quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Polícia na Favela


Pela primeira vez na vida subi uma favela ("não-pacificada"). Estávamos dando proteção aos agentes de outra instituição pública que precisavam subir lá pra realizar uma tarefa. Viaturas, armamento pesado e indumentária ostensiva. Experiência inesquecível! A propósito, acho que Isabella está apaixonada pelo Bush, um Fuzil AR-15 que tem andado com a gente. Uma gracinha! Encaixa certinho no corpo, é leve, super confiável, bonitão, imponente e aquela bandoleira lhe confere um charme todo especial! Só é um pouco nervoso, ele. Quando irritado... tsic, tsic, tsic, sai da frente, porque o estrago é grande.
 
Dia desses houve uma operação policial de tráfico sanguinolenta nesta mesma favela, da qual não participei. Houve confronto, tiroteio e tal. Não sei se voltar lá nesse contexto seria melhor ou pior. Pra ser bem sincera, eu não entendo nada de favela e nem tenho treinamento adequado para operar em favela.
 
Se eu tive medo? Tive. Especialmente no momento em que soube da missão. Medo e inveja do colega escrivão que ficaria na base, pois só começaria o trabalho dele quando a gente terminasse o nosso. Aliás tenho mais medo de não ter medo, do que das causas do medo em si, porque o medo é parceiro. Ajuda a gente a continuar vivo. Só que este foi um medo diferente que eu não conhecia até então.  Eu não sei não, mas tenho a impressão de que estou me acostumando com esse negócio de correr riscos, tanto que o medo "parece" não ter mais tanto efeito. Sabe o que é ter plena consciência de que você vai cumprir missão na "Faixa de Gaza" mas não dá tanta importância ao fato em si? É, porque "dar a devida importância ao fato em si" no meu caso, significa se trancar em alguma cela da custódia na hora da saída e engolir a chave repetindo o mantra: "Não vou, véi! Nem de blindado, véi!".
 
Mas fui. Não chorei. Não desmaiei. Não tive nenhum desarranjo intestinal (ocorre bastante, nas melhores polícias). E deu tudo certo. Ao mesmo tempo que foi super rápido demorou uma eternidade. Quando retornamos notei que o mundo continuava igual. Aquilo tudo lá, não foi nada demais. Não deu no jornal, não houve faixa de boas vindas na recepção, ninguém nos deu os parabéns... Ora, policiais arriscam as suas vidas todos os dias. Onde está a novidade nisso? A maioria dos próprios colegas nem ficou sabendo que nossa equipe esteve lá. Só houve um novinho que me encontrou à noite malhando na academia e perguntou bastante interessado. "E aí, Novinha, como é que foi lá na favela". Eu sorri pra ele e não sei por que, mas até eu respondi sem muita empolgação: "Tranquilo".

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Hot weels.



Apareceu uma multa de trânsito referente a uma das viaturas (e que viatura!) da nossa sessão. Só descobrimos o autor dos 122km/h (via de 80km/h) quando verificamos os registros do fatídico dia... Nem eu acreditei... "Gente... essa placa não era fria???". Tá bom, não precisa responder. Péssimo exemplo! Mas a surpresa do meu chefe e consequente mudança no seu tom de voz, quando viu que a bronca era minha, foi diretamente proporcional à nossa surpresa por ele ter dito pra eu não me preocupar que ele resolveria isso lá em cima... Não me olhem com essa cara, que eu não tenho nada a ver com isso. 
 
Ps.: meus agradecimentos a Spartanski pela dica da imagem.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Inaptidão.

O delegado Pedro Paulo Pontes Pinho, da 9ª Delegacia de Polícia (Catete) do Rio de Janeiro usou seu perfil pessoal identificado como “Polícia e Poesia” no Twitter nesta segunda (21) para criticar parte de sua equipe de funcionárias, dando a entender que, para ele, as mulheres não têm a mesma aptidão que os homens para o trabalho policial. O machismo saiu pela culatra e a chefe de polícia Martha Rocha depôs Pinho do cargo. Em seu lugar, coincidência ou não, entra a delegada Monique Vidal, lotada até então na 13ª DP (Copacabana).
 
Postado por Daniela Novais 11:36:00 22/01/2013

P.S. - E quanto mais o delegado tenta se retratar, mais fede.

 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Constrangimento.

 
Tive que dividir um único alojamento com um outro colega e não tinha outro jeito, além do alojamento ele ainda fez a gentileza de me emprestar a sua própria roupa de cama. Revezamos em turnos madrugada a dentro. Enquanto eu dormia ele ficava atento no escritório e vice-versa.

Antes que o movimento feminista xiita me use como ponte para ideologias, explico que foi uma situação de emergência. Quero ser honesta e dizer que não é normal isso acontecer na minha polícia. Pelo contrário, o pessoal aqui costuma, na medida do possível ser sensível às questões femininas, inclusive no que tange à maternidade. Essa situação ocorreu fora da minha base, onde, inclusive a chefe do serviço é uma delegada, que não deixaria, propositadamente, uma situação dessas ocorrer sob seu comando. Não sou obrigada a aceitar esse tipo de situação, mas também não sou leviana. Claro que eu poderia simplesmente telefonar pra ela e dizer, "Chefe, não tem condições de dormir aqui, então acione o sobreaviso". Contudo, é esse o tipo de atitude que angaria a antipatia dos colegas do sexo masculino, muitas vezes. E 99,99% dos chefes operacionais são homens. Posso estar errada, mas nesse caso específico, sou adepta da política de que a gente pode ceder um pouco aqui pra ganhar mais lá na frente.
 
