. Adoro atirar e acho lindo ver um policial fazendo progressões no treinamento de tiro... Mas "às vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz": O mundo esqueceu das mulheres quando idealizaram equipamentos e armas de fogo.

Os meninos sim, tiram de letra. Agora, que roupa eu vou usar pra disfarsar esse volume todo na cintura? Só se for a capa do Batman!... "Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?" Nem vem com essa história de arma na bolsa. Já pensou um saque rápido com arma na bolsa?! Em vez de gritar "Polícia" ou "Parado" é melhor gritar "Espera sentado!!!" porque ainda vou abrir o zíper da bolsa, procurar a arma no buraco negro... E imagine a cara do meliante se no lugar da arma eu saco uma escova! Ou uma sombrinha! E aponto pra ele... Ah... Vamos combinar?!

Coldre na canela só pra arma back up... pequena e mesmo assim tem que ser uma calça meio boca-de-sino. A pistola é grande e pesada demais... Oi, polícia também corre e eu não vou abrir mão desse calibre! Armas na polícia "são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão".

Coldre axilar? Para mulher magra como eu? E onde eu coloco os meus braços? Não tem espaço aqui pra mais nada! Acreditem.
"Me abraça e me dê um beijo. Faça um filho comigo". É... tem aquele clássico coldre de coxa já consagrado no cinema. Mas esse é pra operações especiais, né? "Procurando novas drogas de aluguel nesse vídeo coagido".

E por falar em coldre... Existe coisa mais cafona neste mundo que coldre de couro!? "Só não me deixe sentar na poltrona em dia de domingo", usando uma coisa dessas! Quando é que a Dolce & Gabbana vai começar a fabricar coldres?

É pela paz que eu não quero seguir admitindo.