Pra encerrar essas explicações chatas porém necessárias, cabe ainda ressaltar que no local onde estou lotada, onde trabalho normalmente, existe uma suíte relativamente confortável só pra mim, porque sou a mulherzinha do grupo, enquanto todos os outros  policiais, mais administrativos e outros dividem as instalações reservadas para os homens.
 
Voltando ao pernoite, se serve de consolo, o cansaço é um opióide útil nessas horas, e me fez esquecer rápido das preocupações, inclusive com a de higiene do lençol e da minha própria roupa. Só tirei o calçado pra dormir, o resto era a roupa com a qual passei o dia. A-pa-guei. Tivemos que deixar a porta do quarto destrancada porque não tinha chave e tive que entrar lá quando ele estava dormindo pra usar o banheiro sem fazer barulhinho. Mas o mais constrangedor, mesmo, foi a piada que ouvimos do atendente da companhia aérea que trabalhava próximo, e que veio falar com a gente no dia seguinte, enquanto tomávamos café numa lanchonete ali perto: "Parece que a noitada foi boa, hein, pessoal?". Lembrei-me de ter imaginado a fala do meu pai sabendo de uma coisa dessas "Mas minha filha o que as pessoas vão pensar". Respirei fundo e não respondi, apenas fiz aquela cara de poucos amigos, porque se eu der corda esse idiota vai o quê? Perguntar onde é o final da fila ou gritar "Próximo!"? Mas pra minha sorte, o colega soube responder adequadamente, o que me deixou altamente impressionada. E o indivíduo, após recuperar o fôlego, pediu desculpas pela falta de respeito.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Imaturidade operacional

  
 
Mais um colega da minha equipe será substituído essa semana. Perdeu a confiança do chefe, pois além de descumprir uma ordem sua, ainda mentiu a fim de encobrir um erro e, pra completar, quase leva junto um outro colega nosso aqui. Ou seja, falhou feio e como já era de se esperar o chefe não teve misericórdia humanitária.

Vou chamar esse colega de "Mestre" porque ele era praticante de artes marciais, adepto dessa filosofia oriental de serenidade, disciplina, respeito e hierarquia. Novinho, também, e pra mim era um cara que tinha tudo pra ir longe. Gostava de ouvir as teorias "wonderequilibrium" dele. Mas de que vale a teoria se não tiver aplicação prática, né?
 
Ocorre que o "Mestre" andava criticando muito, nos bastidores, as exigências do chefe no que tange às regras, à checagem diária dos itens de segurança, à realização correta de vários procedimentos de verificação... Suas observações tinham um ar de quem se acha muito charmoso, muito inteligente, muito hype pra obedecer tantas ordens sem contestar. Respeito a opinião do colega, mas sinceramente, quem acha que tá errado que apresente uma proposta melhor. Eu, por exemplo, não me vejo tão alta-performance a esse ponto. Não tenho essa bagagem toda, essa maturidade operacional pra fazer críticas plausíveis às determinações da chefia. 
 
Pois é... cansei de ouvir o "Mestre" alardeando flácida e prosaicamente  que "Isso é besteira", "Pra quê, aquilo?", "Tal coisa não tem necessidade", "Paranóia daqui", "Isso nunca vai acontecer de lá"... Bom, aconteceu e lamentavelmente foi uma vergonha para o colega e um vexame para a equipe. Um verdadeiro fiasco.
 
Não estou julgando ninguém, estou apenas tentando administrar o que aprendi. Até porque, tenho plena consciência de que, normalmente, doutor, quem fala excessivamente, quem demonstra prazer em criticar, meritíssimo, quem adora colocar o dedo na ferida dos outros, excelência, é aquele que só tem teoria (quando tem, né?) e não tem a prática. O que é um baita farisaísmo tardio. Na minha área de atuação na polícia, quem tem a prática sabe que todo mundo erra, sabe que as missões nem sempre são compatíveis com nosso nível de maturidade e treinamento e também sabe como é difícil ter que obedecer a um milhão de princípios em uma única atitude, o que não nos exime das consequências e da responsabilidade por nossos atos.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Voltar pra casa.


Todo mundo sabe que não pode misturar trabalho e vida pessoal, mas às vezes isso simplesmente não funciona. Acredite em mim, tudo o que qualquer policial quer é voltar pra sua casa no final da missão Tive sede do beijo deles todos os dias e todas as noites. No entanto, me parece humanamente impossível você passar tantos dias profundamente submerso naquela violenta pressão lá no fundo do mar que, ao voltar, sua respiração simplesmente não se adapta de imediato às condições normais(?) do ar da superfície. É como se não tivesse acabado. Acho que é isso o que está acontecendo comigo. Sonho to-do-san-to-dia que ainda estou lá e acordo com todos os sintomas de quem ainda não voltou.  Tento camuflar esse desajuste, mas a natureza humana é implacável e as pessoas parecem notar. Querem conversar... E eu queria tanto expressar exatamente como é esse mergulho, mas ninguém ao meu redor parece entender, o que me deixa um pouco irritada, frustrada. Como se tivessem mexido nas minhas coisas enquanto estive fora.

 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Vida longa!


Foto: Portal da Academia Nacional de Polícia

Depois de ter assistido à cobertura completa da formatura dos novos Agentes e Papiloscopistas de Polícia Federal no Blog da Regina, parabenizo efusivamente a todos os Novinhos Federais que demonstraram seu valor no certame policial mais disputado do Brasil, que ora chega ao fim (finalmente, né!?!).
 
Nas palavras do Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, o Delegado de Polícia Federal José Mariano Beltrame, presente à solenidade de formatura, a profissão policial é "Uma profissão fantástica! Que pode promover lágrimas, mas também pode promover sorrisos. (Pode) Fazer em uma ação com que uma população inteira se orgulhe de ser brasileira..."
 
Tanto isso é verdade que um desses alunos já me fez chorar (e muito) num misto de orgulho, vibração, alegria e esperança nessa nova geração de policiais. Infelizmente não sei seu nome... muito menos se era do curso de agente ou de papiloscopista. O que sei é que um dos alunos que se formou no último dia 14 na ANP, entrou com um recurso junto ao setor competente naquela casa de ensino questionando a sua nota numa das provas de tiro. Até aí nada de novo, haja vista que o curso de formação da PF ainda é uma mera fase do concurso público, além disso a classificação geral dos alunos define a ordem de preferência na escolha da lotação. Mas o que este aluno pleiteava era a alteração de sua nota PARA MENOS.  Isso porque na hora da digitação, algum servidor da ANP equivocou-se digitando o valor para mais...
 
Assim, neste terceiro aniversário do Blog Mulher na Polícia, the Oscar goes to esse Novinho que como tantos outros policiais anônimos estão aí brigando para fazer um trabalho honesto, limpo e de qualidade na polícia brasileira. Mandou muito bem, garoto!!!
 
Quanto a você, querido leitor, mais uma vez o meu agradecimento pelo brilho todo especial que você confere ao Mulher na Polícia e uma surpresinha de aniversário! Quero falar com você! Deixa seu e-mail e número de telefone (fixo e sem identificador de chamadas - olha a sacanagem, hein!) no comentário. Prometo que não publico e que vou telefonar para os três primeiros leitores que deixarem seu número aqui pra mim.
; )
 
Muito obrigada! Você é o(a) melhor leitor(a) que qualquer blogueiro(a) poderia ter.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Processo terapêutico antioxidante.

Ainda não é um novo slogan oficial, mas é preciso redobrar a cautela. Vim cumprir uma missão num local longe pra caramba de onde moro! Não conheço o chefe direito; o cenário é totalmente diferente do que estou habituada a trabalhar; tem uns colegas esquisitos aqui... Redobrar a cautela é preciso.

Em determinada altura desta missão eu tinha um alvo bem pertinho. Uma oportunidade de ouro, e concluo: "É agora ou nunca!" (exploro essa frase desde meus sete anos de idade). Mas aqui na polícia existe um negócio chamado hierarquia, então, com todo cuidado do mundo, falei com o meu chefe nesta missão, outro Agente de Polícia antigão, que achou melhor eu conversar com o Delegado Papa Fígado. "Certo", eu disse. O colega não me conhece, não vai colocar a mão no fogo, por mim, né? Tudo bem!  Porém, o Delegado Papa Fígado, não estava na área, e seu substituto era o Delegado Ponta Mínima.  Falei com este, expliquei tudo direitinho e disse pra ficar tranquilo que eu tinha tudo sob controle. O delegado me pareceu super light, nem questionou nada. "Vai com Deus" foi o que ele me disse e eu fui com Deus e os anjos!
 
Uma semana depois eu retornava àquela base, satisfeitíssima. Contudo, já na entrada do inferno um colega avisou. "Novinha, você tá f." (Perdão. Eu detesto e evito expressões inadequadas, mas foi o que ele disse). Uepa!!! Que foi que eu fiz? Pensei e perguntei: "Tô f. por que?" O colega respondeu: "porque o  Delegado Ponta Mínima não segurou a tua bronca. Disse que não sabia de nada! E o Delegado Papa Fígado quer o seu fígado com sal e pimenta-do-reino no prato dele hoje! Ele quer falar com você agora"! Agora? Fígado cru não é tóxico?
 
Deixe ver se entendi... fui, fiz, aconteci, tirei ótimas fotografias, curti muito o Nirvana Policial e voltei sem problema algum, como eu disse que seria. Não fiz nada, absolutamente nada ilegal, tampouco imoral!  A manobra era arriscada, não nego, por isso pedi permissão aos meus superiores. Vou responder bronca por quê, então? Ocorre que, para o Delegado Papa Fígado o espírito empreendedor é arriscado demais, é isso? Mas eu jurava que ele era super aventureiro. Aquela lotação dele é pra quem é muito aventureiro e empreendedor. Né, não? Me enganei... Quando chegou e soube onde eu tinha ido, gritou de dentro do gabinete: "quem autorizou essa manobra maluca???". Pra você ver onde realmente mora o perigo, fiquei sabendo que, neste momento, o Delegado Ponta Mínima, ouvindo os berros do chefe, recuou dizendo que sabia da manobra,  mas porque eu apenas havia "comunicado" que a realizaria. Ou seja, o covarde negou que houvesse autorizado verbalmente o procedimento.
 
Meu fígado é tão saudável, porque eu o entregaria de bandeja pra um delegado? Sou egoísta? Não. Mas, em princípio, só vão tirar meus órgãos depois que eu morrer. Esse foi o combinado. Por isso conversei demoradamente com o Agente que era meu chefe naquela missão pra que eu pudesse pelo menos entender aquela freak-histeria do Fígado. E ele não só me explicou direitinho o que eu precisava saber (há focos de um processo terapêutico antioxidante pós-greve acontecendo no órgão, Loreal), como também me orientou sobre como me defender. Ótimo! Então é assim que funciona? Maravilha. Daí liguei para o Roger Murtagh, em quem realmente confio, e falei exatamente o que aconteceu. Ele me deu um puxãozinho de orelha porque de fato era muito arriscado. Mas disse que o Ponta Mínima era um "Descentende de Profissional do Sexo" (Chato isso, pois o que essa senhora teria a ver com essa situação, né?). Aproveitei esse momento e disse pra ele o que estava pensando em fazer. E o Roger concordou, porque era a única saída.
 
Gente! Se eu disse que dava pra ir, era porque realmente dava pra ir, oras. Eu garanti que tinha condições de fazer e fiz. Porém, o Papa Fígado ficou estranhamente procurando qualquer coisinha que pudesse justificar seu animus puniendi. No entanto, para a frustração dele, o único erro que cometi foi ter confiado em alguém que eu não conhecia e não ter exigido uma autorização por escrito. Coisa de novinho inexperiente, mesmo. Fala logo! Mas falando no idioma da região, esse Delegado Ponta Mínima "cutucou a onça com a vara curta". Olha... definitivamente eu vim pra ajudar, mas não-me-pro-vo-ca... porque juro que não tenho o menor interesse em me indispor com delegado lotado há décadas no inferno do mundo (isso não é problema meu), portanto, tento resolver tudo pelo social, da forma mais ética e tranquila possível,  mas se eu tiver que chegar ao ponto de "escrever" aí eu vou arrebentar com o seu sistema. Vou dar as costas e voltar pra casa dançando o moonwalk sem olhar pra trás.  Foi o que fiz.
 
Ao entrar no confortável e intimidador gabinete do Papa Fígado, fui mansa, com toda a humildade do mundo e antes de qualquer coisa já cheguei pedindo desculpas pelo transtorno que causei. E o fogo do inferno nos olhos caramelados dele? Eu, hein... Mas antes que ele me respondesse, deixei o meu relatório na frente dele e fiquei de cabeça baixa. Ele tava vermelho de raiva quando começou a ler. Então passei a observar cada minúcia de suas feições diante do FMEA (Failure Mode and Effect Analysis). Alguns instantes depois ele se mostrava visivelmente incomodado com o nó da própria gravata. Eu? Nada! Fiquei caladinha e quietinha no meu canto o tempo todo. Mais alguns instantes e ele começou a respirar fundo. Parecia pensativo a procurar uma tangente. Depois coçou o nariz, limpou a garganta, recuou no encosto da cadeira e, então, ao terminar de ler o documento seu semblante já era outro. Olhou pra mim por cima dos óculos, e apenas disse, "Tudo bem, Novinha, eu entendo que você não foi devidamente orientada e por isso eu vou mandar arquivar esse documento, mas da próxima vez...". Sei, agora você quer arquivar, né??? Bonito esse seu "espírito de porco corpo"! Você não vai me punir porque sabe que vou levar seu substituto farisaico junto, né? Pensei, enquanto ele proferia seu discurso redundante sobre a reiteração de seus valores medíocres. Respondi: "Sim senhor, chefe, parece que houve um sério mal entendido, né?". Ele disse pausadamente: "É, eu vou resolver isso aqui, e você já pode ir, tá?". "Obrigada, se o senhor precisar de mais alguma coisa eu tô à sua disposição". Apertei a mão direita dele e, de esquerda, apresentei-lhe outra cópia do relatório, dizendo: "Só assina esse recibo aqui pra mim, por favor?". Momento em que ele me olhou no fundo dos olhos por alguns eternos segundos. Ele tinha acabado de receber uma inesperada granada sem pino. E agora eu já o encarava na mesma proporção. "Claro!", ele respondeu ameaçando um sorriso cínico.  Assinou o documento e me entregou.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Mamãe se achando.


Indiozinho apontando pra TV, enquanto passava um programa que retrata a vida de quatro mulheres policiais: "Olha lá a mamãe!".

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Estado de carência.


Ando cheia de uma tal espécie de carência que até o cãozinho fofo que pulou nas minhas pernas hoje de manhã sentiu pena de me deixar correr sozinha os 6 km e me acompanhou ida e volta. Cachorro pega essas coisas no faro. E eu tentando vender o contrário.

Pra ser sincera, não tem sido nada fácil ver meus vínculos afetivos se perdendo na distância de morar longe da minha família e dos meus amigos antigos. Me sinto como uma foto guardada, da qual só se lembram quando alguém a encontra fortuitamente. Já fiz terapia pra entender essa minha dor de ausências. No início a psicóloga elogiou minhas respostas honestas (honestamente? Com a grana que eu tava gastando eu mentiria pra ela pra que, né?!). A psicóloga queria ser minha amiga. Devo despertar sentimentos maternais nas pessoas, porque ela achava que deveria cuidar de mim e me dar broncas. Um dia, na terapia ela me deu uma bronca terrível, até aí tudo bem porque eu mereci, mas ficou visivelmente sensibilizada quando desatei a chorar. Sentiu pena de me deixar chorar sozinha. Cobri o rosto com as mãos quando ela puxou sua cadeira pra perto da minha, tentou me abraçar, mas eu não queria abraço. Psicóloga é psicóloga; amiga é amiga; mãe é mãe. Mesmo assim, me dobrei como quem se contorce de dor e vergonha da mãe e chorei no colo dela como se fosse minha amiga. Resultado: não pude mais. Achei maldade não cooperar e acabei dando as respostas que a psicóloga queria ouvir pra ela ficar feliz e eu receber alta logo.
 
No estado de carência, a aproximação de alguém desperta sentimentos confusos e variados. Já passou por isso de querer um colo pra escapar de uma dor intensa, mas sua família e seus amigos estão longe e você se deixa chorar no primeiro colo que aparece? "Ora, Novinha, isso é normal". Pois então tome cuidado, porque muitas vezes só vai aparecer cachorro pra te dar colo, eles pegam essas coisas no faro. Aí você vai levar bronca, vai chorar muito e ainda vai pagar caro por isso.

sábado, 10 de novembro de 2012

Briefing.

Uma coisa eu preciso admitir: difícil imaginar como se fazia planejamento operacional há 15 anos atrás quando ainda não existia a tecnologia que temos hoje. Adoro essas missões onde a gente tem que pensar, planejar, calcular, visualizar  e, claro, executar! Vou pegar um café.
 
 
 


Ps.: Andei, ou melhor, voei... no helicóptero da Polícia!!!
 

domingo, 4 de novembro de 2012

Só por uma noite.

 
 
 
Conseguimos cumprir a missão naquela cidade logo pela manhã, mas só poderíamos voltar pra casa no dia seguinte. É o meu trabalho... fazer o quê? Turismo, oras! Meu parceiro, me levou pra conhecer os pontos interessantes da região. Eu gosto de conhecer lugares diferentes e gosto mais ainda de fazer essas coisas de oportunidade única. Olhamos a agenda cultural e ainda conseguimos comprar ingressos para um show imperdível! Perfeitooooo - pensei - Hoje vou sem stress, sem arma, sem carteira... e sem noção, pois só por uma noite eu quero esquecer que sou policial. Quero ter 17 anos de novo e sair pra me divertir, espairecer, respirar, ser uma pessoa normal (eu disse isso alto?). Fui.

Inesquecível perceber como o mundo é grande aqui longe de casa. E essa música é muito irada e essa cidade é muito irada... E 17 é uma idade muito irada... Veja bem... não há argumentos racionais. Apenas curti até não poder mais, voltei para o hotel e apaguei.
 
Dia seguinte. Café da manhã regional, check out, despedidas... Vambora! Porém, chegando no que vou chamar de portão de saída da cidade, me lembrei que tinha esquecido uma outra coisa: a Isabella (minha pistola) tinha ficado no hotel. Pânico! Voltamos imediatamente para buscá-la... No caminho eu calculando a minha estupidez e o tamanho da punição referente: "Será que isso dá inquérito? Posso alegar incapacidade civil ou inimputabilidade penal? Afinal, ontem eu tinha 17 anos e hoje não é o dia do meu aniversário..." Sei lá, sabe.
 
Pedi a chave, disfarçando a ansiedade e subi correndo. Quando abri a porta, fui direto ao ponto. E essa sapequina tava lá bonitinha, no lugarzinho onde a deixei. Toda brava, olhando séria e reto dentro dos meus olhos tão felizes e aliviados por vê-la novamente. Eh, Isabella. Ciumenta, traquina e vingativa!  Ela fica fosca e gelada de raiva quando saio sozinha.

sábado, 27 de outubro de 2012

Certeza.


 

 
 



Essa foi "A" missão do século!!! E eu acho horrível essa expressão "A-nãoseiquelá do século", mas deu vontade de revelar, em neon, a minha fome de êxtase, como se escrevesse a frase em algum ponto do ar à minha frente.

Tão perto, não importando a distância
Não poderia ser muito mais vindo do coração
 
Incrível, mas parece que agora eu finalmente peguei o jeito desse serviço aqui. Já consigo "prever" algumas coisas, já tenho acertado melhor o local onde ficar, o quê, como e quando fazer. Estou aprendendo muito, muito, muito com Roger Murtaugh! E estamos conseguindo nos entender muito bem. Sério. Eu vejo que ele sabe fazer o trabalho. Sabe muito! E tem conseguido ganhar a confiança do pessoal lá em cima. Porque aqui, saber fazer é até fácil, difícil é convencer os críticos disso. 
 
Sempre confiando em quem nós somos
E nada mais importa
 
Olha, digamos que com Jack Bauer eu fiz o Basic I, II e III. Com Roger Murtaugh eu posso dizer que estou cursando o Intermediate I. Ou seja, outro patamar, ok? (Eu sei que fico insuportavelmente chata  quando estoy... felics, mas vale a pena porque escrevo muito mais rápido). Ocorre que meu chefe me deu uma missão especial dentro dessa missão especial. Traduzindo: ele tem oito agentes, mas dentre essas oito opções, ele preferiu passar a missão pra mim! E então fui vibrando no último volume.
 
Nunca havia me exposto dessa forma
A vida é nossa, nós vivemos do nosso jeito
 
Me senti honrada demais pelo chefe ter confiado a mim esse trabalho. Com certeza foi uma das mais delicadas que já enfrentamos! Me senti super confiante e segura na operação e valeu a pena cada minuto. Me senti privilegiada porque foi uma oportunidade muito interessante. Ah, se eu pudesse contar para meus colegas da faculdade sobre essa missão e sobre tudo o que ouvi e vi nos bastidores daquilo que foi transmitido por tantos meios de comunicação deste país.
 
Todas essas palavras eu não apenas digo
E nada mais importa.
 
Me senti valorizada demais porque as pessoas me respeitaram de uma forma que nem eu mesma sequer imaginava que poderia acontecer. Elas não me falaram nada, especificamente, nesse sentido, apenas me trataram de uma forma que eu juro que não esperava. Deus sabe fazer supresas!
 
Acredite, eu procuro e encontro isso em você
Todos os dias tens algo novo pra nós
 
Me diverti! 
 
Mente aberta para novos pontos de vista
E nada mais importa
 
E quando tudo terminou e muito bem, percebi que meu chefe ficou vi-si-vel-men-te muito orgulhoso e satisfeito com o meu trabalho. E eu contei tudo pra ele com tanta emoção (preciso de terapia?) e com tanta felicidade (estoy loka?). E ele achando que eu ficaria chateada por ter que trabalhar na folga (Soy loka por ti, América! Soy loka por ti, amore!). Nesse caso, as orientações do sindicato fazem tanto sentido quando as pérolas da Marta Suplicy. 
 
Nunca me importei pelo que eles fazem
Tô nem aí para o que eles sabem
Mas eu sei.
 
Disse várias vezes a ele que pode contar comigo sempre que alguma coisa assim aparecer (sou dessas oferecidas). E ele ainda me agradeceu, com aquele sorriso experiente de certeza no rosto.
 
Tão perto, não importando a distância
Não poderia ser muito mais vindo do coração
 
Ainda estou aqui processando as informações. Pensando na grandeza dessas possibilidades e em como é importante você trabalhar naquilo em que tem prazer (soy piegas, pero soy feliz). Não tenho dúvidas. É certeza que estou no lugar certo.

Sempre confiando em quem nós somos
E nada mais importa

PS. 1 - O que está centralizado é a minha tradução da música Nothing Else Matters do Metálica.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Muito chão pela frente.


Meu boot par-ceiro em cima da máquina de lavar roupas esperando pra ser limpo. Mas não se iludam com esse jeito domesticado dele. Isso é inquieto igual à dona.

sábado, 13 de outubro de 2012

Incoerências.

 
 
Quando a bomba caiu no meu colo eu parei, com o auxílio da prudência, e tentei tomar a decisão mais acertada para a equipe: liguei imediatamente para o colega. Achei que estava sendo tipo muito parceira. Mas não sei exatamente que parte de "Olha, você errou, vamos tentar resolver isso juntos?" que meu colega antigão não entendeu. Porque primeiro ele não me levou a sério. Depois demonstrou claramente que não gostou da minha atitude.
 
Tá, mas o que é que você tem a ver com o erro do seu colega, Novinha, se você não é chefe dele? Vou pular a parte de que num trabalho em equipe se um erra todos são prejudicados e não vou nem comentar que a imagem que ele passa da polícia reflete na imagem de cada um dos colegas. O problema é que o erro dele interferiu diretamente no meu trabalho. E aqui não é permitido errar, lembram? Digamos que o colega tenha acendido o pavio ontem e a bomba só vai explodir hoje, no meu colinho, após assumir o serviço, entenderam?

Foi assim que eu passei a ficar com um pé atrás quando um colega enche a boca pra dizer que nunca respondeu a uma bronca na polícia. Eu nunca respondi PD (processo disciplinar) na minha jovem, porém intensa, carreirinha policial, mas bem que merecia ter respondido. Merecer talvez seja uma palavra exagerada, mas digamos que se as normas fossem aplicadas rigorosamente eu já teria enfrentado alguns dissabores.
 
Para a nossa sorte, um colega saiu pra resolver o problema e, pela Graça de Deus Pai, conseguiu "cortar o pavio da bomba" que estava dentro do porta-malas de um carro, antes que alguém se machucasse. Mas furo é furo e minha pergunta era se seria necessário/sensato, deixar algo registrado sobre o ocorrido, caso houvesse alguma consequência de ordem administrativa, por exemplo, por isso quis conversar com o colega. Acho que qualquer pessoa com um mínimo de senso de responsabilidade entenderia a minha preocupação.
 
Posso falar? Eu acho extremamente sexy quando um homem encrencado assume os próprios erros. Isso mexe involuntariamente com meus hormônios que entendem que aquele é um macho Alfa-Alfa da espécie humana. O Provedor!! O Protetor!! O Potente!! Com "P" maiúsculo! É bem esse o tipo de cara que me faria virar o pescoço magneticamente pra olhar de novo de forma mais demorada. Que me levaria a morder a parte interna dos lábios ao sentir aquela dor vazia no interior do útero contraído reflexamente. Caso eu não fosse comprometida, seria a perfeita ocasião para virar a cabeça completos 180 graus!

No entanto, meu colega antigão me pareceu neuroticamente transtornado com a possível repercussão do erro cometido em sua ficha impecável e, igual a uma garotinha mimada que dá birra pra não tomar banho, literalmente me ameaçou, dizendo mais ou menos assim "olha, registra o que você quiser, mas se eu for, dou um jeito de te levar comigo". 
 
Quem seria tão idiota de arriscar o próprio pescoço por um colega desses? Eu. Eu resolvi não escrever nada a respeito no livro de ocorrências do plantão. Calma pessoal, continuo monitorando a situação. Eu mesma fiz e refiz todos os cálculos. Se Deus quiser vai dar tudo certo. O que me incomoda é esse gosto amargo da decepção, o qual tento temperar com algum aprendizado.
 
Não se deve julgar um policial pelo número de punições que ele levou. Primeiro porque, como você já deve ter notado, acontece de inocentes pagarem pelos pecadores.  Segundo que quem assume que já errou alguma vez, pode ter lá seus defeitos, mas pelo menos não vai precisar vender a alma pra não sujar o currículo.
 
É desses policiais de laboratório que eu tenho medo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Quer me matar do coração?


 
Recebi pessoalmente a indicação de um blog escrito por uma mulher policial anônima: o meu!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Sintomas.




Em um jantar de casais, discuti, não-sei-pra-quê, com um amigo meu. Um professor de História que foi meu namorado. Ele criticou, por mera indução semiológica, a ação de um policial militar noticiada na TV. Contestei veementemente a teoria dele e quando dei por mim já estava bastante alterada questionando o seu espectro limitado marcado ridiculamente por inclinações negacionistas, histéricas e apedeutas. Mas na verdade eu estava brigando era comigo mesma. Eu não me aguento mais! Ele não deve ter entendido nada, coitado. Achou que ainda estava falando com aquela universitária que trabalhava com meninos de rua. Sabe, a gente pode até voltar pra casa um dia, mas não volta como era antes. Volta diferente. A atividade policial (inclusive a Academia) às vezes mexe com certas coisas dentro da gente... É como um corte profundo que fica latejando inflamado por um bom tempo. Se alguém encosta você grita! Grita porque dói, porque irrita, porque sim, oras... Eu sei lá por que... Eu sei que tenho que tentar equilibrar as coisas, e não está sendo fácil. Num momento você tem que ser sensível pra aceitar as mãozinhas do seu filho fazendo carinho no seu cabelo. E daqui a pouco tem que se endurecer para não ouvir o choro de uma mãe que está vendo o filho dela ser preso pela polícia. É complicado fazer essa transição.
 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Mundo pequeno.



Parece uma coleção de pins, mas é mais. É tradição, em eventos policiais, a gente trocar essas coisinhas. É uma coleção de histórias, registros, lembranças, contatos, amigos. Começando da esquerda pra direita, de cima para baixo:

A - INTERNACIONAIS

1 - Polícia Federal da Austrália;
2 - Serviço de Segurança Diplomática - EUA
3 - Serviço Secreto - EUA
4 - Polícia Montada - Canadá
5 - Polícia Federal - Argentina

B - FEDERAIS

6 - Presidência da República Federativa do Brasil
7 - Secretaria Nacional de Segurança Pública - MJ
8 - Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal
9 - Academia Nacional de Polícia
10 - Segurança da Câmara dos Deputados

C - ESTADUAIS
11 - GATE - Polícia Militar do Estado de São Paulo
12 - Curso de Segurança de Dignitários da Polícia Civil do Distrito Federal
13 - ROTA - Polícia Militar do Estado de São Paulo
14 - Polícia Militar do Estado de São Paulo
15 - Polícia Civil do Estado de Sergipe
16 - Departamento de Polícia Judiciária da Capital - Polícia Civil do Estado de São Paulo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Chateadíssima.

Encontro um abrigo pra fazer uma troca rápida de carregador, fecho a arma já carregada, aponto para o alvo enquanto corro para o próximo abrigo. E o quê??? Metade da minha pistola simplesmente cai no chão. Peguei a parte que caiu (ferrolho) coloco na arma de novo, mas a arma não segura... "Que porcaria é essa???" Armeiro: "quebrou a mola do retém do ferrolho". Sorte que era treinamento, né, senhor fabricante. EU EXIJO UMA EXPLICAÇÃO!!!

Ilustração: Charlie.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Delicadeza violenta.


Parece um convite ao abuso de autoridade, mas é apenas um aviso pra pensar antes de agir. Eu era a única policial naquele salão, se não estava enganada. Ouvi a menina dizendo "não" com todas as letras mas o cara simplesmente não ouvia. Tem coisa que nunca muda. Muda o cenário, os personagens, mas o enredo é o mesmo. Me identifiquei formalmente como policial e perguntei qual era a situação. Eu já sabia o que estava acontecendo, mas era meio como uma autorização verbal expressa pra poder agir. "O senhor, por gentileza, vai ficar lá fora", disse a ele. Da mesma forma que o sujeito ignorava a voz dela, ignorou também a minha. Lembrei-me de um professor da Academia que falava que se o policial der a carteirada, ele tem que entrar. Penso que o princípio se aplica, da mesma forma, à ordem policial dada. Se você deu uma ordem ela terá que ser cumprida. Que droga! Agora eu teria que ir até o fim.

Aprendi com o Guerreiro algumas técnicas para serem utilizadas em situações em que você não pode fazer muito "barulho". Não pode sacar arma, não pode gritar, não pode fazer barraco, nem fazer beicinho, mas tem que agir. Eles chamam de ataque aos pontos de pressão, eu chamo de "delicadeza violenta", o pessoal dos Direitos Humanos chamam de tortura. Era a hora de usá-las. As pessoas começaram a perceber que alguma coisa estava acontecendo. A menina saiu logo de perto. Insisti na ordem dada. Ele retrucou que não podia sair e que ficaria lá até o final, por determinação do "dono da casa" e blá, blá, blá e pererê e coisa e tal... Eu sabia que ele estava mentindo. Como se não bastasse, o cara começou a ficar agressivo. Não chegava a ser uma agressividade violenta, era mais uma coisa de zombaria. Aquele professor podia ter avisado que cada segundo de resistência torna o dever de agir mais árido e mais difícil de suportar.

Não tirava o meu corpo da frente dele, fazendo com que ele fosse recuando de pouquinho em pouquinho. Podia ter feito aquela posição de águia do Karatê Kid, né? Não podia deixá-lo ganhar espaço. No mínimo ele deve ter pensado "Essa mulherzinha deve ser louca". É, eu sei. Foi loucura mesmo, burrice minha, porque ele poderia ter me machucado... Antes de dar o primeiro passo eu deveria ter pedido reforço da equipe que estava no terreo. Mas existe "risco zero" em alguma operação policial? Existe "risco zero" de se machucar em algum tipo de relacionamento? Existe "risco zero" na vida? Já ouviu falar que "O homem é o lobo do homem. Somos naturalmente violentos", ou que "A mão que afaga é a mesma que apedreja"? Portanto, "Ele poderia ter te machucado" é uma das frases mais inúteis na Polícia.

Nessa hora eu só queria ser um pugilista enorme. Ter pelo menos o triplo do meu peso e uns trinta centímetros a mais de altura. Queria ser um "armário" negão do Harlem. Aposto que a história seria outra. Tentava se esquivar de mim e eu me colocando na frente dele. Ninguém aparecia para ajudar! Minha solidão era tanta que não me deixava tirar os olhos de cima dele nem por um instantezinho sequer. Ele teria que sair dali, nem que fosse hipnotizado (Uma cobra "naja" não é lá um bicho "peso-pesado", e come até um boi! Ah não essa é outra cobra, né?). 

O braço dele não era lá tão musculoso, pressionei o local certinho porque ele contraiu o corpo de dor. Ninguém viu isso porque eu estava de costas para o público. Apertava o braço dele toda vez que ele empacava. Sim, eu estava literalmente tentando, sozinha, tirar ele no braço! Percebi que nos aproximávamos da porta. Eu acho que ele se sentia tão ridículo sendo acuado por uma mulher, não exatamente pela mulher em si, mas pelas pessoas que deveriam no mínimo estar adorando aquela queda de braço.

Eu tremia nervosamente e o coração já não batia, esmurrava. Falei bem baixinho, quase sem mexer os lábios. Não sei se implorando ou apenas sussurrando: "você vai ter que sair porque eu estou mandando você sair". Notável que nem a minha retória é robusta. Mas entenda que na minha cabeça não era eu que estava ordenando, era a POLÍCIA. Ele tinha que me obedecer! Até porque eu não tinha a menor vontade de levar ninguém preso para a delegacia naquele dia. Ainda bem que o "dono da casa" que na verdade era uma repartição pública, não viu nada, estava em outro ambiente. Tenho certeza de que só pelo fato de eu ser policial ele tomaria as dores do sujeito. Não saberia o que fazer nesse caso. Apertei novamente o braço dele no mesmo ponto sensível. O braço dele já estava todo vermelho porque eu já tinha apertado o lugar errado uma dúzia de vezes, daí finalmente ele disse exasperado: "Tira essa mão de mim!". Eu já queria tirar o omoplata dele do lugar. Retruquei: "Eu tiro se você sair". Eu deveria estar vermelha de raiva. Ele falou por último: "Tira a mão que eu saio". Ele já estava vermelho de raiva. Soltei o braço dele, dando-lhe pelo menos uma saída honrosa. Ele disse no sufoco: "Agora eu saio" se virou e saiu.